Blog do Sadovski

Do pior ao melhor, um ranking com todos os filmes de Ridley Scott

Roberto Sadovski

16/05/2017 21h26

Ridley Scott é um de meus cineastas favoritos. De todos os tempos! Se eu fizer um listão dos filmes que me formaram como apaixonado por cinema (hmmm, melhor livro do que lista…), um punhado de seus trabalhos vai figurar na seleção final. Por isso, nada me decepciona mais do que ver um filme com sua assinatura sair pela culatra. Aconteceu antes, acontece agora, espero que não aconteça mais. Ainda assim, não importa o tamanho do desastre, Scott é um diretor com uma visão clara, nunca segue modismos e não deixa seu modo de encarar o mundo interferir na história que ele quer contar. Nas últimas semanas embarquei numa maratona caprichada e revi a todos os seus filmes – na maior parte do tempo, uma experiência que recomendo! O resultado segue aí embaixo… E você, quais seus favoritos do Ridley Scott? Solte o verbo, e vamos a eles!

24. ÊXODO: DEUSES E REIS (Exodus: Gods and Kings, 2014)

A história de Moisés, de guerreiro do Egito à sua redenção ao libertar seu povo da escravidão, ganhou um épico torto nas mãos de Scott. O casting bizarro (Christian Bale, Joel Edgerton), que coloca atores brancos como a neve no papel de egípcios de pele curtida, deixa a coisa com cara de Hollywood dos anos 50. Não é um elogio. Ao menos é melhor do que Os 10 Mandamentos (aquele do bispo). Mas ter os olhos perfurados com uma agulha também seria…

23. UM BOM ANO (A Good Year, 2006)

Scott e seu parça, Russell Crowe, embarcaram numa comédia romântica leve e açucarada. Em outras palavras: nunca um projeto teve protagonistas tão equivocados! Mas Scott gosta de vinho. Crowe gosta de vinho. Eles puderam tirar férias em um lugar bacana, filmaram nos intervalos da siesta e ainda foram pagos para isso! Há coisas piores embaixo do Sol.

22. O CONSELHEIRO DO CRIME (The Counsellor, 2013)

Embora não seja exatamente uma experiência desastrosa, O Conselheiro do Crime traz um elenco primoroso em um filme cujas partes nem sempre falam a mesma língua. É como desastre em descida de serra: a gente diminui a marcha para admirar o tamanho do desastre mas logo engata uma segunda e segue em frente. No fim, vai ficar na história como o filme em que Cameron Diaz transou com um carro. Sério.

21. 1492: A CONQUISTA DO PARAÍSO (1492: Conquest of Paradise, 1992)

O motivo era nobre: comemorar os 500 anos do descobrimento da América. Talvez a aventura épica com Gerard Depardieu funcionasse melhor como uma minissérie moderna, já que é muita história, muitos temas, muito subtexto para resolver em um único filme. Ainda assim, 1492 é uma amostra do poder do cinema como avatar da verdade e talvez a única forma de registrar eventos extraordinários com essa escala. Ou seja: não fazemos mais filmes assim.

20. HANNIBAL (2001)

De cara, Scott perdeu Jodie Foster nesta continuação de O Silêncio dos Inocentes. Perdeu também o rumo: o que era um estudo sufocante sobre a mente de um assassino (no neo clássico de Jonatham Demme) se tornou um filme de super-herói (ou de “anti-herói”), com o Hannibal Lecter de Anthony Hopkins mostrando que ele funciona quando servido em pequenas doses. Mas a maquiagem de Gary Oldman como uma de suas vítimas que sobreviveu é assustadora. No fim, um escorregão barulhento e elegante.

19. A LENDA (Legend, 1985)

Depois de ver Tom Cruise, cara de moleque e tudo, correndo de tanga numa floresta encantada, a gente encara tudo. A Lenda é fruto de uma época em que o cinema de fantasia reencontrava seu pé (A História Sem Fim, O Feitiço de Áquila, Labirinto), com uma produção beirando a cafonice ilustrando uma história sobre fadas, guerreiros e princesas. O melhor, claro, é o design arrebatador de Tim Curry como o vilão demoníaco.

