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Blog do Sadovski

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Mickey Mouse: 90 anos do personagem infantil que se tornou um símbolo

Roberto Sadovski

16/11/2018 04h28

A última vez que Mickey Mouse apareceu nas telas do cinema foi em 2013. Nem faz tanto tempo assim. Ele encabeçou o curta Get a Horse!, lançado em cópias da aventura Frozen, e mostrou o camundongo mais famoso da cultura pop de volta a uma estética nostálgica, em preto e branco, sem diálogos, que poderia sem problema compor uma sessão dupla com Steamboat Willie, estreia do personagem para o público, que chegou aos cinemas americanos em 18 de novembro de 1928. De certa forma, a animação do século 21 fechou um ciclo para a criação de Walt Disney: foi um exercício estético, uma homenagem ao passado, que sinalizou o papel de Mickey não como protagonista entre as produções dos estúdios Disney, e sim como símbolo máximo da empresa. A maior evidência é que a celebração de seus 90 anos não vem atrelada a uma nova série animada, ou a um novo curta no cinema: o aniversário do Mickey é um triunfo do marketing, com a empresa dedicada a lembrar, nos mais diversos cenários, que seu maior embaixador continua mais forte do que nunca.

É a mais pura verdade. Mickey e sua turma mais chegada (Minnie, Pluto, Pateta, Horácio, Clarabela) são campeões de venda em produtos licenciados, que continuam a dominar vendas muito além das lojas Disney espalhadas pelo mundo. Sua silhueta é uma das figuras mais reconhecíveis da cultura pop mundial, com o par de orelhas redondas, o short vermelho e a simplicidade no traço. Em Nova York, uma exposição de arte foi recém inaugurada com o camundongo sendo reinterpretado por uma coleção de artistas plásticos contemporâneos notáveis. No Brasil, Mickey (e Minnie) foi protagonista do desfile que fechou a última edição do São Paulo Fashion Week. A rede de TV americana ABC (que é parte do complexo Disney) exibiu há duas semanas um novo especial temático para celebrar a data, aumentando uma mega campanha que se estende aos parques temáticos, novos livros (de publicações infantis a edições de luxo) e os curtas animados que alimentam a cada quinze dias o canal oficial do personagem no youtube.

Criador e criatura: Walt Disney e seu personagem que ganhou o mundo

Nada mais natural do que aplaudir a longevidade de Mickey, tão poderoso que já causou em algumas ocasiões mudanças na legislação americana sobre direitos autorais, estendendo os direitos da empresa sobre a criação de seu fundador – em cinco anos, se nada for modificado, ele se torna de domínio público, mas é bem provável que isso não aconteça. O momento para aumentar a visibilidade do camundongo é fundamental, já que a Disney tem aumentado seu império (a compra da Fox, a implantação de seu serviço de streaming, para fazer frente ao Netflix) e precisa, mais do que nunca, usar seu símbolo máximo para lembrar ao mundo que a marca representa o melhor em entretenimento de qualidade. Não que isso seja necessário. No cinema, a Disney já domina o mercado a braçadas vigorosas, englobando os filmes do estúdio, além das produções Marvel, LucasFilm e Pixar. Mas é sempre interessante lembrar, como o próprio Walt costumava dizer, que tudo começou com um camundongo.

Steamboat Willie foi seu primeiro desenho animado a ser compartilhado com o público, mas Mickey já havia aparecido em duas outras produções como laboratório. Sua criação deveu-se a um péssimo gerenciamento de marca por parte de Walt, que criou no ano anterior Oswald, the Lucky Rabbit, mas percebeu que não tinha direitos sobre ele quando pediu um aumento para sua equipe de criação – a Universal não só cortou custos como contratou o time de Disney, forçando-o a se retirar. Mickey foi o personagem que se destacou entre os rascunhos produzidos na época, e Steamboat Willie marcou não só sua estréia, como também o fascínio de Walt pelas possibilidades que as novas tecnologias abriam para o cinema, em especial o som. Nas décadas seguintes, Mickey viu sua turma se expandir, e protagonizou mais de uma centena de curtas até 1953 – no ano seguinte, Walt percebeu o poder e o alcance da televisão, e fez de sua criação o centro não só do programa Disneyland, mas também do imbatível Clube do Mickey. Seu domínio mundial estava, então, completo.

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Curiosamente, ao se estabelecer como símbolo, Mickey parou de emplacar como personagem. Ele não ganhou filme próprio como o colega Pateta (mas protagonizou o curta que abria a aventura do companheiro em 1995), e nem viu uma série própria se tornar um fenômeno nostálgico como a espetacular DuckTales. Mesmo com a força irrefreável da Disney, que reestruturou sua divisão de filmes em animação duas vezes na história moderna (com A Pequena Sereia em 1989, e com Bolt – Supercão em 2008), Mickey nunca teve chance no mundo dos longas do estúdio. Talvez por pertencer a uma outra era, também por não existir mais espaço para ser desenvolvido como personagem, mas a Disney parece confortável em nutrir heróis mais afinados com os tempos modernos e manter o Mickey como o representante maior de sua marca para o mundo.

O que não é pouco. Raríssimos são os personagens que resistem por nove décadas sem perder sua essência. Seria bacana, claro, ver o herói diminuto em ação mais uma vez, cumprindo inclusive uma função didática essencial para apresentar alguns clássicos para a criançada – as versões de Um Conto de Natal e de O Príncipe e o Mendigo ancoradas por ele são encantadoras. Vozes dentro do estúdio compartilham esse mesmo pensamento, já que dois projetos recentes quase saíram do papel para devolver ao personagem seu papel de protagonista. O primeiro era Magic Kingdom, de Jon Favreau, com uma família presa no parque temático quando suas atrações ganhavam vida – mas ele foi engavetado quando o diretor foi fazer a nova versão de Mogli – O Menino-Lobo. A segunda sugeria uma reunião de Mickey com Donald e Pateta em uma aventura animada, mas sequer entrou em desenvolvimento. Mesmo que o camundongo mereça mais do que pontas movidas a nostalgia ou a determinação corporativa (como em Uma Cilada Para Roger Rabbit, em um já distante 1987), a verdade é que sua missão no cinema já estaria mais do que cumprida se ela tivesse sido encerrada em 1940: foi quando Mickey encabeçou o segmento "Aprendiz de Feiticeiro" em Fantasia, e consolidou seu lugar de honra na história do cinema. Com uma pitada de magia que, 90 anos depois de sua criação, continua forte.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.