Blog do Sadovski

A estranha vida do criador do Doutor Estranho

Roberto Sadovski

18/11/2016 21h03

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Calma, não estou falando de Stan Lee. Aos 89 anos, e ainda produzindo quadrinhos (e também alguns ensaios), Steve Ditko é o herói menos laureado não apenas do Doutor Estranho, agora sob os holofotes por causa do filme em cartaz pelo mundo, mas também do Homem-Aranha, sua criação mais popular. Ou co-criação, já que os heróis foram uma parceria de Ditko com Lee, ainda nos anos 60. Mas Stan, presença cativa em praticamente todos os filmes com o selo da Marvel, por décadas ficou com a parte do leão dos créditos e tornou-se o retrato de toda uma geração de super-heróis dos quadrinhos. Ditko, que rompeu com o parceiro ainda nos anos 60, escolheu o silêncio e pouco se sabe de seu lado da história. Ou melhor: pouco se sabe sobre ele, já que o artista não dá entrevistas a jornalistas pelo menos desde 1968, mais ou menos a mesma época em que fez sua última foto promocional.

O que existe é o mistério.

E não que Steve Ditko seja um recluso, um artista maldito escondido em alguma fazenda nos rincões da América. Seu estúdio em Manhattan tem endereço listado e seu nome na porta, e vez por outra algum jornalista mais intrépido arrisca um papo. Ocasiões como Doutor Estranho ter se tornado filme atiça o interesse, e foi com esse espírito que um repórter do site Vulture recentemente aventurou-se até o prédio que abriga o escritório de Ditko. Depois de alguns dias, e de conversar com os vizinhos, ele finalmente foi recebido pelo desenhista lendário, um encontro que durou cerca de….. seis segundos – antes que Ditko fechasse a porta bem na cara do repórter sem ao menos dizer um oi. Ok, pode até ter sido grosseria. Mas também está de acordo com o modo como Ditko decidiu tocar sua vida e sua carreira: com absoluta privacidade.

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O Homem-Aranha

Steve Ditko começou sua carreira em meados dos anos 50, emprestando seu traço para tramas de ficção científica e terror em editoras como Charlton e Harvey Comics. Mas foi em uma Marvel embrionária que ele saltou aos olhos do público. Stan Lee já havia criado o Quarteto Fantástico e estava trabalhando em novos conceitos. O Homem-Aranha era um “laboratório”, um herói adolescente, com problemas reais e poderes que não lhe traziam nenhum alento. Jack Kirby, parceito habitual de Lee, desenhou um promeiro esboço, que o escritor achou “heróico” demais. Ditko, então, foi a escolha natural, e emprestou seu traço dinâmico ao adolescente Peter Parker. Embora a ideia do personagem fosse de Lee, foi Ditko quem lhe soprou vida, criando não só o traje icônico como motivos gráficos que caracterizam o herói e seus poderes – e que são usados até hoje.

A paternidade do herói, entretanto, tornou-se motivo de discórdia. Stan Lee não tinha problema em puxar a sardinha para o seu lado, e Ditko a princípio só queria continuar desenvolvendo o personagem – que, diga-se, ficava mais e mais parecido com sua própria personalidade. Nos dois primeiros anos do herói nas bancas, a explosão criativa, narrativa e de novos personagens foi impressionante, mas aos poucos ficava claro que o caminho de Ditko, e o modo como ele queria conduzir suas ideias e sua arte, batia de frente com o que Lee, também editor na Marvel, visualizava para o Aranha. Nesse ponto as histórias divergem: Ditko dizia que Lee simplesmente cortou todos os canais de comunicação; este, por sua vez, falou que seu artista um dia simplesmente falou que estava fora do título, virou as costas e não olhou para trás. John Romita assumiu The Amazing Spider-Man, já um fenômeno de vendas, esperando um óbvio retorno de Ditko – que jamais ocorreu.

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Doutor Estranho

A criação do Doutor Estranho ocorreu pouco antes deste rompimento, mas já trazia a fricção entre os dois artistas. É certo que o Homem-Aranha jamais surgisse como o mundo o conhece se fosse concebido unicamente por um ou por outro: ele é fruto da contradição, de ideias antagônicas, um moleque com o peso do mundo em seus ombros, impelido à ação por uma tragédia, mas que se transformava numa metralhadora vocal de humor e provocação no segundo em que saltava para entrar em ação contra um sem número de vilões. Mas o Mestre das Artes Místicas não trazia esse equilíbrio, surgindo mais do esforço de Ditko ante a apatia de Lee. “Estamos trabalhando em um novo personagem para a Strange Tales, um ‘tapa-buracos’ de cinco páginas chamado Dr. Estranho”, disse Stan, em 1973, numa entrevista a um fanzine. “A primeira história não é assim tão boa, mas talvez a gente consiga fazer algo com ele. Ele foi ideia do Steve.”

O legado de Steve Ditko na Marvel – dinamismo do Homem-Aranha e o psicodelismo do Doutor Estranho – tornou-se influência gigante para uma legião de artistas que o seguiu. Ele voltou para a Charlton, depois teve uma passagem pela DC e finalmente retornou à Marvel, já ao fim dos anos 70, onde emprestou seu traço para títulos como ROM e Homem-Máquina. Quadrinhos de super-heróis, entretanto, haviam se tornado canal para ele expressar a filosofia que ele seguia há um bom par de décadas: o Objetivismo, deselvolvido e introduzido pela obra da autora russo-americana Ayn Rand, em especial nos livros A Nascente e A Revolta de Atlas. Em seu pensamento, o homem enfatiza seus valores e suas ações à luz da razão, enfatizando as noções de individualismo, autossustentação e capitalismo. Não há muito espaço para áreas cinzentas, as ações valem mais que palavras. Talvez isso explique a recusa do artista em falar sobre seu trabalho: tudo que ele deseja expressar é sua arte, e não os conceitos por trás dela. “Quando eu faço um trabalho, não estou poferecendo minha personalidade aos leitores, e sim a minha arte”, explicou em uma entrevista ainda no final dos anos 60. “Como eu sou não importa, e sim o que eu fiz e se eu o fiz bem… Eu crio um produto, uma arte em quadrinhos.”

