Roberto Sadovski

Quem precisa de polêmica quando se tem Sonia Braga?
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Roberto Sadovski

Aquarius

Ao chegar no topo da escadaria que leva ao Palácio dos Festivais, durante a última edição de Cannes, o elenco de Aquarius ensaiou um protesto contra o governo interino no Brasil, com cartazes que denunciavam um golpe em curso no país: polêmica, confusão! Um dos membros da comissão que vai escolher o representante brasileiro para uma vaga ao Oscar de filme estrangeiro ano que vem expôs, em redes sociais, sua posição política radicalmente diferente à do diretor de Aquarius: barulho, indignação! O filme recebe classificação indicativa com exibição liberada apenas para maiores de 18 anos pelo Ministério da Cultura: censura, revanchismo! Alguns diretores que concorrem à mesma vaga para o Oscar retiram seus filmes do páreo em solidariedade a Aquarius: absurdo, encrenca!

As últimas semanas foram bombardeadas com notícias relacionadas ao segundo longa do pernambucano Kleber Mendonça Filho. Do lado de cá, o público parece se dividir em quem apoia a obra e todos com ela envolvidos – seja com  sintonia ideológica e/ou partidária, seja por simpatia a uma causa –, e quem nela enxerga o tipo de vilão que, vai saber o motivo, demonizou as leis de incentivo à cultura no país. Falem bem, falem mal, falem pra caramba: Aquarius se tornou o lançamento mais comentado dos últimos meses. Difícil lembrar que, em meio à celeuma, existe de fato um filme. Um belo filme, que parece sufocado ante a gritaria dos prós, dos contras e de quem adora jogar lenha na fogueira. Mas este drama de alma pernambucana não precisava de nada disso. Em primeiríssimo lugar, ele tem Sonia Braga.

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Sonia Braga, entre Julia Bernat e Pedro Queiroz, dá um rolê na praia

Vamos então dar um passo para trás, esquecer o burburinho e a politicagem completamente fora de lugar (de todos os lados) e nos concentrar no que realmente interessa aqui: o filme. Aquarius não é um filme político, ao menos não na tradição da obra de Costa-Gavras, Ken Loach, Pontecorvo ou Jim Sheridan. E nem precisa. Mendonça é um cineasta com uma visão bem definida sobre luta de classes, herança social e o momento político, presente e passado, que permeia cada aspecto do Brasil. É claro que, quando ele se dispõe a contar uma história, essa visão será traduzida em palavras, imagem e som, uma tapeçaria que dificilmente fugiria de um posicionamento firme. Em seu primeiro longa, o ruidoso e superestimado O Som ao Redor, essa visão se perdia numa cacofonia que, embora proposital, era estridente e nunca deixava clara nem a estrutura, nem os protagonistas, nem a história que ele queria contar. Era uma tese que nunca se traduziu em um filme completo.

Aquarius, felizmente, é um animal com mais fôlego. Kleber usou a mesma temática – o abismo entre as classes, o momento em que elas se chocam, a reverberação que ecoa – em uma trama mais enxuta e mais vigorosa. Como O Som ao Redor, é um filme mergulhado na nostalgia, com o passado informando o presente e apontando o futuro; ao contrário de O Som ao Redor, a jornada não é vista com fúria, e sim com ternura. No centro está Clara, ex-jornalista, escritora e crítica musical que vive sua aposentadoria no mesmo edifício, na praia de Boa Viagem, no Recife, há mais de três décadas. Em paredes forradas de discos, livros e história, ela enxerga seu canto não apenas como um teto, mas como parte do pilar que compoe sua própria existência. Mas o futuro bate à porta, os proprietários do prédio lhe fazem propostas para vender seu apartamento e ela, como última moradora, é o entrave para a chegada da modernização. É nesse combate que jaz o conflito central de Aquarius.

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Kleber Mendonça Filho (de óculos) dirige Aquarius

Claro que Kleber Mendonça não tem interesse em fazer um arremedo de Rent!, não quer simplesmente colocar em cena uma luta maniqueísta de Davi e Golias. E nem poderia. Completamente apaixonado por Clara, o diretor e roteirista não só criou uma das personagens mais completas e complexas do cinema brasileiro contemporâneo, como tomou sua melhor decisão ao deixá-la nas mãos de Sonia Braga. A atriz, por sua vez, abraçou a causa e entregou uma performance que não só eleva o filme, mas também cria um patamar altíssimo a ser seguido de perto pelo elenco. Clara é uma criatura de detalhes, e é nos detalhes que habita a força narrativa de Aquarius. Dividido em três atos distintos, informados por flashbacks e uma economia narrativa que atesta a maturidade do diretor, o filme assume uma posição mas não deixa de apresentar um panorama maior. Existe a real preocupação dos filhos de Clara com o futuro da mãe, habitando o que é referido pela personagem de Maeve Jinkings como um “edifício-fantasma”. Já os donos da construtura, representados pelo engenheiro-e-playboy Diego (interpretado com canalhice suave pelo ótimo Humberto Carrão), podem ser insensíveis com sua história, mas trazem argumentos sólidos para desalojar Clara (ela pode ir para um lugar mais seguro, sua “teimosia” causa um revés financeiros para dúzias de outras famílias, trabalhadores e herdeiros).

Não há soluções fáceis em Aquarius – assim como não há soluções fáceis na vida. E o que se desenrola em longos 142 minutos (não seria nenhum pecado enxugar um naco dessa metragem) é um recorte, com a trama principal emoldurando um retrato sólido do que é viver em uma metrópole brasileira no novo século, em que compaixão e cortesia são substituidos por dinheiro e ignorância. Em que uma mulher na terceira idade (a melhor idade?), absolutamente capaz de ditar os rumos de seu próprio destino, é vista como uma “senhora caprichosa”, com poucos enxergando o tamanho de sua lucidez. Em que pessoas de verdade vivem dramas de verdade, envolvendo família (um momento com Clara e seus três filhos é o pedaço mais emocionante de cinema feito no Brasil recente), mágoa, relacionamentos, patrões, empregados, história, desejo e sexo – seria uma brevíssima suruba o motivo da moralista restrição para menores de 18 anos?

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Irandhir Santos e Sonia Braga discutem a posição da maré

Ainda assim, Aquarius não junta-se à boa parte do cinema autoral brasileiro e seus filmes herméticos, cuja compreensão depende de manual e bula. Sua narrativa é clara, sua história é linear e seus conflitos informam a evolução dos personagens em vez de atrapalhar. Mesmo quando a trama parece emperrar, lá por uma hora e meia de história, Mendonça recupera o equilíbrio e entrega uma conclusão forte, abrupta e absolutamente condizente com a protagonista desenhada até então. Com Sonia Braga em total domínio de seu ofício como atriz, o filme encontra sua humanidade e sua força. É a melhor colaboração intérprete/diretor vista no cinema brasileiro desde que Walter Salles colocou Fernanda Montenegro na estrada em Central do Brasil. Esqueça, portanto, a politicagem tola, o ruído dos bastidores, a turma a favor e o pessoal contra: esqueça todo o som ao redor. Aquarius está bem acima disso. E, como cinema, ele merece a chance de brilhar sozinho.


Morre Gene Wilder. Com ele, também se vai um pedaço de minha infância
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Roberto Sadovski

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Como boa parte de minha geração (quatro décadas e trelelê nas costas), tive um de meus primeiros contatos com cinema, com histórias que tocam fundo na alma e nos sentidos, assistindo a A Fantástica Fábrica de Chocolate. Não na tela grande, veja bem, já que nasci dois anos depois do lançamento do filme. Mas em casa, provavelmente em uma sessão da tarde da vida. Mesmo com a explosão de cores e sons do longa de Mel Stuart, mesmo com as risadas nervosas e a tensão genuína impressa em cada frame da adaptação do clássico de Roald Dahl, mesmo com a vontade gigante de estar no lugar de Charlie e viver aquela aventura mágica, a imagem impressa em minha mente era a expressão insanamente fora da caixinha de Willy Wonka. Ou melhor de Gene Wilder. Foi ali, comendo pipoca com ki-suco, esparramado no sofá, que um pedacinho de minha infância ganhou um marco.

