Roberto Sadovski

11 refilmagens que são melhores que os filmes originais
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Roberto Sadovski

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Eu sou completamente a favor de refilmagens. Remakes, reboots, reimaginações…. Pode chamar como for: não existe ideia imaculada que não possa ser revista e reinterpretada. Afinal, arte é um bicho em constante transformação. Sem falar que, por pior que uma refilmagem seja, o original continuará intocado. Acho engraçado quando alguma obra é refilmada e a meia dúzia de puristas começa a gritar que ''destruiram filme tal'', como se alguém invadisse a casa do sujeito para queimar as cópias em DVD ou destruir o HD. Falo isso porque Sete Homens e Um Destino está em cartaz.

O filme é dirigido por Antoine Fuqua (Dia de Treinamento, O Protetor), com Denzel Washington, Chris Pratt e um monte de gente bacana. É refilmagem de, claro, Sete Homens e Um Destino, que John Sturgez realizou em 1960 com Yul Brynner, Steve McQueen e um monte de gente ainda mais bacana. Filme este que, por sua vez, é refilmagem de Os Sete Samurais, clássico japonês dirigido por Akira Kurosawa em 1954. Vale registrar que eu tenho lugar especial no coração para Mercenários das Galáxias, de Roger Corman e Jimmy T. Murakami, outra revisão da mesma história, uma ficção científica B de 1980 que teve a cara de pau de escalar Robert Vaughn, que havia dividido a cena duas décadas antes com Brynner e McQueen, para fazer o mesmo personagem. O novo Sete Homens não traz nem o climão épico de Kurosawa, nem o charme macho de Sturges, muito menos a tiração de sarro de Corman. É uma aventura digna, decente e esquecível. Entendeu o ponto? Não existe filme proibido, existem acidentes de percurso.

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Os filmes a seguir são o oposto disso. Produções que pegaram uma ideia inicial e foram além, adicionando mais camadas e fazendo com que uma boa trama, às vezes capenga em seu potencial, torne-se algo realmente memorável. São filmes que provam que um remake, quando tem o coração no lugar certo, é uma ótima ideia. Concorda? Discorda? Então não seja tímido e solte o verbo! E vamos a eles.

INVASORES DE CORPOS
(Invasion of the Body Snatchers, Philip Kaufman, 1978)

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refilmagem de
VAMPIROS DE ALMAS
(Invasion of the Body Snatchers, Don Siegel, 1956)

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Rodado no auge da ''caça aos comunistas'' na Hollywood dos anos 50, sobre alienígenas que, aos poucos, substituem humanos por ''cópias'' destituidas de emoção, o filme de Siegel transborda metáforas não só sobre a ''ameaça vermelha'' (aspas e mais aspas), mas também sobre a idiotização da sociedade, sua transformação de seres pensantes a drones obedientes a uma mente coletiva (ou ao ''estado''). Um clássico de mérito inabalável. Nas mãos de Philip Kaufman, porém, a ideia transmutou-se em um filme de terror apavorante, um estudo sobre a perda da identidade da América pós-Vietnã, sobre o pesadelo da materialização de uma sociedade sem direito ao pensamento livre. Sem falar em uma das melhores performances de Donald Sutherland e o clímax mais pessimista no pior cenário imaginável.

O ENIGMA DE OUTRO MUNDO
(The Thing, John Carpenter, 1982)

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refilmagem de
O MONSTRO DO ÁRTICO
(The Thing From Another World, Christian Nyby, 1951)

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O lendário Howard Hawks, que traz em sua invejável filmografia clássicos como À Beira do Abismo, Os Homens Preferem as Loiras e Onde Começa o Inferno, produziu este terror B (com direção creditada a Chritian Nyby, mas a gente sabe qual é….), sobre uma equipe da Força Aérea ianque que parte para o Alasca investigar a queda de um OVNI, só para descobrir que seu ocupante, uma criatura mais vegetal que animal, está acordada e furiosa. Tudo muito bom, tudo muito bem. O que John Carpenter fez em 1982, porém, é um dos melhores filmes de todos os tempos. Veja bem: não ''terror'' ou ''ficção científica'', mas um dos melhores, ponto! Partindo da premissa original (por sua vez inspirada num conto publicado em 1938), Carpenter reuniu um elenco como pesquisadores numa base no Ártico. Isolados por uma tempestade, eles percebem que abrigam uma forma de vida alienígena, capaz de se disfarçar como qualquer um deles. Paranoia, sangue, morte e destruição segue, resultando em uma obra prima absoluta – melhor filme de Carpenter, melhor filme de Kurt Russell. Ah, Enigma foi canibalizado por Quentin Tarantino de ponta a ponta em Os Oito Odiados, o que ele mesmo confessou a mim: ''Os Oito Odiados sou eu tentando imitar John Carpenter e falhando miseravelmente''.

A MOSCA
(The Fly, David Cronenberg, 1986)

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refilmagem de
A MOSCA DA CABEÇA BRANCA
(The Fly, Kurt Neumann, 1958)

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A essa altura você já percebeu que o cinema B dos anos 50 foi e continua sendo fonte de inspiração inesgotável para cineastas com mais recursos e ferramentas melhores em mãos. Mas poucas vezes o exemplo foi melhor do que este de David Cronenberg. A Mosca da Cabeça Branca, de 1958, é terrorzão podreira da melhor qualidade, com a paranóia científica (energia atômica como combustível para o teleporte) como desculpa para David Hedison (Viagem ao Fundo do Mar) usar uma máscara de mosca bem tosca. É tão ligado à época que tem até Vincent Price como irmão do protagonista trágico! Mas Cronenberg não quer saber de sustos fáceis, ele quer entrar por baixo da pele do público e cutucar onde mais incomoda. A Mosca é body horror da melhor qualidade, com o cientista defendido por Jeff Goldblum testemunhando, em iguais partes apavorado e fascinado, sua humanidade dar tchauzinho quando suas moléculas e as de uma mosca aos poucos vão se fundindo, com resultados devastadores. Isso já foi há trinta anos? Uau…

CABO DO MEDO
(Cape Fear, Martin Scorsese, 1991)

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refilmagem de
CÍRCULO DO MEDO
(Cape Fear, J. Lee Thompson, 1962)

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Gregory Peck é o advogado cuja família é atormentada pelo criminoso que ele ajudou a colocar atrás das grades, interpretado por Robert Mitchum. O filme de J. Lee Thompson, veteraníssimo de Os Canhões de Navarone que terminou dirigindo Charles Bronson em um par de filmes policiais ultrafascistas nos anos 80, criou uma história perfeita sobre vingança, assassinato e o poder do medo. O bastante para chamar a atenção de Scorsese no começo da década de 90. Seu remake, porém, tem um ponto fora da curva que o eleva para acima da média: a interpretação exagerada, grotesca, sexy e sensacional de Robert De Niro, aqui assumindo o papel de avatar da vingança, destruindo o núcleo familiar de Nick Nolte – e sua sanidade no processo. Peck e Mitchum surgem em pontas dignas, Jessica Lange é a mulher de Nolte, tragada para o mesmo círculo de violência, e Scorsese ainda conseguiu apresentar Juliette Lewis ao mundo, no que ainda é, de longe, seu melhor papel.

