Roberto Sadovski

Os 13 melhores filmes de 2013

Roberto Sadovski

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Chega de filmes! Pelo menos por este ano… Mais de uma centena de filmes passaram diante de meus olhos neste ano que fecha para balanço. No cinema a coisa começou bem devagar, com promessas não concretizadas, diversão escapista e algumas bombas. Depois a qualidade engatou uma segunda e resultou em uma seleção de filmes bacanas, que me deu prazer mais uma vez em trabalhar com o que eu trabalho. Pena que o tempo seja nosso inimigo. Na impossibilidade de cópias de alguns filmes chegarem ao Brasil a tempo, não consegui assistir a produções consagradas como 12 Anos de Escravidão, Ela, Inside Llewin Davis e Nebraska. All is Lost, Philomena, Lone Survivor… todos ficaram para o ano que se avizinha. E todos terão espaço por aqui na hora certa.

2013 foi um ano agitado. Super-heróis coletaram 3 bilhões de dólares nas bilheterias em filmes bem bacanas (Homem de Ferro 3, Wolverine Imortal, O Homem de Aço e Thor: O Mundo Sombrio). Invocação do Mal mostrou o que é sentir medo de novo no cinema. Wagner Moura fez sua estreia em Hollywood com Elysium. Brad Pitt calou a boca dos detratores e fez de Guerra Mundial Z um ótimo filme de zumbis (ou com zumbis, vai saber) e o maior sucesso de sua carreira. Ben Affleck ganhou o Oscar com Argo e fez muito barulho ao ser apontado como o novo Batman do cinema. O caixa bateu no vermelho com R.I.P.D., O Cavaleiro Solitário, Jack, O Caçador de Gigantes, Depois da Terra e O Ataque. E Jennifer Lawrence fecha o ano com um Oscar na bolsa, um dos maiores sucessos do ano no currículo (o bem bacana Jogos Vorazes: Em Chamas) e o título de estrela mais gente boa do cinemão.

Mas chega de blablablá. Vamos ao que interessa: os 13 filmes que fizeram de 2013 um ano bem legal. Os filmes de 2013 que eu assisti em 2013, para ser mais preciso. 2014, bring it on!

13. O GRANDE MESTRE

(Yi Dai Zong Shi, Wong Kar Wai)

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O mestre aqui é o diretor de Amor À Flor da Pele, um dos filmes mais espetaculares do cinema moderno. Wong Kar Wai não segue a cartilha de O Tigre e o Dragão ou Herói. Seu O Grande Mestre, baseado na vida do lutador Ip Man (grande performance de Tony Leung), entrecorta o velho e o novo, a tradição das artes marciais com o avanço inexorável do mundo moderno, de guerra e política, sem espaço para a honra. A cena inicial, um combate de um contra dezenas sob uma chuva inclemente, marca o estilo do diretor: não é a luta entre os homens que importa, e sim o combate interior para manter-se zen num mundo amoral.

12. CÍRCULO DE FOGO

(Pacific Rim, Guillermo Del Toro)

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Guillermo Del Toro colocou monstros gigantes descendo a lenha em robôs colossais, transformou tudo em um caso de família e criou um dos espetáculos mais sensacionais do ano. Círculo de Fogo, como eu escrevi na época de seu lançamento, adiciona humanidade ao cinema pipoca, equilibrando os personagens “de verdade” com as criaturas que brotam da imaginação do diretor. E poucas cenas este ano foram tão eletrizantes quanto a Batalha de Hong Kong. Já perdi a conta de quantas vezes eu revi…

11. OS SUSPEITOS

(Prisoners, Denis Villeneuve)

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Neste thriller com Hugh Jackman e Jake Gyllenhaal, a linha entre certo e errado, lei e justiça, culpados e inocentes, aparece borrada. Jackman é o pai que, após o desaparecimento de sua filha (e a de um amigo, interpretado por Terrence Howard), não mede esforços para encontrar o responsável. O único suspeito escorrega por entre os dedos de uma polícia atada por procedimentos, Jackman não quer deixar barato e… bom, e aí você pode imaginar. O diretor de Incêndios mostra que não há linha que um “homem de bem” não seja capaz de cruzar em sua busca pela verdade. Mas, afinal, quem é o dono da verdade?

