Roberto Sadovski

CCXP 2016 prova que “cultura nerd” ainda é um negócio excelente!
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Roberto Sadovski

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Sempre que eu leio ''cultura nerd'', a espinha gela. São as tentativas de colocar tudo num gueto que incomodam: não é ''pra nerd'', é ''pra todo mundo'', oras! O grande barato da Comic Con Experience – ou CCXP – é entender justamente isso. Sim, é um evento focado em quadrinhos, games e cultura pop (aí sim). Sim, traz ídolos de um nicho muito específico (os fãs de histórias em quadrinhos). Mas em nenhum momento a festa tem os portões fechados para quem acorda com vontade de experimentar outros lados da cerca – ''experience'' é isso aí, não? Daí que acho estranho passear pela timeline das redes sociais e ver tanta gente reclamando que a tal ''cultura nerd'' está distorcida, que não é mais movida a paixão, que tudo agora é consumo, blablablá etc e tal.

Amiguinhos, acordem e cheirem o café: a BASE dessa paixão por games, filmes, HQs, séries de TV, action figures, cosplay e traquitanas mil é justamente o consumo. Não no sentido desenfreado, e sim com a possibilidade de levar um pedaço de algo que é querido para casa. Seja gastar 5 mil reais para caprichar na fantasia de seu personagem favorito (Arlequina e Deadpool foram os campeões em volume este ano), seja comprar uma camiseta, seja investir numa arte original para colocar na parede, seja torrar o preço de um carro numa estátua. ''Pertencer'' a um grupo maior com uma paixão em comum significa, também, se paramentar como aquilo que você curte. A CCXP 2016, mais do que em suas duas primeiras edições, abriu essa possibilidade – se o comércio entendeu que a crise ainda não bate à porta deste público (tinha de estúdio de tatuagem a barbearia), tanto melhor.

Afinal, quando a Comic-Con de San Diego, talvez a mais famosa do planeta, começou lá atrás, pouco antes do lançamento de Guerra nas Estrelas, não foi só para ''compartilhar a paixão em comum''. Foi também para as pessoas que ganham a vida com isso faturar seu troco com venda e troca de gibis e outros souvenirs da galáxia muito muito distante. O que eu sinto é que muitos nerds, freaks e geeks que, há alguns anos, tinham a atenção exclusiva deste mundo, agora se incomodam em ter de compartilhar com uma turma que nunca abriu um gibi na vida mas é fã roxo da Marvel – do cinema, diga-se. É um certo egoísmo e mágoa em ver que a coisa não é mais tão exclusiva assim. Chega a ser engraçado: o fã ''de raiz'' desse naco da cultura pop certa vez reclamou que não era atendido por produtos ligados à sua paixão; hoje, quando tudo e todos merecem uma miniatura Funko Pop, ele reclama de fãs ''iniciantes'', assim como o roqueiro ranzinza torce o nariz para a menina com camiseta do Ramones.

O que nos leva de volta à CCXP. Se a ''cultura nerd'' virou um mercadão, o evento é a feira perfeita. Com mais de 100 mil pessoas cruzando seus portões em quatro dias, teve pra todos os gostos. Gente que foi gastar com jogo de cama do Harry Potter. Gente que ficou horas na fila para ver um clipe de Guardiões da Galáxia Vol. 2. Gente que pagou uma grana para tirar uma foto e descolar o autógrafo de seu ídolo. Gente que lançou quadrinhos. Gente que consumiu quadrinhos! Gente comendo, gente fantasiada, gente se divertindo. A nova configuração do pavilhão privilegiou a circulação, minimizou os apertos e, como nem tudo é perfeito, ensanduichou os artistas de quadrinhos, enfileirados no Artist's Alley, entre o karaokê no Netflix (4 Non Blonds, nunca mais) e o palco de uma banda de rock.

Embora o consumo pareça ter entrado na CCXP de camarote, é bobagem reduzir tudo que aconteceu durante o evento a um festival capitalista, é estupidez afirmar que abraçar este mundo é não sair do jardim de infância. Se o mundo ''do lado de fora'' antes desdenhavade quem explicitava sua paixão por Star Wars (ou Trek), hoje este mesmo mundo quer lugar de destaque na janelinha. É um mundo que vende. É um mundo que gera lucro. Faz parte do jogo e é essencial para manter as engrenagens girando. Se a CCXP provou uma coisa, entretanto, é que ainda é um mundo totalmente movido a paixão, a uma fagulha criativa que não só inspira artistas a produzirem obras como Game of Thrones, Resident Evil, Pátria Armada, Como Ser o Pior Aluno da Escola, Logan e Turma da Mônica, como também faz com que os fãs, cada vez mais, e sem nenhum pudor, queiram levar um pedacinho de tudo isso para casa. E é por tudo isso que, na noite do domingo, milhares de fãs foram para casa com um sorriso sincero no rosto. E a carteira mais leve.


A Criada, do diretor de Oldboy, ganha trailer e pode dar um Oscar à Coréia
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Roberto Sadovski

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O cinema coreano contemporâneo habita com desenvoltura o radar dos fãs de um cinema fora da caixinha. Antes restritos ao circuito de festivais, a produção nascida primariamente em Seul tem ganho o mundo por seu poder visual, ousadia temática e, por que não, diálogo franco com um cinema pop que o deixa nada hermético e estranhamente acessível. Bong Joon-ho criou obras díspares como O Hospedeiro e Mother – Em Busca Pela Verdade, antes de abraçar o cinemão internacional com o excepcional O Expresso do Amanhã. Hong Sang-soo manteve os pés em uma atmosfera mais intimista, em filmes delicados como A Visitante Francesa, Montanha da Liberdade e o ótimo Certo Agora, Errado Antes. Meu favorito, porém, ainda é Chan-Wook Park.

Quando assisti a Oldboy, foi um choque. Não esperava a mistura de ação sufocante e violência extrema com vingança e incesto. É um desses filmes que garante discussões intermináveis pós a sessão. Oldboy é parte, por sinal, de sua ''trilogia da vingança'', que ainda inclui os nada sutis Mr. Vingança e Lady Vingança – arrisque os três numa tarde chuvosa e seja feliz. Sede de Sangue ampliou seu interesse no tema, que também permeou seu flerte com Hollywood, o esquisito e intenso Segredos de Sangue, com Mia Wasikowska, Nicole Kidman e Matthew Goode. O sucesso não só nos grandes festivais de cinema pelo mundo (inclusive em nosso quintal), mas também nas salas de cinema, estranhamente ainda não garantiu um Oscar ao cinema coreano, como bem apontou o site Indiewire.

A Criada pode mudar este jogo – não na categoria de melhor filme estrangeiro, já que o país indicou, como bem me lembrou o oráculo do Oscar Chico Fireman, The Age of Shadows, e Elle, apontado pela França, é meu favorito do coração. Mas em outras categorias, principalmente técnicas, seria mais do que justo. Park, por fim, voltou para casa depois de bater palminhas com Hollywood com sangue nos olhos (ainda bem que não escolheram este título, por que, né….). Uma trama de vingança em sua superfície, o filme mergulha fundo em temas como lesbianismo, chantagem e sedução. Adaptando o romance Na Ponta dos Dedos, que Sarah Waters publicou em 2002, com a trama transportada da Londres do século 19 para a Coreia sob domínio japonês dos anos 30, A Criada mostra uma jovem apontada para servir uma herdeira japonesa reclusa. O plano é roubar seu dinheiro, mas o desejo entra no caminho. A obra de Chan-Wook Park fez barulho na última edição da Mostra de Cinema de SP, saindo como favorito do público, e agora ganha seu primeiro trailer (que você vê aqui em primeira mão). Com Elle, Silence, A Chegada, La La Land, Capitão Fantástico e Animais Noturnos – só para cutucar a superfície -, o 2016 que passou meses hibernando parece ter acordado.


