Blog do Sadovski

Por que Mad Max: Estrada da Fúria deveria ganhar o Oscar de melhor filme

Roberto Sadovski

22/02/2016 09h50

 

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A próxima cerimônia de entrega do Oscar, que acontece no próximo domingo, 28 de fevereiro, pode ser uma festa histórica. Não pelos vários discursos e protestos pela ampliação da diversidade na produção cinematográfica em Hollywood que com certeza dominarão a noite. Muito menos pela redução do oba oba sobre vestidos e estilistas e jóias que parece dominar o tapete vermelho – as atrizes já se mobilizam há um tempo para que esse tipo de futilidade seja coisa do passado. O que pode fazer deste Oscar um evento especial seria a premiação do filme que indubitavelmente foi o melhor de 2015: Mad Max: Estrada da Fúria.

Eu sei, eu sei, já estou batendo nessa tecla há tempos. Mas com a proximidade do Oscar, e com todos os concorrentes já em cartaz (se ainda não viu os oito candidatos ao careca dourado, ainda dá tempo), é urgente levantar a bandeira e fazer torcida para que o melhor filme do ano passado, em todos os aspectos, seja reconhecido por seus pares como a obra-prima que é. Nada é certo, claro, já que o Oscar tem um histórico estranho de ignorar filmes irretocáveis e premiar umas coisas estranhas (Touro Indomável perdendo para Gente Como a Gente? Shakespeare Apaixonado ganhando de O Resgate do Soldado Ryan??). O que faz meu dedo coçar mais ainda para elencar cinco motivos por que Mad Max: Estrada da Fúria deveria entrar nos portões do Valhalla, brilhante e cromado, com uma estatueta dourada em mãos.

5 – Tecnicamente é perfeito

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O diretor George Miller convocou os melhores talentos à sua disposição para criar Estrada da Fúria, e isso é aparente em cada frame. O design, assinado por Colin Gibson, é um primor, criando uma atmosfera que imediatamente nos transporta para o mundo pós-apocalíptico de Max. Cada veículo tem uma história (mais de 200), cada figurino tem um propósito, nenhum personagem foi desenhado aleatoriamente para preencher o espaço. Tudo em cena tem um propósito, tudo contribui para a fluidez da narrativa.

“Fluidez”, por sinal, é palavra-chave. A montadora Margaret Sixel, que é casada com Miller, levou três meses só para assistir a todo o material bruto, cerca de 480 horas, antes de começar a dar forma ao filme. A dupla usou uma técnica de enquadramento para garantir que a parte mais importante da ação sempre ocupasse o centro do quadro, fazendo com que mesmo as cenas de ação mais frenéticas fossem visualmente coerentes de ponta a ponta.

Visualmente, por sinal, Mad Max é também um trabalho sem paralelos. A combinação de efeitos práticos (cerca de 85 por cento foi feito em locação) com aproximadamente 2 mil tomadas de efeitos digitais, usados para ampliar o que foi capturado pelas câmeras, ficou longe do artificialismo de boa parte dos espetáculos que o cinemão coloca em cartaz. A plateia acredita na ação porque ela de fato está ocorrendo, em toda sua glória destrutiva – capturada com lucidez e clareza pelo fotógrafo John Seale, que compôs o filme visualmente mais belo do ano passado.

4 – George Miller, o visionário

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Aos 70 anos, o diretor George Miller entrou no jogo com sangue nos olhos. O vigor e a paixão que ele dedicou a Estrada da Fúria é, no mínimo, inspirador. E ele teve todos os motivos para jogar a toalha, desde que começou a produção em 2003, ainda com Mel Gibson em mente para reprisar o papel de Max, até a produção de fato começar em 2011, estendendo-se por dois anos, mais uma árdua pós-produção, até o lançamento em maio de 2015.

Durante todo esse período, Miller manteve sua visão extremamente clara, com o filme que chegou aos cinemas espelhando todo seu traçado inicial, em mais de 3500 storyboards rabiscados no começo do século. Não são muitos os diretores em atividade capazes de manter tamanha dedicação e coerência a um projeto tão complexo. Depois de assistir a uma sessão de Estrada da Fúria, porém, a impressão é que Miller faz tudo parecer fácil, colocando o assombroso feito técnico a serviço, sempre, da história.

3 – Uma história que de fato tem algo a dizer

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Nada irrita mais do que algum desavisado dizer que “Mad Max não tem roteiro, é só tiro, sangue e carro explodindo”. Estrada da Fúria não só tem uma história com muitas camadas, mas também aborda temas relevantes e atuais com mais contundência que muitos filmes ditos “sérios”. “Não o vejo como fantasia, e sim como um documentário estranho”, diz Miller. “É sobre o controle de recursos, e a visão que nós mesmos temos do ser humano como nada além de um produto em uma linha de montagem.”