TRUE LIES
(James Cameron, 1994)

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refilmagem de
LA TOTALE!
(Claude Zidi, 1991)

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Na comédia francesa que Claude Zidi (Golpe de Tiras, O Incorrigível) fez em 1991, um funcionário público é, secretamente, um espião que desbarata o esquema de um traficante de armas. Fim. James Cameron pegou o conceito de Zidi lhe deu um banho de blockbuster, colocando Arnold Schwarzenegger (ná época, ainda o maior astro de cinema do planeta) vivendo uma vida dupla. Não só isso, o diretor anabolizou o papel de sua mulher, interpretada por Jamie Lee Curtis e colocou o drama familiar (Arnold nunca contou a Jamie que era um superespião) em meio a uma trama de terroristas, armas nucleares, traição e, bom, traição. True Lies é um dos melhores filmes de ação dos anos 90, e também um dos mais divertidos e visualmente impressionantes: foi o primeiro, depois de Jurassic Park, a realmente levantar sobrancelhas com seu trabalho visual (o clímax na ponte ;e para aplaudir de pé). Fato bizarro: impossível de ser achado em DVD, ainda é inédito em blu ray. Acelera, James!

FOGO CONTRA FOGO
(Heat, Michael Mann, 1995)

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refilmagem de
OS TIRAS DE LOS ANGELES
(LA Takedown, Michael Mann, 1989)

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O caso aqui é curioso, mas longe de ser inédito. O mestre do suspense, Alfred Hitchcock, refez vários filmes de seu começo de carreira quando aportou em Hollywood. O que Michael Mann fez aqui foi anabolizar a escala e recontar uma história com, digamos, ferramentas melhores. Os Tiras de Los Angeles é um longa feito para televisão e conta o embate de um policial e um criminoso na cidade da Costa Oeste americana. Fogo Contra Fogo é um animal mais ambicioso de cara, já que o diretor conseguiu colocar, pela primeira vez, Al Pacino (o policial) e Robert DeNiro (o criminoso) para contracenar, olho no olho. A cena com os dois é eletrizante e foi rodada quase de improviso em um restaurante na cidade. LA, por sinal, torna-se personagem, já que sua geografia é parte integral da narrativa. Não existe a menor comparação entre estes dois momentos de Michael Mann, separados por apenas seis anos. Ainda na dúvida? Então veja Fogo Contra Fogo, nem que seja para conferir um dos tiroteiros mais bem orquestrados da história do cinema.

SEXTA-FEIRA MUITO LOUCA
(Freaky Friday, Mark Waters, 2003)

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refilmagem de
SE EU FOSSE A MINHA MÃE
(Freaky Friday, Gary Nelson, 1976)

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Houve uma época em que comédias bobocas em que pais trocam de lugar com filhos eram figura fácil no cinemão. A tradição é antiga, e Jodie Foster, prestes a deixar queixos coletivos no chão com seu papel em Taxi Driver, encarou um filme assim pela Disney: ela não se bica com sua mãe (papel de Barbara Harris), mas uma troca de corpos via magia conematográfica fax com que uma entenda melhor a outra. Tudo muito meigo, tudo muito blé. A versão para o novo século, Sexta-Feira Muito Louca, é uma delícia de comédia, pegando Jamie Lee Curtis no auge de seu charme e Lindsay Lohan fazendo com maestria a transição de estrela mirim para atriz adolescente. As duas, por sinal, dão show quando encaram o papel da mulher madura (Lindsay, com a mente da mãe) e da adolescente rebelde (Jamie, com a mente da filha). O filme de Mark Waters (Garotas Malvadas) é um recorte até triste. Jodie Foster partir de seu Freaky Friday para se tornar uma das mulheres mais poderosas do cinema. Lindsay Lohan, por sua vez, engrossou a lista dos artistas infantis que conseguiram conduzir a carreira para o esquecimento.

ONZE HOMENS E UM SEGREDO
(Ocean's Eleven, Steven Soderbergh, 2001)

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refilmagem de
ONZE HOMENS E UM SEGREDO
(Ocean's 11, Lewis Milestone, 1960)

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Verdade seja dita: o Onze Homens e Um Segredo original é um thriller sem o menor charme, que existe unicamente para que o Rat Pack sessentista (Frank Sinatra, Dean Martin, Sammy Davis Jr. e Peter Lawford) pareça cool em cena. Um tédio só. Nas mãos de Steven Soderbergh, porém, a ideia dos criminosos unidos para roubar uma série de cassinos em Las Vegas tornou-se um dos filmes mais divertidos do cinema recente. ''Diversão'' é mesmo a palavra de ordem, já que o elenco reunido por George Clooney (que inclui Brad Pitt, Matt Damon, Don Cheadle, Andy Garcia e Julia Roberts) parece entrar tanto no clima quanto a gente do lado de cá da câmera. Leve, ligeiro e com um texto brilhante (e bastante improvisado), o Onze Homens e Um Segredo do novo século resume tudo de bom que o cinema como entretenimento pode oferecer.

OS INDOMÁVEIS
(3:10 to Yuma, James Mangold, 2007)

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refilmagem de
GALANTE E SANGUINÁRIO
(3:10 to Yuma, Delmer Daves, 1957)

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Galante e Sanguinário, baseado num conto de Elmore Leonard, é um western clássico que, apesar de seus méritos (a bela fotografia em preto e branco, Glenn Ford num raro papel de vilão), foi ''engolido'' por clássicos contemporâneos como Matar ou Morrer, Rastros de Ódio e Os Brutos Também Amam. Corta para 2007, quando o diretor James Mangold (Copland) continuou sua busca eclética em trafegar por todos os gêneros do cinema e escolheu 3:10 to Yuma para dar nova roupagem. Acertou em todos os quesitos. Desde o elenco, encabeçado por Russell Crowe, bandido que é conduzido para um encontro com a lei pelo rancheiro interpretado por Christian Bale, até o subtexto de corrupção, cobiça e brutalidade, melhor explorado do que no original. O western é um dos gêneros mais completos do cinema, e encontra neste Os Indomáveis um de seus melhores exemplares contemporâneos.

MILLENNIUM: OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES
(The Girl With the Dragon Tattoo, David Fincher, 2011)

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refilmagem de
OS HOMENS QUE NÃO AMAVAM AS MULHERES
(Män Som Hatar Kvinnor, Neils Arden Oplev, 2009)

Miehet jotka vihaavat naisia (K15) MTV3-kanavalla sunnuntaina 5.12.2010 klo 21.00. Stieg Larssonin supersuosittuun trilogiaan perustuvan elokuvasarjan ensimm‰isess‰ osassa Millenium-lehden toimittaja Mikael Blomkvist (Michael Nyqvist) tuomitaan vankilaan kunnianloukkauksesta h‰nen kirjoitettuaan teollisuuspohatan h‰m‰r‰bisneksist‰. Sitten sukufirman entinen johtaja Henrik Vanger haluaa h‰nen selvitt‰v‰n 40 vuotta sitten kadonneen veljentytt‰rens‰ kohtalon. Kuvassa: Noomi Rapace (Lisbeth Salander) ja Peter Andersson (Nils Bjurman).