Parece sobre aliens, mas A Chegada é sobre um mundo que se recusa a ouvir
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Roberto Sadovski

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Bryan Singer disse uma vez que a ficção científica era o gênero cinematográfico mais completo. ''É o único que nos permite explorar, sob qualquer aspecto, a condição humana'', explicou. A Chegada materializa, de certa forma, as palavras de Singer. Em sua superfície é mais um filme sobre uma invasão alienígena – mesmo que, desta vez, os visitantes não cheguem reduzindo cidades inteiras a pó em um espetáculo digital. Nas mãos do canadense Denis Villeneuve, porém, o filme surge como um drama elegante sobre nossa dificuldade em nos comunicar, e como isso pode levar a humanidade à sua ruína. Esqueça, portanto, conceitos fáceis sobre bem e mal: A Chegada habita uma gigantesca Babel, em que não existe inimigos a não ser nós mesmos.

Quem nos conduz nesta jornada é a linguista Louise Banks (Amy Adams), convocada pelos militares para tentar estabelecer uma comunicação com visitantes de outro mundo. Seu trabalho é tentar entender o que querem os tripulantes de uma gigantesca estrutura que pousou em Montana, nos EUA – espelhando outros onze monolitos que também chegaram, espalhados pelo globo. Ao lado do físico Ian Donnelly (Jeremy Renner), ela começa a desenhar uma forma de comunicação com os aliens, chamados heptapods por se manter em sete tentáculos. Sua comunicação não é verbal, mas visual, e desvendar seu propósito antes que o representante de algum outro país decida escalar o conflito com o dedo no gatilho é essencial para conseguir respostas – e, talvez, impedir uma tragédia.

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Os visitantes chegam à Terra

Seria fácil transformar A Chegada numa espécie de corrida contra o tempo, em que o intrépido casal de cientistas precisa bater o relógio para nos salvar da aniquilação. Mas este não é o interesse de Villeneuve. Adaptando o conto ''Story of Your Life'', que deu ao escritor Ted Chiang meia dúzia de prêmios literários na virada do século, o diretor canadense expande sua essência, ao lado do roteirista Eric Heisserer, de uma trama intimista para uma narrativa global. Compreender a língua dos alienígenas é o cerne de uma questão que revela a maleabilidade do tempo e também a dificuldade dos próprios seres humanos em estabelecer laços. Elegante, Villeneuve foge do que poderia ser mais um panfleto militar ianque e o transforma numa trama sobre integração, uma ficção científica cerebral e pacifista.

Para guiar a narrativa ele aposta em Amy Adams e seu olhar quase etéreo. No papel da Dra. Banks, ela percebe que o entendimento surge por meio de estudo, pesquisa e paciência. Ou seja, decifrar a linguagem dos heptapods – uma combinação não linear de símbolos, decifrada com o uso de princípios matemáticos lentamente compartilhados com os aliens. Sua mensagem carrega um segredo que eleva o filme a um patamar ainda mais cerebral e emotivo, e é fascinante observar não só o cuidado com que Villeneuve conduz a trama, revelando aos poucos seu verdadeiro propósito, como o trabalho delicado de Amy Adams ao construir sua personagem, que não se deixa levar pela testosterona do ambiente militar e mostra que, dentre todos envolvidos com a missão, ela é a única capaz de conduzí-la até o fim.

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Amy Adams aprende a ler com os heptapods

Fazer com que todo esse falatório científico, filosófico e não linear seja amarrado não só em um filme coerente, mas tenso e eletrizante, é o grande trunfo de Villeneuve. Desde que foi apresentado ao mundo com o drama Incêndios, indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2011, o diretor de 49 anos vem se tornando um dos nomes mais interessantes a ser observado no cinemão. Ele encarou com a mesma desenvoltura um thriller contemporâneo (Os Suspeitos, de 2013) e uma adaptação de Saramago (O Homem Duplicado, lançado no mesmo ano), expandindo seu escopo com o drama sobre o combate ao tráfico de drogas na fronteira com o México, Sicario (2015). Embora abordem gêneros e tons completamente diferentes, em comum eles trazem um domínio claro narrativo e uma habilidade sem igual na condução de atores. No caso de Sicario e também de A Chegada, Villeneuve entrega a condução da narrativa a uma personagem feminina forte e complexa, que não se intimida em entrar num ''mundo masculino''.

Esse compromisso com o cinema contemporâneo, além da habilidade técnica em conduzir o espetáculo, é fruto de referências bem claras que o diretor expressa sem pudor. A Chegada é herdeiro óbvio das ficções científicas alegóricas dos anos 50, quando a única maneira de expressar o temor do meio artístico contra a ''caçada aos comunistas'' que apavorou a Guerra Fria era usar o gênero como avatar do mundo real. Mas o filme também não esconde o DNA de aventuras sobre visitantes de outros mundos populares nos anos 80, quando a escassez de recursos técnicos criava filmes mais intimistas e menos explosivos – o que, para o bem e para o mal, se tornou a produção do gênero depois de Independence Day. A Chegada, portanto, traz o melhor de vários mundos, uma mistura bem amarrada de espetáculo e reflexão, de blockbuster moderno com um cinema que tem de fato o que dizer. A continuação de Blade Runner, que estreia em outubro de 2017, está sendo dirigida neste momento por Denis Villeneuve. Não poderia estar em melhores mãos.


Silence, de Scorsese, ganha trailer: será este o melhor filme do ano?
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Roberto Sadovski

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Martin Scorsese começou a filmar Silence há cerca de dois anos, e desde então estou aguardando com respiração presa. Não é nada, claro, comparado às quase três décadas que o diretor nova-iorquino lutou para transformar o livro de Shūsaku Endō, que ele leu no auge do lançamento e da polêmica em torno de seu A Última Tentação de Cristo, em filme. Silence traz os temas caros ao diretor: o poder da fé, o limite da devoção, o olhar sobre a condição humana. O trailer é de tirar o fôlego: denso, belíssimo, poderoso. Andrew Garfield, Adam Driver e Liam Neeson surgem como padres jesuítas no Japão feudal, enfrentando uma cultura diferente, o que vai levar sua fé ao limite. Estamos diante do melhor filme de 2016? Algo em meu coração diz que sim….. Dá uma espiada.


Imprevisível, Elle traz humor negro e violência sexual sem medo de polêmica
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Roberto Sadovski

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Logo na primeira cena de Elle, a empresária Michèle Leblanc (interpretada por Isabelle Huppert) é atacada dentro de sua própria casa e estuprada. Logo também fica claro que os anos não suavizaram nem um pouco o autor Paul Verhoeven. Aos 78 anos, ele continua usando palavras como “provocativo”, “polêmico” e “desconfortável” para descrever seu cinema. O que não surge em Elle como barulho barato: longe de Hollywood desde O Homem Sem Sombra, de 2000, e filmando na Europa onde produziu apenas um longa neste hiato (o drama de guerra A Espiã, uma década atrás), o diretor holandês não perdeu a verve para contar histórias sem pudores para jogar sal na ferida. Melhor ainda: encontrou na atriz francesa uma parceira que compartilha sua predileção por humor negro, pela perversidade e por uma certa disposição em chacoalhar as gaiolas.

