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Spike Jonze fala sobre amor, tecnologia e solidão no delicado Ela

Roberto Sadovski

12/02/2014 02h27

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Vira e mexe eu leio sobre um filme que é "importante", "relevante" ou qualquer outro adjetivo assim. "A cena de sexo gay mais importante do cinema nacional", "o filme mais relevante sobre escravidão", blablablá. Ok, quer um filme importante e relevante de verdade? Ela, de Spike Jonze, é um drama, uma ficção científica romântica que, usando a liberdade permitida pelo gênero, consegue expressar de forma brilhante quem somos, o que procuramos e o que perdemos como sociedade neste novo século, que caminha, às vezes agressivamente, para o futuro. Joaquin Phoenix é um sujeito solitário, remoendo dolorosamente o fim de um relacionamento. Ele não consegue encontrar o por que, não vê o ponto onde a perfeição a dois se tornou imperfeita. O passo seguinte é tão lógico quanto absurdo: ele se apaixona pelo sistema operacional inteligente de seu computador.

O mundo criado por Spike Jonze (que, além da direção, assina sozinho um roteiro pela primeira vez) é um futuro bem próximo. Não há carros voadores, não há robôs ajudando a humanidade (e nem tentando nos matar, ao menos). É um amanhã possível. Mas um amanhã sufocante e solitário. O convívio humano é incômodo – um mal necessário, quando muito. O que Jonze coloca em pauta é que a mesma tecnologia que nos dá conforto também nos isola. Cada um vai se fechando em um casulo auto suficiente, tendo máquinas como companhia. E Ela acerta em todas as notas porque não é tão "fictício", simplesmente uma extrapolação do que vivemos hoje, agora.

Spike Jonze dirige Joaquin Phoenix e Amy Adams

Spike Jonze dirige Joaquin Phoenix e Amy Adams

O centro de tudo é Theodore (Phoenix). Seu trabalho é escrever cartas (como Fernanda Montenegro em Central do Brasil), o que significa que ele trabalha simulando emoções e sentimentos que na verdade não lhe pertencem. Incapaz de encerrar os estágios finais de seu divórcio, sua vida se divide em sexo virtual com desconhecidas e partidas de videogame. Ele só ganha ânimo ao comprar um novo sistema operacional para seu computador/smartphone/vida, propagandeado como "o primeiro OS com inteligência artificial". No mundo tecido por Jonze e habitado por Phoenix, não é nenhuma surpresa quando ele se vê atraído e impressionado com o programa, que se batiza Samantha e tem a voz de Scarlett Johansson. Enquanto ele aumenta o fascínio por Samantha, ela evolui em sua consciência e também desenvolve sentimentos por Theodore. Não tarda para os dois estarem apaixonados.

Jonze empresta muito dos temas e do clima de Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças, criação de seu parceiro em Quero Ser John Malkovick e Adaptação, o roteirista Charlie Kaufman. Assim como na história de amor com Jim Carrey e Kate Winslet, Jonze retrata a dificuldade que todos sentem em abrir mão de um relacionamento. Mas o que Brilho Eterno traz de bizarro (graças à direção de Michel Gondry), Ela carrega em melancolia. Spike também não transforma o relacionamento de Theodore com Samantha em uma anomalia – e como ele poderia? Em um mundo com conexões humanas cada vez mais filtradas pela tecnologia, o "casal" de Ela é estranhamente… comum. O romance é puro, o amor é palpável. Qualquer consideração revela muito mais sobre quem assiste ao filme – e sua relação com outros seres humanos – do que com a própria trama.

Ela é, portanto, o perfeito "filme para a nossa época". Um retrato de um futuro possível (o design do filme, das locações ao figurino, é brilhante em sua esquisitice e sua normalidade) habitado por pessoas comuns (o elenco, de Amy Adams a Chris Pratt, é incrível) que enfrentam dilemas bastante familiares. Como diretor, Spike Jonze dá um salto e se revela um realizador elegante, que poderia mergulhar em questões mais sombrias, mas prefere a doçura. Ela é devastador. É também otimista e grandioso. Tem grandes predicados, faz faltar o fôlego e perder as palavras. Um pouco como o amor. Depois de assistir, você vai saber exatamente do que eu estou falando.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.