Blog do Sadovski

Irrelevante, O Chamado 3 é a prova de que precisamos de monstros melhores

Roberto Sadovski

04/02/2017 18h53

Bonnie Morgan as Samara in RINGS by Paramount Pictures

Samara é um monstro medíocre. Neste O Chamado 3, que continua as aventuras da fantasminha amaldiçoada, a albina de cabelo escorrido e olho esbugalhado aparece pouco, faz menos ainda e provoca zero medo. Triste fim para a personagem que nasceu na era de ouro do terror nipônico (no já clássico Ringu, que Hideo Nakata dirigiu em 1998) e que, em 2002, ganhou uma versão ianque surpreendentemente decente nas mãos de Gore Verbinski. Na época, ela era um bicho-papão esperto, uma maldição surgida na virada do século que abraçava um medo bem presente da tecnologia. O bug do milênio batia à porta e este terror surgido no país do Sol Nascente criava uma metáfora perfeita. Hoje, Samara só se presta para cosplay barato.

A premissa de O Chamado original era bacana. Uma fita VHS trazia um video perturbador, com imagens macabras e desconexas. Quem o assistisse recebia uma ligação – do outro lado da linha, uma voz de menina avisava, “sete dias”. Era a contagem regressiva para ou passar a maldição para frente (fazendo uma cópia da fita e entregando a algum incauto), ou receber uma visita de Samara e morrer, literalmente, de susto. Na versão de Verbinski, uma jornalista (Naomi Watts), afetada pelo vídeo do mal, parte em busca de descobrir quem é Samara e assim, de alguma forma, quebrar a maldição. É um filme tenso, assustador e redondinho: termina com a resolução da trama e, como todo bom filme do gênero, com uma porta aberta para que o terror não tenha fim.

Matilda Lutz as Julia in RINGS by Paramount Pictures

Matilda Lutz é a bola da vez em O Chamado 3

A grana arrecadada por O Chamado meio que justificou uma continuação três anos depois, mantendo não só o elenco sobrevivente do filme anterior, como trazendo o próprio Nakata para comandar a produção. Criativamente um fiasco, ao menos trouxe, vá lá, uma conclusão satisfatória para a trama toda. Mas, como todo monstro de filme de terror, Samara se recusou a descansar em paz. O estúdio, enxergando a personagem como cabeça de uma “franquia” (pior palavra do planeta), tratou de cozinhar mais um filme. O que nos leva a este O Chamado 3, um desastre completo que não consegue o mais básico para um filme de terror: provocar sustos. Em vez disso, somos brindados com uma trama bocó, que não faz o menor sentido com a mitologia já estabelecida para a personagem e – pior dos pecados! – tenta desvendar a “origem” de Samara. Dica do tio: QUALQUER filme de terror que vá atrás da “origem do monstro” não vale seus trocados…

O diretor espanhol F. Javier Gutérrez, do bom thriller Três Dias, até que sabe o que fazer com uma câmera. Mas o roteiro, dividido entre três escritores, não tem espaço para tensão ou desenvolvimento de personagens. Julia (a italiana Matilda Lutz) tenta manter um relacionamento à distância com o namorado, Holt (Alex Roe), quando ele vai para a faculdade. Quando o sujeito toma chá de sumiço, ela parte para descobrir o que houve. O que encontra é um professor universitário que não só assistiu ao vídeo original de Samara (num VHS player surrado), como descobriu a fórmula para não encapotar: fez cópias digitais que seus alunos vão passando para a frente, adiando assim a maldição. A bola da vez é Holt e, para tirar seu pescoço da forca, Julia decide ver o tal vídeo. Aqui vem a pegadinha número um: para a moça, as imagens do Chamado original trazem um novo vídeo, “escondido” no arquivo digital (não pergunte…) que lhe dão pistas para, quem sabe, acabar de vez com a assombração. Não pergunte também o motivo de ela ser a escolhida.

Vincent D’Onofrio as Burke in the film RINGS by Paramount Pictures

Vincent D’Onofrio pagando umas contas como um coveiro cego

O problema é que o mistério é frouxo. Julia e Holt se mandam para uma cidadezinha erma e, munidos de um fiapo de pista e de uma tonelada de achismo, desvendam com facilidade assombrosa um enigma intocado por três décadas. Personagens surgem do nada e revelam algo importantíssimo para entender a origem da maldição (algo relacionado com uma cidade inundada, um padre fanático por música e um quarto “secreto” escondido em um dos lugares mais frequentados da cidade), mesmo depois de anos de silêncio. As mortes, poucas e de nenhum impacto, são inconsequentes e as pessoas reagem com no máximo uma sobrancelha arqueada. A maior surpresa em pouco mais de 100 minutos é Vincent D’Onofrio, que com certeza estava com alguma prestação atrasada para aceitar papel tão indigente. E não tenha a menor dúvida que, assim como o filme de Gore Verbinski, este O Chamado 3 amarra sua trama, mas acha espaço para o gancho mais sem vergonha para uma provável continuação (como tudo na vida, Hollywood depende de números).

Quanto a Samara…. Bom, a atriz Daveigh Chase, que deu vida à personagem em 2002, pode ficar tranquila quanto a seu legado. Em vez de surgir como um bicho-papão original e assustador, a aparição mesclada com tecnologia só dá as caras aqui uma única vez, no comecinho do filme, repetindo a cena em que ela se esgueira para fora de um aparelho de TV antes de coletar mais uma alma. Sem nenhuma motivação real para continuar a matança, e com a lógica criada pelos filmes já escorrido pelo ralo, Samara agora é um fantasma birrento, incapaz de relaxar nem quando tentam ajudá-la. Ao menos os japoneses já perceberam que ela é produto de uma certa época, e não faz mais sentido levar a sério: sua versão nipônica, Sadako, voltou aos cinemas orientais ano passado em (rufem os tambores) Sadako v Kayako, que a colocou enfrentando outro espírito albino com longos cabelos oleosos, a aparição vingativa da série O Grito.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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