10. FRUITVALE STATION – A ÚLTIMA PARADA

(Fruitvale Station, Ryan Coogler)

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Nas primeiras horas de janeiro de 2009, Oscar Grant, de 22 anos, foi morto pela polícia com um tiro nas costas, após uma briga na estação de trem que dá nome ao filme. Um crime estúpido abreviando uma vida plena. Ryan Coogler reconstroi o último dia de Oscar em uma crônica da morte anunciada que segue num crescendo de tensão quase insuportável. No Brasil, onde temos um Oscar Grant por dia, reflexo de uma polícia ainda menos preparada, o filme tem impacto maior. Impossível não refletir. Mais impossível não aplaudir o trabalho de Michael B. Jordan, que confere a Oscar humanidade e esperança em uma vida até então marcada por erros. Uma vida que terminou com o impacto de uma bala.

9. FRANCES HA

(Noah Baumbach)

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A energia pura irradiada por Greta Gerwig no papel de Frances dá para iluminar uma cidade! Não existe tempo ruim para essa jovem de vinte-e-poucos anos em busca do rumo que vai dar à sua vida. Amizades desfeitas, corações partidos e um inacreditável fim de semana em Paris compõem o recorte tecido pelo diretor Baumbach (A Lula e a Baleia) e pela própria Greta, que dividem o roteiro (e, pelo visto, as escovas de dentes). Produzido pela brasileira RT Features, Frances Ha é filme independente em concepção, mas mundial em execução. Quando Frances passa um feriado em família, com todos os prós, contras, perguntas e cobranças, ela é gente como a gente. Ainda que infinitamente mais charmosa.

8. ANTES DA MEIA-NOITE

(Before Midnight, Richard Linklater)

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O que é o amor? E o que ele se torna quando a paixão dá espaço à rotina? É essa jornada que o casal Jesse e Céline encara quando os reencontramos quase duas décadas depois da noite a dois em Viena, quando eram adolescentes, e praticamente uma década depois de seu reencontro em Paris, já adultos em busca de rumo. Ethan Hawke, Julie Delpy e o diretor Linklater criam a trilogia mais inusitada do cinema, um filme sobre adultos e para adultos. É verão, Jesse e Céline agora são casados e passam férias na Grécia com suas filhas. É também hora de redescobrir o significado de suas escolhas. Antes da Meia-Noite é imprevisível, agridoce, emocionante e arrebatador. Como o amor.

7. AZUL É A COR MAIS QUENTE

(La Vie a´Adèle, Abdellatif Kechiche)

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Os quadrinhos autobiográficos (pero no mucho) de Julie Maroh ganham uma adaptação delicada que explora o começo, meio e fim de um amor puro – e, sendo puro, talvez ele não tenha fim. É o acaso que une a estudante Emma (Léa Seydoux) e a adolescente Adèle (Adèle Exarchopoulos); é o sentimento forte e crescente que as faz descobrir, juntas, o que é uma vida a dois. Com três horas de projeção, o filme toma seu tempo em estabelecer o peso do sentimento que as une, a cisão que as separa e os fragmentos que ficam pelo caminho. Mas, acredite, três horas não é nada quando está em cena uma atriz tão espetacular como Adèle Exarchopoulos: o que ela constrói nesse tempo é uma vida plena.

6. THE WIND RISES

(Kaze Tachinu, Hayao Miyazaki)

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O mestre Hayao Miyazaki diz que The Wind Rises é sua despedida do cinema. Gênio por trás das obras primas Meu Amigo Totoro, Princesa Mononoke e A Viagem de Chihiro, aqui o diretor se afasta da fantasia e entra em terreno perigoso. Desde criança, Jiro tem um sonho: o de ganhar os céus. Como não pode pilotar (sua visão é frágil e não acompanha seu coração), ele passa a vida desenhando o avião perfeito – para a glória da nação japonesa, claro. A mesma nação que fazia um acordo com o Partido Nazista e entrava na Segunda Guerra Mundial. Ver seu sonho se tornar instrumento de destruição é o temor de todo artista. Miyazaki romantiza a biografia de Jiro (que morreu em 1982) e procura a beleza em meio ao caos. Pode ser uma busca sem fim. Mas a jornada, como mostrada em The Wind Rises, é de tirar o fôlego.