Hoje, esse mesmo pedacinho ficou mais triste. Aos 83 anos, Gene Wilder morreu em decorrência de complicações causadas pelo mal de Alzheimer. Já estava aposentado, mesmo que nunca tenha ficado ausente, graça a um legado incomparável. À medida que fui ficando mais velho, e meu futuro profissional estreitava-se em direção ao cinema, Wilder foi ficando mais presente. O acompanhei no cinema quando podia. Primeiro em A Dama de Vermelho, o qual também dirigiu, em que ele voltava sua expressão maníaca, equilibrada com um olhar cheio de ternura, para Kelly LeBrock. Depois em Lua de Mel Assombrada, que ele mais uma vez dirigiu. Finalmente, em suas parcerias derradeiras com Richard Pryor, Cegos Surdos e Loucos, de 1989, e Um Sem Juízo, Outro Sem Razão, que terminou como seu último filme para o cinema, em 1991.

Mas foi em constantes visitas à videolocadoras, e em sessões nas madrugadas televisivas, que pude descobrir o gênio que ele era. Primavera Para Hitler e O Jovem Frankenstein, ambos de Mel Brooks, foram os primeiros, indicações de um padrinho que sabia minha vontade de conhecer mais e mais sobre cinema. Depois vieram Banzé no Oeste (outro de Mel Brooks, uma das maiores comédias de todos os tempos) e Tudo Que Você Queria Saber Sobre Sexo (de Woody Allen). O Expresso de Chicago (de Arthur Hiller, que foi Supercine, não Sessão da Tarde) foi o começo da parceria com Richard Pryor, que explodiu com Loucos de Dar Nó, dirigido por Sidney Poitier em 1980. Se os loucos tomam conta do asilo em Hollywood, Gene Wilder trafegava a linha entre médico e paciente com maestria.

No crepúsculo de sua carreira, entrando nos anos 90, Gene Wilder já era ídolo entre seus pares. Ele protagonizou o filme para a TV The Lady in Question em 1999 e lentamente foi se retirando dos holofotes, brilhando uma última vez em um par de episódios da série Will & Grace, que lhe rendeu um Emmy. Ano passado, enquanto filmava O Bom Gigante Amigo, Steven Spielberg tentou lhe retirar da aposentadoria, colocando-o em um papel pequeno na fábula, que adaptava outra história de Roald Dahl. Não aconteceu. Wilder já apresentava sintomas avançados de Alzheimer, embora estivesse nos poucos casos em que a doença não o priva da capacidade de reconhecer aqueles mais próximos. “A escolha de revelar sua condição somente neste momento não foi movida por vaidade'', disse, em nota, seu sobrinho, Jordan Walker-Pearlman. “Ele apenas não queria que as crianças que ainda o reconheciam como Willy Wonka transformassem júbilo em tristeza ao vê-lo. Gene não podia suportar a ideia de ter um sorriso a menos no mundo.'' Charlie, e a criança em todos nós, não deixará de sorrir com seu legado. A morte nos priva da presença de um gênio. Mas o cinema lhe concede imortalidade.

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Pouco original, Quando as Luzes se Apagam ao menos entrega bons sustos
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Roberto Sadovski

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Não existe uma ideia original sequer em Quando as Luzes se Apagam, terror produzido por James Wan (Invocação do Mal, Sobrenatural), que estica em um longa metragem o curta de David F. Sandberg. Bom, “longa'' é um exagero. Em enxutíssimos 81 minutos, o diretor pega a premissa de seu próprio filme, que fez barulho pela internet em 2013, e constroi a seu redor um fiapo de história que basicamente recicla beats narrativos de todo filme de terror no catálogo. O resultado é um Frankenstein com pedaços de Freddy Krueger, fragmentos de O Chamado e um naco generoso de qualquer trama com casas mal assombradas. Não é inovador como Corrente do Mal. Não tem a atmosfera sufocante de A Bruxa. Mas é eficiente e assustador – e é isso que conta.

Lights Out, o curta, não trazia nenhuma história, e sim um bicho-papão, que surgia para uma mulher assustada (Lotta Losten, mulher e musa do diretor) sempre que ela apagava a luz. E só. Mas trazia atmosfera, ritmo e um talento para cutucar medos mais simples – como temer o escuro. Para transformar pouco menos de três minutos em quase uma hora e meia, Sandberg e o roteirista Eric Heisserer tiveram de bolar uma “mitologia'' e bolar uma origem para seu “monstro'', agora batizado Diana. Ela é o espírito da paciente de um sanatório que, ao morrer, atrela-se à outra interna, Sophie (interpretada, quando adulta, por Maria Bello). Como morreu de maneira bizarra após ser eletrocutada, Diana não consegue suportar luz, manifestando-se apenas (você já adivinhou) quando está tudo escuro.

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Teresa Palmer empunha um sabre de luz para proteger Gabriel Bateman

A verdade é que Quando as Luzes se Apagam não está nem um pouco preocupado com a origem de Diana, o motivo de ela ter “voltado'' (a explicação, em uma cena em que relatórios médicos são lidos, é que ela “entrava na mente das pessoas'') ou qualquer fundação mais sólida para sua simbiose com Sophie. Sandberg tem mesmo sangue nos olhos para criar atmosfera e fazer com que cada canto escuro se torne um susto em potencial. A trama acompanha os filhos de Sophie: Rebecca (Teresa Palmer, que mais se aproxima de um protagonista) e Martin (Gabriel Bateman, seu irmão uma década mais novo) que, atacados por Diana, tentar salvar a mãe do parasita sobrenatural.

Claro que não há o menor espaço para sutileza. O plot até sugere uma relação entre a depressão e uma batalha com “demônios interiores'', mas qualquer subtexto vai para o espaço quando, uma vez todos estão reunidos na casa de Sophie (o que inclui Alexander DiPersia, um Édgar Ramirez que coube no orçamento, como namorado de Palmer), o demônio parte para o ataque. David Sandberg é inventivo e faz limonada com os 5 milhões de dólares de orçamento. A ação se resume a duas locações (o apartamento de Rebecca e a casa de Sophie) e os efeitos digitais foram reduzidos ao mínimo, substituídos por trucagens no set, um bom jogo de câmera e luz e maquiagem cobrindo a atriz (e dublê) Alicia Vela-Bailey. Por sinal, parte do frio na espinha é justamente o trabalho corporal de Alice, que confere a Diana uma movimentação incômoda e inumana.

LIGHTS OUT

Maria Bello, porque sim

Quando as Luzes se Apagam é, por fim, mais um produto e menos o fruto de urgência criativa. James Wan tem bom faro para achar talento no gênero. Ele enxergou em Sandberg uma verdadeira fábrica de filmes baratos e potencialmente lucrativos – a bilheteria aqui já bateu nos 100 milhões de dólares. Depois de Lights Out, o diretor sueco criou mais seis curta-metragens de orçamento zero, todos com apenas sua mulher à frente das câmeras, e todos com fôlego para se tornar mais um longa. Não que ele pareça ter pressa. Sob as asas de Wan, Sandberg agora está dirigindo Annabelle 2 e parece contente em ser diretor de aluguel. Contanto que continue entregando sustos na medida certa, não é nenhum pecado.


Como Rodrigo Santoro tornou-se o maior ator brasileiro no cinema mundial
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Roberto Sadovski

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“Karl.” Não aguentei e ri alto quando, na sessão para a imprensa da comédia romântica Simplesmente Amor, em Nova York, ouvi o nome do personagem de Rodrigo Santoro. O ano era 2003, e o ator, nascido em Petrópolis, Rio de Janeiro, há 40 anos, experimentava seus primeiros mergulhos como intérprete fora da terrinha. Ele havia trabalhado na refilmagem para a TV a cabo americana de Em Roma na Primavera (ao lado de Helen Mirren) e entrou mudo para sair calado de As Panteras Detonando, como um capanga da vilã Demi Moore. Simplesmente Amor seria seu primeiro papel com falas e função narrativa, sem servir apenas de decoração/paisagem. Mas “Karl” era difícil.

Eis que, treze anos depois, a carreira de Rodrigo Santoro segue em passos sólidos, firmando-se como o ator brasileiro mais bem sucedido no jogo do cinemão internacional. Em cartaz agora como Jesus Cristo na versão do russo Timur Bekmambetov para o clássico Ben-Hur, ele despe-se de estereótipos e dos conceitos geralmente atrelados a atores latinos que aportam em Hollywood – Antonio Banderas, com uma trajetória mais bem sucedida, ainda não se livrou desse estigma. O que Santoro conseguiu em pouco mais de uma década foi marcar território como intérprete de personagens que não dependem da origem de seu passaporte. A receita é uma só: talento e perserverança.

