Blog do Sadovski

Moonlight merece, afinal, o Oscar de melhor filme?

Roberto Sadovski

27/02/2017 18h45

Sim. E não. Explico. A cerimônia do Oscar do último domingo, que terminou por premiar o filme de Barry Jenkins (depois da confusão bizarra e da troca de envelopes que deu, por alguns minutos, o Oscar a La La Land), tinha função dupla: firmar o pé numa posição política que coloca a comunidade de Hollywood em guerra perene com o presidente eleito Donald Trump, e se recuperar da polêmica do ano passado, quando o prêmio foi acusado, na falta de um termo melhor, de ser racista. Trump realmente ficou na mira da artilharia – eu contei onze referências diretas a seu governo, suas medidas e suas declarações. E a vitória de Moonlight, um drama “100 por cento black”, colocou uma pedra em cima de qualquer insinuação de preconceito e favoritismo por parte do Oscar.

Mais ainda: Moonlight acertou dois coelhos com uma pedrada só. É o filme que melhor representa esse inconformismo pelo momento politico, escancarando justamente aspectos da América que Trump parece querer varrer para baixo do tapete. É um filme sobre negros e pobres, sobre identidade de gênero e também sobre falta de identidade. Aborda um país que vive um intenso abismo social e em constante busca de rumo. É sobre pessoas invisíveis, sem voz, que vivem sem oportunidades e – pior! – sem a menor referência para lidar com quem eles são. É um filme, na falta de uma palavra melhor, “importante”. E que se torna ainda mais urgente quando percebemos que o público deu de ombros a ele: em toda a história da premiação, apenas Guerra ao Terror, que ganhou o Oscar de melhor filme em 2009, teve números nas bilheterias mais baixos.

Pequeno é “batizado” por Juan em cena carregada de simbolismo

E aí vem a segunda parte da vitória. La La Land experimentou um índice de rejeição enorme por parte de muitos membros da Academia, o que contribuiu para que o filme de Damien Chazelle perdesse pontos preciosos na contabilidade do Oscar (este artigo de James Cimino, aqui mesmo no UOL,  explica bem como funciona o sistema de votação do prêmio). Assim, Moonlight se tornou, na visão dos votantes, o filme perfeito para ser laureado com a estatueta: relevante, bem realizado e politicamente contundente – dentro e fora da indústria. O filme certo na hora certa, com todos os predicados para ser eternizado entre os trabalhos que recebem o Oscar de melhor filme. De maneira natural. Sem forçar a barra. Com todos os méritos.

Ainda assim, Moonlight não era o melhor filme entre os indicados ao Oscar deste ano. La La Land era. Neste momento, coloca-se de lado a birra, o “eu odeio musicais”, a “relevância”, o “contexto político”. O filme de Barry Jenkins segue a vida de Chiron. Negro, pobre, vítima de bullying constante. Negligenciado pela mãe viciada em crack (Naomie Harris). Encontra num traficante, Juan (o sublime Mahershala Ali) o que mais se aproxima de figura paterna. Em constante luta com sua própria sexualidade – não pela dificuldade em aceitar o que ele é, mas pela total ignorância em ao menos saber o que ele é! O roteiro, escrito a quatro mãos por Jenkins e Tarell Alvin McCraney, é dividido em três atos distintos, com Chiron ainda criança, apelidado Pequeno (Alex R. Hibbert); depois adolescente, quando vivencia os eventos que vão mudar sua vida (agora interpretado por Ashton Sanders); e, finalmente, adulto, agora chamado de Preto (Trevante Rhodes), praticamente uma cópia de Juan, e ainda incerto de sua identidade e individualidade.

Preto confronta seu passado em busca de sua identidade

Mas o diálogo entre as três partes é irregular, para dizer o mínimo. O primeiro ato, “Pequeno”, é irretocável, em especial pela atuação de Mahershala Ali e sua interação com Hibbert. Todos os momentos memoráveis de Moonlight estão ali: a vida desconexa de Chiron com a mãe e o encontro de um porto seguro na casa da namorada de Juan, Teresa (Janelle Monáe); seu “batismo” nas águas do mar; o diálogo devastador com Juan quando ele pela primeira vez questiona sua sexualidade (“O que é bicha? Ou sou bicha?”) e o fato de seu “pai” ser o mesmo que fornece o veneno à sua mãe. Moonlight parecia, de fato, algo especial. Mas o frescor não continua em “Chiron”, mesmo trazendo o momento em que ele, adolescente, conhece pela primeira vez o afeto de outra pessoa, seu amigo Kevin (Jharrel Jerome). O que era uma narrativa poderosa começa a ceder a certos clichês, e não no bom sentido. Quando chegamos em “Preto”, com Chiron adulto, os momentos de catarse, como seu reencontro breve com a mãe, agora em uma clítica de reabilitação, não surgem num crescendo. Sua própria admissão de uma vida sem contato íntimo com outro ser humano parece não dialogar com a vida que ele parece ter vivido até então.

Moonlight é um filme que parece dizer muita coisa – e que tem muita coisa importante a dizer. Mas cinema não existe para passar mensagens, não funciona para ilustrar temas. É storytelling, então a história é rei. Todo o resto é subtexto, depende do poder de seus personagens. Sem isso, todo o resto não passa de perfumaria. Claro, em nenhum momento é o caso da obra de Barry Jenkins, mas fica sempre claro que o diretor está o tempo todo segurando a própria mão para não trocar o ofício de contador de história por um púlpito. Felizmente, ele ainda consegue o equilíbrio perfeito, e não cai na caricatura como outro filme que, em 2016, pretendia polarizar o cinema afro-americano, o malfadado O Nascimento de Uma Nação (eu falei sobre ele aqui). Mas Moonlight merecia um pulso mais firme em sua execução. Uma montagem menos frouxa no terceiro ato. Uma narrativa que não deixasse tanto vácuo para ser preenchido por nossa imaginação. Detalhes, claro, que não tiram seu brilho. Muito menos o mérito em ser escolhido como melhor filme pelo Oscar. Moonlight pode ser o filme mais antenado no espírito do tempo. Mas La La Land é mais cinema.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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