Isso porque Isabelle em nenhum momento interpreta uma vítima. Seria muito fácil fazer com que Elle seguisse o caminho do “thriller de vingança”, com a mulher ferida entrando num jogo de gato e rato com seu algoz, até um final triunfante. Não aqui. Com uma vida dedicada a exercer o máximo de controle financeiro e emocional sobre todos a seu redor (o filho banana, o ex-marido fracassado, a mãe envolvida com um picareta), Michèle enxerga em seu ataque um momento de descontrole que ela parece determinada a recuperar. Seu atacante passa a perseguí-la com mensagens no celular, e até invadindo mais uma vez sua casa, deixando claro que ele está sempre próximo. É quando ela troca precaução por curiosidade, transformando Elle numa disputa de poder velada, em que todos – todos! – podem se esconder por trás da máscara do estuprador.

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Em Elle, toda cena traz uma forte carga sexual

Michèle já não é uma personagem fácil, e Huppert ainda lhe confere mais personalidade e profundidade. O diretor havia pensado em Nicole Kidman ou Sharon Stone para o papel, mas dificilmente outra atriz teria uma entrega tão completa. Após ser estuprada, por exemplo, a empresária aumenta seu apetite sexual, que já não encontra em seu amante (e marido de sua sócia e melhor amiga) um parceiro satisfatório. Longe de se esconder, ela abre ainda mais suas portas, iniciando uma amizade cheia de segundas intenções com um vizinho, por sua vez casado com uma cristã tediosa. Apesar do ataque sexual, a vida segue com mais este elemento adicionado à rotina. A aparente frieza é fruto de uma relação conturbada com seu próprio pai, preso há décadas após, sem motivo aparente, promover uma chacina pelo bairro: “Ele matou crianças, os pais, seis cães e alguns gatos… mas poupou um hamster”, recorda Michèle, que na época tinha 10 anos.

O humor parece aumentar a tensão de Elle. Como o filme não segue nenhuma expecativa, fica difícil segurar as risadas nervosas. Foi assim com RoboCop, em que Verhoeven transformou um filme de ação numa distopia sobre a venda do poder policial e a perda da humanidade. Foi assim com Tropas Estelares, em que ele transformou um romance de ficção científica com tintas fascistas numa alegoria militaresca e xenófoba, com um elenco de catálogo de moda, em uma batalha espacial com uniformes e bandeiras que faziam uma alusão nada sutil ao nazismo. Elle poderia ser um thriller erótico, mas ele vai além não só porque a intenção do diretor é outra, mas também porque ele mesmo realizou o último do gênero do cinemão mainstream com Instinto Selvagem.

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Verhoeven dirige Huppert na cena em que sua personagem é estuprada

Elle é, afinal, sobre perda de controle – e o que alguém que vive sob sua bandeira é capaz de fazer para recuperá-lo. É sobre o que acontece quando uma pedra arremessada num lago causa ondulações. Sobre ação e reação. Sobre o poder do desejo, o fetiche com a violência. Sobre o voyeurismo de seus personagens que termina em choque com a nossa própria vontade de espiar a podridão do vizinho. Não é um filme fácil. Ao deixar de mostrar o que a platéia possa esperar, porém, Verhoeven entrega o exatamente que ela precisa: um filme que não dá respostas, mas estimula perguntas; que não aponta caminhos, mas pede uma reflexão. Que incomoda, provoca e polemiza.

A polêmica, claro, vem da voz de uma minoria ruidosa que, obviamente, não entendeu nada. Se RoboCop era “violento demais”, se o herói de Instinto Selvagem era “frágil demais”, se Showgirls tinha “sexo demais”, Elle foi rotulado como um filme que “glamuriza a cultura do estupro”. Acho que foi demais para os suspeitos de sempre ver um diretor (homem, branco, hetero) virar o conceito de “empoderamento feminino” ao avesso e dar à sua personagem um caminho oposto ao ''senso comum'' – o vitimismo, a introspecção, os gritos por justiça. Afinal, ela parece gostar do equilíbrio de poder que é estabelecido com seu atacante. Mas Elle não é, definitivamente, sobre um estupro: é sobre personagens complexos emaranhados numa mistura de sexo, desejo e violência. Nas mãos deste gênio que precisa produzir mais, é também um dos melhores filmes que o cinema entregou este ano.


A estranha vida do criador do Doutor Estranho
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Roberto Sadovski

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Calma, não estou falando de Stan Lee. Aos 89 anos, e ainda produzindo quadrinhos (e também alguns ensaios), Steve Ditko é o herói menos laureado não apenas do Doutor Estranho, agora sob os holofotes por causa do filme em cartaz pelo mundo, mas também do Homem-Aranha, sua criação mais popular. Ou co-criação, já que os heróis foram uma parceria de Ditko com Lee, ainda nos anos 60. Mas Stan, presença cativa em praticamente todos os filmes com o selo da Marvel, por décadas ficou com a parte do leão dos créditos e tornou-se o retrato de toda uma geração de super-heróis dos quadrinhos. Ditko, que rompeu com o parceiro ainda nos anos 60, escolheu o silêncio e pouco se sabe de seu lado da história. Ou melhor: pouco se sabe sobre ele, já que o artista não dá entrevistas a jornalistas pelo menos desde 1968, mais ou menos a mesma época em que fez sua última foto promocional.

O que existe é o mistério.

E não que Steve Ditko seja um recluso, um artista maldito escondido em alguma fazenda nos rincões da América. Seu estúdio em Manhattan tem endereço listado e seu nome na porta, e vez por outra algum jornalista mais intrépido arrisca um papo. Ocasiões como Doutor Estranho ter se tornado filme atiça o interesse, e foi com esse espírito que um repórter do site Vulture recentemente aventurou-se até o prédio que abriga o escritório de Ditko. Depois de alguns dias, e de conversar com os vizinhos, ele finalmente foi recebido pelo desenhista lendário, um encontro que durou cerca de….. seis segundos – antes que Ditko fechasse a porta bem na cara do repórter sem ao menos dizer um oi. Ok, pode até ter sido grosseria. Mas também está de acordo com o modo como Ditko decidiu tocar sua vida e sua carreira: com absoluta privacidade.

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O Homem-Aranha

Steve Ditko começou sua carreira em meados dos anos 50, emprestando seu traço para tramas de ficção científica e terror em editoras como Charlton e Harvey Comics. Mas foi em uma Marvel embrionária que ele saltou aos olhos do público. Stan Lee já havia criado o Quarteto Fantástico e estava trabalhando em novos conceitos. O Homem-Aranha era um ''laboratório'', um herói adolescente, com problemas reais e poderes que não lhe traziam nenhum alento. Jack Kirby, parceito habitual de Lee, desenhou um promeiro esboço, que o escritor achou ''heróico'' demais. Ditko, então, foi a escolha natural, e emprestou seu traço dinâmico ao adolescente Peter Parker. Embora a ideia do personagem fosse de Lee, foi Ditko quem lhe soprou vida, criando não só o traje icônico como motivos gráficos que caracterizam o herói e seus poderes – e que são usados até hoje.

A paternidade do herói, entretanto, tornou-se motivo de discórdia. Stan Lee não tinha problema em puxar a sardinha para o seu lado, e Ditko a princípio só queria continuar desenvolvendo o personagem – que, diga-se, ficava mais e mais parecido com sua própria personalidade. Nos dois primeiros anos do herói nas bancas, a explosão criativa, narrativa e de novos personagens foi impressionante, mas aos poucos ficava claro que o caminho de Ditko, e o modo como ele queria conduzir suas ideias e sua arte, batia de frente com o que Lee, também editor na Marvel, visualizava para o Aranha. Nesse ponto as histórias divergem: Ditko dizia que Lee simplesmente cortou todos os canais de comunicação; este, por sua vez, falou que seu artista um dia simplesmente falou que estava fora do título, virou as costas e não olhou para trás. John Romita assumiu The Amazing Spider-Man, já um fenômeno de vendas, esperando um óbvio retorno de Ditko – que jamais ocorreu.