O romance de Stieg Larson ganhou uma adaptação em sua terra natal, a Suécia, que deu origem a mais dois filmes e, em seguida, a uma minissérie de TV, compilando o material do cinema com cenas extra. O primeiro thriller é tenso, competente, dando forma ao texto de Larson de maneira brilhante, e rendeu mais de 100 milhões de dólares em todo o mundo – além de ter revelado a atriz Noomi Rapace, em sintonia perfeita com Michael Nyqvist. O que diabos Hollywood estava pensando ao encomendar uma refilmagem apenas dois anos depois? A resposta é uma só: David Fincher. Ao assumir o comando da versão ianque, Fincher foi meticuloso como sempre, estiloso como nunca e entregou um filme mais redondo, melhor produzido e igualmente hipnotizante. Apesar de o texto diferir levemente da primeira adaptação de Larson, em especial a resolução da trama, o diretor de Seven e Clube da Luta não aliviou nas passagens mais brutais e encontrou em Daniel Craig e Rooney Mara intérpretes à altura da dupla original. Uma continuação ainda não saiu do papel. Mas, honestamente, nem precisa: o final ambíguo desta ''garota com o dragão tatuado'' é perfeito.

BRAVURA INDÔMITA
(True Grit, Joel e Ethan Coen, 2010)

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refilmagem de
BRAVURA INDÔMITA
(True Grit, Henry Hathaway, 1969)

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O livro no qual ambos os filmes são baseados, publicado por Charler Portis em 1968, é considerado um dos grandes romances americanos. Merecia uma adaptação à altura, o que Henry Hathaway fez o possível para entregar. Não que o western que rendeu um Oscar a John Wayne seja desprovido de mérito. Mas ele é justamente isso: um western de John Wayne, com o astro dominando a cena com sua personalidade maior que a vida. É nele o foco de uma história de vingança, quando uma adolescente, Mattie Ross (Kim Darby), parte em busca do Zé Ninguém que assassinou seu pai com o ajuda do texas ranger Rooster Cogburn (Wayne). O filme dos Coen diminuo o clima gung-ho, recoloca o foco em Mattie (agora vivida por Hailee Steinfeld) e faz de Cogburn menos uma figura heróica e mais um retrato do fim de uma era, um sujeito vergado por fracassos, decepção e toda morte e violência impregnada em sua retina. Papel que Jeff Bridges assumiu com louvor, em um filme melancólico, de beleza escancarada e força narrativa sem igual.


Delicado e emotivo, Pequeno Segredo leva o Brasil ao Oscar com dignidade
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Roberto Sadovski

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Uma família brasileira, que decidiu desbravar o mundo num barco, adota a filha de um casal amigo. Infectada com HIV desde o nascimento, a menina cresce num ambiente amoroso, encara as agruras da pré-adolescência de maneira ainda mais feroz por conta de sua condição e, antes de partir, deixa sua marca: uma vida breve, porém vivida intensamente. Isso é um resumo grosseiro de Pequeno Segredo, filme escolhido para representar o Brasil na próxima cerimônia do Oscar. O drama, dirigido por David Schurmann, passou à frente de outros candidatos como Mais Forte Que o Mundo e, mais notoriamente, Aquarius. Como os outros, é um filme digno, acima da média e carrega o cinema nacional de cabeça erguida. Bizarramente, tornou-se alvo de parte da ''intelectualidade'' tupiniquim por passar longe de debates políticos, por não se aventurar em dilemas sociais. Por ser, veja só, apenas um bom filme.

Vivemos numa época estranha, em que tudo se torna debate político (para não dizer ''partidário''). Pequeno Segredo surge como um alento, uma boa história contada de forma profissional e honesta. Falta a ele um certo sangue nos olhos, um momento de catarse em que a plateia pode se erguer em júbilo coletivo? Com certeza. Mas o drama de David Schurmann é um tipo diferente de filme. É confessional, é pessoal, é feito por quem viveu a história. Isso porque o roteiro, que tem Julia Lemmertz em seu centro emocional, é inspirado na vida da família Schurmann, velejadores que ganharam a mídia no Brasil com livros, vídeos e um retrato bem público de suas viagens pelo mundo.

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O casal apaixonado Erroll Shand e Maria Flor

A trama, ainda assim, não é documental, já que a biografia traz uma injeção forte de ficção. Com três filhos já adultos, criados em uma vida à bordo por Heloísa (Lemmertz) e Vilfredo Schurmann (Marcelo Antony), a vida parece entrar em ponto morto. É quando o destino coloca o casal de encontro com um neo-zelandês, Robert (Errol Shand), que se apaixonou por uma brasileira, Jeanne (Maria Flor), e a levou para seu país. A crueldade do destino termina por depositar sua filha, Kat, nas mãos dos Schurmann.

A história tem todos os elementos de melodrama, com duas tramas paralelas, narradas em linhas temporais diversas, entrando em choque. Para emoldurar, uma doença incurável (o filme é ambientado nos anos 90, quando HIV e AIDS ainda eram sinônimo de morte certa), um drama familiar pesado (Heloísa, a mãe adotiva, não sabe como contar à filha a verdade sobre sua condição) e até uma proto-vilã, a avó paterna de Kat (a veterana Fionnula Flanagan), retratada como preconceituosa e combativa, que deposita na neta a oportunidade de recuperar o tempo perdido. Ainda assim, David Schurmann, que é o segundo entre os filhos dos velejadores, consegue narrar seu filme a uma distância segura, imprimindo uma boa dose de emoção entrecortada por um certo lirismo. O carisma de Mariana Goulart, que interpreta Kat aos 12 anos, ajuda a trazer ainda mais simpatia.

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David Schurmann dirige Mariana Goulart

Talvez aí esteja, sob o olhar de um certo público, seu maior pecado. Enquanto o Brasil vive extrema polarização e um momento político delicado, Pequeno Segredo surge como um alento, um filme delicado que, longe de alimentar o fogo, tenta apaziguar qualquer polêmica sendo apenas um filme – uma boa história, bem ritmada, fácil de seguir, fácil de gostar. É sentimental sem medo, é pessoal sem pedir desculpas. Para uma turma que gosta de sua arte invariavelmente aparelhada e gritante, não poderia existir ''golpe'' maior do que ter uma obra assim, intimista e falando baixo, representando o país sob o olhar do planeta. O que ainda não é marcado a ferro, já que os nove finalistas para o prêmio só serão revelados em 17 de janeiro de 2017, com os cinco indicados apontados ao lado dos concorrentes em todas as categorias uma semana depois.

As chances, até o momento, são tênues. Para o Oscar do ano que vem, 69 países indicaram seus filmes. Alguns dos sites dedicados a cobrir a premiação, como Indie Wire e Awards Circuit, não aponta Pequeno Segredo nem entre seus vinte favoritos. Neruda (Chile), Forushande (Irã), De Longe Te Observo (Venezuela) e Toni Erdmann (Alemanha) são os títulos que se repetem entre os prováveis indicados. Claro que, a essa altura do jogo, boa parte dos filmes sequer foi exibida – o longa de David Schurmann entrou em cartaz em uma única sala e em um único em Novo Hamburgo, no Rio Grande do Sul, apenas para cumprir as regras da Academia, que deu o prazo de os filmes selecionados serem exibidos em seu país de origem até 30 de setembro. A estreia está marcada para novembro. Até lá, veremos quanto fôlego restará aos indignados. A discussão, espera-se, não tardará a sair das trincheiras políticas para voltar, finalmente, ao que de fato interessa: o cinema.


