Blog do Sadovski

Jonathan Demme explorou ideias, contou histórias e deixou como legado uma obra-prima irretocável: O Silêncio dos Inocentes

Roberto Sadovski

27/04/2017 03h07

O cinema perdeu mais um gênio. Jonathan Demme, responsável por filmes incríveis como Totalmente Selvagem De Caso com a Máfia, morreu em Nova York devido a complicações causadas pelo câncer. Ele tinha 73 anos. Exímio contador de histórias. Demme sempre manteve seus filmes levemente fora da zona de conforto, povoados por personagens imperfeitos que serviam como um espelho para sua personalidade peculiar. Seu flerte com o cinemão lhe deu lastro para abraçar experiências cinematográficas nem sempre bem recebidas pela crítica ou público, mas também lhe garantiu espaço para dirigir documentários politicamente explosivos e socialmente relevantes. Some isso a seu trabalho como arquiteto de vídeos musicais históricos, e um portfólio invejável de projetos para a TV, e o resultado é o retrato de um artista completo.

Mas se existe um único filme elo qual ele será lembrado, este filme é O Silêncio dos Inocentes. Não é pouco. A adaptação do romance de Thomas Harris é um destes momentos sublimes em que os deuses do cinema se asseguram que todas as peças estão nos lugares certos, e o resultado é um filme nunca menos que perfeito. Não existe uma vírgula fora do lugar, não existe uma respiração tomada no momento errado. É, de longe, o melhor trabalho de todos os envolvidos – o que ganha mais peso quando os protagonistas são Anthony Hopkins e Jodie Foster, dois dos atores mais aclamados da história. O mais surpreendente é que O Silêncio dos Inocentes, lançado em 1991, era um projeto que, não importa o ângulo, não tinha como dar certo.

Jodie Foster como a agente do FBI Clarice Starling

A começar pelo próprio Jonathan Demme! Um romance anterior do autor, Red Dragon, teve a versão para cinema comandada em 1986 por Michael Mann. Parecia óbvio que uma sequência de um thriller sobre assassinos em série encarcerados e agentes do FBI em busca de um matador cruel teria de estar nas mãos de alguém com o estilo acelerado do homem por trás de Miami Vice. Mas Demme não hesitou em abraçar o filme, mesmo com gente graúda de Hollywood se afastando do projeto. Michele Pfeiffer, com quem ele trabalhara em De Caso com a Máfia, era sua primeira escolha para a agente do FBI Clarice Starling; Gene Hackman seria o dr. Hannibal Lecter. Ambos declinaram por achar o material sombrio e pesado demais. “Eu perdi um certo grau de inocência”, disse, à época, o ator Scott Glenn, que faz o agente do FBI Jack Crawford, superior de Starling. “Ainda me encontro tendo sonhos desagradáveis sobre as coisas que descobri.”

A dupla encontrada por Demme para assumir os protagonistas não poderia ser mais antagônica. De um lado, Jodie Foster, então com 28 anos e já com um Oscar (pelo drama Acusados) na bagagem, assumindo o papel de Clarice. Do outro, Anthony Hopkins, então relegado a produções menores e filmes para a TV, cujo último trabalho digno de nota fora Rebelião em Alto Mar, em que trabalhou ao lado de Mel Gibson em 1984, assumiu o manto do psicopata canibal Hannibal Lecter, que ajuda a jovem agente a caçar outro assassino, com fúria. A aposta arriscada do diretor logo se mostrou uma decisão brilhante: a química dos atores, separados por uma geração era palpável – mesmo que seus métodos fossem radicalmente diversos. Quando Demme, seu elenco e parte da equipe foram observar o trabalho de agentes do FBI reais que investigavam assassinos em série, Jodie tornou-se amiga de uma agente de 33 anos, Mary Ann Krause, e a amizade logo se tornou uma pesquisa extensa – a atriz queria detalhes da vida pessoal da federal, de como se comportava com sua família, de como extravasava as emoções acumuladas no trabalho. Hopkins, por sua vez, manteve-se como o personagem o tempo todo, mas não deixava de quebrar a tensão com piadas e brincadeiras no set.