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Bicho de Sete Cabeças

Traços que o acompanham desde que, rejeitado para um papel da minissérie da Rede Globo Sex Appeal, insistiu em sua vocação e foi escalado para o folhetim Olho por Olho. Daí ele aos poucos foi galgando os degraus dos galãs televisivos, com papéis de maior destaque até chegar à elite do canal. E ele podia seguir nessa linha confortável (como muitos já fazem), mas surpreendeu ao interpretar um frade seduzido por uma prostituta na minissérie Hilda Furacão. Definitivamente a telinha estava ficando pequena para a ambição saudável de Santoro, e em 2001 ele provou ser um ator de imenso talento ao arrancar aplausos em dois filmes difíceis, ancorados em seus ombros: Bicho de Sete Cabeças, de Laís Bodansky, e Abril Despedaçado, de Walter Salles.

Se em 2003 ele deu vida ao arquiteto Karl de Simplesmente Amor, foi também o ano em que Santoro deixou qualquer pudor de lado ao viver o travesti Lady Di de Carandiru, de Hector Babenco, ao mesmo tempo em que se despediu das novelas com Mulheres Apaixonadas (ele retornou à TV brasileira este ano em um papel breve na primeira fase da novela Velho Chico). Foi a deixa para ele colocar mala e prancha de surfe embaixo do braço e se mandar para Los Angeles, uma jogada de risco para consolidar sua carreira num canvas maior do que enxergava no Brasil. Deu certo, e logo Rodrigo se viu na megaprodução 300, como o deus-rei Xerxes, ao mesmo tempo em que entrava em Lost, série de TV que virou febre – mesmo que seu personagem, Paulo, tenha sido despachado em poucos episódios.

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300

Dali em diante Rodrigo abraçou uma ponte aérea Los Angeles-Rio de Janeiro como rotina e foi otimizando seu talento com inteligência em filmes no Brasil e fora, alternando um cinema de vocação mais independente (O Golpista do Ano, Meu País, Reis e Ratos) com pedaços perfeitos de entretenimento (O Último Desafio, Recém Formada, Rio, Golpe Duplo). O ecletismo é refletido na cada vez menor profusão de papéis latinos, uma prova que o cinemão enxerga Santoro não como “um ator brasileiro”, e sim como um ator intenso e dedicado, que dá o melhor de si, não importa o tamanho, a origem ou a nacionalidade do personagem. Na comédia O Que Esperar Quando Está Esperando, por exemplo, ele é Alex, marido de Jennifer Lopez, que é americano. “Não vejo preconceito, e sim o estereótipo”, chegou a dizer. “Mas hoje o que chega em minhas mãos são personagens, não personagens latinos.”

Claro que Jesus Cristo em Ben-Hur chegou como um tipo diferente de desafio. “Eu queria mostrar um aspecto que ainda não tivesse sido abordado nas diferentes versões que o cinema já havia apresentado”, diz. “O que eu e Timur acordamos foi um Jesus que prega mais pelo exemplo do que pela palavra. Alguém que faz o que é certo, o bem, e não quem dá discursos sobre isso.” Sobre a cena da crucificação, Rodrigo ressalta que foi uma de suas experiências mais intensas como ator. “Filmamos sem intervalos, comigo direto na cruz, em locação. Depois de uma noite de chiuva, muito frio e horas de maquiagem, nós no topo de uma colina e a cidade abaixo”, lembrou o ator quando lançou Ben-Hur em São Paulo, não sem engasgar com genuína emoção durante a coletiva de imprensa. “Foi algo que eu jamais esquecerei.”

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Ben-Hur

Um longo caminho percorrido desde o Pedro de Olho no Olho, o Serginho de Explode Coração, o Neto de Bicho de Sete Cabeças, a Lady Di de Carandiru… E Karl. Cheguei a perguntar ao diretor de Simplesmente Amor, Richard Curtis, se o personagem de Santoro, com esse nome germânico, era brasileiro. “Claro que é”, foi a resposta. “Não queria que ele tivesse nome de jogador de futebol”, emendou, completando com ironia: “Quando você escrever seu filme, pode chamar o Rodrigo como você quiser.” Ouch. Não que Rodrigo Santoro reclame. Ser o ator brasileiro de maior sucesso além de nossas fronteiras deve compensar.

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Simplesmente Amor (Karl!!!)

 


Sacrilégio? Bobagem: novo Ben-Hur é um drama bíblico honesto e emocionante
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Roberto Sadovski

ben-hur bigas

“O que ele tinham na cabeça?'', bradaram alguns. “Como tiveram coragem?'', gritaram outros. “Vai ser uma porcaria!'', decretou a turba. Tuda essa bagagem terminou na conta do diretor Timur Bekmambetov (Guardiões da Noite, O Procurado), apontado para comandar uma nova versão de Ben-Hur, livro clássico de Lew Wallace publicado em 1880 que teve sua versão para cinema mais notória lançada em 1959, William Wyler na direção, Charlton Heston como protagonista. O desafio não era simples: como reapresentar essa história, ao mesmo tempo tão fantástica e tão antiquada, para a plateia do século 21? Como injetar na massa consumidora de cinema atual a releitura de um épico de tamanha proporção?

Afinal, não se engane. Apesar de a fonte ser literária, e de a história de Judah Ben-Hur ser adaptada em outras mídias há mais de um século (no teatro em 1899, no cinema em 1907 e depois em 1925), a maior inspiração aqui é mesmo o filme de Wyler. Não tinha como não ser. Campeão absoluto de bilheterias no ano de seu lançamento, Ben-Hur é a própria definição da palavra “épico''. A aventura bíblica redefiniu o modo de o cinema criar espetáculos daquela escala, alterando a percepção da indústria sobre os aspectos técnicos de como conduzir um arrasa-quarteirão cinematográfico – que, em contrapartida, premiou o filme com onze Oscar, um recorde igualado (mas ainda não batido) por Titanic em 1997 e por O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei em 2003. É a realização em celulóide do “não se faz mais filmes como antigamente'', um triunfo sensorial que, ao lado de E o Vento Levou, Lawrence da Arábia e um punhado de outras produções hollywoodianas parrudas, escreveu seu nome na história.

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Deu ruim: Jack Huston como Ben-Hur versão escravo

Seria impossível, portanto, Bekmambetov fugir de sua sombra. A boa notícia é que o diretor russo sequer tenta. Sua escolha foi seguir em uma outra direção, reinterpretando o livro de Wallace com a sensibilidade do cinema de hoje. Em outras palavras, Ben-Hur, repaginado para 2016, é mais enxuto e mais acelerado, tendo como vantagem uma reprodução de época mais precisa do que os couros e as sandálias da versão com Charlton Heston, e também a tecnologia para criar uma corrida de bigas, o clímax do filme, em que ninguém morreria durante as filmagens. É um filme menor, mas sua história é tão boa que nem um cineasta capenga poderia estragar. Bekmambetov definitivamente sabe o que está fazendo, com sua melhor decisão sendo esconder seu estilo pop operístico, optando por deixar a trama fluir sem grandes extravagâncias visuais.

Claro que Jack Huston não é Charlton Heston, e em suas mãos Ben-Hur fica pequeno. Não por sua falta, mas pela imensa bagagem que vem com o personagem. Ele é um judeu rico em Jerusalém que vive com a família e seu irmão adotivo, o romano Messala (Toby Kebbell). Com a influência do Império Romano é cada vez mais palpável, e Messala passando anos escalando as fileiras do exército para retornar à sua “família'' com posses e dignidade, Ben-Hur vê sua vida ruir após um atentado contra a vida de Poncio Pilatos. Ele testemunha sua mãe e irmã levadas para ser crucificadas, é despejado em um navio de guerra por cinco anos como escravo e, livre após uma batalha naval (rodada inteira sob seu ponto de vista), retorna em busca de vingança. Se em 1959 sua saga estende-se por três horas e meia de filme, aqui tudo é amarrado em enxutas duas horas. Obviamente, nacos inteiros do livro de Wallace são deixados de fora, outros passam como uma brisa. Curiosamente, a conclusão da trama, alterada no filme de Wyler, é retomada nesta versão, que se torna menos uma saga de vingança e mais uma história sobre o perdão.