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Doutor Estranho

A criação do Doutor Estranho ocorreu pouco antes deste rompimento, mas já trazia a fricção entre os dois artistas. É certo que o Homem-Aranha jamais surgisse como o mundo o conhece se fosse concebido unicamente por um ou por outro: ele é fruto da contradição, de ideias antagônicas, um moleque com o peso do mundo em seus ombros, impelido à ação por uma tragédia, mas que se transformava numa metralhadora vocal de humor e provocação no segundo em que saltava para entrar em ação contra um sem número de vilões. Mas o Mestre das Artes Místicas não trazia esse equilíbrio, surgindo mais do esforço de Ditko ante a apatia de Lee. ''Estamos trabalhando em um novo personagem para a Strange Tales, um 'tapa-buracos' de cinco páginas chamado Dr. Estranho'', disse Stan, em 1973, numa entrevista a um fanzine. ''A primeira história não é assim tão boa, mas talvez a gente consiga fazer algo com ele. Ele foi ideia do Steve.''

O legado de Steve Ditko na Marvel – dinamismo do Homem-Aranha e o psicodelismo do Doutor Estranho – tornou-se influência gigante para uma legião de artistas que o seguiu. Ele voltou para a Charlton, depois teve uma passagem pela DC e finalmente retornou à Marvel, já ao fim dos anos 70, onde emprestou seu traço para títulos como ROM e Homem-Máquina. Quadrinhos de super-heróis, entretanto, haviam se tornado canal para ele expressar a filosofia que ele seguia há um bom par de décadas: o Objetivismo, deselvolvido e introduzido pela obra da autora russo-americana Ayn Rand, em especial nos livros A Nascente e A Revolta de Atlas. Em seu pensamento, o homem enfatiza seus valores e suas ações à luz da razão, enfatizando as noções de individualismo, autossustentação e capitalismo. Não há muito espaço para áreas cinzentas, as ações valem mais que palavras. Talvez isso explique a recusa do artista em falar sobre seu trabalho: tudo que ele deseja expressar é sua arte, e não os conceitos por trás dela. ''Quando eu faço um trabalho, não estou poferecendo minha personalidade aos leitores, e sim a minha arte'', explicou em uma entrevista ainda no final dos anos 60. ''Como eu sou não importa, e sim o que eu fiz e se eu o fiz bem… Eu crio um produto, uma arte em quadrinhos.''

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O Questão

 

Por isso Ditko sempre foi um sujeito reservado. Por isso que outros artistas tinham dificuldade tremenda em trabalhar com ele. E por isso, claro, que existe tanto espaço para especular sobre sua vida e sua obra. Ele demonizou uma biografia publicada por Blake Bell em 2008, Strange and Stranger: The World of Steve Ditko, sem ao menos ler uma página sequer. De volta à Charlton, Ditko discutiu com o roteirista Steve Skeates, que colocava diálogos nas histórias do justiceiro mascarado O Questão, por causa de uma frase. ''Eu fiz o Questão dizer a um vilão, em resposta a algo que o malfeitor fizera, 'Bem, meu amigo, você não me impressionou tanto assim'.'', lembra Skeates. ''Ditko me escreveu uma carta de seis páginas explicando porque o Questão jamais chamaria um vilão de 'meu amigo'.'' Tom DeFalco, que fazia os plots de Homem-Máquina na Marvel do film dos anos 70, recebeu uma ligação inesperada do do artista, que começou uma discussão filosófica de quase duas horas ao telefome com um ''O que é um herói, e o que dá a você o direito de escrever histórias sobre heróis?''. Tenso.

Os quadrinhos mainstream aos poucos foram ficando para trás na carreira de Steve Ditko, cada vez mais focado em discutir e ilustrar o objetivismo. Seu prego no caixão dos super-heróis corporativos foi, ironicamente, uma última parceria com Stan Lee: Ravage 2099, de 1992, para a qual o então editor-chefe da Marvel, Tom DeFalco (o mesmo da discussão sobre direitos e heroísmo anos ants) arranjou um encontro do artista com o roteirista. Eles se abraçaram, falaram sobre os velhos tempos mas, no fim, Ditko não concordou com as ''insinuações filosóficas'' da história e, polidamente, declinou. Quando a Time publicou uma reportagem sobre o Homem-Aranha em 1998 e concedeu crédito somente a Stan Lee, Steve Ditko expressou seu profundo descontentamento em uma carta a uma publicação especializada em quadrinhos. Lee tentou colocar panos quentes, mas não havia volta. Curiosamente, e apesar de ter dito não receber um centavo de direitos autorais sobre os filmes milionários com o herói, uma vizinha, após receber por engano uma correspondência referemte a royalties pagos pelo estúdio, viu ''um cheque com uma fileira de zeros'' nominal a Ditko, Mais um mistério adicionado à lenda.

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Mr. A, personagem guiado pelo objetivismo

Uma lenda que, por sinal continua produzindo ensaios e tiras, sempre evangelizando o objetivismo de Ayn Rand – material que só pode ser encontrado em um punhado de lojas especializadas em quadrinhos ou por mala direta. Quase seis décadas depois de ter criado um dos personagens mais famosos da cultura pop em todo o mundo, o que move Steve Ditko continua sendo objeto de especulação. Talvez tudo que a gente já saiba sobre ele seja tudo que exista ou tudo que realmente importa. Ele não tem interesse em contato com fãs, em falar de sua arte, em participar de convenções, em adicionar uma sílaba ao que realmente importa: sua arte. O resto? Irrelevante.

Em um perfil publicado pela revista Wizard em 2002, quando Sam Raimi apresentou seu Homem-Aranha nos cinemas, o historiador de quadrinhos Greg Theakson contou sobre uma visita ao estúdio de Ditko, em que ele observou uma página de quadrinhos encostada na parede, retalhada por inteiro. Ele percebeu que Ditko usava as páginas antigas para cobrir sua mesa de trabalho enquanto cortava novas. Um olhar mais próximo detectou um selo do Comics Code, que regulamentava o teor das histórias, um alerta para dizer que era um original ali, aos pedaços. Theakson pediu para ver a página na parede e, apesar do olhar incisivo do artista, ele descobriu que se tratava de um original da série Journey Into Mystery, datado do final dos anos 50. Um pedaço de história da arte sequencial, que devia estar preservado num museu. Mas ali estava, sendo usado como proteção de mesa, pronto para ser retalhado.

Theakson ficou desesperado, sugeriu a Ditko que ele mesmo iria a uma loja de material para desenho na esquina mais próxima e compraria uma mesa de corte, com cobertura de plástico, e que ele não precisaria mais usar arte nenhuma. Ditko recusou. Theakson argumentou que, além do desenho provavelmente valer um bom dinheiro, ele tinha de reconhecer a importância de uma peça da história editorial americana. Movimento contínuo, Ditko afastou uma cortina da parede, e Theakson viu uma pilha que quase um metro de arte original, devolvida pelas editoras, que Ditko usava como folhas de corte. Ao menos 200 mil dólares de desenhos originais da Marvel, que seriam destruidos pelo artista que os criou. ''Ele não gostava da ideia de as pessoas acharem que seu melhor trabalho era o Homem-Aranha de 30 ou 40 anos atrás'', disse o historiador. ''Ele queria ser representado não pelo que havia feito, mas por seu trabalho contemporâneo, que o agora fosse seu melhor momento.'' Isso significaria, claro, que Steve Ditko nunca mais desenharia o Homem-Aranha outra vez. ''Provavelmente não'', teria dito o artista. ''Não estou interessado.''


