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Constrangedor, Nada a Perder não passa de peça de propaganda da Universal

Roberto Sadovski

29/03/2018 17h15

"Este plano vai prejudicar muitos brasileiros", diz um atônito Edir Macedo ao ver o anúncio do Plano Collor no começo dos anos 90. "Mas pra mim será um milagre." Em uma frase, a trajetória do empresário/religioso é resumida no sofrível Nada a Perder. A biografia do líder da Igreja Universal mostra um homem egoísta e egocêntrico, que se vitimiza ante o mundo e insiste em realizar sua missão – ou melhor, em atender ao "chamado divino" e estender a mão aos pobres e necessitados… mesmo que, durante as quase duas horas de filme, Macedo aja unicamente em causa própria. Se existe alguma curiosidade em saber o que de fato o move, ou os bastidores da criação da Universal, ou mesmo os meandros de sua revelação com Deus, Nada a Perder não dedica um segundo sequer para elucidar qualquer pergunta. É uma obra que prega aos convertidos, já que qualquer um que não seja membro da igreja ou fã de Macedo vai sair do cinema exatamente com a mesma informação que tinha ao entrar.

O que é uma pena. É inegável que a vida de Edir Macedo seja um bom material para uma biografia, e deve ser fascinante desvendar suas entrelinhas. Mas estamos falando de um filme bancado pelo próprio biografado, o que significa não só extrema parcialidade como nenhuma nuance dramática, nenhum conflito narrativo, nenhuma complexidade ao desenvolver o protagonista. Os eventuais esqueletos em seu armário continuam bem enterrados, e o que temos é a versão greatest hits de sua vida. Uma biografia pode funcionar como recorte da vida de seu objeto (como o excepcional Steve Jobs) ou como um retrato equilibrado entre falhas e triunfos (Ray e Johnny & June são bons exemplos), construindo um ser humano completo, acessível e identificável. Nada a Perder prefere um caminho reto, com seu protagonista num pedestal de virtude inatingível, em que os eventos se atropelam sem nenhuma densidade ou emoção.

Edir Macedo (Petrônio Gontijo) animando o coreto

E é muito estranho acompanhar a biografia de um líder religioso, não importa qual seja, em que a emoção mal ganha papel coadjuvante. Talvez faça parte da personalidade centralizadora de Macedo, mas a opção dá a Nada a Perder uma frieza que esbarra num certo constrangimento. Filmes religiosos, afinal, existem desde que o cinema é cinema, com o cinema cristão americano contemporâneo experimentando um ressurgimento – recentemente o drama Eu Só Posso Imaginar, com o cristão batista Dennis Quaid no elenco, surpreendeu na bilheteria americana com 40 milhões de dólares em caixa e contando. Em comum estes filmes trazem não só a mensagem religiosa, mas também um crescendo emocional que, embora muitas vezes surja piegas, serve como catalizador para lágrimas e emoções genuínas. Nada a Perder não traz absolutamente nenhum momento memorável e, tirando a reprodução de época caprichada (algo precisa justificar os milhões de reais investidos no projeto), é uma obra emocionalmente inerte.

Sua agenda, por outro lado, é bem clara. Em sua trajetória, Edir Macedo acha espaço para zombar de religiões afro-brasileiras e do espiritismo, e elege a Igreja Católica e o Estado como os grandes vilões em sua vida. Representada pelo religioso interpretado por Eduardo Galvão, a instituição trama com ministros e juízes a queda da Universal, chegando a sugerir uma testemunha forjada para ressaltar acusações de charlatanismo e estelionato atribuídas a Macedo. Boa parte de Nada a Perder é focada na luta do bispo da Universal contra estes inimigos, com suas decisões adquirindo cunho mais político do que religioso – inclusive a controversa compra da Record, avalizada como último ato do presidente Fernando Collor antes de seu impeachment. O filme abre com a prisão de Macedo em 1992, volta no tempo em sua infância e adolescência e logo abraça sua vida adulta, em que ele ganha corpo e voz de Petrônio Gontijo, de olhos perpetuamente marejados. O ator tenta conferir alguma densidade ao papel, mas o roteiro canhestro e a direção amadora causam apenas momentos constrangedores: quando sua segunda filha nasce com lábio leporino, ele enxerga como "o espelho da dor dos necessitados" antes de cair de joelhos aos pés de sua mulher, Ester (Day Mesquita), e proclamar sua entrega "à obra do Senhor". É de corar de vergonha.

Edir recebe (de novo) o chamado divino ao lado da mulher, Ester (Day Mesquita)

Se fracassa totalmente como obra cinematográfica, o filme de Alexandre Avancini cumpre seu propósito como mais uma engrenagem na máquina evangelizadora da Universal, que não esconde sua vocação como empresa. Mas dificilmente Nada a Perder vai ganhar simpatizantes para a causa de Macedo fora de suas próprias paredes. Não é empolgante o bastante para tornar-se um fenômeno de público. Não emociona para ganhar o espectador médio. E não traz absolutamente nenhum dado desconhecido sobre a biografia de Macedo – o filme passa reto sobre o financiamento da igreja e o enriquecimento de seu líder. O que espanta é a falta de zelo com o texto e com a direção de atores, que em sua maioria reproduzem aqui o "padrão Record de qualidade", e a total ausência de uma progressão narrativa: Os 10 Mandamentos ao menos tinha a desculpa de condensar centenas de capítulos de uma novela em duas horas. Nada a Perder é o que acontece quando se tem muito dinheiro na mão e nenhuma ideia, a não ser usar a sala de cinema como extensão do templo. E nem é figurativo: o filme termina com o próprio Edir Macedo convidando a plateia a se unir a ele em oração. Quem precisa de sutileza?

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.