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Rodrigo Santoro dá outra dimensão a Jesus Cristo

O que, no cinema do novo século, faz sentido. Não teria sentido refazer Ben-Hur se não fosse sob uma ótica progressista, com uma mensagem clara sobre os temas levantados. Não é ao acaso, portanto, que Jesus Cristo, um coadjuvante à distância na versão mais famosa da história, ganhe aqui peso narrativo considerável e o terceiro crédito no elenco, que foi para o brasileiro Rodrigo Santoro. Curiosamente, Cristo surge na trama ainda antes da prisão de Ben-Hur, anterior também à sua vida como pregador, após abandonar o trabalho de marceneiro. É um lado de Jesus pouco explorado e também o catalizador para o tema de perdão que amarra toda a narrativa. Em uma época em que filmes bíblicos, como os recentes Êxodo: Deuses e Reis e Ressurreição (ok, estou ignorando Os 10 Mandamentos de propósito, já que aquilo não é cinema), ainda atraem uma fatia generosa  de um público cristão considerável, enfatizar o aspecto bíblico da história é, no mínimo, um bom negócio.

Com tanta perfumaria e tanta bagagem, Ben-Hur torna-se alvo fácil. Para quem quer compará-lo ao filme de 1959, para quem deseja cutucar sua vocação como filme cristão, até para quem anda entediado com os espetáculos em CGI que o cinema usa, mais por preguiça do que por conveniência, quando o assunto é criar um épico. O filme de Bekmambetov pode ser acusado de tudo isso. Dificilmente vai ficar para a história, é improvável que faça muito barulho nas bilheterias e Jack Huston, por mais simpático e decente no papel, peca pela falta de carisma para carregar um filme deste tamanho. Mas, no fim, Ben-Hur chassis 2016 se sobressai como uma aventura honesta, nunca enfadonha (a corrida de bigas, filmada com o mínimo de retoques digitais, ainda é eletrizante), genuinamente emocionante e criada com uma visão clara emoldurada por entretenimento. Às vezes, é o que basta.


Trailer de A Chegada mostra nova visão sobre tema da invasão alienígena
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Roberto Sadovski

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Um dos diretores mais interessantes trabalhando no cinemão atual é Denis Villeneuve. Este canadense de 49 anos construiu uma carreira compacta e sólida desde sua estreia com Redemoinho, em 2000, até o eletrizante Sicario: Terra de Ninguém, um thriller sobre a ação dos homens da Lei que combatem o tráfico de drogas na fronteira dos EUA com o México, uma das melhores produções de 2015. Embora os holofotes estejam sobre Villeneuve por ele estar comandando a sequencia de Blade Runner, que recoloca Harrison Ford em um dos papéis mais icônicos de sua carreira mais de três décadas depois, o diretor ainda achou tempo para confeccionar esta ficção científica que, embora surja com menos impacto, é impressionante em como dá um nó numa premissa familiar.

A Chegada traz Amy Adams como uma linguista convocada pelo governo ianque para descobrir um modo de se comunicar com seres alienígenas, que chegam à Terra em diversos pontos do planeta com interesses obscuros. Embora o primeiro impulso seja o mundo se unir ante um evento tão extraordinário, a mera presença dos visitantes é capaz de desestabilizar nosso tênue equilíbrio geopolítico. É uma guinada da abordagem corriqueira do tema, que termina na pirotecnia de Independence Day ou na paranóia da enésima versão de Invasores de Corpos. Em seu trailer desconcertante, A Chegada une o design inusitado das naves dos visitantes com uma investigação mais cerebral e menos visceral de seus objetivos – o que seria o lógico, já que uma reação ao estilo Roland Emmerich só deve funcionar mesmo no campo da ficção.

O bacana de A Chegada é observar o crescimento de Villeneuve e suas ambições, já que a cada filme ele trabalha em um escopo maior. Foi assim o salto de Incêndios para o excepcional drama Os Suspeitos, que Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal encabeçaram em 2013. E foi assim com a guinada introspectiva e carregada de simbologia na adaptação de O Homem Duplicado, de Saramago, mais uma vez com Gyllenhaal. Abraçar a ficção científica depois de comandar um filme tão urgente e atual como Sicario parece a opção lógica para um cineasta com a visão de Villeneuve, que pode encontrar na fantasia campo fértil para dissertar sobre a condição humana. O que ele deve abraçar com fervor no segundo Blade Runner (agendado para outubro de 2017). E o que ele parece rascunhar neste A Chegada. O resultado a gente confere em novembro.


Por que Esquadrão Suicida ainda não é o filme que vai salvar a DC
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Roberto Sadovski

O filme da temporada é Esquadrão Suicida, por motivos certos e errados. Uma semana em cartaz já foi o suficiente para a aventura dos vilões da DC dilacerar alguns números nas bilheterias (sua estreia, com 135 milhões de dólares nos Estados Unidos, é a maior do mês de agosto da história), acirrar a disputa entre as grandes editoras de quadrinhos de super-heróis no cinema (uma grande bobagem, mas já chegamos lá) e deixar os executivos da Warner, estúdio que bancou a conta, correndo como as galinhas decepadas em véspera de banquete. Sim, é um filme confuso e divertido, como eu mesmo comentei neste texto aqui. Mas, com os holofotes aos poucos sendo direcionados para seus bastidores, também revela o caos, o nervosismo e o total planejamento (ou falta dele) necessário não só para tecer um filme, mas também como parte de uma engrenagem corporativa maior.

E, como parte dessa engenhoca, Esquadrão Suicida não foi bem sucedido.

Para entender o nó, precisamos voltar um pouco no tempo. Mais precisamente até 2008, quando a Marvel lançou seu Homem de Ferro (e seu Universo Cinematográfico), e a DC contra-atacou com louvor com Batman – O Cavaleiro das Trevas. Diferente dos planos de Kevin Feige e cia. na empresa que, pouco depois, seria comprada pela Disney, o diretor Christopher Nolan não tinha a menor intenção de transformar sua visão do Homem-Morcego (iniciada três anos antes com Batman Begins) em playground para os personagens da editora. A versão realista e sóbria encarnada com brilho por Christian Bale não tinha lugar em um mundo com seres superpoderosos mais rápidos que uma bala, mais velozes que uma locomotiva. E foi perfeito, um acerto de mais de 1 bilhão de dólares. Do outro lado da cerca, porém, a Marvel abraçava sua vocacão fantástica, redefinindo o “filme de super-heróis'' com Os Vingadores e um plano de crossovers bem estabelecido, enquanto a saga de Nolan na concorrência chegava em seu terceiro filme (O Cavaleiro das Trevas Ressurge), sem chance de expansão.

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Adivinha que cena foi cortada do filme….

Chistopher Nolan foi a salvação e, também, parte do problema. O Homem de Aço, desenhado para a Warner/DC começar sua própria caixa de brinquedos de super-heróis no cinema, só saiu do papel com a bênção do diretor (e com Zack Snyder no comando), mas já dava sinais que o tom da trilogia Cavaleiro das Trevas não tinha espaço em um mundo de semideuses. Batman vs Superman acentuou o problema, insistindo na sobriedade no que, em seu cerne, era uma aventura juvenil, e não um filme para ser levado tão a sério. Os críticos bateram pesado. O público respondeu ao apelo dos heróis, mas não fez BvS bater no bilhão de dólares nas bilheterias projetado (estacionou em impressionantes, ainda que decepcionantes, 870 milhões). “Falta humor'', bradaram alguns. “É pesado demais'', gritaram outros. No tiroteio, sobrou para David Ayer.

Conhecido por filmes adultos e intensos como Os Reis da Rua, Marcados para Morrer e Corações de Ferro, Ayer recebeu Esquadrão Suicida no colo já com uma data de lançamento, seis semanas para entregar o roteiro (que foi para produção sem o polimento necessário) e a responsabilidade de colocar os planos do estúdio em movimento. O primeiro teaser, lançado na Comic-Con de San Diego em 2015, deixou fãs e engravatados com sorrisos no rosto, embora o tom pop e festivo não fosse exatamente o objetivo do diretor. O que era óbvio: planejado para ser o “Guardiões da Galáxia'' da DC no cinema, Esquadrão reuniria personagens secundários em uma equipe com objetivo comum. O grande diferencial é que todos são vilões; nenhum deles é simpático. Mas o que a princípio seria uma perversão do gênero em si foi “suavizado'' para a) entregar o humor tão em falta em Batman vs Superman, e b) garantir uns trocados do mesmo público que, além de Guardiões, aplaudiu e conduziu ao sucesso a desconstrução pop que foi Deadpool.