Além disso, é um filme assumidamente feminista, sem em nenhum momento ser panfletário. O gatilho da trama é a fuga de um grupo de mulheres – ou “parideiras” –, que, longe do jugo de seu opressor, sentem-se livre para descobrir sua individualidade. Não é ao acaso que um dos temas repetidos ao longo da trama é “não não somos coisas”, seguido de “quem quebrou o mundo”, deixando claro que a culpa reside nos elementos mais nocivos do conceito de “masculinidade”.

Em meio a isso, Miller colocou Tom Hardy no papel de Max, mas o distanciou do herói clássico, fazendo dele uma balança que observa todos os pólos da trama – primeiro como alguém que cansou de lutar, mas que aos poucos redescobre um propósito e reassume seu próprio nome. Charlize Theron, como Furiosa, criou o melhor trabalho de uma atriz ano passado – ela se destaca em um elenco que amarra toda a destruição com o elemento humano: faz com que a plateia se importe com o que motiva toda a ação.

2 – Já deixou sua marca na cultura pop

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Existe uma piada que o efeito do Oscar tem duração de exatamente uma noite: no dia seguinte ao prêmio, o foco já é a festa do ano que vem. Exagero, claro. Mas é fato que muitos filmes premiados com a estatueta passaram reto no zeigeist. Outros, mesmo ignorados pela Academia, tornam-se referência, influência, não se tornam uma nota de rodapé por vezes puramente acidental.

O tempo é quem melhor julga quem escreve seu nome na história, mas a cultura pop é um grande termômetro para a longevidade de filmes que marcam a ferro o inconsciente coletivo. Não há a menor dúvida que 2015 foi o ano da volta de Star Wars com força total. Mas é inegável que Mad Max, mesmo com três décadas de ausência em todas as mídias, dá sinais que não vai embora tão cedo.

Foram livros de arte, exposições temáticas, histórias em quadrinhos e centenas de cosplayers pelo globo reproduzindo o visual dos protagonistas – em especial Furiosa. Isso sem falar do texto infinitamente citável, que deu novo significado a palavras como “cromado”, “bolsa de sangue” e “testemunhem!”. Com exclamação mesmo.

1 – É o melhor filme do ano – mas não acredite só em mim!

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Os oito indicados ao Oscar de melhor filmes este ano são excepcionais. Longas como A Grande Aposta e Spotlight são exatamente o tipo de produção que a Academia gosta de premiar, com temas relevantes e atuais – não raro, baseados em fatos reais. O Regresso, com Leonardo DiCaprio, é um assombro técnico de beleza ímpar, além de um sucesso de bilheteria – o mesmo pode ser dito de Perdido em Marte. Brooklyn, Ponte dos Espiões e O Quarto de Jack tem menos tração, mas também são realizações grandiosas.

Mas nenhum teve o impacto de Estrada da Fúria. O site Rotten Tomatoes, que contabiliza a reação da crítica, apontou o filme de George Miller como a produção mais bem recebida pelos especialistas em 2015. O público colocou 375 milhões de dólares em seus cofres, o que é impressionante por se tratar de uma obra difícil, violenta, com temas densos que raramente são encontrados em um candidato a blockbuster. Somando os feitos técnicos (o novo Mad Max tem coletado todos os prêmios das associações específicas), Estrada da Fúria é uma unanimidade rara em crítica, público e entre seus pares – está no topo da lista de melhores de 2015 de Quentin Tarantino, por exemplo.

É difícil a Academia não levar tamanho peso em consideração. Por outro lado, desde que expandiu o número de indicados ao Oscar de melhor filme – uma resposta pelas críticas ao ignorar sucessos comerciais e artísticos como Batman – O Cavaleiro das Trevas e Wall-E entre os cinco finalistas –, os mais de 6 mil membros com poder de voto continuam mirando em produções com verniz mais “sério” e “importante”. Na verdade, o último grande sucesso popular a levar a estatueta principal foi O Senhor dos Anéis: O Retorno do Rei, num já longínquo 2004. Está na hora de mudar o disco. O Oscar existe para deixar política, popularidade e qualquer variável de lado, premiando o melhor filme. É a teoria, pelo menos. E o melhor filme de 2015 é, sem a menor sombra de dúvida, Mad Max: Estrada da Fúria. Aceita que dói menos.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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