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Roberto Sadovski

Capitão América: Guerra Civil é o melhor filme com super-heróis da história

Roberto Sadovski

25/04/2016 16h07

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Capitão América: Guerra Civil não é só o começo da terceira fase da Marvel no cinema. É o novo modelo de tudo que o público quer ver quando assiste a um "filme de super-heróis". Até porque a aventura dirigida por Joe e Anthony Russo não se encaixa neste "gênero". É um thriller político e psicológico. É um drama sobre violência e vigilantismo. É um filmaço de ação que alterna momentos explosivos com respiros que se ocupam em desenvolver cada personagem e dar fluxo à narrativa. É o melhor filme com super-heróis desde que Richard Donner e Christoper Reeve, em 1978, mostraram ao mundo que o homem podia voar.

A "fórmula" dos diretores, que desenvolveram o filme ao lado dos roteiristas Christopher Markus e Stephen McFeely, é irritante de tão simples: apreço pelos personagens, atenção à história, cuidado com a moldura. Embora pareça um "Vingadores 2.5" por conta da quantidade de gente em cena, Guerra Civil ainda é uma aventura do Capitão América por continuar os eventos de O Soldado Invernal, segundo filme-solo do herói fora do tempo, no qual os irmãos Russo já deixaram claro que seu interesse ia muito além de polarizar o mundo sem áreas cinzentas. Ainda assim, o novo filme aprende com tudo que o antecedeu dentro do Universo Cinematográfico Marvel – Era de Ultron, Homem-Formiga – sem nunca ser hermético demais, confuso demais. O objetivo foi criar uma trama que funcione por causa dessa continuidade traçada pela Marvel, e não apesar dela.

Abraçar o plano que a Marvel iniciou lá atrás, com Homem de Ferro em 2008 pode soar fácil, mas é tarefa complicada. A escolha por Guerra Civil como mote é, ao mesmo tempo, um pesadelo logístico para tirar o filme da gaveta e a decisão mais esperta possível. Na série em quadrinhos, escrita por Mark Millar e publicada em 2006, Capitão América e Homem de Ferro ficam em lados ideológicos opostos quando um vilão de quinta explode uma cidadezinha, matando mais de 600 civis. A solução encontrada pelos governos do mundo é obrigar os heróis fantasiados a revelar sua identidade, treinar como qualquer outro agente da lei e operar sob a sombra da SHIELD. Tony Stark acha a solução mais lógica; Steve Rogers não é muito fã de testemunhar a perda de liberdades individuais. Segue o quebra-pau.

Para os fãs mais xiitas, Guerra Civil no cinema pode até incomodar, já que passa ao largo do que acontece nos gibis – ainda bem, diga-se! O gatilho para a cisão da equipe é uma missão na África, quando a equipe dos Vingadores comandada pelo Capitão América (Feiticeira Escarlate, Falcão, Máquina de Combate, Viuva Negra e Visão) entra em combate com as forças de Ossos Cruzados (Frank Grillo), identidade do ex-agente da SHIELD Brock Rumlow, desfigurado em O Soldado Invernal. A ação termina vitimando civis, o que, somado às tragédias que seguem os Vingadores ao redor do globo, impele a ONU a responsabilizar a equipe. Eles precisam assinar um documento que os coloca sob supervisão de um comitê das Nações Unidas. Stark é ok com isso; o Capitão, não.

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A Marvel acertou em cheio com o Pantera Negra…

Claro que, nas mãos dos irmãos Russo, as coisas não são tão simples. O modo como as motivações de cada personagem são colocadas na mesa torna impossível seguir a orientação da equipe de marketing do estúdio que pede para o público escolher um lado: ambos estão certos, os dois estão errados. É pessoal tanto para Stark quanto para Rogers, principalmente quando seu ex-parceiro, Bucky, o próprio Soldado Invernal, entra em cena. Fugindo de crimes que garante não ter cometido, ele coloca-se entre os dois Vingadores, resultando numa aventura que mistura paranóia, revelações bombásticas e um vilão totalmente inesperado.

Até porque, apesar do escopo da produção, Guerra Civil é o filme mais intimista que a Marvel já lançou. A ameaça aqui não vem de déspotas querendo destruir cidades inteiras, ou deuses comandando uma invasão alienígena. O plano de Helmut Zemo (Daniel Brühl) é tão simples quanto assustador, e é também uma linha narrativa que, principalmente nestes tempos de Brasil dividido, vai deixar muita gente imaginando se ele não tem razão. É uma mudança de ritmo e de tom que nunca deixa o filme se desviar de seu verdadeiro centro: o combate entre dois heróis que acreditam defender a coisa certa.

Marvel's Captain America: Civil War Spider-Man/Peter Parker (Tom Holland) Photo Credit: Film Frame © Marvel 2016

… e com o melhor Homem-Aranha que o cinema já apresentou!

E quando a coisa pega, pode acreditar que o que é colocado em cena é a sequência de ação mais eletrizante que o cinema moderno já produziu. Os Russo mostram que sabem exatamente como orquestrar uma combate entre seres super-poderosos, respeitando não só a personalidade de cada um como também o modo como eles usar seus poderes e a maneira como eles combinam suas habilidades em campo. É aqui que o mundo é apresentado ao Pantera Negra e ao Homem-Aranha, é aqui que o Homem-Formiga mostra ser tão capaz quanto heróis mais calejados. E é aqui que o filme continua a surpreender.

Chris Evans, por sinal, encontrou o tom perfeito para representar seu Steve Rogers. Ele é o soldado supremo, o homem fora do seu tempo, a pessoa que sempre vai fazer a coisa certa, mesmo que ela tenha um preço. Do outro lado, Robert Downey Jr. mostra facetas de Tony Stark que, mesmo em seu sexto rodeio como o personagem, ainda surpreende. É impressionante, de verdade, como os Russo conseguem achar espaço para todo mundo ter seu momento, cada personagem ter um arco completo. Mais impressionante ainda é, em pouco mais de meia hora, eles entregarem o Homem-Aranha mais perfeito que o cinema já mostrou. Tom Holland traz um bem vindo entusiasmo juvenil ao herói, e uma matraca que dá leveza a praticamente toda cena com o Aranha.

"Sempre pensamos no Aranha como parte de 'Guerra Civil"', diz diretor

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É impossível a essa altura não pensar no desastre que foi Batman vs Superman. Zack Snyder e a turma da DC deviam ser amarrados em uma poltrona e assistir a Guerra Civil continuamente para aprender a) como dar continuidade a um universo compartilhado sem ter de b) jogar elementos que não fazem sentido em cena, c) conferir peso dramático e um contexto bacana para armar o conflito entre seus protagonistas e d) aprender que, mesmo com riscos altos e temas sérios, é possível se divertir fazendo um filme com super-heróis. Capitão América: Guerra Civil é um padrão alto, até para a própria Marvel seguir. Algo me diz que, com os Russo ainda no comando (eles filmam dois Vingadores para 2018 e 2019), eles vão conseguir.

Ah, não deixe de ler aqui o que o chapa Alexandre Matias achou do filme! Acredite, ele está certíssimo….

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.