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Oops, they did it again….

Para chegar a esse resultado, o filme de Ayer foi picotado. Literalmente. Seu corte inicial foi testado ao lado de uma montagem alternativa, bancada pelo estúdio com a empresa Trailer Park, a mesma responsável pelo tal teaser da Comic-Con. Mais gráfica e colorida, ela deu o tom que o estúdio procurava, e coube ao diretor arranjar seu trabalho em um híbrido que comprometesse ao mínimo sua visão, mas ao mesmo tempo atendesse o que o estúdio acreditava ser a melhor versão (censura livre) de Esquadrão Suicida. Agora que o gato está fora do saco, os insiders em Hollywood aos poucos vão desvendando a verdadeira natureza do filme, e tudo que ficou no chão da ilha de edição. Para resumir, o Coringa e a Arlequina num relacionamento menos abusivo e mais amoroso (o que resultou na eliminação quase completa da versão do personagem de Jared Leto), uma suavizada no perfil de todos os personagens da equipe (todos vilões e assassinos, mas agora com alguma “qualidade redentora'' que os deixasse mais simpáticos), e um rearranjo na montagem, deixando a trama menos trágica e mais pop, mesmo que a coerência narrativa fosse sacrificada. Sequências inteiras foram sacrificadas, a ordem de algumas cenas foi invertida, e o Coringa perdeu sua função dramática: retire Jared Leto do filme e nada vai mudar na trama. A coisa chegou ao ponto de um fã ameaçar processar a Warner por propaganda enganosa!

Até agora, porém, a máquina de marketing se mostrou campeã, visto o sucesso do filme junto ao público em sua arrancada nas bilheterias. Mas o caminho é árduo. Uma queda de receita de 40 por cento da sexta para o sábado em sua estreia não é um bom sinal. A recusa da China (hoje o mercado mais importante do planeta) em exibir o filme pode morder de 150 a 200 milhões de dólares de sua bilheteria final. Para a brincadeira ficar suave, Esquadrão Suicida precisa bater em ao menos 750 milhões em todo o mundo. Uma terceira paulada crítica deixa os engravatados receosos com a direção que dar em seu universo. A responsabilidade em acertar o prumo fica com Mulher-Maravilha e com Liga da Justiça, ambos programados para o ano que vem. Escolher o roteirista Geoff Johns como presidente da divisão de filmes baseados nos super-heróis da DC é uma decisão acertada, mas precisa ser prática, e não controle de danos. E mesmo com os fãs mais hardcore chiando que “a DC é melhor por ser mais séria'', quem paga a pintura da parede sabe a real, que não podem mais levar este universo sem o cuidado criativo necessário. Esquadrão Suicida pode ser a bola que antecede o terceiro strike. E o bom jogador sabe, essa é a hora de realmente ficar nervoso.


Caótico, confuso e movido a carisma, Esquadrão Suicida ao menos é divertido
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Roberto Sadovski

squad

Esquadrão Suicida é um caos. Tem um plot que nunca funciona, recheado por personagens pelos quais não damos a mínima. Quer ver o Coringa? Ele não deve ter 10 minutos em cena. Cansado de ver um filme de ação com o clímax em torno de uma montanha de efeitos digitais? Sorry, mas o terceiro ato da aventura de David Ayer coloca o time contra um monstrão de CGI. Esperava que um filme com Will Smith no elenco não fosse centrado em… Will Smith? Bom, melhor sorte da próxima vez. Para quem esperava algo a) ousado, b) surpreendente ou c) inovador, Esquadrão Suicida é um filme de super-heróis quadradinho, linear e profundo como um pires.

Ainda assim, saí da sessão satisfeito, como quem vai em festa infantil e come bastante bolo: o prazer é ligeiro e logo foge da lembrança. A aventura dos anti-heróis pode não ser uma maravilha, mas com certeza é divertida, rápida e sem gordura. Sem falar que é infinitamente mais redonda que (e lá vamos nós de novo) Batman vs. Superman. O clima sóbrio e pomposo do filme de Zack Snyder, que parecia dar o tom da DC no cinema, foi arremessado pela janela. O que conta aqui é o fator diversão, é entregar uma aventura que, mesmo com conexões fortíssimas com o tal Universo Expandido DC (Batman e Flash dão as caras; a trama é consequência da morte do Homem de Aço no filme em que ele enfrenta o Cavaleiro das Trevas), sobrevive sozinha sem maiores problemas.

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Jared Leto capricha em seu Coringa, mas espere que ele apareça muito…

A estrada, no entanto, é árdua. Nós, o público, jamais saberemos ao certo o que foi adicionado quando Esquadrão Suicida voltou ao estaleiro depois das críticas pesadas em cima do clima sisudo de BvS. Mas o resultado está dolorosamente exposto. Com um punhado de flashbacks amontoado em outro punhado de apresentação de personagens (cada um com “tema'' musical próprio), a aventura tropeça numa montagem que nunca dá sentido à trama, é didático no quesito exposição e apresenta seus personagens em velocidade supersônica, mesmo que o filme não saiba ao certo o que fazer com eles. Quando a casca grossa Amanda Waller (Viola Davis) finalmente coloca a equipe em pé, sob o olhar vigilante de Rick Flag (Joel Kinneman), é difícil esboçar algum interesse. Então… a mágica acontece, e ela repousa basicamente nos ombros de Will Smith, Margot Robbie e Jay Hernandez – este último, uma ótima surpresa!

Não é estranho que Esquadrão Suicida seja centrado no assassino profissional Pistoleiro, já que ele serve como âncora, o humano entre os meta-humanos. Capturado em Gotham City pelo Batman (Ben Affleck, vestindo a camisa), Floyd Lawton é guiado pelo amor por sua filha e a vontade que ela o veja como algo além de um matador sem alma. Colocar Will Smith no papel é inteligente por dar ao público um astro carismático com quem se identificar, ao mesmo tempo que define um protagonista, fugindo do problema que assola boa parte dos filmes com elenco gigante: a dispersão. Já Margot Robbie ficou com o filé. A Arlequina já era a “cara'' do filme desde o primeiro teaser, mais de um ano atrás. A atriz entendeu o apelo da personagem e mergulhou fundo. Pena que este seja o filme errado para ela. Sua química com Jared Leto (que entrega aqui algo inédito, um Coringa apaixonado) é fulminante, e os dois mereciam mais espaço, mais desenvolvimento e uma trama menos fragmentada. Do jeito que está, a história dos psicopatas apaixonados parece um espinho incômodo no dedo da história principal; espero que Ben Affleck assuma o rojão e traga o casal para a próxima aventura-solo do Batman.

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Will Smith e Margot Robbie são os verdadeiros donos do show

Jay Hernandes, no papel do incendiário El Diablo, entrega a grande surpresa de Esquadrão Suicida, um personagem que traz um arco completo (de ódio, resignação, apatia e redenção) e realmente faz diferença na narrativa. Ele traz um elemento trágico que, embora seja conduzido pelo diretor como peso de uma bigorna, lhe confere alguma dimensão. Infelizmente, o resto da equipe está ali para fazer volume. Ora eles existem sem nenhuma função dramática (como o Crocodilo, uma maquiagem impressionante cobrindo o ator Adewale Akinnuoye-Agbaje); ora eles caem na trama literalmente do nada (Katana é a ninja que existe porque ninjas são cool); ora eles mal registram antes de desaparecer (desculpa, já esqueci o nome do personagem de Adam Beach). Jai Courtney finalmente encontra o que fazer com seu carisma grosseiro (fora do lugar no quinto Duro de Matar ou no último O Exterminador do Futuro), mas o roteiro também não encontra espaço para mais um protagonista. Seu Capitão Bumerangue termina como só mais uma engrenagem para cumprir a missão.