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O Questão

 

Por isso Ditko sempre foi um sujeito reservado. Por isso que outros artistas tinham dificuldade tremenda em trabalhar com ele. E por isso, claro, que existe tanto espaço para especular sobre sua vida e sua obra. Ele demonizou uma biografia publicada por Blake Bell em 2008, Strange and Stranger: The World of Steve Ditko, sem ao menos ler uma página sequer. De volta à Charlton, Ditko discutiu com o roteirista Steve Skeates, que colocava diálogos nas histórias do justiceiro mascarado O Questão, por causa de uma frase. “Eu fiz o Questão dizer a um vilão, em resposta a algo que o malfeitor fizera, ‘Bem, meu amigo, você não me impressionou tanto assim’.”, lembra Skeates. “Ditko me escreveu uma carta de seis páginas explicando porque o Questão jamais chamaria um vilão de ‘meu amigo’.” Tom DeFalco, que fazia os plots de Homem-Máquina na Marvel do film dos anos 70, recebeu uma ligação inesperada do do artista, que começou uma discussão filosófica de quase duas horas ao telefome com um “O que é um herói, e o que dá a você o direito de escrever histórias sobre heróis?”. Tenso.

Os quadrinhos mainstream aos poucos foram ficando para trás na carreira de Steve Ditko, cada vez mais focado em discutir e ilustrar o objetivismo. Seu prego no caixão dos super-heróis corporativos foi, ironicamente, uma última parceria com Stan Lee: Ravage 2099, de 1992, para a qual o então editor-chefe da Marvel, Tom DeFalco (o mesmo da discussão sobre direitos e heroísmo anos ants) arranjou um encontro do artista com o roteirista. Eles se abraçaram, falaram sobre os velhos tempos mas, no fim, Ditko não concordou com as “insinuações filosóficas” da história e, polidamente, declinou. Quando a Time publicou uma reportagem sobre o Homem-Aranha em 1998 e concedeu crédito somente a Stan Lee, Steve Ditko expressou seu profundo descontentamento em uma carta a uma publicação especializada em quadrinhos. Lee tentou colocar panos quentes, mas não havia volta. Curiosamente, e apesar de ter dito não receber um centavo de direitos autorais sobre os filmes milionários com o herói, uma vizinha, após receber por engano uma correspondência referemte a royalties pagos pelo estúdio, viu “um cheque com uma fileira de zeros” nominal a Ditko, Mais um mistério adicionado à lenda.

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Mr. A, personagem guiado pelo objetivismo

Uma lenda que, por sinal continua produzindo ensaios e tiras, sempre evangelizando o objetivismo de Ayn Rand – material que só pode ser encontrado em um punhado de lojas especializadas em quadrinhos ou por mala direta. Quase seis décadas depois de ter criado um dos personagens mais famosos da cultura pop em todo o mundo, o que move Steve Ditko continua sendo objeto de especulação. Talvez tudo que a gente já saiba sobre ele seja tudo que exista ou tudo que realmente importa. Ele não tem interesse em contato com fãs, em falar de sua arte, em participar de convenções, em adicionar uma sílaba ao que realmente importa: sua arte. O resto? Irrelevante.

Em um perfil publicado pela revista Wizard em 2002, quando Sam Raimi apresentou seu Homem-Aranha nos cinemas, o historiador de quadrinhos Greg Theakson contou sobre uma visita ao estúdio de Ditko, em que ele observou uma página de quadrinhos encostada na parede, retalhada por inteiro. Ele percebeu que Ditko usava as páginas antigas para cobrir sua mesa de trabalho enquanto cortava novas. Um olhar mais próximo detectou um selo do Comics Code, que regulamentava o teor das histórias, um alerta para dizer que era um original ali, aos pedaços. Theakson pediu para ver a página na parede e, apesar do olhar incisivo do artista, ele descobriu que se tratava de um original da série Journey Into Mystery, datado do final dos anos 50. Um pedaço de história da arte sequencial, que devia estar preservado num museu. Mas ali estava, sendo usado como proteção de mesa, pronto para ser retalhado.

Theakson ficou desesperado, sugeriu a Ditko que ele mesmo iria a uma loja de material para desenho na esquina mais próxima e compraria uma mesa de corte, com cobertura de plástico, e que ele não precisaria mais usar arte nenhuma. Ditko recusou. Theakson argumentou que, além do desenho provavelmente valer um bom dinheiro, ele tinha de reconhecer a importância de uma peça da história editorial americana. Movimento contínuo, Ditko afastou uma cortina da parede, e Theakson viu uma pilha que quase um metro de arte original, devolvida pelas editoras, que Ditko usava como folhas de corte. Ao menos 200 mil dólares de desenhos originais da Marvel, que seriam destruidos pelo artista que os criou. “Ele não gostava da ideia de as pessoas acharem que seu melhor trabalho era o Homem-Aranha de 30 ou 40 anos atrás”, disse o historiador. “Ele queria ser representado não pelo que havia feito, mas por seu trabalho contemporâneo, que o agora fosse seu melhor momento.” Isso significaria, claro, que Steve Ditko nunca mais desenharia o Homem-Aranha outra vez. “Provavelmente não”, teria dito o artista. “Não estou interessado.”

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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