Animais Fantásticos é lindo e empolgante… mas não é nenhum Harry Potter
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Roberto Sadovski

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Não se engane: Animais Fantásticos e Onde Habitam não é nenhum Harry Potter. Claro, o filme escrito por J.K. Rowling tem o mesmo DNA da saga do bruxo de Hogwarts, é ambientado no mesmo universo… mas as semelhanças param aí. Com Eddie Redmayne à frente do elenco, a aventura fantástica (duh) comandada por David Yates – talvez o diretor de blockbusters com menos voz do cinemão atual – é uma fantasia empolgante, estupidamente cara (cada centavo está impresso na tela), por vezes confusa e sem foco, mas acelerada e divertida. Mantém acesa a chama do mundo mágico criado no papel por Rowling e, pode ter certeza, vai faturar um gazilhão de dólares. Mas… não… se… engane: não é, nem por um segundo, Harry Potter.

O que não é, de cara, algo ruim. Animais Fantásticos funciona como um filme independente de toda a mitologia tecida ao longo de sete livros (e oito) filmes protagonizados pelo mago mirim. Ou seja, ninguém precisa de bula para encarar a aventura. As referências são esparsas: o futuro diretor da Escola de Magia Hogwarts, Alvo Dumbledore, é mencionado uma única vez. A geografia tem um oceano no meio: sai a fria Inglaterra, entra a Nova York pré Grande Depressão. Para o fã de Harry Potter, órfão desde que Daniel Radcliffe derrotou Ralph Fiennes em As Relíquias da Morte Parte 2, num já distante 2011, é difícil esconder a decepção. Se essa turma entrar no cinema disposta a caçar easter eggs e reacender sua paixão juvenil pelo bruxinho, a decepção é certa. Para o resto da humanidade, porém, a empreitada funciona como ponto de partida de uma nova série de fantasia, um refresco na receita do blockbuster moderno, habitada por super-heróis de todos os tipos.

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Colin Farrell coloca Eddie Redmayne na linha

A trama acontece em 1926, sete décadas antes do nascimento de Harry Potter, quando o mago britânico Newt Scamander (Eddie Redmayne, o mesmo chato de A Teoria de Tudo e A Garota Dinamarquesa, ao menos mais discreto do que em O Destino de Júpiter) chega à Grande Maçã com uma missão e uma maleta mágica repleta de criaturas incríveis. Sua visita, porém, esbarra numa crise enfrentada pela comunidade mágica americana: ataques devastadores e nada sutis no mundo dos humanos (aqui chamados de ''não-majs'', e não ''trouxas'') ameaçam expor a existência da magia. Em um país que ainda lembra do julgamento das bruxas de Salem, com fanáticos pelas esquinas alertando sobre o perigo da bruxaria, seria o estopim de uma guerra indesejada. A causa pode estar com o misterioso Gellert Grindelwald, um insurgente que acredita na supremacia dos bruxos e em seu direito de comandar a Terra.

Para o azar de Newt, criaturas mágicas estão banidas de território ianque, e quando algumas escapam de sua maleta – na verdade, um portal para o lugar onde ele abriga, estuda e cataloga dezenas de animais -, ele envolve-se por acidente com o não-maj Jacob Kowalski (Dan Fogler) e com Tina Goldstein (Katherine Waterston), uma feiticeira reduzida a um trabalho burocrático após revelar sua existência a uma humana. O filme, então, ganha duas frentes: a missão em recapturar a bicharada encantada por Nova York e a investigação para descobrir a origem dos ataques místicos. Tudo de forma clandestina, já que Newt e seus colegas terminam em lados opostos a Percival Graves (Colin Farrell), um auror (uma espécie de bruxo-policial, mas segue aqui comigo…) que demonstra saber mais sobre os ataques do que parece. Junte isso a uma criança de poder imensurável, que pode ser ''o escolhido'' para tocar o terror e fomentar a guerra entre humanos e bruxos, e voilá.

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O ''seminviso'' é um dos Animais Fantásticos que habitam o novo filme… (é, eu sei)

O maior defeito de Animais Fantásticos é não se contentar em ser um filme hermético, e sim o ponto de partida para uma nova série, que vai gerar (ao menos) mais quatro aventuras. Assim, boa parte da narrativa se ocupa de jogar pistas do que está por vir, como revelações sobre o passado de Newt, a adição de um Alvo Dumbledore mais jovem e a continuação da ameaça de Grindelwald – papel de Johnny Depp que, não é nenhum segredo, já dá as caras neste filme. Sempre que o longa se torna um trailer do filme seguinte, a coisa se arrasta, recuperando o fôlego quando a preocupação volta a ser resolver a tram em questão. Além disso. J.K. Rowling se mostra uma roteirista pouco inventiva: brilhante em tecer personagens, criaturas e a engrenagem da coisa toda; preguiçosa ao traçar caminhos comuns a blockbusters recheados de efeitos digitais, que se sobressaem muito mais do que qualquer laço com o universo que ela própria criou. Ela chega a ensaiar um subtexto mais profundo, em torno da preocupação de Scamander em fazer com que suas feras sejam vistas como animais que precisam ser compreendidos, e não destruídos, uma clara alusão a causas ambientalistas bem presentes em nosso mundo. Mas essa ideia Rowling desenvolve mal e logo a abandona no meio do caminho.

Ao menos, Animais Fantásticos e Onde Habitam entrega o espetáculo que promete. O design das criaturas é de beleza ímpar (a exceção é o Obscuros, que parece uma nuvem mal humorada como o Galactus do Quarteto Fantástico dos anos 2000), e a belíssima ambientação de época parece muito mais adequada para uma aventura mágica do que uma trama contemporânea. Afinal, em um mundo dominado pela tecnologia como o nosso, em que ''mágica'' parece parte de nossa rotina, ver criaturas inimagináveis soltas em meio a pessoas que ainda se espantavam com o rádio ou o automóvel, deixa o espetáculo mais crível. Ajuda também o elenco ''comprar'' totalmente a ideia do filme. Eu admito que minha confessa má vontade com Eddie Redmayne desceu um par de degraus, mas o filme ganha mais vida com o flerte de Dan Fogler e Alison Sudol (a bruxa telepata Queenie), mais sombras com o quase sempre esquisito Ezra Miller (Credence, filho de uma fanática que quer uma nova caça às bruxas) e mais poder com Colin Farrell, que merecia mais tempo em cena para devorar o que restou do cenário. Animais Fantásticos e Onde Habitam não é mesmo um novo Harry Potter. Se lhe for dada a chance, porém, nem precisa ser.


Do pior ao melhor, um ranking com todos os filmes da Marvel
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Roberto Sadovski

Newmarvelstudioslogo

Doutor Estranho chega em sua segunda semana em cartaz ainda no topo das bilheterias. Se alguém me falasse uma década atrás que o Mago Supremo seria protagonista de um filme de sucesso, certeza que eu daria risada. Mas a Marvel conseguiu este feito. Oito anos e quatorze filmes depois de iniciar seu Universo Cinematográfico, o gigante do entretenimento, parte da Disney há alguns anos, aperfeiçoou uma fórmula que alia qualidade com sucesso que muitos estúdios estão correndo atrás do prejuízo para copiar.

Mas nem tudo é essa beleza toda, e a Marvel já deu algumas escorregadas. Mesmo que nenhum dos filmes seja um dejeto cinematográfico (cofcofBvScofcof…), alguns não atingiram o nível de excelência esperado e existem apenas para cumprir tabela. Pense em ''Marvel'' como uma longa série, completamente interconectada, com alguns capítulos mais preguiçosos do que outros. Eu revi a todos antes do lançamento de Doutor Estranho e organizei tudo em um ranking bacana, que você confere a seguir – vale ressaltar que só coloquei no bolo os filmes do Universo Cinematográfico Marvel, ficando de fora as produções que contam com o selo do estúdio mas não fazem parte deste mundo compartilhado, como os X-Men da Fox e os cinco Homem-Aranha da Sony. Concorda, discorda, quer pedir uma pizza? Então capricha nos comentários!