5. RUSH – NO LIMITE DA EMOÇÃO

(Rush, Ron Howard)

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A rivalidade dos pilotos James Hunt e Niki Lauda é o motor deste drama em alta velocidade conduzido com firmeza e estilo por Ron Howard. O diretor foi até a época em que o glamour das corridas de Fórmula 1 se confundia com o perigo muito real enfrentado por pilotos que testavam os limites da tecnologia e da velocidade. O cinema várias vezes procurou as corridas como pano de fundo para histórias de superação, mas a trajetória magnífica de Hunt e Lauda – entrecortada por sexo, bebibas, mulheres, acidentes, voltas por cima e o triunfo do espírito humano sobre a máquina fria – criou um filme espetacular, que ganha ainda mais fôlego com o trabalho irretocável de Chris Hemsworth e Daniel Brühl.

4. O LOBO DE WALL STREET

(The Wolf of Wall Street, Martin Scorsese)

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Scorsese aposta pela quinta vez na estampa de Leonardo DiCaprio para conduzir uma trama acelerada, tragicômica e tão incrível que só podia ser verdade. O astro é Jordan Belfort, corretor em Wall Street que se aproveita de um mercado de ações confuso para, nem sempre dentro da lei, construir uma fortuna. Sua ascensão e queda parecem ser anabolizadas por cocaína, prostitutas e mais dinheiro que alguém pode gastar. Scorsese mergulha neste mundo e entrega um filme fascinante, em que mais uma vez DiCaprio prova ser um dos intérpretes mais completos de sua geração. Ainda assim, é Matthew McConaughey, no papel do mentor de Belfort, que resume em um diálogo arrasador o que é preciso para sobreviver no mar de tubarões que é o mundo de dinheiro e poder de Wall Street.

3. CAPITÃO PHILLIPS

(Captain Phillips, Paul Greengrass)

Tom Hanks

Existe um momento, já no final de Capitão Phillips, em que o personagem de Tom Hanks parece ceder à toda a pressão da abordagem em alto mar do cargueiro que ele comandava. Primeiro quando seu navio foi tomado por piratas somali, que depois o levaram como refém por longos dias em uma baleeira. Por fim, o trágico resgate feito pelos fuzileiros americanos. Recebendo cuidados médicos, ele desaba, seu cérebro ainda não registra que seu tormento chegou ao fim. É o momento em que Hanks mostra porque é um grande ator, e é também o fim de uma jornada tensa conduzida com precisão por Greengrass (A Supermacia Bourne, O Ultimato Bourne). Bombardeado por acusações estúpidas, o filme humaniza todos os lados (o que o verdadeiro capitão Phillips pode discordar) e não oferece respostas. O difícil, quando a barbárie sobrepuja a humanidade, é formular as perguntas.

2. TRAPAÇA

(American Hustle, David O. Russell)

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David O. Russell é como o dono de uma companhia teatral. Pega os melhores artistas de um trabalho (Christian Bale e Amy Adams, que com ele fizeram O Vencedor), adiciona performers de outra grande montagem (Bradley Cooper e Jennifer Lawrence, de O Lado Bom da Vida), pincela novas peças no tabuleiro (Jeremy Renner, Louis C.K.) e o resultado é… mágica! Trapaça é um filme sobre vigaristas. Bale e Adams, apaixonados um pelo outro e pela beleza dos golpes, sobrevivem numa boa ao garfar sempre peixes pequenos. J-Law é o outro lado da moeda, já que é casada com o personagem de Bale (e ilumina a tela sempre que está em cena). O policial Cooper dá as caras para a) desestabilizar o esquema e b) talvez ter um gostinho de como a vida do outro lado é boa. Quando a farsa ameaça cutucar jogadores perigosos de verdade (políticos, a máfia), é hora de buscar uma saída. Ou de mergulhar ainda mais fundo na trapaça. Um filme delicioso, com um elenco espetacular que nunca esteve tão em sintonia. Russell aperfeiçoou sua fórmula. Qual o passo seguinte?

1. GRAVIDADE

(Gravity, Alfonso Cuarón)

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Cinema em estado bruto. Um filme de arte de 100 milhões de dólares. Um vislumbre do futuro do cinema. A tecnologia a serviço da narrativa. Uma atriz no auge de seu talento. Gravidade é o melhor filme de 2013. Quando falei sobre ele, duvidava que outro filme pudesse ser tão arrebatador, tão envolvente, tão espetacular. Pura mágica.