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Roberto Sadovski

É lenha pura! Homem de Ferro... 3!

Roberto Sadovski

25/04/2013 19h41

homem de ferro 3

Tony Stark e sua versão 2013 da armadura do Homem de Ferro

Homem de Ferro 3 é um filme de Shane Black. Deixa eu ser mais específico: é impressionante o quanto a Marvel saiu do caminho para deixar que Black fizesse da terceira aventura solo do Vingador Dourado no cinema sua cria, e não parte do plano intrincado de uma corporação. Assim como os filmes que Black escreveu (Máquina Mortífera, O Último Boyscout), e principalmente como o filme que ele dirigiu (Beijos e Tiros), Homem de Ferro 3 traz um sujeito lidando com os demônios que ele mesmo criou no passado. Não é Os Vingadores. Não parece uma ponte para conectar os próximos filmes da Marvel – você não vai achar uma referência sequer a Capitão América, Thor ou Guardiões da Galáxia aqui. E essa foi a melhor decisão que o estúdio/editora poderia tomar.

O que não significa que a aventura não faça parte do mesmo universo. Depois da batalha de Nova York de Os Vingadores, Tony Stark mudou. Radicalmente. Entre deuses, supersoldados e alienígenas, ele se dá conta que, por trás de toda a perfumaria, a arrogância e inteligência, ele não passa de um homem dentro de um traje de lata. Tem ataques de pânico sempre que lembra do que viu naquele buraco no céu. Então ele faz a única coisa que sabe: melhorar a lata. Multiplicar, construir, ampliar – e fazer mais eficiente, sem depender de nada além da força de vontade para vestir o traje. É como se ele estivesse de volta à caverna da qual emergiu com estilhaços de bomba em seu peito trajando uma armadura feita de sucata. Tony Stark faz o que sabe, que é construir – deixando o homem por trás da máscara de ferro cada vez mais distante de seus amigos e da mulher que ama.

mandarim em homem de ferro 3

Ben Kingsley como o Mandarim, terrorista que é mais do que os olhos enxergam..

Shane Black, por sinal, é esperto ao fazer do filme mais uma aventura de Tony Stark do que do Homem de Ferro. Privado de seus brinquedos, o bilionário sai de sua zona de conforto, e o que começa como uma trama de vingança se mostra um acerto de contas com os erros do passado. A escolha do Mandarim como catalizador não poderia ser mais feliz. Concebido como um estereótipo do pior ponto de vista ocidental sobre um vilão oriental, o personagem é reinventado como um terrorista moderno e implacável, que sabe que a mídia é uma arma tão eficiente para o terror quanto uma bomba. E quando bombas explodem nos Estados Unidos sem deixar vestígios – uma delas quase clamando a vida de Happy Hogan (Jon Favreau, à vontade só como ator), Stark promete vingança. Dar ao Mandarim o rosto de Ben Kingsley, um ator brilhante, dá mais nuances ao antagonista de Stark, principalmente quando o vilão despe-se de sua máscara e mostra sua verdadeira face.

Homem de Ferro 3 é, afinal, um filme de máscaras quebradas. Pepper Potts (Gwyneth Paltrow), que nunca esteve confortável neste novo mundo que acompanha Stark, precisa encarar a fera e descobrir o que significa dividir a vida com um, na falta de uma palavra melhor, "super-herói" (o que significa, por sinal, usar a armadura do namorado). O ardiloso Aldrich Killian (Guy Pearce), que surge como admirador (e depois rival) de Stark não demora a mostrar suas intenções como dono da Idéias Mecânicas Avançadas, que financia a tecnologia Extremis, capaz de reconstruir membros amputados com efeitos colaterais explosivos. Maya Hensen (Rebecca Hall, em um papel criminosamente pequeno), criadora do Extremis, é a cientista com um dilema moral obrigada a fazer uma escolha.

pepper potts em homem de ferro 3

Pepper Pots encara o destino do Homem de Ferro entre os destroços do passado

Os elementos dos quadrinhos não passam de base para Black traçar a nova aventura de Tony Stark (escrita com Drew Pearce, também o escriba de Círculo de Fogo, de Guillermo Del Toro). Para ficar bem claro: se você é fã das HQs do Homem de Ferro e acha que sabe tudo sobre Extremis, Mandarim, Eric Savin, Patriota de Ferro e outras pistas espalhadas pelo filme, prepare-se para ser surpreendido. Da melhor maneira possível. O modo como Homem de Ferro 3 recria o mundo dos quadrinhos no cinema é sempre surpreendente. Shane Black entende que uma adaptação de outra mídia não significa cópia, e sim reinvenção e adequação: tudo que importa é a história – fidelidade a cânone pode (e deve) ficar em segundo plano.

Se Shane Black versão blockbuster é isso que vemos em Homem de Ferro 3, é bom Hollywood passar a lhe entregar mais projetos. Embora sua grande força sempre tenha sido os ótimos diálogos e a caracterização caprichada de personagens, quando chega a hora de mostrar que não foi intimidado por Os Vingadores, Black tira as luvas e entrega cenas de ação inacreditáveis. Num crescendo, ele primeiro orquestra um ataque à mansão Stark brutal e espetacular; seguido de um resgate aéreo brilhantemente executado; e que culmina com o ataque de soldados anabolizados por Extremis, que enfrentam dezenas de armaduras do Homem de Ferro operadas remotamente por Stark (ele inclusive usa algumas que os fãs dos quadrinhos vão ficar felizes em ver traduzidas em filme).

Homem de Ferro 3 mantém o jogo da Marvel no cinema em alta, e aumenta as expectativas para o resto da Fase Dois, que continua com Thor: O Mundo Sombrio em novembro; Capitão América: O Soldado Invernal e Guardiões da Galáxia seguem ano que vem. Robert Downey Jr., aqui cumprindo seu contrato de cinco anos com a Marvel, fecha este capítulo na vida de Tony Stark, redescobrindo o homem por trás da armadura e reencontrando seu centro. Se o ator não retomar o personagem no futuro, Homem de Ferro 3 é um epílogo sensacional para uma jornada impressionante. Ele é o Homem de Ferro. Uma frase que, ao final do novo filme, faz todo o sentido.

a guerra das armaduras em homem de ferro 3

Homens de Ferro apresentam-se para o combate no clímax do novo filme

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.