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Mulher-Maravilha é bem legal... mas não é nenhuma maravilha

Roberto Sadovski

01/06/2017 17h21

Mulher-Maravilha é um filme importante. De verdade. Não só é um passo na direção certa em todo o projeto de se criar um universo da DC no cinema, até agora um desastre conceitual, como funciona como produção isolada, como filme de origem e como aventura de super-heróis. E vai além. Ao assumir o projeto como voz para criadoras num mercado dominado pela testosterona, a diretora Patty Jenkins finca uma bandeira e, espera-se, abra mais possibilidades para cineastas com visões ainda mais diversas. Não é, obviamente, o primeiro filme baseado em quadrinhos protagonizado por uma mulher (Mulher-Gato, Barb Wire, Tank Girl), muito menos o primeiro candidato a blockbuster com uma heroína à frente (Jogos Vorazes, Tomb Raider, Resident Evil). Mas nenhuma delas é a Mulher-Maravilha. E só isso já arremessa o projeto todo a outro patamar.

Pena que o filme não seja o triunfo que muita gente adoraria ver. E pena que seus erros ameaçam encobrir seus (muitos) acertos. Na balança, Mulher-Maravilha é mesmo divertido, é genuinamente emocionante e tem em seus méritos uma combinação de fatores poucas vezes vista em seus pares. Traz paixão, traz uma visão muito clara da história a ser contada e, principalmente, traz uma protagonista totalmente comprometida com o papel, ciente de seu valor simbólico e disposta a abraçar a tarefa sem medo. Gal Gadot é a Mulher-Maravilha, assim como Robert Downey Jr. é Tony Stark ou Christopher Reeve é o Superman. Vai além de uma boa escolha de elenco. A harmonia de personagem e intérprete é tamanha que quase dá pra ignorar quando o filme cede ante seu próprio peso e suas concessões como produto. Quase.

Patty Jenkins dirige Gal Gadot no set de Mulher-Maravilha

A estrutura de Mulher-Maravilha espelha a de dúzias de outros filmes que narram a jornada do herói. O que muda, claro, é o tom, a moldura. Aqui a trama começa em Themyscira, a Ilha Paraíso, onde as amazonas moram há séculos, escondidas do mundo do patriarcado. Sua missão não é só criar uma sociedade perfeita, livre da influência do homem, mas também preparar-se para a batalha inevitável contra Ares, Deus da Guerra, derrotado eras atrás por Zeus mas cuja sombra avança irrefreável. As amazonas, em especial sua rainha, Hipólita (Connie Nielsen), protegem a única arma capaz de derrotar Ares, o Matador de Deuses, e rogam para que nunca chegue o dia de usá-lo. Nessa sociedade, monárquica e marcial, a princesa Diana (Gal Gadot), moldada em barro e viva graças a Zeus, sente que a superproteção materna a impede de treinar como suas irmãs. E seu treinamento nas mãos da maior guerreira, Antiope (Robin Wright), não tarda.

O roteiro de Allan Heinberg (veterano de Sex and the City, Gilmore Girls e Grey's Anatomy), desenvolvido a partir de uma ideia de Zack Snyder e Jason Fuchs, não foge dos clichês do herói relutante, ansioso em abraçar sua missão e freado por quem busca lhe preservar. A chegada à ilha de Steve Trevor (Chris Pine), espião americano infiltrado em meio às forças alemãs durante a Primeira Guerra Mundial, dá novo fôlego ao desejo de Diana em proteger a humanidade e cumprir a missão de eliminar a ameaça de Ares – certamente o responsável pela "guerra para acabar com todas as guerras". Um combate nas praias de Themyscira com soldados alemães mostra não só a fragilidade da paz entre as amazonas como também a urgência em entrar no conflito no mundo exterior. Diana parte com Trevor. E Mulher-Maravilha engata uma segunda com louvor.

É nesse miolo, na chegada de Diana em Londres, seu contato com o mundo fora da paz de Themyscira e o testemunho do horror da guerra, que o filme de Patty Jenkins eleva-se acima da média. Embora o roteiro force a mensagem de "só a paz e a compreensão podem encerrar o conflito", Jenkins é elegante em sua condução, e tem em Gadot o veículo perfeito para trazer essa harmonia. Já vimos em incontáveis filmes o herói atendendo a um chamado maior. Mas Mulher-Maravilha consegue trazer emoção genuína e uma certa doçura – não só pela interpretação precisa de Gadot, mas também com sua química perfeita com Chris Pine, o que garante os muitos momentos de leveza e bom humor do filme. Vale notar que, como os papéis "tradicionais" aqui são invertidos, fica evidente o cuidado em também desenvolver a personalidade de Steve Trevor, espelhando o descompromisso habitual em outros filmes, quando este papel de segundo plano fica à cargo de uma mulher.

Esse cuidado infelizmente não se estende aos "vilões" da trama. Danny Huston e Elena Anaya ("Dra. Veneno", sério?) são antagonistas genéricos com zero motivação, com direito até a gargalhada maligna em um momento constrangedor. Em nenhum momento da aventura eles entregam qualquer nuance, e isso esvazia o propósito de Diana em sua própria jornada. É difícil "comprar" a ameaça quando ela surge de maneira tão bocó. Ares surge, por sinal, como um vilão de quinta, sem uma gota de perigo e com jeitão de vilão de novela. O casting não poderia ser mais equivocado, assim como seu design. A revelação de sua identidade também termina anticlimática, culminando num terceiro ato mergulhado em efeitos digitais confusos, diálogos ginasiais que tentar dar peso a um roteiro que já deixou de fazer sentido e um combate tão sem impacto quanto arrastado. Fica claro o dedo do produtor Zack Snyder, onipresente ante a pouca experiência de Jenkins em espetáculos cinematográficos. É uma "exigência" de Mulher-Maravilha como produto que, honestamente, surge deslocada depois de um filme que acerta tanto e de maneira tão bacana.

Steve Trevor (Chris Pine) só diz verdades a Antíope (Robin Wright)

Quando toda a fanfarra sobre empoderamento e diversidade suavizar, Mulher-Maravilha será visto como uma aventura leve, com direção acima da média, que tropeça nos mesmos erros da maioria de seus pares. Por outro lado, é um alívio ver uma personagem de tamanha importância ter o tratamento e a atenção merecidas por parte de seus realizadores, que não pouparam no investimento (o filme, acredite, é lindíssimo) e nem em sua divulgação. Independente de ser encabeçado por uma mulher, ou de ser dirigido por uma mulher, Mulher-Maravilha não surge para defender nenhuma bandeira – talvez, imagino, a do humanismo. Gal Gadot é uma performer mais interessante que Ben Affleck como Batman ou Henry Cavill como Superman, e eu não duvido que ela roube a cena, mais uma vez, em Liga da Justiça. Enquanto novembro não chega, pode conferir Mulher-Maravilha com a certeza de que é o melhor filme do universo estendido DC. O que, convenhamos, não era assim tão difícil.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.