Blog do Sadovski

Sem polêmicas, A Vigilante do Amanhã troca a filosofia do mangá por uma trama simples de visual arrebatador

Roberto Sadovski

30/03/2017 05h27

Scarlett Johansson plays The Major in Ghost in the Shell from Paramount Pictures and DreamWorks Pictures in theaters March 31, 2017.

A Vigilante do Amanhã, aventura de ficção científica com Scarlett Johansson distribuindo balas e questionamentos existenciais em um traje futurista, chega aos cinemas embalado por uma polêmica tola. Sendo adaptação do neo clássico nipônico cyberpunk Ghost in the Shell, o filme teve de navegar por acusações de apropriação cultural e whitewashing (quando um personagem de outra etnia é entregue a um artista caucasiano) porque sua estrela, obviamente, não é japonesa. Uma tremenda bobagem, já que o mundo criado em 1989 no mangá de Masamune Shirow, e adaptado para o cinema em 1995 no brilhante anime de Mamoru Oshii, é ambientado em uma metrópole multicultural (mais Hong Kong e menos Tóquio) e protagonizado por uma androide. “Ela pode ter um nome japonês, mas é um ciborgue”, explica o próprio Shirow. “Sua idade e passado são desconhecidos, e os personagens de mangás no Japão geralmente não tem nacionalidade.” O criador da série logo coloca a polêmica para dormir: “Eu não tenho nada contra a escolha de Scarlett, acho até que ela se encaixa perfeitamente na imagem do filme e eu não poderia imaginar uma atriz melhor no papel”.

Ele não está errado. Assumindo o papel de Major (seu nome japonês, Motoko Kusanagi, ainda é parte da trama), Scarlett empresta uma certa frieza e um ar inumano à ciborgue com cérebro orgânico – sua última evidência de humanidade, já que ela logo aprende que seu corpo foi perdido em um acidente trágico, e a casca sintética abriga agora sua essência. A primeira cena, que detalha sua criação, segue à risca o visual do anime e informa o festival visual que está por vir. Como uma agente da Seção 9, unidade antiterrorista do governo japonês, ela está à frente da caçada a Kuze, um hacker e cyberterrorista que está matando executivos do conglomerado Hanka Robotics – não por acaso, mesma empresa responsável pelo novo corpo da Major. Ao se aproximar de Kuze, ela descobre que seu passado pode não ser o mesmo que assombra suas memórias, e que sua própria existência esconde não só uma conspiração militaresca, mas também seria a chave para o próximo passo da evolução humana: uma fusão com a cibernética livre das amarras de seus criadores, ou mesmo de um corpo humanóide.

Rupert Sanders dirige o lendário Takeshi Kitano

Este é o tabuleiro armado pelo diretor Rupert Sanders (Branca de Neve e o Caçador), que usa o mangá, o anime e a série de TV baseada em Ghost in the Shell para desfiar uma trama familiar sobre corporações malvadas calando a voz de revolucionários idealistas. Compactando as ideias do material original em uma trama mais linear em ideias e estrutura, o filme perde a complexidade dos quadrinhos originais e os questionamentos mais filosóficos e densos do anime: a Major, que muitas vezes abraçava sua condição cibernética e exibia uma certa simpatia pela “causa” levantada pela cada vez mais presente inteligência artificial como nova forma de vida, surge aqui assombrada por um passado que ela tenta desvendar. Ghost in the Shell, enquanto criação japonesa, privilegiava a busca pela identidade e o avanço de um mundo cada vez mais avançado tecnologicamente, colocando a ação em segundo plano. Obviamente, a ordem é inversa nesta versão hollywoodiana. O que não é exatamente um pecado: Sanders usa sua caixa de brinquedos para executar uma visão absolutamente exasperante de um futuro em que o casamento de homem e máquina é realidade, uma expansão bancada por tecnologia digital de ponta da Los Angeles apresentada por Ridley Scott em Blade Runner ou da Tóquio mostrada por Katsuhiro Otomo em Akira.

De visual arrebatador e uma direção de arte intrincada e fulgurante em seus detalhes, A Vigilante do Amanhã justifica a criação de cinemas Imax, com sua tela gigante e som poderoso: é um filme que merece sessões repetidas, com a primeira resolvendo a trama e suas consequências e as seguintes (sim, no plural) para mergulhar nos detalhes da megalópole criada por Sanders e sua equipe, que inclui o desenhista de produção holandês Jan Roelfs (Gattaca, 47 Ronins) e o fotógrafo Jess Hall (Transcendence – A Revolução). A trilha, assinada por Clint Mansell e Lorne Balfe recria com louvor a atmosfera do tema escrito por Kenji Kawai para o anime. Como produto, este Ghost in the Shell nascido no Ocidente cumpre o que é esperado de uma produção ianque e consegue ir além. Tem ritmo, é envolvente em suas cenas de ação e, apesar do terreno já percorrido, entrega uma história decente. Seguindo a cartilha do cinema representativo moderno, Scarlett divide a cena com um elenco plural, que traz o japonês Takeshi Kitano, o dinamarquês Pilou Asbæk, a francesa Juliete Binoche e o inglês Peter Ferdinando em papéis de destaque.

Scarlett Johansson plays Major in Ghost in the Shell from Paramount Pictures and DreamWorks Pictures.

Major (Scarlett Johansson) encara uma metrópole de visual arrebatador

Pena que A Vigilante do Amanhã tenha chegado em uma versão live action com tanto atraso. Muitos de seus temas sobre a tecnologia como o futuro da raça humana já foram explorados anteriormente em Matrix – que, não por acaso, teve em Ghost in the Shell uma de suas grandes fontes de inspiração. James Cameron, que elogiou o anime de Oshii como “a primeira animação adulta a atingir um nível de excelência literário e visual”, abraçou o conceito de transferir a essência de um ser humano para um corpo artificial em Avatar. Ava, a inteligência artificial interpretada por Alicia Vikander em Ex Machina, traça um paralelo com as ideias do Mestre dos Bonecos, o hacker que confronta a Major no anime de 1995. Se Rupert Sanders fosse um diretor com mais personalidade, talvez seu filme tivesse um espírito que o elevasse além da experiência hollywoodiana padrão. Talvez a personagem de Scarlett Johansson trocasse o básico “quem sou eu?” por um mais incisivo “se este corpo se for, o que sobra de minha alma?”. Mas compreender o que seria este “fantasma”, um conceito que vai além da energia espectral que anima a matéria, é tarefa difícil que A Vigilante do Amanhã sequer arrisca. Mamoru Oshii, ambíguo há duas décadas sobre as entrelinhas de sua interpretação da obra de Masamune Shirow, é incisivo: “Eu sinto que a idéia do ‘fantasma’, compreendida facilmente por nós, japoneses, ainda não é entendida no Ocidente… Provavelmente deve ser pelas diferenças culturais”.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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