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Batman vs Superman capricha na ação mas não consegue emocionar

Roberto Sadovski

22/03/2016 19h00

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Após duas horas e meia de ação, som retumbante, visual fantástico e algumas surpresas, as portas para o Universo Expandido DC no cinema são escancaradas em Batman vs Superman: A Origem da Justiça. Nas mãos do diretor Zack Snyder, a aventura quase funciona por completo. Isso mesmo: quase. Tudo parece estar no lugar. A introdução de um Homem-Morcego repaginado (uma composição acertadíssima de Ben Affleck) é coerente com o Homem de Aço apresentado em 2013 no cinema, mais uma vez com interpretação de Henry Cavill. O roteiro, de Chris Terrio e David Goyer, arma as peças no tabuleiro para que os heróis saiam no braço com motivos bem defendidos. A evolução de coadjuvantes herdados da aventura anterior funciona, em especial Laurence Fishburne, mais à vontade como o editor do Planeta Diário, Perry White, e Jesse Eisenberg, embriagado pelo poder no papel de Lex Luthor. E Gal Gadot de fato rouba a cena quando surge em toda a sua glória como a Mulher-Maravilha.

Ainda assim, Batman vs Superman é um paradoxo. É um filme de longa duração que tem dificuldade em deixar sua trama respirar. Snyder pena em mostrar a devoção pela figura messiânica do Superman pelo mundo, e o herói surge com novos conflitos, sem ao menos resolver as pontas deixadas em O Homem de Aço. Quando um massacre no Oriente Médio (que abre o longa) é creditado a ele, a ideia não só é frágil como também é mal defendida pelo roteiro. Mais sorte tem Bruce Wayne/Batman, que antagoniza o herói alienígena por um motivo mais simples: a morte de milhares de pessoas no ataque à Metrópolis no filme anterior e a aparente falta de vontade do Superman em assumir responsabilidade por atos de violência desencadeados por sua causa.

Claro que um filme precisa dar tempo para que sua trama comece a se mover. Mas Zack Snyder parece hesitante em dar os passos necessários. O motivo pode ser corporativo. Batman vs Superman é o ponto de partida e uma resposta à Marvel, seu principal concorrente em várias mídias, na criação de um universo de super-heróis no cinema. Mas a opção criativa em seguir uma cartilha totalmente oposta à fórmula da Casa de Ideias já em doze longas (e contando) criou um Frankenstein conceitual, um filme em que heróis precisam achar depressa um foco em comum para se unir quando uma ameaça grande o bastante dê as caras. De Homem de Ferro a Os Vingadores, a Marvel deu pistas de que havia uma ideia coerente amarrando as linhas narrativas. Já Batman vs Superman coloca a bola em jogo de uma vez só, sem espaço para sutileza. E sofre por isso.

Foi por isso que a Mulher-Maravilha nunca foi encarada como uma surpresa, mas como co-protagonista já nos trailers. É também o motivo de Jason Momoa ter sido revelado como Aquaman no começo da produção – mesmo que ele tenha só uma ponta, assim como o Flash (Ezra Miller) e Cyborg (Ray Fisher). A ideia não é sugerir que o universo é maior: é assumir de cara que este filme não tem começo, meio e fim, e que todas as pontas soltas serão resolvidas depois. É uma forma de encarar um universo compartilhado no cinema, mas deixa muita coisa para processar de uma só vez, mesmo em um filme de duas horas e meia. Fica a dúvida se a versão de três horas de Batman vs Superman, que só será revelada quando o filme for lançado em blu ray, deixa a coisa menos apressada.

Necessidades comerciais e conceitos corporativos à parte, Batman vs Superman ao menos consegue funcionar como uma aventura de super-heróis de gibis, materializados em tela grande com toda pompa que centenas de milhões de dólares podem comprar. O retrato do Batman como um justiceiro que não hesita em machucar (até demais) os bandidos, uma herança da série O Cavaleiro das Trevas, HQ seminal de Frank Miller, é um sopro de novidade em um herói já com tantas encarnações diferentes no cinema. Ben Affleck, agora meu Batman favorito, abraça o papel com fúria – o que torna a premissa de uma nova série do herói, Affleck à frente, ainda mais empolgante. Curiosamente, seu contraponto mais solar, o Superman, surge como um herói igualmente tomado por dúvidas, o que diminui a diferença conceitual entre os heróis e minimiza a sensação de ver opostos saindo no braço.

E aí surge o grande problema de Batman vs Superman: é um filme correto, bonito, serve a um propósito e o realiza com eficiência… mas nunca é emocionante. Aposto meus dois centavos que a plateia vai gritar e aplaudir com a entrada da Mulher-Maravilha, mas de resto Zack Snyder fez um filme reto, com menos profundidade emocional do que ele merecia. Isso é compensado com cenas de ação meticulosamente arquitetadas, em especial a luta entre os protagonistas e o conflito que surge logo em seguida, contra o monstro Apocalypse – que funcionaria muito melhor como a grande surpresa do filme, mas que foi precocemente revelado em um dos trailers para o cinema.

Batman vs Superman: A Origem da Justiça é um ponto de partida correto para os planos do estúdio para os heróis da DC. Ainda assim, não empolga como outros longas já clássicos com os personagens, como Superman, O Filme, que Richard Donner lançou em 1978, e Batman – O Cavaleiro das Trevas, fenômeno pop conduzido por Christopher Nolan em 2008. Vai, claro, deixar muito fâ com os olhos marejados pelo simples vislumbre de seus heróis dividindo a cena. Vai trazer boas lembranças para o leitor de quadrinhos veterano, que deve se divertir pescando referências visuais e narrativas de gibis bacanas como Crise nas Infinitas Terras. Vai fazer uma tonelada de dinheiro, refastelando-se pelo menos até quando Capitão América: Guerra Civil chegar aos cinemas. Vai deixar os fanboys da internet salivando com dezenas de especulações sobreo futuro da DC no cinema. Vai causar, a longo prazo, todo tipo de efeito bacana para os filmes que estão a caminho. Vai cumprir sua função como peça numa engrenagem. Como cinema, porém, será uma memória curta.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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