Blog do Sadovski

Morgan Freeman, à frente de Despedida em Grande Estilo, mostra que não existe idade para ser astro

Roberto Sadovski

08/04/2017 03h07

Quando a ficção científica Cocoon estreou em 1985, um dos maiores medos dos produtores era seu elenco. Liderado por veteraníssimos de Hollywood, como Don Ameche, Hume Cronyn e Jessica Tandy, o filme acendeu todos os sinais vermelhos: será que uma turma beirando os 80 anos vai atrair a molecada disposta a encarar uma aventura com efeitos especiais? No fim, Cocoon faturou respeitáveis 90 milhões de dólares, garfou dois Oscar (efeitos visuais e ator coadjuvante para Don Ameche) e, quando a continuação chegou três anos depois, os vovôs dominavam a campanha do filme.

Os tempos mudaram e com ele, o cinema. Mas uma coisa permanece imutável: o talento ainda está acima de tudo. Claro, este jogo dos astros de cinema parece ser domínio dos jovens. Mesmo assim, não é de se estranhar que Morgan Freeman, prestes a completar 80 anos, continua trabalhando com fôlego de iniciante, não só emprestando seu prestígio e dando gravidade como coadjuvante em filmes como a trilogia O Cavaleiro das Trevas, Lucy e os dois Truque de Mestre, como tem estatura para ser protagonista, o caso da nova comédia Despedida em Grande Estilo (em que divide a cena com os igualmente veteranos Michael Caine e Alan Arkin). A diferença de Freeman para seus parceiros é matemática: seus filmes faturam uma média de 73 milhões de dólares nas bilheterias ianques, algumas dezenas de milhões acima dos colegas. O dinheiro ainda manda. Cocoon que o diga!

Morgan Freeman, entre Michael Caine e Alan Arkin, em Despedida em Grande Estilo

Embora tenha começa a carreira em pontas no cinema ainda nos anos 60, e tenha encarado um longo período na série educativa de TV The Electric Company, o próprio Freeman considera o thriller Armação Perigosa, de 1987, como seu ponto de partida. Ele faz o papel de um cafetão acusado de assassinato que persegue um jornalista (Christopher Reeve) picareta que inventou uma reportagem falsa que o personagem de Freeman acha que é sobre ele. Para o resto do mundo, porém, o ator disparou dois anos depois, em filmes lançados praticamente no mesmo dia: o drama da Guerra Civil Tempo de Glória (que deu o Oscar de melhor ator coadjuvante a Denzel Washington, além de levar mais duas estatuetas), e o drama sobre amizade e a marcha do tempo Conduzindo Miss Daisy (que deu o Oscar de melhor atriz a Jessica Tandy, além de levar mais três estatuetas, inclusive melhor filme).

A partir daí, Morgan Freeman passou a ser sinônimo de personagens sábios, paternais, que ganhavam profundidade com sua interpretação carregada de nuances e sua voz grave. Filmes como Robin Hood – O Príncipe dos Ladrões (1991, com Kevin Costner), Os Imperdoáveis (1993, de Clint Eastwood, provavelmente o melhor filme da década), Um Sonho de Liberdade (1994, interpretando um personagem que, no conto original de Stephen King, é ruivo e irlandês) e Seven (1995, ao lado de Brad Pitt, apavorando platéias em todo o mundo ao abrir uma caixa de papelão) ajudaram a solidificar seu status como, por que não, um dos grandes pontos de interesse de qualquer filme, e parte fundamental de sua engrenagem como produto.

No papel de Alex Cross, que interpretou em Beijos que Matam (foto) e Na Teia da Aranha

Foi Denholm Elliott, imortalizado como o professor Marcus Brody na série Indiana Jones, que proferiu as vantagens de ser um eterno coadjuvante: trabalhar com os melhores, ganhar bem e raramente ser incomodado nas ruas. Seria uma posição compreensível para Freeman, mas ele preferiu tomar os holofotes e em 1997, aos 60 anos, encabeçou sua primeira (mas não a última) franquia cinematográfica. No papel do detetive e psicólogo forense Alex Cross, criação do escritor James Patterson e proagonista de mais de vinte livros, Morgan protagonizou Beijos que Matam e, quatro anos depois, Na Teia da Aranha. O cinema tentou retomar a série em 2012 com Tyler Perry no papel de Cross em A Sombra do Inimigo. Não colou. Tyler Perry não é Morgan Freeman.

O novo século continuou a associação do ator com grandes bilheterias, raramente perdendo o foco da qualidade do trabalho envolvido. Ele foi Deus (Todo Poderoso, de 2003, em que dividiu a cena com Jim Carrey e fez o filme de maior renda do ano no Brasil), finalmente ganhou um Oscar (de coadjuvante em Menina de Ouro, de 2004, mais uma vez sob direção de Eastwood) e encarou sua segunda franquia: O Cavaleiro das Trevas, iniciada em 2005 com Batman Begins, com mais dois filmes em 2008 e 2012. Nos últimos anos, porém, Freeman tem mantido a carreira em ponto morto, abraçando o papel de mentor sem maiores pretensões artísticas. Ele pode.

Menina de Ouro, que lhe deu o Oscar de melhor ator coadjuvante

Mas nada de ficar em segundo plano em Despedida em Grande Estilo, muito menos como coadjuvante num drama. O palco aqui é a comédia. Refilmagem da (ótima) produção que em 1979 reuniu George Burns, Art Carney e Lee Strasberg sob o comando de Martin Brest, o novo filme segue a mesma trama, adicionando elementos modernizados. Se antes a desculpa para o trio roubar um banco era basicamente o tédio, agora existe um motivo, digamos, “redentor”: Willie (Freeman), Joe (Caine) e Albert (Arkin) planejam o assalto depois que sua aposentadoria desaparece quando a empresa onde trabalham é absorvida por um conglomerado – ter como alvo o mesmo banco que guarda o fundo de pensão é a vingança lógica. Apesar de simpático, especialmente pelo peso do elenco, o filme de Zach Braff (Hora de Voltar) é previsível e otimista, trocando o subtexto do abandono social experimentado por cidadãos da terceira idade presente no filme de 1979 por risadas ligeiras e pela mensagem óbvia: o “sistema” é mau e roubá-lo não é mais do que a obrigação.

Deve faturar alguns milhões, espelhando o sucesso modesto de alguns filmes encabeçados por veteranos que o cinema lançou nos últimos anos. O Exótico Hotel Marigold (2011, com Maggie Smith, Judy Dench, Tom Wilkinson, Bill Nighy), que ganhou até uma continuação; Amigos Inseparáveis (2013, com Al Pacino, Christopher Walken, Alan Arkin); O Quarteto (2013, com Maggie Smith, Tom Courtenay, Billy Connolly, Michael Gambon). Morgan Freeman, claro, surge em outros dois: RED (2010, com Bruce Willis, Helen Mirren, John Malkovich e Brian Cox) e Última Viagem a Vegas (2013, com Robert DeNiro, Michael Douglas e Kevin Kline). Aposentadoria não parece estar em seu vocabulário.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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