Blog do Sadovski

Com um trailer matador e aplausos em sua primeira exibição, Em Ritmo de Fuga pode ser o Pulp Fiction do ano

Roberto Sadovski

14/03/2017 04h25

Em Ritmo de Fuga, novo filme do diretor britânico Edgar Wright, teve sua primeira exibição mundial no festival texano South by Southwest (ou SXSW para os íntimos) e deixou a plateia coletivamente com os queixos no chão. Não só o público, que lotou o Paramount Theater na cidade de Austin, mas também os críticos, que se derreteram para a mistura de história de amor, musical e heist movie (ou “filme de roubo” numa tradução capenga) em que um ás no volante com cara de bebê (Ansel Elgort, de A Culpa É das Estrelas, aqui fora de sua zona de conforto) se apaixona por uma garçonete (Lily James) e planeja um último golpe para sair dessa vida, mesmo que isso o coloque em rota de colisão com seu empregador, um gângster interpretado por Kevin Spacey. A pegadinha: Baby, nome do sujeito, só consegue dirigir com fones de ouvido e uma trilha matadora. Wright diz que sua inspiração é a “santíssima trindade” dos filmes de roubo dos anos 90; Fogo Contra Fogo, Caçadores de Emoção e Cães de Aluguel.

Tudo isso já me deixou empolgado, mas o primeiro trailer foi determinante para que eu colocasse Em Ritmo de Fuga como prioridade total para assistir no cinema em 2017. Dá uma espiada.

Sensacional, não? Na verdade, a aventura é também o filme que falta para Wright deixar de ser o diretor cool (e cult) que tem um séquito pequeno mas leal para ocupar seu lugar de direito na primeiríssima linha de cineastas os quais o nome já basta para “vender” um projeto. A referência a Pulp Fiction que eu joguei no título (click bait!) não foi acidental. No começo dos anos 90, Quentin Tarantino já estava fazendo seu nome como o sujeito capaz de pegar um roteiro e dar um tapa para que ele se tornasse moderno, divertido, tenso, surpreendente e sensacional – a lista vai de Amor à Queima-Roupa a Assassinos por Natureza a Maré Vermelha. Cães de Aluguel foi uma surpresa, mas foi o sucesso comercial de Pulp Fiction que lhe abriu as portas do universo. Com um orçamento de 8 milhões de dólares, o filme que mudou o jeito de Hollywood fazer, vender e consumir cinema, basicamente definindo toda uma geração, colocou 213 milhões no bolso. E fez de Tarantino, merecidamente, um astro.

Edgar Wright está, sem o menor exagero, no mesmo patamar. Aos 42 anos, e com um dedo na TV inglesa há pouco mais de duas décadas, ele fez seu nome na série Spaced ao lado de Simon Pegg e Nick Frost. O salto para o cinema veio em 2004 com a pérola Todo Mundo Quase Morto, uma sátira em que zumbis tomam Londres e quase ninguém se dá conta até ser muito tarde – um The Walking Dead com mais humor e originalidade. Três anos depois ele criou uma zoeira/homenagem aos filmes policiais dos anos 80 com Chumbo Grosso, em que um superpolicial é despachado para uma cidade no interior onde nada acontece, até ter de investigar uma série de assassinatos. Hollywood prestou atenção e escalou Wright para dirigir, em 2010, a adaptação da HQ indie Scott Pilgrim Contra o Mundo, uma verdadeira obra-prima pop com Michael Cera no papel-título. Mas o público deu de ombros, e a bilheteria mundial que não encostou nos 50 milhões de dólares (ainda seu maior sucesso) fez os executivos segurarem a carteira. De lá para cá, ele desenvolveu Homem-Formiga com a Marvel (que terminou dirigido por Peyton Reed, com Edgar mantendo crédito de história e produção) e finalizou sua “trilogia do sorvete” na Inglaterra com o apocalíptico e etílico filme de invasão alienígena, Heróis de Ressaca.

Edgar Wright (com fones de ouvido) dirige Kevin Spacey, Jamie Foxx e a gangue

Baby Driver, nome original (e muito mais cool) de Em Ritmo de Fuga, pode mudar o cenário. A exibição no SXSW criou um burburinho fantástico (“Isso vai fazer rios de dinheiro” foi a letra entre os executivos) e ganhou a crítica que acompanhou a estreia – “É seu melhor trabalho”, “Entretenimento grandioso”, “Em cinco segundos Baby Driver já te ganhou”, “Vamos combinar que é incrível!” e “Baby Driver é divertidamente veloz e furioso”. Talvez não seja ao acaso que Wright use o mesmo “método” para criar o roteiro que o próprio Tarantino. “Eu estava ouvindo discos de minha coleção e visualizando cenas”, disse o diretor no debate que seguiu a estreia. “Eu não escrevia nenhuma cena antes de achar a trilha certa.” Talvez Hollywood também sinta que seja hora de o cineasta dar um salto para projetos mais grandiosos, e atendeu em massa ao chamado: além de Elgort, James e Spacey, o elenco traz Jon Hamm, Jon Bernthal, Jamie Foxx…. e Flea, baixista do Red Hot Chili Peppers.

Eu conheci Edgar Wright na San Diego Comic-Con em 2010, quando ele levou Scott Pilgrim e o elenco à tiracolo. A gente troca uma ideia de vez em nunca, em especial quando seus filmes são lançados por aqui, geralmente direto em home video – ele riu alto quando falei que The World’s End (ou “O Fim do Mundo”) havia se tornado Heróis de Ressaca na terrinha. Ontem mandei um oi com o título de Baby Driver no Brasil, e ele respondeu entusiasmado que deve vir por aqui para o lançamento do filme. “Espero que você curta”, despediu-se rapidamente. Em Ritmo de Fuga chega por aqui em 17 de agosto, e ainda temos um longo caminho e muito cinema neste hiato. Mas este se tornou o filme que, ao lado de Blade Runner 2049, eu mais quero ver este ano. Ah, o trailer nacional é bem diferente do exibido nos EUA, e igualmente sensacional. Os meses se arrastam…

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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