Argentina vai ensinar cinema nas escolas. Será que funcionaria no Brasil?
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Roberto Sadovski

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Não é de hoje que o cinema argentino ganha de goleada do brasileiro. Mas a nova medida dos hermanos tem efeito de 7 X 1. A Argentina se tornou um dos primeiros países do mundo, após a França, a incluir cinema no currículo de escolas primárias. Na prática, alunos de colégios de sete das 24 províncias do país já estão sendo levadas a cinemas para assistir a produções locais, ao mesmo tempo em que aprendem os básicos sobre como analisar os filmes. A iniciativa, uma parceria do Instituto Nacional de Cinema e Arte Audiovisual da Argentina (o INCAA) com órgãos cinematográficos do governo francês, será avaliada no fim deste mês na feira Ventana Sur, criada em 2009.

''As crianças assistem a pouquíssimos filmes, e menos ainda filmes argentinos'', aponta Alejandro Calcetta, presidente do INCAA. ''Quando eles assistem algum filme, geralmente é online.'' O currículo cinematográfico da iniciativa ainda será discutido com o governo de cada província, mas a velocidade com que o projeto foi implantado, cerca de dois meses, mostra que há boa vontade em lhe dar continuidade. Para coroar a ideia, crianças entre 13 e 18 anos são encorajadas a enviar propostas ao INCAA sobre o que o cinema argentino precisa para ser atraente para o público infanto-juvenil. Se a ideia é fazer com que a produção local seja incentivada e conhecida por uma nova geração de cinéfilos ainda em formação, o gol não poderia ser mais certeiro.

Pena que algo assim esteja longe de funcionar no Brasil.

É triste e dolorosamente verdadeiro. O cinema brasileiro ainda sobrevive graças a ação de profissionais apaixonados, que às vezes esperam por anos para que uma ideia seja executada e finalmente termine nos cinemas. Além disso, toda polarização política que se tornou mais aguda nos últimos anos (meses?) parece ter impregnado nosso setor audiovisual. A recente polêmica em torno do drama Aquarius, os protestos de sua equipe em Cannes contra o então governo interino, culminando com a escolha de outro filme, Pequeno Segredo, para representar o Brasil no Oscar, demonstra uma cisma imensa na classe artística. Parece que, no cinema do Brasil, o filme surge sempre como coadjuvante de outras questões, quando deveria sempre, não importa o prisma, ser o protagonista.

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Cartazes das doze maiores bilheterias argentinas em 2015

Levar o cinema para crianças em idade escolar é não somente uma iniciativa perfeita para formar o público, como também é uma maneira dinâmica de levar arte a quem muitas vezes só conhece o imediatismo. Aí reside um segundo problema se houvesse uma vontade de incluir cinema na grade de escolas primárias: o que exibir? O cinema brasileiro é tão rico quanto político, traz pouca diversidade de gêneros, mas também é nosso espelho como sociedade, representando diversos aspectos do país em celulóide. Uma curadoria isenta e inteligente poderia não só fazer uma peneira inicial como também determinar quais filmes seriam mais bacanas e adequados para cada faixa etárias. A história de nosso cinema também é nossa história, e fomentar a discussão sobre quem somos e quem queremos ser entre crianças e adolescentes, usando arte como instrumento, soa quase utópico.

Vou além: por que se prender somente a filmes nacionais? Usado como instrumento para expandir os horizontes, o cinema como parte do currículo poderia apresentar diferentes cinematografias de uma vastidão de países, ajudando os alunos a compreender culturas e comportamentos de várias partes do globo. Deixando os blockbusters de lado – o que seria uma atitude óbvia -, levar o cinema para a sala de aula seria levar a beleza de Kurosawa, a poesia de Truffaut, o lirismo de Fellini, a complexidade de Kubrick, a vastidão de Leone, o poder de Hitchcock. O cinema é a porta de entrada para um mundo vasto e espetacular – foi a minha, provavelmente foi também a sua que está lendo estas linhas.

Se a iniciativa argentina nos ensina alguma coisa, é olhar para o futuro. ''O 'cine currículo' foi concebido como um programa que, esperamos, torne-se parte da política estatal'', continua Calcetta. ''Não é por acaso que na França, onde cinema faz parte do currículo desde 1989, tem uma das maiores fatias de mercado local em toda a Europa, com 35 por cento dos filmes em acrtaz este ano até agosto sendo franceses.'' A Argentina resolveu seu problema de produção, com o INCAA focando agora em distribuição e exibição. ''Se a gente só produzir, mas não tiver como mostrar nossos filmes, o futuro será um cemitério para o cinema'', conclui. Para que isso não aconteça, formar público que goste, entenda e consuma filmes, que abrace arte, é vital para a sobrevivência intelectual e histórica de um povo. Uma lição que precisamos aprender por aqui, colocando diferenças políticas mesquinhas de lado, antes que seja tarde.


Criador de Spawn ainda quer novo filme do herói… Mas quem se importa?
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Roberto Sadovski

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Eu tenho idade pra lembrar do quanto a chegada da Image Comics, em 1992, mudou o panorama dos quadrinhos para sempre. Não para melhor, claro, já que a editora criada por artistas da elite da Marvel privilegiava estilo, não substância. Seu carro-chefe sempre foi Spawn, o anti-herói renascido do inferno bolado por Todd McFarlane. Nos anos 90, Spawn vendeu horrores, ameaçou a hegemonia da dupla Marvel/DC e apontou um caminho alternativo e independente para os gibis de super-heróis. A cereja no topo do bolo? Um filme, lançado em 1997, com Michael Jai White e John Leguizamo, que faria do personagem um colosso de mídia, um produto tão reconhecível quanto Batman ou o Homem-Aranha.

Mas cá estamos, quase duas décadas depois, e ninguém dá a mínima para Spawn. Claro, a série continua sendo publicada todos os meses nos EUA – no Brasil, o personagem não dá as caras há anos. Mas o que era antes um gibi entre Top 10, desde 2010  não figura nem entre os trezentos mais vendidos. A série de brinquedos – ou action figures, ou bonequinhos – com a assinatura de seu criador, que revolucionou o mercado com figuras super realistas,  tornou-se um pálido reflexo de sua glória do novo século e hoje está mais interessada em licenças mais lucrativas, como The Walking Dead e NFL.

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Todd mostra arte conceitual do novo filme. Sério, só rindo….

McFarlane, claro, não larga o osso. Esses dias ele esteve no programa Geeking Out, apresentado por Kevin Smith, dizendo que um novo filme do Spawn está no forno, com produção a ser iniciada ainda este ano. “Fiz um roteiro com 183 páginas, sessenta acima da média da indústria”, diverte-se Todd. “Escrevi um pouco demais.” Segundo ele, esta nova encarnação em celulóide (licença poética) não terá vilões, não será como o filme de 1997. “Spawn é o bicho-papão, a criatura que se move nas sombras”, continua. “Sem supervilões, sem o visual do primeiro filme, só com uma história sombria, assustadora, o roteiro é R-Rated.” Uau, que radical!