14- THOR: O MUNDO SOMBRIO
(Thor: The Dark World, Alan Taylor, 2013)

dark world

Uma história de amor que nunca convence, um vilão ausente e muito corre corre sem propósito marcam o segundo filme do Deus do Trovão no cinema. O diretor Alan Taylor não gostou nem um pouco de trabalhar ao lado do ''coletivo'' que direciona os filmes da Marvel e sua insatisfação está impressa em cada pedaço deste Mundo Sombrio. O show, para variar, é de Tom Hiddleston, que fez de Loki o antagonista mais bacana de todos os filmes deste universo. Mas seu charme é pouco para salvar essa aventura esquecível, confusa e, no fim das contas, dispensável.

13- HOMEM DE FERRO 2
(Iron Man 2, Jon Favreau, 2010)

iron man 2

É quase impossível acreditar que o mesmo Jon Favreau comandou as duas aventuras do Vingador Dourado. Se o primeiro filme (que está bem mais perto do topo nesta lista) é charmoso e surpreendente, a única função da segunda parte foi ajudar a estabelecer o Universo Marvel como uma entidade que ia bem além de aventuras isoladas. Assim, a SHIELD tem um papel mais decisivo, assim como a Viúva Negra ganha sua estreia no cinema. Mas Homem de Ferro 2 ainda sobrevive alimentado exclusivamente pelo charme infinito de Robert Downey Jr., que compreendeu seu papel dentro da Marvel e se tornou o jogador mais valioso do time.

12- O INCRÍVEL HULK
(The Incredible Hulk, Louis Leterrier, 2008)

hulk

Pouca gente lembra que o segundo filme com o Gigante Esmeralda é parte integral do UCM (vamos abreviar a coisa a partir daqui). Depois que Mark Ruffalo criou sua melhor versão em Os Vingadores, porém, é tenso rever Edward Norton pouco à vontade como Bruce Banner, que foge dos militares em busca do segredo da radiação gama em suas veias. Depois da criatura emborrachada do filme de Ang Lee (que fez Hulk em 2003), o design digital melhorou um pouco, mesmo que muitas vezes não pareça parte do cenário. Ainda assim, o clímax no Harlem, destruido num quebra-pau do Hulk com o Abominável (Tim Roth) é caprichado. William Hurt, o general Thadeus Ross, voltou à cena em Capitão América: Guerra Civil. O resto do elenco não teve tanta sorte assim….

11- THOR
(Kenneth Branagh, 2011)

thor

Thor deixou claro o maior atributo da Marvel: escolher os atores certos para papéis-chave. O filme de Kenneth Branagh, uma fantasia cósmica que infelizmente passa pouco tempo no reino místico de Asgard e concentra a ação na Terra, trouxe dois dos maiores acertos de elenco do estúdio. Como Thor, Chris Hemsworth equilibra arrogância e majestade, poder e lealdade – mesmo que ele se sobressaia muito mais em filme com outros jogadores do mesmo tabuleiro de heróis. Mas o filme é de Tom Hiddleston (mais uma vez), que deu a Loki a ambiguidade necessária para que o Deus da Mentira surgisse como grande engrenagem na máquina da Marvel. Com motivações reais e uma mistura de fúria, carência e desespero, é em Loki que o filme de Branagh encontra seu pulso.

10- VINGADORES: ERA DE ULTRON
(Avengers: Age of Ultron, Josh Whedon, 2015)

age of ultron

Se existe um pecado em Era de Ultron, é que o filme evidencia a dependência da Marvel em sua fórmula. Mais sombrio que seu antecessor, a segunda aventura dos Heróis mais Poderosos da Terra traz um clímax igualmente similar ao primeiro filme (os heróis enfrentam inimigos sem rosto que surgem às centenas) e coloca muita gente em cena para dar a cada um tempo de respiro. O outro lado é que, quando este Vingadores funciona, é para aplaudir de pé. As relações entre personagens se mostram mais complexas (em especial Bruce Banner e a Viuva Negra), as cenas de ação são tecnicamente perfeitas e o Visão (Paul Bettany) é um achado. Precisamos de mais Joss Whedon nos cinemas!

9- CAPITÃO AMÉRICA: O PRIMEIRO VINGADOR
(Captain America: The First Avenger, Joe Johnston, 2011)

cap first avenger

Minha maior dúvida antes de ver Capitão América era Chris Evans. O personagem pertence a uma época mais inocente, e seria bem complexo lhe dar credibilidade com nossa sensibilidade cínica do novo século. A melhor notícia depois de ver o filme de Joe Johnston foi, portanto, ver que Evans não só fez um trabalho de primeira, como seu Steve Rogers, o soldado franzino que, no auge da Segunda Guerra Mundial, torna-se o combatente mais poderoso do planeta, convence sem uma ponta de ironia com seu bom mocismo, lealdade à pátria e total altruismo. Sem falar que O Primeiro Vingador é o produto mais charmoso do estúdio, um filme de guerra disfarçado de aventura de super-herói que confere relevância ao UCM e um padrão bem alto para todos os super-heróis que vieram depois.

8- HOMEM DE FERRO 3
(Iron Man 3, Shane Black, 2013)

iron man 3

Fãs de filmes de super-heróis são engraçados. Reclamam quando as aventuras parecem saídas de linha de montagem, e também reclamam quando um diretor mete a mão e torce a fórmula ao avesso. A melhor coisa da terceira aventura do Homem de Ferro é justamente não dar o que o público espera. A revelação da identidade do vilão Mandarim deixou muita gente ressabiada, mas é perfeita no jogo de fumaça e espelhos tecido por Shane Black. Uma das grandes sequencias de ação da Marvel também está aqui: o resgate de uma dúzia de pessoas literalmente derramadas de um avião. Um filmaço que funciona como trama isolada, ao mesmo tempo em que encaixa-se à perfeição na engrenagem do UCM.

7- HOMEM-FORMIGA
(Ant-Man, Peyton Reed, 2015)

Marvel's Ant-Man Ant-Man/Scott Lang (Paul Rudd) Photo Credit: Film Frame © Marvel 2015

Quando um estúdio consegue transformar um personagem sequer do terceiro escalão em protagonista, alguma coisa está muito, mas muito certa. Homem-Formiga passou por um longo e doloroso processo de amadurecimento, perdeu seu diretor original (Edgar Wright) e apontava como o primeiro fracasso da Marvel. As aparências enganam. Peyton Reed, escolhido para conduzir a aventura, fez da história do ladrão Scott Lang (Paul Rudd, charme personificado) um heist movie, ou ''filme de roubo'', que por acaso também é uma trama de super-heróis. Tudo em Homem-Formiga funciona, dos efeitos especiais espertos ao elenco, mais uma vez coroando a expertise do estúdio em escolher seus jogadores. Sem falar que, a essa altura, eu veria um filme-solo do personagem de Michael Peña sem nenhum problema.

6- DOUTOR ESTRANHO
(Doctor Strange, Scott Derrickson, 2016)

Marvel's DOCTOR STRANGE..Doctor Stephen Strange (Benedict Cumberbatch)..Photo Credit: Film Frame ..©2016 Marvel. All Rights Reserved.

Marvel's DOCTOR STRANGE..Doctor Stephen Strange (Benedict Cumberbatch)..Photo Credit: Film Frame ..©2016 Marvel. All Rights Reserved.