Ah, a missão. Em algum lugar nas gavetas de David Ayer deve repousar um roteiro menos truncado do que este que foi filmado. Esquadrão Suicida pode ser a aventura de vilões reunidos para fazer algo bom (tipo salvar o mundo), mas eles poderiam enfrentar uma ameaça menos enraizada no clichê “o mundo vai se curvar a meus pés''. Mas é exatamente o que busca Magia, entidade demoníaca que toma o corpo da arqueóloga June Moon (Cara Delevinge, menos estátua que o habitual). Ela se livra do controle de Amanda Waller e toca o terror na fictícia Midway City. É uma pena que o potencial de Esquadrão Suicida explorar cantos ainda intocados neste subgênero que são os filmes baseados em super-heróis dos gibis (como Batman – O Cavaleiro das Trevas ou Deadpool o fizeram) seja desperdiçado em prol de uma trama absolutamente banal.

Viola Davis devia ser a chefe da DC pra NADA sair do lugar...

Viola Davis devia ser a chefe da DC pra NADA sair do lugar…

Por outro lado, “banal'' talvez faça bem à DC neste momento. Depois da pretensão tola de Batman vs Superman, é um alívio ver um filme com o selo da editora preocupado apenas em divertir. É colorido, não tem pudor em assumir que é um gibizão em celulóide (digital, mas você entendeu) e, apesar da montagem tosca e do inimigo bobão, entrega o que promete quando chega ao clímax. De bônus, o universo expandido ganha um novo capítulo, novos personagens e mais peças no tabuleiro. Mas, sem querer ser chato…. precisava mesmo usar uma música de Guardiões da Galáxia na trilha?


Do pior ao melhor, um ranking com todos os filmes de Steven Spielberg
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Roberto Sadovski

Steven-Spielberg

Steven Spielberg é um dos maiores cineastas da história. Ponto. Acho curioso como sempre surge o papo de que ele “está fora de sintonia'' com o cinemão atual. Ou que seu nome “perdeu o apelo'' para o público mais jovem. Besteira. Fazer cinema não é concurso de popularidade, e desafio qualquer um a encontrar uma obra tão vasta, variada e de altíssima qualidade quanto a de Spielberg. Nos últimos meses, eu me dei a tarefa de rever todos os seus filmes, de Encurralado a O Bom Gigante Amigo, e cheguei a duas conclusões. Primeiro, mesmo quando ele erra, o tropeço é em grande estilo. Segundo, é invejável seu total domínio de narrativa, seu desinteresse em seguir a moda da vez (não creio que veremos um filme de super-heróis com sua assinatura) e seu total compromisso com o aspecto mais importante no cinema: contar uma história. Organizei seus 30 filmes num ranking muito particular, do pior ao melhor, e foi uma das maratonas mais bacanas que eu já encarei. E você, qual seu Spielberg mais marcante? Hora de refrescar a memória…

30. 1941 – Uma Guerra Muito Louca (1941, 1979)

1941

A tentativa de Spielberg em fazer uma comédia esbarra num pecado mortal: o filme nunca é engraçado. Ainda assim, transborda ambição, com a história da paranóia americana em ser invadidos pelos japoneses no alvorecer da Segunda Guerra Mundial. Um desastre elegante.

29. O Mundo Perdido: Jurassic Park (The Lost World: Jurassic Park, 1997)

lost world

Do primeiro ao último frame, fica óbvio que seu coração não estava no lugar quando fez a continuação de Jurassic Park, uma aventura esquemática que desafia a lógica (isso num filme sobre dinossauros voltando à vida!) e que envelheceu muito, muito mal.

28. Hook – A Volta do Capitão Gancho (Hook, 1991)

hook

Talvez Hook, e sua desconstrução de um clássico, estivesse à frente do seu tempo. Tão à frente que a tecnologia não acompanhou sua ambição, resultando no embate de Robin Williams (Peter Pan) e Dustin Hoffman 9 Capitão Gancho) num cenário desastrosamente artificial.

27. O Terminal (The Terminal, 2004)

terminal

Tom Hanks dá seu melhor no papel de um visitante estrangeiro que, devido a uma crise política e à burocracia, fica preso no terminal do aeroporto de Nova York, sem ter uma casa para retornar e sem poder colocar os pés na América. Mas, falando a real, é um filme muito chato.

26. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (Indiana Jones and the Kingdom of the Crystal Skull, 2008)

crystal skull

O mais desolador dos escorregões de Spielberg, a aventura mais recente de Indiana Jones não sabe ao certo o que pretende ser (uma despedida, um recomeço, um pouco de cada), e trafega entre a ficção científica e o drama familiar de forma atravessada. Burocrático, ainda que, em seu coração, seja Indiana Jones…

25. Além da Eternidade (Always, 1989)

Audrey Hepburn, Always (1989, Steven Spielberg) starring Holly Hunter, Richard Dreyfuss and John Goodman

Audrey Hepburn, Always (1989, Steven Spielberg) starring Holly Hunter, Richard Dreyfuss and John Goodman

Richard Dreyfuss é o fantasminha camarada que, no além-vida, tem a função de guiar um piloto novato – que calha de ser o novo interesse romântico de sua amada (Holly Hunter). Apesar das sequências aéreas nunca menos que espetaculares, o romance nunca engata.

24. Cavalo de Guerra (War Horse, 2011)

"WAR HORSE" DM-AC-00047 Albert (Jeremy Irvine) and his horse Joey are featured in this scene from DreamWorks Pictures' "War Horse", director Steven Spielberg's epic adventure for audiences of all ages, set against a sweeping canvas of rural England and Europe during the First World War. Ph: Andrew Cooper, SMPSP ©DreamWorks II Distribution Co., LLC.  All Rights Reserved.

Plasticamente de tirar o fôlego, a versão para cinema do espetáculo teatral triunfa ao colocar uma saga nas trincheiras da Primeira Guerra Mundial no ponto de vista de um cavalo, que passa de dono em dono ao mesmo tempo em que mergulha no horror da guerra. Um Spielberg no automático, mas ainda emocionante.

23. Louca Escapada (The Sugarland Express, 1974)

sugarland

Seu primeiro longa para o cinema propriamente dito é um filme de transição, que mantém um pé na experimentação que marcou a década de 70 e seu respeito pelos autores, ao mesmo tempo que já evidencia a mão para o espetáculo populista que o cineasta logo ia aperfeiçoar. E Goldie Hawn nunca esteve tão adorável!

22. Amistad (1997)

amistad

Baseado em fatos reais, Spielberg não poupou o melodrama neste filme de tribunal em que, no século 19, um grupo de escravos luta pela liberdade após matar seus algozes em um navio. Matthew McConaughey parece deslocado como o advogado de defesa, mas o espetáculo é todo de Djimon Hounsou. Merece ser redescoberto.

21. Encurralado (Duel, 1971)

duel

Pela primeira vez no comando de um longa, Spielberg fez um estudo sobre medo, paranóia e descontrole. O plot é tão eficiente quanto simples: um sujeito comum (Dennis Weaver) é perseguido na estrada por um caminhão assassino. Nunca vemos seu motorista, mas ali está o mal encarnado. Tenso de ponta a ponta, é uma estreia irretocável

20. Indiana Jones e o Templo da Perdição (Indiana Jones and the Temple of Doom, 1984)

temple of doom

Sombrio e violento, o segundo filme com o arqueólogo Indiana Jones sofre de um certo artificialismo, mas traz tantos momentos memoráveis que é fácil deixar de lado sua total incorreção política. Para Spielberg, deve ser seu trabalho mais importante: foi ali que ele conheceu sua atual mulher, a atriz Kate Capshaw.

19. A Cor Púrpura (The Color Purple, 1985)

color purple

Em sua primeira tentativa de sair do molde “cineasta pop'', Spielberg adaptou o romance de Alice Walker e foi criticado por ter exagerado na sacarina. Uma bobagem. A história de uma mulher sulista e negra (Whoopi Goldberg, em sua estreia) em sua jornada para a auto descoberta merece cada lágrima.

18. O Bom Gigante Amigo (The BFG, 2016)

bfg

A fábula infantil, ausente de sua filmografia desde os anos 80, volta nesta adaptação do livro de Roald Dahl: um filme sobre a dificuldade em lidar com o mundo adulto, literal e mataforicamente. Apesar de um segundo ato arrastado, a aventura começa e termina de maneira brilhante, ancorada por duas performances (de Mark Rylance e da pequena Ruby Barnhill) de aplaudir de pé.