Anthony Hopkins como o dr. Hannibal Lecter

A leveza, claro, aliviava a tensão para a confecção de um thriller sobre um assassino, Buffalo Bill (o excelente Ted Levine), que sequestra e mata jovens, deixando os corpos parcialmente esfolados, e a improvável aliança de uma jovem agente do FBI com o psicopata canibal atrás das grades. Para ajudá-la a montar o perfil de Buffalo Bill, Lecter pede que Clarice abra os cantos mais reservados de sua própria memória, dando a ele o prazer de devorar uma mente por dentro. “Existe dois tipos de filme de terror”, explica o diretor John Carpenter, responsável pelo clássico Halloween. “Os conservadores e os liberais, mais ou menos como na política.” Para ele, aqueles em que o Mal surge de uma força externa, como os filmes de monstro e ficção científica dos anos 50, seriam os conservadores. Já os liberais seriam os que mostram o Mal dentro de cada um, vivendo entre nós – e, por isso, são mais assustadores e, quando reverberam com o público, os mais bem sucedidos.

E foi exatamente assim que o público reagiu quando O Silêncio dos Inocentes chegou aos cinemas em 14 de fevereiro de 1991. O cinema mainstream há muito não entregava um filme tão elegante e, ao mesmo tempo, tão repulsivo. Mas o resultado foi um fenômeno no nível de Psicose, com Hannibal Lecter surgindo como um Norman Bates moderno – não por acaso ambos tem o mesmo assassino em série do mundo real, Ed Gein, como base para compor seu perfil psicológico. Fascinado com o mundo tecido por Demme e concretizado à perfeição por seu elenco, a plateia fez do filme um sucesso de 273 milhões de dólares, multiplicando às dezenas o orçamento de 19 milhões. Lecter se tornou uma marca, dando origem a duas continuações (Hannibal, em 2001, e Dragão Vermelho no ano seguinte, ambas com Hopkins), um “filme de origem” (Hannibal – A Origem do Mal, de 2011, com Gaspard Ulliel no papel do doutor-antes-de-ser-doutor) e uma série de TV (Mads Mikkelsen arrebenta como Hannibal). Surpresa maior aconteceu um ano depois, quando Silêncio deixou a festa do Oscar conquistando os “cinco grandes”, os prêmios principais, de melhor filme, ator (para Hopkins), atriz (o segundo careca dourado de Jodie), roteiro e direção, com Demme batendo John Singleton (Os Donos da Rua), Barry Levinson (Bugsy), Oliver Stone (JFK) e Ridley Scott (Thelma & Louise). Foi o terceiro filme da história a conseguir tal feito, depois de Aconteceu Naquela Noite (1934) e Um Estranho no Ninho (1975).

“Quid pro quo, Clarice….”

Jonathan Demme começou sua carreira nos anos 70, escrevendo e eventualmente dirigindo para o lendário produtor de filmes B, Roger Corman. Hollywood passou a prestar atenção em seu estilo anárquico e emocionante em 1980, quando ele fez a comédia dramática Melvin & Howard, em que um motorista dá carona a um velho acidentado que depois se revela o bilionário recluso Howard Hughes. Foi o que bastou para Demme surgir como uma nova voz do gênero, o que o levou a entrar em choque com Goldie Hawn, protagonista de seu filme seguinte, Armas e Amores. Ela queria uma história de amor mais convencional; ele queria personagens menos lapidados, o estúdio terminou assumindo o filme. Demme deu a volta por cima com o documentário Stop Making Sense, com a banda Talking Heads, fez vídeos para o UB40 e para o New Order e entregou filmes deliciosos como Totalmente Selvagem, de 1986, e De Caso com a Máfia, lançado dois anos depois.

Sua carreira desacelerou no final dos anos 90, já entrando no novo século, com Bem-Amada (1998), O Segredo de Charlie (2002) e Sob o Domínio do Mal (2004). Recuperou parte de seu mojo com o sensível O Casamento de Rachel em 2008. Ainda assim, foi o primeiro diretor a falar sobre a AIDS no cinema mainstream com Filadélfia, de 1993. E abordou temas contundentes do mundo real em documentários como Haiti Dreams of Democracy (1988), O Agrônomo (2003), Jimmy Carter Man From Plains (2007) e Neil Young Journeys (2011). Mas o mundo provavelmente vai, para sempre, associar o nome de Jonathan Demme ao brilhante e assustador O Silêncio dos Inocentes.

 

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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