E aí está o problema. Todd disse a mesmíssima coisa quando sugeriu que Jamie Foxx estaria ligado ao projeto (isso em 2014, antes do lançamento de O Espetacular Homem-Aranha 2, em que o ator fez o papel de Electro). Repetiu o mesmo papo de 2011, quando falou que Spawn seria um filme de terror de baixo orçamento. E vem falando a mesma ladainha desde 2009, quando anunciou que ele mesmo escreveria o roteiro e que tudo no filme, exceto o próprio Spawn, seria real, e não um efeito especial. De lá para cá, ninguém deu a mínima. McFarlane deixou claro que um novo filme vai sair, mesmo que ele tenha de produzir, escrever e dirigir tudo sozinho. Eu, honestamente, duvido.

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Michael Jai White, encapetado no filme de 1997

Afinal, ninguém além de Todd está interessado. Nem a indústria (Spawn, o filme de 1997, teve faturou razoáveis 80 milhões de dólares pelo mundo, mas a marca morreu desde então), muito menos a meia dúzia de fãs que parece ainda sobrar ao personagem. Como tudo que marcou a “era Image”, Spawn era um conceito sofisticado e ousado, visualmente incrível, mas que nunca teve estofo para se firmar como personagem. A própria Image se distanciou dos heróis e hoje, com um catálogo de séries de fantasia e ficção científica, é a editora de quadrinhos mais interessante em atividade. Spawn faz parte de um passado até risível, cujo apelo restringe-se a moleques de 12 anos que acham “da hora” um herói que vem no inferno, e talvez alguns nerds mais hardcore que abraçam qualquer coisa que os faça lembrar de uma adolescência já distante, além de achar que um filme baseado em um gibi é bom simplesmente por ser proibido para menores. Mas, sejamos justos, a trilha do filme era “da hora”.


Em Liga da Justiça, o comissário Gordon parece com… o comissário Gordon!
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Roberto Sadovski

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Eu sou o nerd que não fez a lição de casa. Evidência #1: não fazia ideia que existia um ''Dia do Batman''. O que afinal é celebrado na data? Nas redes sociais, ao menos, uma pá de artistas de quadrinhos compartilhou um ou outro sketch do Morcegão – o que é sempre bom. O diretor Zack Snyder, por sua vez, jogou em seu twitter uma imagem bem bacana de J.K. Simmons como o comissário James Gordon em Liga da Justiça. Num climão meio noir, de sobretudo e chapéu, o Gordon de Simmons está longe do policial interpretado por Gary Oldman na trilogia O Cavaleiro das Trevas, de Christopher Nolan. Na verdade, é o chefe de polícia de Gotham mais próximo dos quadrinhos que o cinema já mostrou. Dá uma espiada na imagem inteira.

Bacana, não? O que, bem sabemos, não quer dizer muita coisa.

Se tem uma coisa que Snyder sabe apresentar são imagens bonitas. O problema é que precisa ter um negócio chamado ''filme'' em torno delas. O Homem de Aço bateu na trave, mas beleza. Batman vs Superman é esse troço aí que geral viu e verteu uma lágrima pelos motivos errados. Liga da Justiça, que chega aos cinemas em novembro de 2017, será o primeiro depois de uma dúzia de correções de curso por conta do gerenciamento bisonho do chamado Universo Expandido DC por parte da Warner, que também nos legou o Frankenstein conhecido por Esquadrão Suicida. Dedos sempre cruzados, claro. Por falar em Dia do Batman, há alguns dias Snyder revelou o ''traje tático'' que o Homem-Morcego vai usar em algum ponto de Liga da Justiça. Esse aí, ó.

batman jl

Tem um ''que'' de Batman do Nolan, com as camadas de proteção cobrindo o uniforme. O capuz estranhamente lembra o do Coruja, que basicamente é um Batman genérico na adaptação que o próprio Zack Snyder fez de Watchmen. Aos poucos as peças do quebra-cabeças vão sendo reveladas. Estamos de olho.


Por que marcas como Bruxa de Blair se recusam a morrer dignamente
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Roberto Sadovski

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A Bruxa de Blair foi um fenômeno. Em 1999, quando os longas de terror com o artifício das ''filmagens encontradas'' não haviam sido explorados à exaustão, o filme foi uma surpresa, uma novidade e um sucesso. Com um orçamento de 60 mil dólares, os diretores Daniel Myrick e Eduardo Sanchez criaram uma experiência apavorante e única que, alavancada com uma internet ainda em seu berço, atiçou a curiosidade do público e nublou a verdade sobre a ''mitologia'' meticulosamente inventada para o filme. O resultado foram 249 milhões de dólares nas bilheterias. De repente, A Bruxa de Blair não era mais uma curiosidade: era um legítimo arrasa-quarteirão. Eu não tive o privilégio de ver o filme na já lendária sessão de meia-noite no festival de Sundance daquele ano, quando o distribuidor espalhou que, o que aplateia estava prestes a ver, era real. Minha primeira sessão foi em Nova York, noite de estreia, cinema lotado, público apavorado. Uma beleza!

Corta para dezessete anos depois. Bruxa de Blair (perdeu o artigo, que moderno) é uma continuação tardia dirigida por Adam Wingard, que existe unicamente para manter a marca em evidência. Explico. O bem mais valioso que existe no mundo do entretenimento são os IP, ou propriedade intelectual. É o produto que pode ser explorado em múltiplas plataformas, ultrapassando sua origem e aumentando a possibilidade de lucro por onde passa. Como Homem-Aranha. Ou Transformers. Mas um IP atrelado ao cinema de terror é ainda mais valioso, já que filmes do gênero são geralmente baratos para ser produzidos e rodam o mundo com extrema desenvoltura. O passaporte carimbado em dúzias de festivais do gênero pelo planeta significa mais acordos de distribuição – e mais dinheiro no bolso. O filme de Wingard, de tão genérico, podia ser batizado ''Floresta do Terror'' ou algo do gênero. Mas no momento em que ganha a ''marca'' Bruxa de Blair, o interesse de distribuidores pelo mundo aumenta. Afinal, os 249 milhões de dólares do filme original ainda levantam sobrancelhas. No fim, é tudo pelo dinheiro.

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Heather Donahue na imagem icônica do Blair Witch original

Não existe, obviamente, nenhum problema em ressuscitar uma propriedade intelectual. Mad Max: Estrada da Fúria retomou a jornada do anti herói de um futuro distópico três décadas depois de sua última incursão em tela grande, e o resultado foi um dos melhores filmes dos últimos anos. Caça-Fantasmas voltou aos cinemas alguns meses atrás, quase trinta anos após a gente ver uma turma eliminando aparições com uma arma de prótons, e ao menos tentou reinventar seu conceito. Marvel, Harry Potter, James Bond, Invocação do Mal, Star Wars… O mundo do entretenimento está abarrotado de produtos que, embora tenham natureza comercial, surgem com qualidade e com cuidado. Muitas vezes, uma marca assim é poderosa mas permanece intocada porque os detentores de seus direitos, em vez de chafurdar em busca de lucro fácil, preferem não mexer em seu legado sem uma ideia de fato desafiadora. Matrix está dormente desde 2003 sem a menor previsão de sair da hibernação. Já Blade Runner, um dos melhores filmes da história,  ganha uma continuação ano que vem e merece atenção por ser tocada por Denis Villeneuve, o diretor genial responsável por Os Suspeitos e Sicario.

