Blog do Sadovski

T2 Trainspotting: Sequência funciona porque estamos todos velhos

Roberto Sadovski

28/03/2017 02h27

Nostalgia não é o combustível da continuação de Trainspotting, mas com certeza é o gatilho para levar muita gente ao cinema. O novo filme, que chega aos cinemas duas décadas depois de o original lançar as carreiras de Ewan McGregor e do diretor Danny Boyle, é a materialização de um “o que aconteceria se”, das fantasias em que o público imagina onde determinado personagem vai parar. Neste caso específico, o futuro não oscilaria muito além de cadeia ou cemitério, já que o quarteto de neo clássico do cinema junkie parecia encarnar com precisão o mantra do Sex Pistols: “There is no future”. Não há futuro. O final nem sempre é feliz.

Mas até que parecia em 1996, quando ao final de Trainspotting o viciado em heroína Renton (McGregor), focado em se livrar das agulhas e se mandar de Edinburgo, foge com 16 mil libras, resoltado de uma venda de drogas em Londres. Ele deixa para trás Sick Boy (Jonny Lee Miller), o psicopata Begbie (Robert Carlyle, que teve seu personagem despachado para a prisão) e o inofensivo Spud (Ewen Bremner). Todo sorrisos, Renton não deixa o remorso cobrir sua expressão e ergue a cabeça para um novo começo. “Choose life”, dizia o bordão. Ele escolheu a vida. Fadas e pirilampos, certo?

Renton (Ewan McGregor), Spud (Ewen Bremner) e a Escócia

Bom, não exatamente. E é exatamente duas décadas depois que Renton volta à Escócia, logo após a morte de sua mãe (“Ela nunca mexeu em seu quarto”, diz seu pai, mais uma vez na pele de James Cosmo. “Sempre achou que você voltaria.”). O que ele quer, na verdade, é fazer as contas com o passado. Seu exílio auto imposto em Amsterdã (casa, família, escolha a vida) não parece assim tão idílico, e logo ele reencontra Spud, a quem ele havia deixado 4 mil libras, e impede o suicídio do companheiro. “O que você achou que eu ia fazer com tanto dinheiro?”, dispara, interpretado com uma certa ternura demente por Brenmer. “Eu era um viciado!” Já Sick Boy, que divide seu tempo extorquindo homens casados que ele filma fazendo sexo com sua namorada, a imigrante Veronika (a ótima Anjela Nedyalkova), é um vulcão de rancor e sede de vingança contra o ex-melhor amigo, a quem convence ficar em Edinburgo para ajudar a erguer fundos para construir um bordel. E Begbie? Bom, este fugiu da prisão e divide seu tempo entre roubos, “família”, viagra e, ao saber da volta de Renton, contar os segundos para extinguir a luz em seus olhos.

Este é o tabuleiro armado por Danny Boyle, trabalhando mais uma vez em cima de um roteiro de John Hodge, por sua vez inspirado (mais uma vez) no livro Transpotting e em sua continuação, Pornô, ambos de Irvine Welsh. O vigor demonstrado pelos cineastas é invejável, principalmente quando lembramos que duas décadas separam um realizador ganhador do Oscar do diretor com sangue nos olhos que penou para levar a obra de Welsh para o cinema. Entre um Trainspotting e outro, Boyle poderia ter se tornado um profissional cansado, viciado, insistindo nos mesmos tiques. Mas ele optou por um caminho eclético, experimentando terror (Extermínio), ficção científica (Sunshine), colocou um pé em Bollywood (Quem Quer Ser um Milionário?) e mostrou que é possível criar biografias com personalidade, com 127 Horas e, principalmente, com o soberbo Steve Jobs. E manteve um gosto musical impecável, a julgar pela trilha selecionada para T2 Trainspotting

Begbie (Robert Carlyle) em um momento…. Begbie!

T2 (não confundir com o T2 com um robô de metal líquido…) é mais leve e melancólico que seu antecessor – como não poderia deixar de ser. A euforia de uma juventude movida a picos de heroína, que mal tinha tempo de processar suas tragédias, abriu espaço para a frustração de adultos que seguiram um caminho torto, em que os momentos de real felicidade pertencem ao passado. A decisão de Boyle em não fazer um filme nostálgico cresce em ironia justamente porque seus personagens não conseguem deixar de olhar para trás, e o texto de Hodge triunfa ao costurar os dois extremos com uma certa tristeza. Renton e Sick Boy ainda tem os papeis mais suculentos, uma relação de amor e ódio que Veronika, jovem e desconectada do peso dos anos, decifra em segundos. McGregor, a certa altura, conta à moça a origem da expressão “escolha a vida”, adotada com ironia pela turma vinte anos antes, e dispara um monólogo que informa a ela – e ao público, os millennials que não estavam aqui quando Trainspotting tomou o mundo de assalto – o quanto a nova geração tem todas as ferramentas em mãos para viver intensamente. E como podem colocar tudo a perder, exatamente aconteceu com ele.

Não tenha dúvida: T2 Trainspotting é um filme incrível para quem só agora tem idade legal para entrar no cinema (ou ver o primeiro sem supervisão de um adulto responsável). Mas ganha outro peso para quem viveu aquela época. Não (obviamente) como usuário de drogas pesadas (bom, eu falo por mim…), mas como testemunhas de um momento cultural, econômico, social, musical e geracional que marcou os anos antes da virada do século. Por isso é inteligente contar a história do ponto de vista de Spud. O grande arco narrativo de T2 ficou nas mãos de Ewen Bremner: seu personagem é quem mais perdeu em uma vida de vício, sendo continuamente jogado ao chão em cada nova tentativa de imprimir dignidade à vida – a sequencia em que ele coloca a culpa de sua recaida mais recente no horário de verão é tragicômica, adjetivo que o acompanha como uma sombra. Sua busca por redenção é o que dá o melhor sentido aos anos emparedados entre os dois filmes, e uma fagulha de que, assim como Renton vinto anos atrás, é possível vencer a agulha…. Quer saber? Esquece o que eu escrevi lá no alto. O futuro está aí! E o final pode, sim, ser feliz.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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