Blog do Sadovski

Sangue, violência e clima de western moderno: como Logan pode mudar o gênero dos super-heróis

Roberto Sadovski

Uma garotinha, com não mais que 10, 12 anos, sai de um galpão empoeirado em meio ao deserto. Do lado de fora, um batalhão de policiais e mercenários cibernéticos a observa, armas engatilhadas. Sem dizer uma palavra, ela joga em sua direção a cabeça de um de seus companheiros, decepada por suas próprias mãos. O que acontece a seguir é uma chacina de deixar um Peckimpah orgulhoso, um massacre perpetrado pela garotinha e por seu aliado circunstancial, ainda incrédulo: Logan, o mutante Wolverine, que desta vez também não se contém e, com suas garras de adamantium, rasga carne, pulveriza ossos, uma fúria que os fãs do herói esperaram dezessete anos para testemunhar. Logan definitivamente não é o X-Men que seu pai (ou seu irmão mais velho) viu no cinema em 2000. E, definitivamente, está longe do que pode ser esperado de um “filme de super-heróis”.

Já não era sem tempo! Embora Blade tenha aberto as portas em 1998 (eu conto o “marco zero” sendo Matrix um ano depois), foi X-Men o filme que viabilizou a formação de um gênero. Superman não voava mais, Batman havia sido morto por uma paródia não declarada. Super-heróis eram veneno. Mas a aventura de ficção científica de Bryan Singer mostrou que traduzir heróis do papel para o cinema não só era viável, como também era possível lhe conferir profundidade, subtexto e importância – lição finalmente compreendida por indústria, crítica e público quando Batman – O Cavaleiro das Trevas faturou mais de 1 bilhão de dólares em 2008 sob o comando de Christopher Nolan. Neste novo século, o “gênero” – e uso aspas porque os super-heróis na verdade podem ser encaixados em diversos gêneros diferentes – se estabeleceu, a ponto de fazer parte da espinha dorsal do cinemão pop moderno. A fórmula funciona e está longe de cansar. Mas sua sobrevivência também depende de sua subversão.

logan

Hugh Jackman carrega Laura (Dafne Keen) para longe do perigo

O que nos traz a Logan. Desde que se tornou um astro justamente em X-Men, dando vida ao mutante canadense Wolverine, Hugh Jackman navegou por dramas e musicais, fantasias e comédias, sem nunca deixar o herói que lhe abriu as portas para trás. A letra repetida por Jackman era que, se fosse se despedir do personagem, teria de ser da melhor forma em seu melhor filme. X-Men Origens: Wolverine foi um desastre. Já Wolverine Imortal foi um passo importantíssimo na direção certa. Logan, por sua vez, é fruto de amadurecimento de ator, diretor (James Mangold, sempre eclético, sempre eficiente), estúdio e público. Os fãs, afinal, sempre quiseram ver o Wolverine furioso no cinema, uma máquina de matar que, nos quadrinhos, tornou-se um super-herói ao juntar-se aos X-Men. Mas sem hesitar em libertar sua natureza animal quando necessário. Isso era difícil de acontecer em filmes que, por questões óbvias, miravam no público adolescente. Logan deixa essas amarras para trás.

Eu assisti ao primeiro ato de Logan, cerca de meia hora de filme, como parte do esforço do estúdio para mostrar que o jogo mudou. E é arrebatador! Ambientado em um futuro não definido, mas em que o mundo obviamente deixou a civilização para trás, o filme apresenta de cara um Logan mais velho, com seu fator de cura funcionando no tranco. O que não impede que ele, de cara, despache um grupo de criminosos que tentava roubar seu carro. O tom do filme é estabelecido de cara, com nenhum cuidado com linguagem e uma explosão gloriosa de violência. Já é dia quando ele chega no depósito em meio ao deserto que chama de lar, e logo fica claro que ele trouxe companhia para casa: uma menina, Laura, que aparentemente só se comunica telepaticamente com um Professor Xavier (Patrick Stewart, brilhante) nonagenário, fragilizado, com seu corpo sucumbindo ao tempo e sua mente, a mais poderosa do planeta, perdendo-se no vácuo. Xavier diz que a menina precisa ser protegida. Logan quer distância deste mundo. E logo o mercenário biônico Donald Pierce (Boyd Holbrook) chega, sem se intimidar com o mutante, perguntando pela garota.

Logan Xavier

O Professor Xavier (Patrick Stewart) é peça fundamental na trama de Logan

O que se segue é a consolidação de algo novo, de um filme que traz elementos familiares a quem acompanha as aventuras dos mutantes no cinema há quase duas décadas, mas sob um prisma totalmente novo. Os mercenários de Pierce tentam capturar Laura, e ela revela sua natureza: assim como Logan, ela possui um fator de cura; assim como Logan, ela tem garras de adamantium (um par em cada punho, um gancho na ponta dos pés); assim como Logan, ela explode em fúria incontrolável quando acuada. O filme de James Mangold ecoa em sua estrutura o western clássico com roupagem moderna: traz o heróis relutante, solitário, devastado por seu passado, sem conseguir enxergar o futuro. A aventura surge sem restrições à natureza violenta de seus protagonistas (o clima árido lembra o primeiro Mad Max, o de 1979), ao mesmo tempo que fortalece a relação entre Logan e Xavier, além de introduzir um novo mistério. Nos quadrinhos, Laura é também chamada X-23, por ser o primeiro clone bem sucedido do Wolverine, após duas dezenas de tentativas pelo programa Arma X. A pista ao final de X-Men Apocalipse sugeria a participação de outro vilão dos gibis, Nathaniel Essex, o Sr. Sinistro. Mas são apenas especulações.

Ano passado, Deadpool provou a viabilidade de um filme de super-heróis com censura R – ou seja, proibido para menores. Mas era uma outra pegada, uma desconstrução genial do gênero em tom de sátira. Logan traz a mesma classificação (o estúdio já avisou que no Brasil não deve ser liberado para a petizada) em uma trama totalmente diferente: mais séria, menos esperançosa, mais alinhada com o Wolverine que o cinema está devendo desde 2000. Para Hugh Jackman, acertar em Logan é questão de honra. É impossível cravar o futuro com meia hora de filme, mas fica claro que o jogo é outro. E que a despedida do astro do personagem que ele tomou para si pode ser, sim, o grande filme de super-heróis que o ano precisa para começar com os dois pés na porta.

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Hugh Jackman se despede do Wolverine depois de dezessete anos como o herói

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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