17. A.I. – Inteligência Artificial (A.I. – Artificial Intelligence, 2001)

ai

Spielberg se colocou sob o holofote ao retomar um projeto de seu amigo Stanley Kubrick. Em um futuro em que humanos dividem o planeta com máquinas inteligentes, um menino-robô (Haley Joel Osment) ganha sentimentos verdadeiros e diminui a barreira entre a vida artificial e as emoções reais. O final traz uma fagulha de esperança ao que, no geral, é um de seus filmes mais pessimistas.

16. As Aventuras de Tintin (The Adventures of Tintin, 2011)

THE ADVENTURES OF TINTIN

Ao contrário de seus amigos James Cameron, Peter Jackson e Robert Zemeckis, Spielberg nunca foi um cineasta explicitamente preocupado com a mecânica do cinema: ele quer contar histórias. Talvez por isso, a adaptação do herói dos quadrinhos do belga Hergé não surja como um “melhores momentos'' de como usar a tecnologia de captura de movimentos. É, isso sim, uma aventura descomprimissada e de encher os olhos!

15. Ponte dos Espiões (Bridge of Spies, 2015)

bridge spies

Só mesmo um cineasta de tamanho talento é capaz de fazer um thriller de espionagem ancorado em diálogos, não em ação. É justamente essa a espinha dorsal da história do advogado (Tom Hanks) que, no auge da Guerra Fria, tem de defender um espião da cortina de ferro (Mark Rylance) capturado em solo americano. Tenso de ponta a ponta, mostra um cineasta enxuto e direto ao ponto. Um filmaço.

14. Império do Sol (Empire of the Sun, 1987)

empire sun

Depois de A Cor Púrpura, Spielberg se sentiu mais à vontade para contar a história do garoto inglês (Christian Bale, já uma potência) que sobrevive na China ocupada pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial. Baseado na autobiografia de J.G. Ballard, o filme traz um diretor mais seguro em suas emoções e mais detalhista com a história em mãos, nunca deixando de lado o foco, que é o triunfo do espírito humano em meio ao caos.

13. Guerra dos Mundos (War of the Worlds, 2005)

war worlds

Talvez a resposta artística mais pungente ao 11 de setembro, Spielberg refilmou o clássico da ficção científica sob o ponto de vista do homem comum (Tom Cruise) que vê o mundo normal ruir quando a Terra é invadida por alienígenas assassinos. Tecnicamente de tirar o fôlego, é um filme sobre famílias, sobre desespero e sobre o acaso. A expressão de Cruise ao ser coberto pelo pó do que eram seres humanos é puro terror.

12. Munique (Munich, 2005)

munich

A sombra do 11 de setembro também permeia este relato sobre a caçada promovida pelo governo de Israel aos assassinos dos atletas judeus na Olimpíada de Munique em 1972. O foco está nos cinco homens escolhidos para a tarefa, e o modo como eles encaram a missão. Principalmente o personagem de Eric Bana, que não age por vingança, mas questionando sempre seus valores: o que sobra da alma de um assassino de assassinos? Não há resposta…

11. Prenda-me Se For Capaz (Catch Me If You Can, 2002)

catch me

Delicioso de ponta a ponta, a história do golpista Frank Abagnale Jr. (Leonardo DiCaprio), e sua perseguição de anos por um agente do FBI (Tom Hanks), flui como um desenho do Pernalonga, com humor, ironia e empolgação genuínas. De tão bacana e alto astral, poderia ter doze horas sem pesar – até, claro, Christopher Walken entrar em cena, trazer tudo de volta à realidade e destruir nossos corações.

10. Lincoln (2012)

lincoln

Daniel Day-Lewis entrega sua performance mais poderosa – o que, convenhamos, não é pouco. Spielberg não quer aqui criar uma biografia completa do maior dos presidentes americanos. Em vez disso, ele escolhe um recorte, o suficiente para mostrar o colosso moral que era Lincoln e sua luta contra a escravidão, um conflito determinado pelo campo de batalha da Guerra Civil e também entre políticos – um cenário ainda mais traiçoeiro.

9. Minority Report – A Nova Lei (Minority Report, 2002)

minority

Engraçado como o futuro apresentado por Spielberg nesta ficção científica se torna cada vez mais parecido com o presente. Principalmente em sua premissa central: a prisão de criminosos antes que eles cometam o crime. É função do policial interpretado por Tom Cruise lidar com essa tecnologia, e tudo muda quando ele próprio se vê no banco dos réus. Um filme aparentemente leve que traz, nas entrelinhas, questões fundamentais para nossa liberdade.

8. Indiana Jones e a Última Cruzada (Indiana Jones and the Last Crusade, 1989)

last crusade

Vamos ao superlativo: este é o filme mais divertido que Spielberg fez em toda sua carreira. Qual outro motivo para escalar Sean Connery como pai de Harrison Ford a não ser “isso pode ser muito bacana''? E é. A terceira aventura de Indiana Jones o coloca contra nazistas, em busca de um tesouro arqueológico sem preço, tem muita ação, uma dose de misticismo, um roteiro esperto e muito bom humor. Isso, meus caros, é entretenimento!

7. Contatos Imediatos do Terceiro Grau (Close Encounters of the Third Kind, 1977)

close encounters

Talvez o Spielberg de hoje não tomasse as mesmas decisões do Spielberg de quatro décadas atrás, quando ele fez um homem abandonar sua família em busca de uma visão. Ainda bem. No filme que ajudou a acabar com a imagem de aliens como conquistadores sangrentos, o diretor faz um filme sobre o poder dos sonhos, e como eles caminham numa linha tênue com a obsessão. Ao final, não são os sonhos que nos fazem caminhar?

6. Jurassic Park – Parque dos Dinossauros (Jurassic Park, 1993)

JURASSIC PARK, 1993. ©Universal/courtesy Everett Collection

A ciência como herói e vilão: é o caminho para realizar as maiores ambições humanss, ao mesmo tempo em que torna fácil perder o controle sobre elas. Tudo isso numa premissa genial: o que aconteceria se pudéssemos recriar os dinossauros, confiná-los num parque temático e ver o resultado? Icônico do começo ao fim, ainda traz, no ataque do T-Rex, uma das cenas mais memoráveis de toda a história do cinema.

5. E.T. – O Extraterrestre (E.T., 1982)

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O filme que virou um dos maiores fenômenos pop do cinema é também uma fábula sobre a infância perdida. Tudo está nas entrelinhas da história de Elliot (Henry Thomas), o garoto de uma cidadezinha no coração da América que se torna amigo de um visitante alienígena, esquecido aqui por seus companheiros. Tudo em E.T. é metáfora para algo maior, e o fato de Spielberg ter feito tudo parecer tão fácil é o componente principal de uma obra prima.

4. O Resgate do Soldado Ryan (Saving Private Ryan, 1998)

private ryan

A guerra sem firulas, sem nobreza, sem romantismo: apenas como horror, como perda de humanidade, como chance para descobrir do que são feitos os homens. No caso, o oficial do exército interpretado por Tom Hakns, que lidera um grupo no coração da Europa em ruínas para localizar um único soldado. Não é sobre camaradagem (mas é), não é sobre quem a guerra nos torna (mas é): é sobre a missão, é sobre voltar para casa.

3. A Lista de Schindler (Schindler’s List, 1993)

schindler's list (1993) liam neeson, ben kingsley credit: universal pictures/courtesy neal peters collection

Em seu filme mais importante (sem aspas, sem ironia), Spielberg foi de encontro a suas origens e desnudou a trajetória de um homem que, em meio ao caos e ao horror, encontrou o caminho para fazer a coisa certa. De que forma, afinal, reencontrar a humanidade quando ela se torna uma casca vazia? A Lista de Schindler é um filme para a gente não esquecer que, mesmo quando o mundo desde pelo ralo, nossa atitude faz toda a diferença.

2. Tubarão (Jaws, 1975)

jaws

O filme perfeito. Em narrativa, em tom, em seu total domínio de técnica, forma, ritmo. Imitado à exaustão e jamais igualado, Tubarão fez história de tantas maneiras que às vezes fica difícil lembrar o quanto ele é brilhante, o quanto Spielberg, ainda em seus primeiros passos, já se mostra um cineasta completo, criando tamanha beleza em meio a uma das filmagens mais complicadas da história. Só não é o primeiro dessa lista por que….