A essa altura do campeonato, é de aplaudir em pé que a Marvel ainda consiga entregar filmes originais e inovadores. Mesmo sendo um ''filme de origem'' bastante fiel às ''regras do gênero'', a transformação do cirurgião Stephen Strange (Benedict Cumberbatch) no Mago Supremo de nossa realidade (o que ainda não acontece neste filme, mas a estrada foi pavimentada) encontra espaço para quebrar estas mesmas regras. Primeiro, com todo o papo  exotérico atrelado ao personagem. Segundo, por escolher uma resolução nada física para combater a ameaça da vez. Com humor bem dosado – imprescindível para humanizar os personagens -, efeitos visuais inovadores ao cubo e um elenco que parece se divertir tanto quanto o pessoal do lado de cá, Doutor Estranho é mais um triunfo.

5- HOMEM DE FERRO
(Iron Man, Jon Favreau, 2008)

iron man

O filme que deu o pontapé inicial ao UCM ainda é uma de suas aventuras mais espetaculares. Tudo (ou quase) repousa nos ombros de Robert Downey Jr. que, numa das decisões de casting mais felizes da história, transformou Tony Stark de jogador da reserva em titular absoluto no universo dos super-heróis. Sua jornada, de bilionário arrogante a sobrevivente a herói, é temperada com sequencias de ação aceleradas, um elenco em perfeita sintonia e um vilão que, além de carregar a marca da traição, surge com uma motivação forte e crível. A ponta de Sam Jackson pós-créditos (que se tonou uma tradição) foi a cereja no bolo de um universo em criação. Só não foi o melhor filme do ano em que foi lançado porque um certo Cavaleiro das Trevas aumentou as apostas. Ganhamos nós!

4- GUARDIÕES DA GALÁXIA
(Guardians of the Galaxy, James Gunn, 2014)

Marvel's Guardians Of The Galaxy..L to R: Drax the Destroyer (Dave Bautista), Gamora (Zoe Saldana), Groot (voiced by Vin Diesel) and Peter Quill/Star-Lord (Chris Pratt)..Ph: Film Frame..?Marvel 2014

Guardiões da Galáxia é diversão pura. É como Os Caça-Fantasmas ou De Volta Para o Futuro: uma experiência para rir junto, aplaudir junto, compartilhar com um cinema cheio. Apesar das ligações com o UCM, essa fábula espacial caminha com pernas próprias, sem que o público preciso de uma bula para entender. A trama: para salvar a galáxia de um artefato de poder quase infinito, um grupo de mercenários, formado quase que ao acaso, precisa se unir para impedir que um vilão interplanetário coloque as mãos na tal peça. No meio do caminho, uma trilha que passeia pelo pop dos anos 70 e 80, um elenco afiado feito navalha – liderado pelo anti herói Peter Quill (Chris Pratt), o Han Solo da nova geração – e um diretor que sabe exatamente o que fazer com os brinquedos à disposição.

3- OS VINGADORES
(The Avengers, Josh Whedon, 2012)

avengers

Ainda é difícil acreditar como o plano da Marvel deu tão certo no cinema. Há uma década, um filme como Os Vingadores seria inimaginável. O planejamento, o esforço, a união dos protagonistas de vários outros filmes sob um mesmo teto. Mas Joss Whedon fez o trabalho parecer fácil com sua trama de invasão alienígena em uma aventura que é puro escapismo. Ele não deu ponto sem nó, e Os Vingadores ainda é não só o ápice de um processo que deu certo – e que consolidou o UCM -, como também é a arquitetura perfeita quando o assunto é juntar vários heróis em um único filme. E ter o Loki de Tom Hiddleston como vilão só deu um tempero à mais para a coisa toda.

2- CAPITÃO AMÉRICA: O SOLDADO INVERNAL
(Captain America: The Winter Soldier, Joe e Anthony Russo, 2014)

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Posso apontar um empate técnico? Os dois filmes dos irmãos Russo são o melhor que a máquina da Marvel pode oferecer, e se O Soldado Invernal não alcança a dianteira é por menos de um nariz. Um thriller político travestido de aventura de super-heróis, com direito a Robert Redford como xerife do mundo livre (spoiler: só que não…), o segundo filme do Capitão América tem suspense a rodo, ação ininterrupta e personagens por quem nos importamos, o que lhe confere mais peso dramático. Isso, sim, que é entretenimento bem azeitado, com os fogos de artifício emoldurando uma trama coesa, de consequências trágicas. Para tirar o chapéu!

1- CAPITÃO AMÉRICA: GUERRA CIVIL
(Captain America: Civil War, Joe e Anthony Russo, 2016)

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Guerra Civil é o melhor filme que a Marvel já produziu, e é também o que mais se afasta da fórmula do estúdio. Afinal, não existe um vilão propriamente dito, e sim um personagem que serve como catalizador para aumentar as rachaduras na relação entre os protagonistas. É um filme sobre consequências, principalmente das ações dos Vingadores, que deixam um rastro de danos colaterais que nao pode ser ignorado. Tony Stark aceita operar sob supervisão da ONU; Steve Rogers, por outro lado, acredita que a equipe só consegue operar se não tiver amarras. Some isso a uma caçada humana (o alvo é Bucky, companheiro do Capitão na Segunda Guerra, transformado no terrorista Soldado Invernal) e o palco está montado para aliados se enfrentarem em um conflito que não terá vencedor. Guerra Civil é, acima de tudo, um filme de super-heróis, com direito a mascarar seu realismo com uma dose cavalar de humor e fantasia. O toque de mestre? Introduzir o Homem-Aranha no Universo Cinematográfico Marvel. Melhor é impossível!

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O Nascimento de Uma Nação é importante como realização e fraco como cinema
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Roberto Sadovski

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O Nascimento de Uma Nação é um filme importante. Aborda um fato histórico da época da escravidão americana, um ato de revolta que foi o primeiro grito de negros em grilhões contra seus senhores. Como realização, é uma produção amplamente afro-americana e um esforço formidável de seu realizador, Nate Parker, que divide as funções de diretor, roteirista, produtor e astro do filme. É também notável por ter chegado ao mercado, no Festival de Sundance realizado em 25 de janeiro passado, em meio à euforia da falta de representatividade durante a temporada de premiações que culminou em protestos ao longo da última festa do Oscar. Mereceu aplausos no mesmo festival antes mesmo de a sessão começar. É uma história sobre empoderamento, sobre o poder da pregação religiosa e suas consequências morais, sobre a coragem de erguer-se contra um sistema opressor. É, enfim, um filme importante.

Pena que, como obra cinematográfica, seja trabalho de um cineasta menor, cujas falhas gritantes são encobertas pela relevância do tema. De ritmo irregular e uma tendência ao melodrama, o filme de Parker explora a vida de Nat Turner, escravo que aprendeu a ler e foi elevado à condição de pastor. Com seu dono (Armie Hammer) tropeçando nas finanças, Turner é levado a pregar a palavra divina a negros escravizados e à beira do motim, para apaziguá-los manipulando as escrituras. Em suas andanças, porém, ele testemunha as condições sub humanas de seus pares, o que, somado à humilhações pessoais, culmina numa revolta que, em dois dias, fez um grupo de escravos matar dezenas de seus donos, antes de serem reprimidos violentamente. Uma história poderosa, que traz matizes incômodas com os tempos atuais, mas que perde sua força com a mão pesada de seu diretor.

