Blog do Sadovski

Com muito papo e pouca ação, Os Defensores não repete a empolgação do universo Marvel do cinema

Roberto Sadovski

21/08/2017 02h13

Os Defensores, que junta em um mesmo programa os personagens que a Marvel apresentou no Netflix nos últimos anos, tem seus momentos. Algumas cenas de ação até empolgam. Alguns diálogos carregam certo brilho. Mas a série sofre de um problema crônico de ritmo. As coisas demoram a engrenar e a ação é entrecortada por uma verborragia interminável: os heróis urbanos ora brigam, ora juntam forças, ora brigam de novo, ora se unem num círculo para decidir o que fazer. E tome papo! Existe em Os Defensores a ideia bacana de criar uma equipe feita por heróis solitários por definição. Mas sua execução é prejudicada pela tarefa de amarrar a trama que se arrasta desde a primeira série da Marvel para o canal, Demolidor, lançada em 2015. A obrigação em criar o tal universo compartilhado, ao contrário da engrenagem bem azeitada no cinema, resulta numa história sem brilho, sustentada como diversão ligeira pelo carisma de cada herói.

O que é, em uma palavra, lamentável. Com suas séries no Netflix, a Marvel colocou as mãos em um material mais denso, sombrio e violento, um trabalho em que era possível equilibrar uma produção elegante com um desenvolvimento profundo de seus personagens. Demolidor, Jessica Jones e Luke Cage não eram sobre poderes fantásticos ou vilões maiores que a vida – essa era só a superfície. Cada uma à sua maneira, as séries abordavam culpa católica, violência sexual, vingança e justiça, de uma forma que as aventuras dos heróis da editora no cinema jamais poderiam realizar. Os limites da TV se mostraram uma vantagem, já que o orçamento apertado obrigou roteiristas e produtores a focar em conflitos internos, em dramas humanizados, e não em espetáculo. Poucas vezes vimos personagens dos quadrinhos traduzidos em outra mídia com a densidade de Demolidor ou Jessica Jones. Apostando na diversidade como trunfo, e não como muleta, o nicho da Marvel no Netflix encontrou o raro equilíbrio entre o clássico e o moderno.

Então veio Punho de Ferro e emperrou a engrenagem.

O Demolidor é o único que se vestiu para a festa

Quando a série do mestre das artes marciais com um punho devastador chegou ao canal no começo deste ano, a fórmula parecia enfraquecida. Pior ainda: a saga do garoto treinado para ser o maior lutador do mundo, defensor de uma cidade mística, perdeu a chance de ser uma trama original sobre um estranho numa terra estranha para cumprir a obrigação de preencher as lacunas. A essa altura, a necessidade de amarrar todas as séries em um universo compartilhado, termo que deve deixar executivos de entretenimento salivando, cobrou um preço alto – no caso, a liberdade em Punho de Ferro trilhar seu próprio caminho, e não se tornar um incômodo “filho do meio”. Em vez de deixar sua marca, a serie se tornou mera escada para desenvolver a ameaça da organização criminosa Tentáculo e suas ramificações em Nova York. Não ajudou, claro, o protagonista Finn Jones ter o carisma de um quiabo.

Os Defensores, portanto, é a conclusão da “saga” do Tentáculo – mesmo que a união dos heróis seja apresentada não como um evento orgânico, mas como uma necessidade editorial. A série apresenta Sigourney Weaver como a grande vilã, a cabeça do Tentáculo, lidando com uma Elektra ressuscitada (a personagem encontrou seu fim na segunda temporada de Demolidor) e um plano mirabolante para conseguir vida eterna, envolvendo o próprio Punho de Ferro, Danny Rand, além de Jessica Jones (que investiga o suicídio do marido de uma cliente), Luke Cage (atrás de descobrir quem anda aliciando jovens do Harlem para o mal) e o advogado Matt Murdock, o Demolidor, obrigado a retomar seu traje e sua vida noturna para salvar sua cidade do mal. Mesmo funcionando aos trancos, Os Defensores faz com que a formação da equipe seja o menor de seus problemas, já que a série não consegue fugir da trama apocalíptica pobre e sem nenhum resquício da densidade que a Marvel injetou em suas primeiras séries do Netflix.

Os Defensores fazendo o que fazem melhor: conversar

O que é indefensável, porém, é o tratamento tosco dado à produção. O charme elegante de Demolidor e a ironia fina de Jessica Jones dão espaço a uma direção nada inventiva, incapaz de construir suspense e entregue a uma fotografia pouco inspirada: o visual é feio, algumas lutas são confusas e difíceis de acompanhar e não há uma sequência memorável sequer. É quase absurdo imaginar uma série em oito partes, com quatro protagonistas, que consegue arrastar sua narrativa ao ponto de alguns episódios se resumirem aos heróis literalmente discutindo sobre o próximo passo. Embora abra espaço para praticamente todos os coadjuvantes dos programas anteriores, nenhum deles ganha alguma função narrativa real. Os Defensores só não é a série mais fraca de todas que a Marvel produziu em parceria com a Netflix porque Punho de Ferro existe.

Encontros de super-heróis é sempre um acontecimento empolgante, seja nos quadrinhos, na TV ou no cinema. A espinha dorsal das maiores editoras de gibis ianques, a Marvel e a DC, é justamente ter uma caixa de areia comunitária, em que seus produtos eventualmente se cruzem pelo caminho. É bacana acompanhar a dinâmica de personagens tão diversos unidos contra um inimigo em comum – no cinema, Os Vingadores ainda é o exemplo mais perfeito. Mas a ameaça precisa ter uma estatura que justifique a formação de uma equipe; do contrário, a impressão é que o “evento” não obedece um caminho criativo, e sim comercial. A Marvel e o Netflix ainda tem uma pérola em mãos, e nada indica que Os Defensores é o norte pelo qual seus criadores vão guiar a terceira temporada de Demolidor, a segunda de Jessica Jones e a primeira do Justiceiro. Talvez seja a hora de deixar cada herói respirar sozinho, esquecendo a sanha em conectar tudo e todos. Os personagens – e o público – merecem mais.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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