Aí está o grande problema de Bruxa de Blair. Não existe talento por trás das câmeras. A preguiça de seus realizadores é tamanha que qualquer preocupação com a história, em expandir a motilogia em cima do que já fora mostrado dezessete anos atrás, inexiste. Não há um lampejo de criatividade, só a repetição de tudo que o filme original mostrou em 1999. Com o agravante de nada mais ter sabor de novidade. Eu saí da sessão sem saber absolutamente nada sobre a bruxa, ou a lenda, ou  floresta, ou a maldição, ou o destino dos personagens do filme original, ou para onde caminham os anônimos da nova empreitada. Os truques de câmera tentam ser inovadores (uau, eles tem um drone e umas câmeras na orelha que parecem bluetooth para usar o telefone no carro) mas se mostram apenas confusos. O elenco é uniformemente inexpressivo, mesm oque tentem injetar algum sentido na trama: o irmão da jovem que rodou o filme original parte em sua procura na mesma floresta em que ela desapareceu (a atriz de A Bruxa de Blair, Heather Donahue, renega o filme, abandonou a carreira artiística e hoje, aos 42, planta maconha medicinal na Califórnia). Tédio.

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''Não entre após o anoitecer.'' Certo…

Vale lembrar que Bruxa de Blair não é a primeira tentativa de aproveitar uma marca forte. Exatamente um ano depois da estreia do filme original, o talentoso documentarista Joe Berlinger (a série Paradise Lost, Metallica: Some Kind of Monster) cometeu Bruxa de Blair 2: O Livro das Sombras, que partia de uma premissa interessante: um grupo partia para a floresta depois de assistir ao filme A Bruxa de Blair e, isolados em uma cabana, entregavam-se à neurose – e, quem sabe, à própria bruxa. Foi um desastre criativo e financeiro – o orçamento foi 15 milhões de dólares; a bilheteria mal chegou em um quinto do filme original. O tempo, claro, pode ter contribuido para aumentar a mítica em torno da marca, e uma nova geração de fãs de terror talvez encontre algum valor em revisitar o fenômeno. Sem falar que a marca ''Bruxa de Blair'' pode ajudar o filme a se destacar entre a avalanche de longas do gênero que invadiu os cinemas recentemente, como Quando As Luzes se Apagam, O Sono da Morte e O Homem nas Trevas. Talvez. Se o filme oferecesse algum susto, porém, a tarefa seria mais fácil.


Stan Lee será o astro de um filme ao estilo James Bond nos anos 70. Como é?
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Roberto Sadovski

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Essa entra na lista de ''notícias bizarras da temporada''. Algo tão estranho que pode até ser verdade… E é! O Hollywood Reporter revelou que a Fox comprou os direitos da história de Stan Lee, arquiteto do Universo Marvel. Hoje já com mais de 90 anos, ele divide seu tempo entre ser o maior porta-voz da editora e em pipocar em pontas nos filmes com o selo Marvel (falei sobre isso em Nerdovski há alguns meses). Mas o estúdio não está interessado em criar uma biografia ao estilo Ray ou A Rede Social ou Steve Jobs. Em vez de mostrar a ascenção de Lee como criador (ao lado de vários artistas) dos principais heróis da Marvel, a ideia é fazer dele um herói ao estilo James Bond, da era Roger Moore, envolvendo-se em aventuras nos anos 70.

Peraí, como é?

Pois bem. Não que a vida de Stan Lee não renda um filme do jeitinho que ela é. Ele começou a rabiscar histórias em quadrinhos aos 17 anos, trabalhando para seu tio na Timely Comics, mesmo que sua ambição fosse escrever o ''grande romance americano''. Lee já tinha 40 anos nas costas quando, prestes a abandonar a carreira, foi convencido por sua mulher a dar mais uma chance aos gibis. Foi quando, no começo dos anos 60, co-criou Quarteto Fantástico com Jack Kirby e, ao lado de vários outros artistas, deu vida a uma dúzia de personagens incríveis, de Homem-Aranha ao Homem de Ferro, do Demolidor ao Hulk, mudando a face da cultura pop para sempre. Na década seguinte Lee foi para Hollywood tentar colocar seus personagens em outras mídias, trancendendo o papel – e conseguiu, com séries de TV baseados no Hulk e no Homem-Aranha.

Mesmo assim, a ideia dos produtores Marty Bowen e Wyck Godfrey (Crepúsculo, Maze Runner, o novo Power Rangers) é usar Stan Lee como protagonista de uma aventura de época, recheada de mulheres fatais e vilões maiores-que-a-vida. O tom da aventura – que ainda não tem nem diretor e nem roteirista atrelados ao projeto – é similar ao de Kingsman: Serviço Secreto e promete a mesma dose de ação e humor. Ficam duas perguntas no ar. Primeiro, quem será capaz de dar vida a Stan Lee, o heróis de ação, no cinema? Segunda, será que o próprio Stan Lee vai aparecer em uma ponta no filme protagonizado por… Stan Lee?


Menos sexo e mais mistério marcam o trailer do novo 50 Tons Mais Escuros
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Roberto Sadovski

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50 Tons de Cinza é um troço estranho. O livro nasceu como fan fiction de Crepúsculo, com o sobrenatural teen trocado por pornô soft. Ou quase. Em três volumes, a escritora E.L. James discorreu sobre fantasias e fetiches imaginados por alguém que claramente nunca saiu da teoria. ''Sexo para quem não faz sexo'' foi a melhor definição. Mas foi um fenômeno inegável, um conto de fadas com pitadas de sadomasoquismo. E um fenômeno estranho, já que as aventuras sexuais de Christian Grey e Anastasia Steele em nada diferem de décadas e décadas de literatura trash ao estilo Barbara Cartland, a autora inglesa que invariavelmente colocava mocinhas virgens envolvidas com ricaços da alta sociedade em seus romances. No Brasil, não tem nada que a literatura popularesca de séries como Sabrina, Bianca ou Julia não colocassem nas bancas de jornal.

O filme veio na esteira do fenômeno e fez barulho quando chegou aos cinemas em fevereiro de 2015. No mundo todo, 50 Tons faturou 570 milhões de dólares, com Dakota Johnson fazendo o possível para se tornar uma estrela (não conseguiu) e Jamie Dornan tentando esconder o constrangimento por dar vida a um personagem tão opaco (não conseguiu). O sucesso foi alimentado pela curiosidade e por uma regra básica: sexo vende. Sexo com ousadia de supermercado, adequado para o consumo da massa, sem vocação para chocar, vende mais ainda. A diretora Sam Taylor-Johnson penou para transformar a trama, cafona e previsível, em um filme coerente e envolvente. A interferência constante de E.L. James tornou a tarefa frustrante, e o filme não vai além do drama sexual morno, mas espetacularmente bem produzido. Zalman King, com seu Orquídea Selvagem e a série Red Shoe Diaries, lá atrás nos anos 80/meados dos 90, ficaria orgulhoso.