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Jackie Earle Haley faz seu trabalho sujo

O maior pecado de O Nascimento de Uma Nação é, a grosso modo, sucumbir ao ego. Municiado de um pedaço de história banhado em violência, Parker não consegue dar a seu personagem o conflito interno que o levou a explodir em revolta. O diretor sugere uma influência da Bíblia em momentos de opressão e de catarse, mas não é claro quanto à ambiguidade de seu protagonista: Nat Turner termina retratado como uma figura messiânica, não como um homem quebrado pela escravidão. Deixar de mostrar a violência extrema com que a revolta liderada por Turner foi conduzida também resvala em parcialidade: a revisão histórica dificilmente é um quadro em preto e branco, mas as enormes nuances em cinza são deixadas de lado para enfatizar a urgência do ato ocorrido em 1831. Talvez em mãos mais experientes, e com um elenco mais calejado, O Nascimento de Uma Nação fosse além da biografia projetada cuidadosamente para se destacar na temporada de premiações (o que eu duvido que ganhe tração) e se tornasse o grande filme que por vezes ensaia ser.

Ainda assim, o drama funciona como um espetáculo linear e sem muitas firulas, que ganha pontos menos pela habilidade de seu diretor e mais pela extrema força de vontade em passar sua mensagem – ou mensagens. Mesmo que a revolta liderada por Nat Turner só seja finalmente desvendada já no terceiro ato do filme, Nate Parker tem mérito em mostrar seus protagonistas como seres humanos em busca de vingança. Ele também evita a armadilha de salpicar o filme com a figura demonizada do homem branco escravagista (mesmo que não resista exagerar o tom com o personagem de Jackei Earle Haley, que caça escravos fugitivos). Do lado de cá, vale ressaltar, O Nascimento de Uma Nação funciona como motor da recuperação do orgulho de cineastas afro americanos, que precisavam de uma voz potente em um momento de afirmação e ganharam, na obra de Parker, o veículo perfeito.

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Nat Turner prega a palavra divina para manter o negro dócil

Ainda assim, o filme não garantiu o ruído necessário para quebrar barreiras e atingir um público mais robusto. O Nascimento de Uma Nação foi um fracasso nas bilheterias, com uma abertura de 7 milhões de dólares, que sequer arranham os 17 milhões pagos pela Fox Searchlight pelos direitos de distribuir o filme aós a recepção em Sundance. Os sonhos de chegar à festa do Oscar com os dois pés na porta já deixaram as conversas sobre o prêmio, e Nate Parker sai arranhado com acusações de estupro, a ele atribuídas quando ainda era estudante universitário. A polêmica manchou o filme, que já não se sustentava como espetáculo de massa. O diretor foi ousado ao mirar alto, o que já fica óbvio no título escolhido, o mesmo do filme de D.W. Griffith que, em 1915, aplaudia o surgimento da Ku Klux Klan. Mas falhou ao tentar escrever seu nome na história do cinema negro americano com um filme que, apesar das intenções, ganha aspas em sua importância.


Depois da polêmica, diretor do novo Caça-Fantasmas diz: “Não mudaria nada!”
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Roberto Sadovski

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Se existe uma coisa que Paul Feig lamenta, depois da polêmica completamente desproporcional levantada por seu Caça-Fantasmas, é o tempo perdido. Não com o filme, com o processo ou com o imenso prazer que foi dar novo fôlego e nova cara ao clássico moderno de 1984. Se ele pudesse voltar no tempo, porém, não daria tanta bola para a minoria ruidosa que tentou colocar a produção no chão antes mesmo que as câmeras começassem a rodar. E só. E seu filme? ''Tenho muito orgulho dele, eu não mudaria nada'', dispara, sem hesitar.

“Aprendi a colocar tudo em perspectiva”, conta Feig, ao telefone, já com Caça-Fantasmas chegando ao mercado de blu ray e DVD. “Acho que o momento que vivemos é muito interessante, as mídias sociais são uma ferramenta fabulosa, os fãs agora tem voz. Os que gritam alto e com fúria são poucos, perder tempo com eles é bobagem.” Feig admite que não devia ter deixado toda a controvérsia lhe afetar tanto, o que lhe ensinou uma lição valiosa: “As pessoas querem assistir aos filmes que elas gostam, querem rir, querem ter uma experiência bacana. Essa é a única coisa que eu posso controlar, que é tomar decisões baseadas no que é melhor para o filme”.

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As Caça-Fantasmas durante as filmagens

Caça-Fantasmas chegou ao cinema com uma aura pesada e com a tal “minoria ruidosa” espumando em fúria na internet. O motivo? Feig escalou um elenco de comediantes, todas mulheres, para compor sua equipe. Nada mais óbvio: quando o estúdio colocou o projeto nas mãos do responsável por Missão Madrinha de Casamento e As Bem Armadas, era certo que ele ia chamar atrizes com quem ele tem afinidade e de quem já conseguiu performances incríveis.

Mas a tropa dos descontentes não deixou por menos, e atacou o filme de ponta a ponta, fazendo com que boa parte do tempo dedicado por equipe e elenco para falar sobre seu trabalho foi gasto com uma polêmica vazia. “A regra é confiar no próprio taco”, explica o diretor. “É por isso que eu faço várias sessões-teste, para fazer meu trabalho de forma com que o público se divirta. Este tem de ser o único objetivo. Todo mundo que faz entretenimento popular tem de ter isso em mente”

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Paul Feig e seu elenco no set de Caça-Fantasmas

A versão de Caça-Fantasmas que chega em blu ray é levemente diferente da lançada no cinema, com 15 minutos a mais. “Para a versão do cinema algumas cenas ficaram de fora por não funcionar tão bem para uma experiência coletiva”, explica Feig. “São coisas que, no cinema, podem frear o ritmo da narrativa. E comédia é ritmo!” O segredo, diz, é capturar o clima do set. Feig gosta de deixar seu elenco livre para improvisar e, mesmo numa produção desse porte, é o que mantém a energia em alta. “Não deixar a imaginação solta seria um verdadeiro crime”, continua. “Comédia é viver aquele momento, precisa ser natural. Não é sobre contar piadas.”

Mesmo com uma bilheteria global de pálidos 230 milhões de dólares, longe do padrão de qualquer blockbuster moderno e abaixo até do que o filme original arrecadou mais de três décadas atrás, uma continuação de Caça-Fantasmas não está descartada. “Eu ainda acho que o céu é o limite”, empolga-se Feig. “A equipe de Ivan (Reitman, produtor que comanda a marca) está desenvolvendo várias ideias.” O núcleo da série é ter gente engraçada enfrentando o paranormal com tecnologia, um mundo que pode ser explorado de várias maneiras. Antes mesmo de o filme de Feig ser lançado, o estúdio flertava com variações do tema, com filmes mais inclinados à ação explorando novas equipes. Tudo isso, até o momento, está em pause.

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Chris Hemsworth, ainda por cima, sabe cantar!

Paul Feig, entretanto, seria o primeiro a voltar ao barco. “Eu adorei a minha equipe, fiquei feliz em deixar minha marca e me reuniria a ela num piscar de olhos”, empolga-se, já compartilhando suas próprias ideias para uma continuação. “Seria bacana sair dos Estados Unidos, levar o time para outros países, dar um gosto internacional à série”, continua. “Cada país tem seus próprios fantasmas, essa abordagem seria divertida.” Pergunto se a equipe, além de Melissa McCarthy, Kristen Wiig, Kate McKinnon e Leslie Jones, também incluiria Chris Hemsworth. “Não faria sem ele!”, empolga-se. “Chris sabe rir de si mesmo, adorou a ideia de ele ser o recepcionista do time e é inacreditável no improviso.” Paul Feige dá um respiro e arrisca um ar de decepção: “Sabe, na vida ou você é muito bonito ou você é engraçado… Ele é ambos, e ainda por cima sabe cantar! A vida é muito injusta…”.