Blog do Sadovski

Spielberg na DC? Melhor tirar o pé do acelerador porque não é bem assim...

Roberto Sadovski

19/04/2018 01h48

“Steven Spielberg vai fazer um filme da DC!” A notícia foi como um oásis no deserto para os fãs dos personagens da editora, que amargaram mico em cima de mico desde que Christopher Nolan deixou sua marca na trilogia O Cavaleiro das Trevas. Ter um dos maiores diretores vivos atrelado a uma propriedade intelectual do mesmo universo do Superman, Batman e Mulher-Maravilha seria uma fagulha de esperança depois do total e completo desastre que foram Esquadrão Suicida ou Liga da Justiça. Para adoçar ainda mais a questão, Spielberg e a Warner, dona da DC e produtora dos filmes, vivem uma lua de mel depois do casamento chamado Jogador Nº 1. Seria maravilhoso, se o projeto em questão não fosse Blackhawk. E Blackhawk, sinto informar, não tem muito a ver com os super-heróis da editora.

Batizada Falcão Negro no Brasil, a série foi criada em 1941 por Chuck Cuidera para a revista Military Comics, com apoio criativo de Bob Powell e do lendário Will Eisner. Com o título publicado pela Quality Comics, no auge da Segunda Guerra Mundial suas histórias chegaram a rivalizar em popularidade com o Superman. E a guerra era o pano de fundo óbvio para histórias sobre um piloto habilidoso, o próprio Falcão Negro, que liderava a equipe dos Falcões Negros (anos 40, dá um desconto) contra vilões chamados Rei Condor ou o Tubarão Assassino. O personagem foi comprado pela DC (junto com boa parte da própria Quality) em 1956, mas neste cenário pós-Guerra os autores não sabiam exatamente o que fazer com a equipe, a essa altura já soando datada. Nos anos seguintes, sua popularidade foi despencando, seus títulos pararam de ser publicados e de vez em quando algum quadrinista nostálgico tenta soprar nova vida em seu conceito. O mais bem sucedido foi Howard Chaykin, que em 1988 publicou uma minissérie que restaurava o pano de fundo da Segunda Guerra (a imagem lá no topo é dessa série), trocando a ação mais ingênua por uma narrativa mais política e mais adulta.

O Falcão Negro na capa da Military Comics nos anos 40

Em toda sua trajetória, fica óbvio o que não combina com o conceito do Falcão Negro: super-heróis. Imaginar que um filme seria a porta de entrada do diretor de O Resgate do Soldado Ryan como um cavaleiro de armadura reluzente para salvar o Universo Estendido DC não passa de ilusão. Então, não, Spielberg não está “entrando na DC” – está, sim, desenvolvendo um personagem alinhado com sua sensibilidade como artista, uma viagem nostálgica com ecos de As Aventuras de Tintin, do próprio Soldado Ryan e, por que não, de Caçadores da Arca Perdida e até 1941 (a comédia dos anos 70 “emprestou”, inclusive, um dos elementos dos quadrinhos do Falcão Negro). O projeto está sendo tocado por Spielberg (por enquanto apenas como produtor, mas com sua provável direção) e pelo roteirista David Koepp, seu colaborador em Jurassic Park, Guerra dos Mundos e Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal.

O próprio Spielberg chegou a dizer, em 2015, que não enxergava muito futuro nos filmes de super-heróis. “Eu lembro quando o western morreu, e vai chegar o momento em que os filmes de super-heróis seguirão o mesmo caminho”, comentou durante o lançamento de Jurassic World, que ele produziu. “Não significa que, da mesma forma que o western voltou, o filme de super-heróis também não ressurja.” Claro que ele não afirmou categoricamente que não poderia dirigir um projeto assim, mas seu modo de pensar faz todo sentido. “Neste momento o filme de super-heróis está vivo e saltitante”, continuou. ” O que eu quero dizer é que estes ciclos tem prazo de validade na cultura pop.” Com sua carreira e com a marca indelével que Spielberg já deixou na indústria cultural e na indústria pop, eu arrisco dizer que ele não precisa assinar o próximo Superman ou Homem-Aranha.

Spielberg dirige Tom Hanks em O Resgate do Soldado Ryan

Falcão Negro, por outro lado, é um conceito hermético, e mesmo que uma propriedade intelectual faça parte da caixa de brinquedos da Warner/DC, não significa que seu avião voará ao lado do batplano. Assim como Constantine, V de Vingança, Os Perdedores e Watchmen, Falcão Negro habita seu mundinho sem respingar em nenhum grande esquema corporativo. E também não será para logo. Spielberg está com seu prato cheio para o futuro próximo, com o quinto Indiana Jones surgindo como seu próximo trabalho, seguido da refilmagem do musical clássico Amor Sublime Amor. Paciência é uma virtude – que o diga o próprio diretor. Afinal, Falcão Negro não surgiu agora em seu radar: ele já tinha interesse em transformar suas aventuras em filme nos anos 80. “Foi por isso que voltamos a publicar a série em 1980”, confirmou, em seu twitter, o roteirista Marv Wolfman.

 

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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