Eis que chega o trailer de 50 Tons Mais Escuros, a prova que em time campeão não se mexe. A estética cafona é a mesma, o clima de conto de fadas ligeiramente safado, idem. Pouco é revelado da trama, a não ser que Anastasia (Dakota Johnson, ainda alternando duas únicas expressões) volta ao mundo milionário de Grey (Jamie Dornan parece mais à vontade) e descobre que ela não é a primeira mulher a ter tamanho envolvimento em sua vida. O aspecto sadomasoquista parece reduzido, substituido por mais locações nababescas e por uma trama de mistério que ao menos pode injetar um pouco de vigor na série. Pode ser consequência do novo diretor, James Foley, responsável pelo genial O Sucesso a Qualquer Preço, de 1992, e por vários episódios da série House of Cards. O sexo? Continua lá. Mais discreto. Em segundo plano. O fenômeno, afinal, esfriou. Agora, 50 Tons Mais Escuros tem de ser um filme de verdade para garantir seu espaço.


Como JJ Abrams ressuscitou uma série que estava morta – a não ser pelos fãs
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Roberto Sadovski

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Vamos ser honestos, Star Trek não é tão bom assim. Os fãs podem ser os mais passionais da cultura pop. A marca já deixou uma iconografia sem igual como seu legado. Mas raramente o conceito da série, em que a humanidade vira seu olhar para a exploração das estrelas em um futuro utópico, encontrou uma execução à altura. Embora os devotos respirem em êxtase no altar de Trek, o resto da humanidade meio que dá de ombros. Cinco décadas depois de sua criação, a marca respira por aparelhos. Se hoje celebramos a data com algum fôlego, o mérito é de J.J. Abrams. Mas antes, um pouco de história.

A impressão é que Star Trek sempre foi assim, um acidente feliz. A série de TV, criada por Gene Roddenberry, teve três temporadas ousadas para a época, salpicadas por episódios absolutamete geniais, como “Mirror, Mirror”, “Arena”, “Space Seed” e “The City on the Edge of Forever”. Ainda assim, o programa amargou uma audiência medíocre e foi embora em 1969, deixando uma legião de fãs inconformada com sua vida curta. A essa altura, o fervor dos devotos era o que mantinha a marca viva. Com reprises das três temporadas pipocando pelo mundo, e os entusiastas reunindo-se em convenções temáticas aos montes, Star Trek virou cult e ganhou mais vida.

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Anton Yelchin e Chris Pine

Com o interesse renovado por uma série animada, mais o sucesso de Guerra nas Estrelas no cinema, Trek fez o salto para a tela grande em 1979 com um filme ambicioso, dirigido por Robert Wise (Amor Sublime Amor, A Noviça Rebelde). Os resultados artísticos e financeiros, porém, ficaram aquém das expectativas. E essa passou a ser a regra. De seis filmes com a tripulação original, mais quatro com a Nova Geração (uma encarnação na TV mais bem sucedida, que durou sete anos), o saldo foi uma verdadeira obra prima (A Ira de Khan, de 1982), três aventuras bacanas (A Volta Para Casa, de 1986; A Terra Desconhecida, de 1991; e Primeiro Contato, de 1996) e um punhado de filmes de ruins a medíocres. Na TV, A Nova Geração foi seguido de Deep Space Nine e Voyager, mas o gás havia terminado com Enterprise, cancelada em sua quarta temporada com uma audiência rasteira. Os fãs, claro, continuaram fazendo barulho, abaixo-assinados, campanhas. Não adiantou. Em maio de 2005, e depois de dezoito anos ininterruptos na TV, Star Trek morreu.

Mas não por muito tempo. O estúdio não ia deixar umamarca tão poderosa, que por muito tempo foi seu alicerce financeiro, adormecido indefinidamente. Entra em cena J.J. Abrams, que na TV criou Alias e Lost, e no cinema havia estreado, com louvor, com o terceiro Missão Impossível. Seu grande pecado, aos olhos da cominidade trekker, era não ser fã da série. O que, convenhamos, é irrelevante. O que Abrams fez com seu reboot nos cinemas em 2009 foi não só abraçar os conceitos de toda a série e criar uma ficção científica tão fantástica quanto absurda, mas também fazer um filme que pregava para além do séquito de devotos de Star Trek. Ao cometer a “heresia” de resgatar os personagens da série clássica com um elenco jovem, o diretor mostrou que uma boa história sempre deve ficar à frente da histeria de fãs que encaram Jornada como algo intocável, hermético e, no fim das contas, para poucos. A grita foi geral, com estes entusiastas acusando Star Trek versão 2009 de ser mais um filme de ação, e não um “verdadeiro” exemplar da série.

Star Trek Beyond†(2016) Left to right: Sofia Boutella (plays Jaylah) and Simon Pegg (plays Scotty)

Sofia Boutella e Simon Pegg

Daí é bom o pessoal acordar e cheirar o café. O que Abrams fez foi modernizar, respeitar e fazer da marca algo realmente popular. Foi injetar um espírito de blockbuster em uma série cambaleante e, francamente, inexistente longe de seu público-alvo. E com mérito: talvez só A Ira de Khan consiga superar o novo Trek em qualidade – e como cinema. Seu segundo filme como diretor da série, Além da Escuridão, trouxe justamente o icônico Khan de volta e é uma aventura excelente, cujo único pecado foi uma campanha de marketing equivocada que tentou esconder a natureza do vilão como uma grande “surpresa” do filme. Os fãs chiaram como nunca, mas a essa altura os mais radicais se tornaram uma caricatura, clamando uma propriedade que eles nunca tiveram. Na ponta do lápis, eles não importam: os dois filmes com o dedo de Abrams na direção faturaram, juntos, pouco mais de 850 milhões de dólares nas bilheterias – quase a soma de TODOS os dez filmes que os precederam.

O que nos leva a Sem Fronteiras, que celebra os 50 anos de Star Trek e dá inicio a um novo ciclo. J.J. Abrams agora toma uma posição de produtor, deixando a direção nas mãos de Justin Lin, o homem que transformou Velozes & Furiosos num colosso mundial. Mesmo prejudicado com um tempo de produção apertado, para coincidir com a celebração do cinquentenário da série, o filme surge como uma aventura mais acelerada que as anteriores, mas não menos emocionante. Sem Fronteiras é a culminação de todas as ideias de Trek, embaladas no pacote moderno idealizado por Abrams. Não é mais um filme hermético, criado para um grupo de devotos mais preocupado em encontrar defeitos. Trek se tornou um produto que agrada até o consumidor casual de cinema e que, no fim das contas, não sabe a diferença de wookie para vulcano.

Karl Urban e Zachary Quinto

Sem Fronteiras é também agridoce, já que foi produzido sob a sombra da morte de Leonard Nimoy, o Spock original, elo de ligação entre a série clássica e o reboot moderno. Em um filme sobre o poder da amizade e a força da união, a citação a Nimoy ganha mais força, em especial nos momentos que o filme de Lin desacelera e mergulha no que move seus personagens: a vontade de ser relevante, de fazer diferença, com a certeza de que os amigos sempre estarão ali. A segunda nota de pesar é a morte de Anton Yenchin, que interpreta o oficial Chekov, vitimado por um acidente tolo, que tem em Sem Fronteiras um de seus últimos trabalhos. A trama envolve a tripulação da Enterprise bem no meio de sua missão de cinco anos em explorar o universo, em ir onde ninguém foi antes. Ao atravessar um ponto do espaço não mapeado pela Federação, eles são atacados, a Enterprise destruida e sua tripulação à deriva em um planeta inóspito, prisioneiros do vilão Krall (Idris Elba, irreconhecível sob toneladas de maquiagem). Seu plano envolve completar uma arma biológica, em posse de Kirk e cia., e atacar a Federação, que troca a evolução da humanidade pela força por uma paz mal vista por Krall.