1. Os Caçadores da Arca Perdida (Raiders of the Lost Ark, 1981)

raiders

… existe algo em Os Caçadores da Arca Perdida que faz dele o melhor filme que Steven Spielberg já dirigiu. Cada frame é icônico. Cada decisão narrativa é essencial. Cada performance é precisa. Foi o filme que, ao lado de Superman e Guerra nas Estrelas, acendeu minha paixão pela arte de contar histórias. Não existe um elemento fora do lugar, não existe um segundo que seja excessivo. Existe, acima de tudo, o ingrediente indizível, indefinido, que eleva a primeira aventura de Indiana Jones ao patamar de obra prima irretocável, uma qualidade atemporal que faz do filme um fenômeno inexplicável, mas totalmente compreensível. Tire um pedaço e ele quebraria; do jeito que está, em seu equilíbrio perfeito, Os Caçadores da Arca Perdida é Spielberg em seu melhor. É o cinema em seu melhor. Agora dá licença que eu tenho um ou trinta filmes para rever…


Matt Damon volta sem novidades a Jason Bourne…. O que não é nada mau!
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Roberto Sadovski

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Em três filmes no papel do espião Jason Bourne, Matt Damon se viu sem memória e perseguido pela CIA (A Identidade Bourne, que Doug Liman dirigiu em 2002), foi forçado a abandonar uma vida fora do sistema ao ser acusado de um crime que não cometera (A Supremacia Bourne, continuação brilhante comandada por Paul Greengrass em 2004) e, finalmente, fechou a conta do seu passado (O Ultimato Bourne, mais uma vez de Greengrass, de 2007). Seria a trilogia perfeita, com começo, meio e fim. Mas não se vira as costas para uma série que rendeu 1 bilhão de dólares, e seu “selo'' foi incorporado a mais um filme, O Legado Bourne, com Jeremy Renner no papel de outro espião casca-grossa. Não deu certo. O público queria Bourne. Para isso, o estúdio precisava de Matt Damon. Damon, por sua vez, só entrava no jogo ao lado de Greengrass. Nove anos e muitos “nãos'' depois, astro e diretor encontraram o roteiro certo e repetiram a parceria.

E essa é a palavra-chave: repetição. O novo filme, batizado Jason Bourne para assinalar a ruptura com as aventuras anteriores, é uma coleção de grandes sucessos de seus antecessores. Tem conspiradores pelos corredores da CIA, perseguições automobilísticas em meio a cenários impossíveis, muito diálogo e exposição de narrativa com um grupo de pessoas acompanhando a ação em uma dúzia de monitores, Matt Damon lembrando de fragmentos de seu passado, Matt Damon agindo com precisão cirúrgica quando seu mundo explode, Matt Damon chutando traseiros. Ah, e Moby empacotando o conjunto no final. Embora Doug Liman tenha dado o pontapé inicial na série, foi Paul Greengrass quem criou sua assinatura visual, uma espécie de caos controlado captado por câmeras que chacoalham e um estilo narrativo tão único quanto incômodo. Em Jason Bourne, Damon e Greengrass entregam, portanto, exatamente o que o público espera da parceria Damon e Greengrass sob a marca Bourne.

Jason Bourne (2016)

Em cena típica de Bourne, Tommy Lee Jones e Alicia Vikander observam monitores….

O que, obviamente, corta para os dois lados. O Ultimato Bourne já havia encerrado de maneira brilhante a jornada do personagem, que não só descobriu sua verdadeira identidade como conseguiu fazer um arremedo de paz com seu passado. Ponto final. Jason Bourne parece ser, portanto, um filme supérfluo. E de fato seria, se Greengrass não tivesse habilidade para colocar tantas engrenagens em movimento. A trama principal – a relevação dos verdadeiros motivos que levaram Bourne ser voluntário para tornar-se o assassino perfeito – de cara puxa uma história de vingança envolvendo outro espião/assassino a mando do governo. Além disso, o diretor acha espaço para  salpicar um problema bem real em seu roteiro (escrito a quatro mãos com Christopher Rouse): a possibilidade da total perda de privacidade diretamente proporcional ao volume cada vez maior de pessoas conectadas pela internet. O texto traz referências a Edward Snowden, mostra que o campo de batalha da espionagem é tão intenso no universo virtual quanto nas ruas de uma metrópole e defende que a balança que equilibra segurança nacional e liberdade individual é bem tênue.

A história começa com uma hacker, Nicky (Julia Stiles), que deixou a CIA depois de estar diretamente envolvida com a caçada a Jason Bourne. Ela busca arquivos confidenciais da Agência de Segurança para expor na internet suas operações clandestinas. Quando dá de cara com as pastas sobre a operação Treadstone (que criou Bourne) e a identidade de um de seus arquitetos, ela parte em busca de Jason para lhe dar oportunidade de parar de se culpar pelas mortas em suas mãos. A ação de Nicky, porém, dispara um alerta cibernético na CIA, colocando em sua trilha uma especialista em crimes digitais, Heather Lee (Alicia Vikander, que não esboça um sorriso em duas horas de filme) e do próprio diretor da agência, Robert Dewey (Tommy Lee Jones, que eu acho incapaz de esboçar o mesmo sorriso). Enquanto a primeira acredita que Bourne pode ser trazido de volta às operações da CIA, o segundo quer puxar o gatilho e acabar com o problema. Para isso, convoca outro assassino, interpretado por Vincent Cassel, que tem uma conta pessoa a acertar com Bourne.

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Julia Stiles de volta à ação com Matt Damon

Com este tabuleiro em mãos, Greengrass estica uma trama global, que vai da Grécia a Berlim, passando por Londres até um c;ímax espetacular em Las Vegas. Mesmo que o roteiro seja esquemático e não tenha nem de longe o impacto dos filmes anteriores, o diretor o emoldura com cenas de ação imprevisíveis e devastadoras, que ainda assim são fundamentais para a fluidez da trama. E não há quem arquitete ação no cinema do século 21 como Greengrass. Não basta a ele criar uma perseguição entre Cassel (de carro) e Damon (numa moto) pelas ruas de Atenas: ele arma a cena em meio à crise política da Grécia, com centenas de manifestantes em choque com a polícia nas ruas. É tanta gente, com tanta coisa acontecendo (carros incendiados, multidões marchando com bandeiras e coquetéis molotov, a polícia em repressão pesada) que a impressão é que o filme foi rodado de maneira clandestina em meio ao caos real. Em Las Vegas, uma segunda perseguição (Damon num carro esporte; Cassel num blindado da SWAT) impressiona não só por seu poder de destruição (a certa altura carros na avenida central da cidade parecem pinos de boliche) como por toda a técnica envolvida.

Jason Bourne, entretanto, não é desprovido de problemas. Lidar mais uma vez com a memória errática do protagonista para iludí-lo de volta ao jogo parece um repeteco de tudo que foi mostrado nos filmes anteriores. E mesmo com toda a pirotecnia cibernética, a ação desdobrada em telas de computador e no mundo digital, o clímax chega com uma boa e velha cena de luta, brutal e sangrenta, mas também vulgar ante o filme que até então se desenrolou. Parece que Damon e Greengrass buscaram uma história competente para amarrar as cenas de ação mas terminaram com uma trama que nunca surpreende. A boa notícia é que o filme termina com essa parte da vida de Bourne definitivamente encerrada. O personagem ganha espaço para, quem sabe, retornar em um cenário realmente inovador. Jason Bourne, assim, parece um mal necessário, um “capítulo do meio'' que garante a seus criadores liberdade para explorar novas fronteiras. Confesso um certo cansaço com filmes que parecem existir unicamente como reorganização de cenário para uma aventura posterior. O grande trunfo dos realizadores, que é o estilo único e inimitável de Paul Greengrass, torna-se uma muleta: ele entrega o que a plateia espera, mas ao mesmo tempo se priva de experimentar novos territórios. É um produto que explode em sabor, mas tem baixo valor nutritivo. Mas quem dera que todo produto cinematográfico calculado dessa maneira fosse uma aventura acelerada, tensa e divertida como Jason Bourne.