Blog do Sadovski

Com o sucesso de Logan, não seria hora de zerar a cronologia dos X-Men no cinema?

Roberto Sadovski

07/03/2017 19h27

Logan é um sucesso absoluto – de números e opiniões. Em sua estreia, a última aventura de Hugh Jackman como o mutante rendeu quase 90 milhões de dólares no mercado ianque, bateu o recorde da distribuidora no Brasil e, em menos de uma semana, já soma 250 milhões em todo o mundo. Tudo muito bacana, com o bônus de o filme ser espetacular. Peraí, deixa eu reformular: não é espetacular, é definitivo. Logan encerra não só a jornada de Jackman como o personagem, mas faz com que qualquer tentativa de retomar a série dos X-Men nessa mesma cronologia seja um esforço fútil. O estúdio podia aproveitar o sucesso e o prestígio para tomar a atitude mais correta: um reboot total.

O motivo é simples. Em dezessete anos de aventuras dos mutantes da Marvel no cinema, contabilizando nove filmes (ok, dez com Deadpol, mas a gente chega já nele), a linha temporal virou uma bagunça. Traçar a evolução do Wolverine ao longo dos filmes, por exemplo, é missão impossível. Períodos de tempo se cruzam e se atropelam, os acontecimentos de um filme refletem de maneira esquisita nos seguintes. Para ficar em um exemplo, de X-Men Primeira Classe a X-Men Apocalipse se passam duas décadas – e os personagens não envelheceram em absoluto. O período em que Logan foi uma experiência no programa Arma X é mostrado de uma forma em X2, de outra em X-Men Origens: Wolverine e de ainda uma outra em Apocalipse. A amizade de Charles Xavier e Magneto é apresentada de uma maneira em X-Men: O Confronto Final e de outra totalmente diferente em X-Men: Dias de Um Futuro Esquecido ou Apocalipse. Uma bagunça total.

Dias de Um Futuro Esquecido tentou, em vão, arrumar a bagunça temporal na série

Ainda assim, os produtores tentaram “vender” a série como uma continuidade única, fluida. Dias de Um Futuro Esquecido surgiu para, em teoria, arrumar as inconsistências temporais. De nada adiantou. Claro, sempre existe a opção em encarar os filmes como “produtos” individuais, que não necessariamente precisam dialogar. Mas a verdade é que houve uma falta de planejamento a longo prazo e de um caminho claro traçado para os personagens. Cronologia bagunçada não arranha a qualidade dos melhores exemplares da série. Mas em um mundo mal acostumado com o Universo Cinematográfico Marvel, os X-Men seriam uma série mais forte se os laços fossem mais claros: assim como nos gibis, com cada filme como uma entidade independente, amarrados em um universo coeso por uma ameaça maior.

Logan entrega essa abertura, já que encerra todas as linhas temporais de todos os filmes até então. É estranho, portanto, o estúdio seguir com mais filmes na mesma cronologia, sendo que o final de toda a história já foi contado. O produtor Simon Kinberg insiste que Channing Tatum ainda será Gambit no cinema (mesmo sem um diretor no projeto), e ele mesmo pode assumir a direção de X-Men Supernova, uma continuação de Apocalipse, desta vez ambientada nos anos 90 – e uma total perda de tempo. Josh Boone, diretor de A Culpa É das Estrelas, está atrelado a Os Novos Mutantes, que apresentaria uma outra turma aos cuidados do professor Xavier, a ser reprisado por James McAvoy. Outra perda de tempo.

Os X-Men originais, no traço do desenhista John Byrne

A melhor atitude a essa altura? Começar do zero. O universo dos X-Men é quase tão vasto quanto o da própria Marvel, com sagas grandiosas, centenas de personagens e possibilidades de expansão no cinema. Ao contrário do filme que Bryan Singer dirigiu em 2000, com uma equipe que misturava vários momentos dos heróis nos quadrinhos, por que não juntar o time original (Ciclope, Jean Grey, Homem de Gelo, Fera e Anjo) em uma aventura adolescente? Quando Stan Lee e Jack Kirby lançaram a série em 1963, a linha promocional era “os adolescentes mais estranhos de todos”. Ainda não vimos essa equipe, dessa forma, no cinema. Uma trilogia com estes personagens – adicionando, nos filmes seguintes, Destrutor, Polaris e, talvez, Mercúrio e Feiticeira Escarlate – podia terminar no gancho que traria os “novos” X-Men, fazendo uma troca de guarda, mantendo Ciclope como de fato líder, e apresentando Colossus, Noturno, Banshee, Tempestade, Pássaro Trovejante e, claro, Wolverine.

Dessa forma, o estúdio daria um respiro em seu herói mais carismático e seu retorno teria mais peso, dando tempo para a equipe original amadurecer e os X-Men no cinema gradualmente passarem de adolescentes para adultos. Isso sem precisar se ater caninamente à cronologia dos quadrinhos, mas adaptando suas tramas de forma orgânica e condizente com o mundo de hoje. Afinal, os mutantes da Marvel, que começaram como símbolo da rebeldia e estranheza adolescentes, logo se tornaram metáforas para a luta das minorias, o reconhecimento de quem é diferente. Começando do zero, os novos filmes poderiam criar spin offs (Wolverine, Novos Mutantes, X-Factor, o que for!) sem ter de lutar com uma linha temporal totalmente bagunçada como a atual. Ah, e Deadpool obviamente já faria parte de tudo isso. O filme estrelado por Ryan Reynolds é tão fora da caixinha que não teria a menor dificuldade em se encaixar em uma nova série de histórias – inclusive com Cable, filho de Ciclope e Jean Grey em uma cronologia paralela, como parte de toda a saga.

Os novos X-Men, equipe internacional com arte de Dave Cuckrum

Para comandar esse revival, uma nova equipe criativa seria necessária. Nada de Bryan Singer ou Simon Kinberg ou Matthew Vaughn ou James Mangold ou ninguém que já tenha trabalhado com os mutantes antes. Sua hora já veio, sua contribuição está dada. É hora de sangue novo e ideias novas. É hora de, mais uma vez, fazer como a Marvel: mergulhar no cinema independente e descobrir um diretor com sangue nos olhos, capaz de injetar na série o fôlego necessário para que ela continue a caminhar. É certo que a Fox jamais deixará de criar novos filmes dos X-Men, até por que, do contrário, os direitos voltam para a Marvel. O que seria uma péssima ideia: mutantes no UCM não fariam o menor sentido. Logan pode ser um ponto final, mas também poderia significar um recomeço. Quarteto Fantástico, por outro lado, já devia estar nas mãos da Marvel de novo faz tempo. Que tal fazer uma reforma completa?

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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