A escolha de Justin Lin como diretor, embora soe estranha devido a seu histórico com a série com Vin Diesel, mostra-se acertada. Ele imprime uma energia cinética que não deixa Sem Fronteiras estático. Ao mesmo tempo, caminha em território familiar: assim como Velozes & Furiosos, Star Trek é sobre família, sobre laços que vão além do sangue, sobre os sacrifícios de um em prol de todos. Sobre explorar e descobrir novos mundos, sobre a ficção científica como força motriz. É sobre celebrar as diferenças, promover a integração, mirar numa sociedade utópica em que diferenças raciais, sociais, de gênero, não tem mais relevância. O conceito original de Gene Roddenberry, tão diluido ao longo de décadas, agora repaginado por J.J. Abrams como um legítimo blockbuster. E agora, com Star Trek Sem Fronteiras, olhando mais uma vez para o futuro.


Maior estrela do nosso cinema, Ingrid Guimarães mostra que merece a coroa
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Roberto Sadovski

 

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Ingrid Guimarães é a maior estrela do cinema brasileiro. E não é só uma questão de números – mesmo que eles pesem bastante. Desde que foi protagonista de um longa pela primeira vez, em 2011, com De Pernas Pro Ar, seus filmes levaram mais de 12 milhões de pessoas aos cinemas. A única atriz a bater este número é Sonia Braga, que nos anos 70 arrastou um público de pouco mais de 17 milhões de pessoas para ver Dona Flor e Seus Dois Maridos e A Dama do Lotação. Mas isso foi século passado. Outros tempos. Com cinema sem competir com dúzias de outras mídias. O jogo agora é outro. Mesmo assim, e em apenas cinco anos, Ingrid reina absoluta nos cinemas.

Mas, repito, não são só os números. E nem também o acaso. A carreira da atriz goiana é uma combinação de tenacidade, imenso talento e um olhar atencioso sobre o que o brasileiro gosta de ver quando investe seus cascalhos para duas horinhas na sala escura. Até ela colocar seu nome no topo do cartaz em De Pernas pro Ar, Ingrid lapidou sua imagem no teatro e na TV. Foi nas novelas que o público conheceu a atriz de diálogos rápidos e timing para fazer rir. A precisão em descobrir risadas populares – mas não popularescas – veio nos palcos, em especial na comédia Cócegas, em que dividiu a cena com Heloísa Périssé e compos uma dezena de personagens distintos e com igual personalidade.

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De Pernas Pro Ar

O cinema, porém, sempre empurrava a porta como paixão principal. Fez um papel pequeno em Alô?!, de Mara Mourão, em 1998. Repetiu a parceria com a diretora quatro anos depois e com mais destaque em Avassaladoras. O sucesso moderado caminhava junto ao novo fôlego do cinema brasileiro, mas a atriz entendia que, para conquistar a massa, era preciso abrir o leque. “Eu gosto de comédias populares, que falam a língua do público e combinam risadas com uma certa duçura”, disse. “Como o cinema no Brasil sempre teve como base comédias assim, achei que era um caminho natural.”

De Pernas pro Ar, lançado na virada de 2010 para 2011, provou ser o filme certo na hora certa. Combinando humor fácil com uma trama mais elaborada – o high concept, que não faria feio em nenhum filme do gênero importado –, a comédia sobre uma executiva falida que passa a trabalhar com um sex shop, caiu no gosto do povo, levando 3,5 milhões de pessoas aos cinemas. De repente, Ingrid deixava de ser a coadjuvante engraçada para provar que conseguia, com leveza, transformar um filme em um autêntico blockbuster. Não foi ao acaso. Foi um plano bem sucedido.

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Com Heloísa Périssé, sua parceira na peça Cócegas

Sua  carreira, já consagrada na TV, ganhou fôlego renovado no cinema. Apostar na comédia popular poderia garantir a ela um nicho de sucessos fáceis: bastava repetir a fórmula. Mas “fácil” não combina com Ingrid. Ela aumentou seu cachê com duas comédias que se tornaram mais um par de blockbusters (De Pernas pro Ar 2, que em 2012 levou quase 5 milhões de pessoas aos cinemas; Loucas Para Casar, de 2015, com público de 3,8 milhões) para chegar ao ponto de escolher – e viabilizar – outros projetos.

Um deles foi o road movie Entre Idas e Vindas, um drama simpático, com tintas cômicas, dirigido por José Eduardo Belmonte. “Não é um filme desenhado para atrair milhões”, disse Ingrid, com franqueza, pouco antes da estreia. “Mas se eu puder ajudar a trazer parte do meu público, já é uma vitória.” Lançado entre o estouro de Procurando Dory e a antecipação de Esquadrão Suicida, Entre Idas e Vindas batalhou para encontrar seu público e saiu de cartaz com pouco mais de 100 mil ingressos vendidos. Nem de longe uma derrota, mas um atestado que a atriz entende o chão que pisa e os passos que dá.

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Ao lado de Alice Braga, Caroline Abras e Rosanne Mulholland em Entre Idas e Vindas

O novo Um Namorado Para Minha Mulher é mais um passo, a adaptação brasileira de um sucesso do cinema argentino que, embora não tenha a atmosfera de guerrilha do filme de Belmonte, também, não é uma comédia rasgada como De Pernas Pro Ar. É um filme divertido, que coloca os geralmente sisudos Caco Ciocler e Domingos Montagner em papéis mais leves, porque Ingrid queria atores que o público não soubesse o que esperar em uma comédia. “O filme original é lindíssimo, só que muito mais melancólico”, explica a atriz. “O que eu gosto no texto é que dá pra seguir várias direções, da comédia mais leve ao drama mais pesado.”

Ela interpreta Nena que, casada com o dono de um antiquário (Ciocler), tornou-se uma mulher presa a uma rotina. Com a paixão arrefecida, e sem coragem de pedir o divórcio, ele contrata um galanteador profissional (Montagner) para seduzir a mulher e forçar uma separação. No processo, porém, Nena reencontra sua leveza e sua paixão, deixando o marido e o sedutor sem saber como agir. Os momentos mais engraçados, por sinal, são quando o filme foge do fio condutor que permeia o original e rende-se à Ingrid malaca e divertida, a metralhadora verbal inteligente e esperta. Era um elemento ausente de Entre Idas e Vindas, e pode ser o gatilho para trazer a fatia do público que a colocou no topo do pódio.

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Um Namorado Para Minha Mulher

Experimentar é um caminho que Ingrid Guimarães trilha sem pudor. Seu próximo filme, Um Homem Só, sobre um sujeito que clona a si mesmo para resolver seus problemas, é uma nova guinada em direção a um material diferente do que o cinemão está acostumado a entregar e, ao mesmo tempo, fácil de ser abraçado pelo público. “Nem todo filme pode ser um blockbuster”, continua. “Encontrar esse filme médio, que tem uma carreira bacana e faz a indústria andar, é igualmente importante.” Não são, portanto, os números. É a vontade de ver o cinema crescer – e crescer ao lado dele – que a deixa tão à vontade com a coroa.