Blog do Sadovski

King Kong chega ao máximo de sua evolução com o barulhento e absurdo Kong: A Ilha da Caveira

Roberto Sadovski

09/03/2017 06h02

Kong: A Ilha da Caveira é um filme de monstros no melhor sentido: é grande, barulhento, explosivo, absurdo, impossível de desviar os olhos ou de esconder o sorriso. É um prazer proibido, o filme que não tinha o menor direito de ser levado a sério, mas que resulta em um par de horas de escapismo absurdamente bem executado, com um time de peso à frente das câmeras e o melhor verniz que o dinheiro pode comprar. O diretor Jordan Vogt-Roberts (do singelo Os Reis do Verão) abraça a tarefa com gosto e, ao mesmo tempo em que constrói um pano de fundo claramente anti bélico, reapresenta o maior dos monstro do cinema para uma novíssima geração: King Kong, é claro, em sua melhor aventura no cinema desde o clássico que Merian C. Cooper concebeu em 1933.

A trama parece com a de centenas de fitas de terror que surgiram como metáfora para a “ameaça comunista” nos anos 50, arremessada para um par de décadas depois. É 1973, e os EUA estão sendo escorraçados de um Vietnã dividido após perder a guerra. No senado, um explorador (John Goodman) a serviço de uma companhia misteriosa convence um senador a bancar uma expedição para uma “ilha não mapeada”. Para executá-la, ele convoca um militar frustrado com a guerra que acabou de perder (“Não perdemos o Vietnã, o abandonamos”, diz o sujeito, na pele de Samuel L. Jackson) e seu pelotão; um rastreador que salta de conflito em conflito em busca de… bom, vai saber (ele é Tom Hiddleston e isso basta); e uma fotógrafa “antiguerra” com ganas para registrar o desconhecido (Brie Larson, puro charme).

Tom Hiddleston e Brie Larson são humanos na Ilha (mas quem se importa?)

O time parte para a ilha em meia dúzia de helicópteros, rock and roll setentista no talo, para atravessar uma barreira de nuvens tempestuosas e alcançar a ilha. É quando eles jogam bombas sismográficas (a desculpa é explorar o terreno), chacoalham fauna e flora e perturbam o rei do pedaço: Kong, fotografado ante o pôr do Sol, um monolito peludo que causa grunhidos de espanto antes de um dedo mais agitado disparar o gatilho, o macacão revidar e metade do elenco já dizer bye bye em uma bola de fogo. É quando o elenco, dividido em três “núcleos”, coloca a história para andar – algo sobre a teoria da Terra oca, criaturas abissais que habitavam o planeta antes dos humanos e Kong agindo como “antivírus” natural, mantendo os monstros de verdade sob controle e preservando a humanidade. Se essa história é estranhamente parecida com a do Godzilla relançado em 2014, não é mera coincidência: A Ilha da Caveira é uma aventura ambientada no mesmo universo, com os mesmos jogadores nos bastidores – no caso, a empresa Monarch – e um futuro que deve cruzar o lagarto atômico com o gorilão anabolizado.

Mas isso é o futuro, No presente (ou passado, já que Kong é filme de época), temos a equipe de Hiddleston e Larson encontrando um piloto preso à ilha desde a Segunda Guerra Mundial (John C. Reilly, vendendo o louco no tom exato antes da paródia) e os milicos e Jackson, este sedento por vingança após perder seus homens para o primata gigante. Vogt-Roberts arma o conflito com elegância, usando o Vietnã como metáfora nada sutil para os monstros que não cedem ante o poderio militar ianque. É uma boa sacada, mas é óbvio que A Ilha da Caveira não tem o menor interesse em mergulhar em reflexões sobre inimigos sem face: a narrativa é gatilho para sua equipe de design caprichar no visual dos habitantes monstruosos do lugar (os humanos que lá residem desde sempre, e acolhem o personagem de Reilly, entram mudos e saem calados) e colocar as criaturas tocando o terror – entre eles e, especialmente, contra os visitantes inesperados. Daí temos Kong contra um polvo gigante, pássaros pré-históricos ótimos em desmembramento, aranhas colossais boas em empalar suas vítimas e os verdadeiros “antagonistas”: criaturas abissais como lagartos gigantes de feições ósseas, que despertam do subterrâneo com as tais bombas sismográficas (seres humanos, sempre fazendo caca). Não existe um clichê de “filmes de monstro” que Vogt-Roberts não abrace, não existe um diálogo que não pareça absurdo, cafona e perfeito, e nunca Samuel L. Jackson interpretou alguém tão obtuso, teimoso e deliciosamente malvado, estereótipo do milico linha-dura que encara Kong nos olhos e enxerga apenas mais um inimigo.

Kong em 1933, 1976 e 2005: a evolução do rei

Mas o grande astro é, obviamente, Kong. É claro que os efeitos necessários para lhe conferir vida percorreram um caminho longo, brilhante e que espelha a própria evolução da arte de fazer filmes. No começo, era uma combinação de stop motion com projeção quadro a quadro miniaturizada, desenvolvido em 1933 por Willis O’Brien, um trabalho tão brilhante e atemporal que ainda hoje inspira uma nova geração de artistas digitais. O King Kong clássico abriu as portas para as possibilidades de criação de mundos no cinema de aventura, e logo os cantos misteriosos do mundo eram retratados nas telas com criaturas animadas quadro a quadro – o mestre desta arte, seguidor de O’Brien, foi Ray Harryhausen, que atingiu seu ápice com as criaturas de A Sétima Viagem de Simbad e Jasão e o Velo de Ouro.

Quando o produtor Dino De Laurentiis apostou em uma refilmagem de King Kong em 1976, o gorilão surgiu com uma combinação de um traje completo com uma máscara mecânica – usado por Rick Baker, depois alçado a mestre da maquiagem cinematográfica – e um modelo animatrônico gigante, que quase nunca funcionava e foi usado em menos de 30 segundos do filme. De resto é Baker vestido de macaco, combinado com as filmagens de Jessica Lange seminua deitada numa mão gigante. Tosco, mas foi o truque repetido uma década depois em King Kong Vive, continuação bancada pelo mesmo De Laurentiis. O filme começa com o primata colossal sofrendo uma cirurgia no coração após sua queda das torres do World Trade Center no primeiro filme. Daí, você pode imaginar, é ladeira abaixo.

Sai tosqueira em estado bruto, entra Peter Jackson e seu King Kong em 2005, agora humanizado, já que o símio foi construído a partir do trabalho corporal e expressivo de Andy Serkis, que vestiu um traje de captura de movimento e teve sua performance transformada no monstrão sensível que, apesar de detonar alguns dinossauros, não puxava briga. Finalmente, Kong: A Ilha da Caveira traz não só o maior gorilão já mostrado no cinema (“Ele ainda está crescendo”, diz, a certo momento, um personagem do filme), como também sua tradução mais perfeita. Criado inteiramente em CGI, o novo Kong aproxima-se visualmente do boneco usado no filme de 1933, com mandíbulas projetadas e expressão de poucos amigos, como também não entra em cena para se apaixonar ou ser objeto de humanos com ideias mirabolantes. Desta vez, Kong mostra por que é Rei! Isso até seu encontro com um certo lagarto atômico, já agendado para 2020. A briga será boa!

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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