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Nos 10 anos de Batman – O Cavaleiro das Trevas, o que a DC aprendeu?

Roberto Sadovski

16/01/2018 18h20

Este ano a Marvel celebra uma década de seu universo cinematográfico. Desde que Jon Favreau dirigiu Robert Downey Jr. e Homem de Ferro, o estúdio se tornou uma das maiores forças do cinema, emplacando um modelo narrativo de filmes conectados que a concorrência tenta entender e copiar, ainda sem sucesso. Para celebrar a data, a Marvel tem três filmes chegando aos cinemas este ano – além de Pantera Negra e Homem-Formiga e a Vespa, coloca na rua o que periga ser o maior lançamento do ano, Vingadores: Guerra Infinita. Mas este não é um texto sobre a Marvel.

Batman – O Cavaleiro das Trevas é outro "filme de super-heróis" que também completa 10 anos em 2018 – o filme estreou na gringa em 18 de julho. Até o momento, a única pista de comemoração pela data emblemática é um retorno da aventura dirigida por Christopher Nolan em 8 e 11 de fevereiro numa única rede de cinemas. É pouco. Muito pouco. Mesmo com todo o sucesso experimentado pela concorrência, poucos files alcançaram a excelência de O Cavaleiro das Trevas – em qualidade e em números. Foi a primeira adaptação de um herói dos quadrinhos a romper a barreira de 1 bilhão de dólares nas bilheterias. Rendeu um Oscar a um de seus protagonistas, Heath Ledger, que entregou a melhor versão do Coringa em qualquer mídia. Estabeleceu um tom e um estilo narrativo que trouxe personagens de fantasia para o "mundo real" de maneira crível. Talvez apenas Logan, entre os super-heróis no cinema, tenha alcançado tamanha profundidade temática, tamanha densidade dramática.

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Heath Ledger, brilhante como o Coringa

Nolan obviamente não tinha o menor interesse em colocar as mãos em outros heróis do catálogo da DC. Nem passava por sua cabeça a ideia de um "universo compartilhado", de usar um filme como mais um tijolo para completar uma muralha. Sua trilogia deixou claro que o interesse era, sim, criar uma alegoria sobre os cantos mais sombrios da mente humana, como medo, obsessão, vingança e loucura. O Batman e os personagens que orbitavam suas aventuras mostrou-se o ponto de partida perfeito para explorar temas muito reais. Uma pegada perfeita, que fez do segundo filme do diretor com o Homem-Morcego um fenômeno mundial, legitimizando os "filmes de super-heróis" como uma força a ser reconhecida além dos números de bilheteria. Afinal, quem realmente acredita que Quem Quer Ser um Milionário? foi o filme que merecia o Oscar?

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Mas um fenômeno é um recorte, e uma empresa gigante como um estúdio em Hollywood precisa de planos que vão além do momento. A Marvel entendeu, e usou Homem de Ferro como ponto de partida para algo maior e mais ambicioso. A DC, por outro lado, estava encantada com o trabalho de Nolan e não enxergou adiante. Corta para 2012, quando Os Vingadores encerrou a Fase 1 da concorrência e também se tornou um filme de 1 bilhão de dólares (1,5 bi, para ser mais preciso); a DC encerrou sua trilogia do Batman com O Cavaleiro das Trevas Ressurge, que também alcançou o número mágico, mas viu as portas do reino temporariamente fechadas. Como do outro lado da cerca já havia um movimento para anunciar uma "fase 2", diversos filmes em produção e a consolidação do universo compartilhado, os executivos da Warner/DC enxergaram uma oportunidade. E convocaram justamente Christopher Nolan para encabeçar a empreitada.

Christopher Nolan, o arquiteto de O Cavaleiro das Trevas

O Homem de Aço é o resultado dessa colaboração capenga. É um filme que não entende os fundamentos do Superman, tentando lhe impor o mesmo arco dramático e a mesma psicologia do Batman. Zack Snyder assumiu a direção e, como fã de quadrinhos (ele havia feito 300 e Watchmen para o estúdio), o povo do dinheiro acreditou ter encontrado a combinação perfeita. Como aventura isolada, O Homem de Aço funciona – mas os fãs precisaram de uma ginástica mental para engolir um terceiro ato em que o Superman, lutando com o homicida General Zod, pulveriza metade de Metrópolis e, certamente, parte de sua população. Ok, era um herói aprendendo a ser herói. Mas esse ar depressivo acompanhou o personagem no filme seguinte, Batman vs. Superman, e o mal estava feito. Em vez de olhar para Batman – O Cavaleiro das Trevas como um modelo bacana, em que um cineasta com uma visão clara tem liberdade para criar, decidiram olhar para o vizinho e copiar seu modelo. Ou melhor, tentar.

Assim, o filme que entregou a melhor visão do Batman no cinema, que foi além de um sub gênero para surgir como um thriller policial intenso, completa dez anos como o recorte da genialidade de um cineasta. Não deixa, por outro lado, um legado de continuidade. 2018 traz um único filme com o selo DC: Aquaman, que estreia num distante dezembro. Nos bastidores, o estúdio move cabeças e troca lideranças para buscar uma fórmula que funcione para traduzir seu universo para o cinema. Batman – O Cavaleiro das Trevas provou, uma década atrás, que a resposta não está na imitação de um modelo, e sim na confiança em seus artistas. Patty Jenkins, quando trabalhou com pouca interferência, entregou Mulher-Maravilha e o mundo aplaudiu. Shazam! parece seguir o mesmo caminho. Talvez essa seja a melhor herança da aventura que trouxe Christian Bale e Heath Ledger em um duelo menos físico e mais psicológico: nunca é tarde para aprender novos truques.

Ah, eu falei sobre Batman – O Cavaleiro das Trevas uma década atrás (!) bem aqui. Túnel do tempo, meu caro!

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.