Blog do Sadovski

Fazendo as pazes com o sucesso, Shyamalan abraça o lado sombrio da mente humana com Fragmentado

Roberto Sadovski

22/03/2017 10h49

M. Night Shyamalan dificilmente abandona o lado sombrio do ser humano. Mesmo em filmes que claramente foram “sob encomenda” (O Último Mestre do Ar, Depois da Terra), bate um coração torto, meio quebrado. Fragmentado, que marca sua reconciliação com o público depois de uma série de filme em que a plateia deu de ombros, é seu trabalho em que essa relação com pessoas danificadas – para colocar de forma suave – se torna mais evidente. Mais ainda: é um filme tenso e sempre surpreendente, que levanta questões sobre os limites da condição humana e o poder da mente, sobre abuso e superação, sobre homens e super-homens. No centro de tudo, James McAvoy, no que deve ser seu melhor trabalho até então.

O ator, que explodiu mundialmente como o telepata Charles Xavier jovem na série X-Men, é Kevin Wendell Crumb. O conhecemos adulto, depois de uma vida de abusos na infância, que resultaram em uma mente fragmentada, dividida em 23 personalidades. É um caso severo, em que cada “pessoa” que habita seu corpo tem total consciência de sua condição e tenta, com o auxílio de uma psicóloga (Betty Buckley), levar uma vida normal. Mas “normal” não entra na mistura, já que três destas personalidades – o violento e meticuloso Danny, a religiosa fanática Patricia e o garotinho Hedwig – assumem o comando para trazer à tona uma ainda oculta e, talvez, fantasiosa: a Fera, que superaria os limites do corpo humano e seria o passo seguinte à nossa evolução.

Anya Taylor-Joy foge de…. algo

A trama dispara quando três jovens são sequestradas por Danny – entre elas Casey (Anya Taylor-Joy, de A Bruxa), ela própria vítima de abuso – como parte de um ritual para trazer a Fera para este plano. Casey é levada por acidente, já que o alvo seriam as jovens “impuras”: meninas de vida perfeita, que nunca enfrentaram dificuldades e vivem numa redoma. Mais ou menos como a novíssima geração leite com pêra do lado de cá da tela, típicos adolescentes de classe média que aprendem sobre o mundo em postagens nas redes sociais e não entendem os mecanismos que movem o mundo real. Para a mente dividida de Kevin, apelidada “A Horda”, são as pessoas que não tem mais espaço no novo mundo, em que “os danificados herdarão a Terra”.

Shyamalan planejou Fragmentado há quase duas décadas, e o personagem de Kevin Wendell Crumb inclusive fazia parte de um de seus filmes anteriores, sendo retirado do roteiro para que, no futuro, pudesse ganhar espaço devido bos os holofotes. O filme é claro resultado de uma pesquisa extensa, e a desordem mental apresentada pelo protagonista espelha casos reais – claro, com a devida dramatização exigida pelo cinema. Mas é fascinante ver a sutil transformação física empenhada por McAvoy quando ele “troca” quem está no comando do corpo de Kevin. É um trabalho incrível de construção de personagem e é difícil imaginar outro ator que une carisma e um certo senso de perigo abraçando o projeto.

M. Night Shyamalan dirige James McAvoy

Vale observar que Fragmentado também foge ao modus operandi que acompanha o nome de Shyamalan. Não que ele seja “o cineasta com a virada surpreendente”, mas O Sexto Sentido, e seu sucesso global, fez com que o público esperasse uma grande revelação no clímax de seus filmes. Não é assim que o diretor opera: sua preocupação é montar uma estrutura narrativa que, sim, desafia a expectativa do público, mas não como uma muleta, e sim como uma ferramente para alavancar a trama. Fragmentado caminha em outro passo, com o arco de Kevin espelhando, de certa forma, o de Casey – e como a mente de duas pessoas expostas ao abuso reagem de formas diferentes, ou com retração, ou com fragmentação. Mas o filme não é desprovido de grandes surpresas, que inclusive informam qual seria o próximo projeto do diretor (quanto menos comentar, melhor).

Ainda assim, é um filme divisivo. Como A Vila, em que parte da platéia se sentiu tapeada pela (brilhante) conclusão bolada por Shyamalan, a mudança de tom – e de gênero – no clímax de Fragmentado pode incomodar. É quando o thriller psicológico, que começou como um filme de terror, abraça uma solução que o posiciona em um outro gênero, o do cinema fantástico, que extrapola o realismo apresentado até então. Mas o diretor nunca segue um caminho vulgar, e quem o acompanhar nessa ideia sai do filme com a sensação de ter visto algo realmente inovador. Com o estrondoso sucesso de Fragmentado pelo mundo, acredito que sua missão foi cumprida.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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