18. ATÉ O LIMITE DA HONRA (G.I. Jane, 1997)

Colocar Demi Moore como uma mulher treinando com os fuzileiros navais pode até soar como empoderamento, mas este G.I. Jane saiu mais como uma masculinização da atriz, que raspou as madeixas e, a certa altura, cospe um “chupa meu p%$”. Como um Rambo de saias (mentira, ela não usa saias), a personagem encara um ou outro conflito (e Scott sabe filmar o caos da guerra como poucos) e não compromete. Quem brilha mesmo é Viggo Mortensen, que faz seu oficial superior.

17. TORMENTA (White Squall, 1996)

WHITE SQUALL, Eric Michael Cole, Scott Wolf, Jeff Bridges, Caroline Goodall, Jeremy Sisto, 1996.

Basicamente um Sociedade dos Poetas Mortos em alto mar, Tormenta recria os eventos que levaram ao naufrágio de uma “escuna escola”, quando foram atingidos por uma tempestade impossível de prever e de escapar. Estruturado como um drama sobre jovens se tornando adultos, o filme escorrega no excesso de sacarose, mas encontra redenção na liderança firme de Jeff Bridges e na direção absurda de Scott, que reproduz a tragédia com precisão cirúrgica.

16. ALIEN COVENANT (2017)

Ao retormar a série que se tornou um dos pilares do cinema de terror e de ficção científica modernos, Scott patinou na trama sem sentido e deixou os aliens de lado para se concentrar na desinteressante história de David, o robô do mal. Um tédio, que eu escrevi com mais detalhe bem aqui.

15. ROBIN HOOD (2010)

O projeto começou de maneira bem mais interessante, quando o foco era no Xerife de Nottingham e em como ele mesmo se tornaria o anti-herói da floresta de Sherwood. Scott e Crowe, porém, acharam a ideia confusa demais e escolheram uma trama mais reta sobre o arqueiro Robin Hood. O filme funciona como ponto de partida para sua lenda, narrando os eventos que antecederam sua cruzada contra ricos a favor dos pobres. Bem filmado, de produção esmerada, o filme só peca ao deixar de lado qualquer resquício de senso de aventura. Uma pena.

14. CRUZADA (Kingdom of Heaven, 2005)

A história sobre o cerco a Jerusalém, no auge das cruzadas cristãs contra hordas de infiéis, é Ridley Scott em seu elemento. Traz o tom épico, a trama histórica, as batalhas coreografadas como um balé de destruição. Mas sucumbiu ao hype de O Senhor dos Anéis ao escalar Orlando Bloom como protagonista. Falta a ele o carisma para dar veracidade à luta de seu personagem, fazendo com que todo mundo pareça mais interessante que o herói da aventura. Como torcer para alguém assim?

13. PROMETHEUS (2012)

Um filme interessantíssimo em sua proposta mas uma nulidade em sua execução, Prometheus é um semio-prólogo de Alien, o Oitavo Passageiro, que tenta explicar a origem de alguns elementos de seu primo fílmico mais bem resolvido. É um filme belíssimo mas desprovido de paixão, trazendo uma equipe de cientistas que se comporta como uma trupe circense, esvaziando qualquer verdade pseudo científica em que o filme deveria se ancorar. Resta o design bacana das criaturas e uma ou outra cena mais tensa. Mas tinha obrigação de ser melhor.

12. REDE DE MENTIRAS (Body of Lies, 2008)

Este filme de espionagem moderno, com Leonardo DiCaprio como o agente que se ferra em campo, e Russell Crowe como seu superior que comanda operações em zonas de perigo enquanto faz compras no supermercado da esquina. A trama banal ganha mais estatura justamente por conta de seu elenco afiadíssimo – que ainda traz o sempre competende Mark Strong – e a direção segura de Scott. O diretor, que nunca se mostrou muito preocupado com política, defende aqui uma trama que marca a tensão entre os EUA e a Arábia Saudita, entre tradição e modernidade. Só isso o coloca acima da média dos thrillers de espionagem.

11. PERIGO NA NOITE (Someone to Watch Over Me, 1987)

Anos e anos atrás, Tom Berenger era um galã de primeira linha, encabeçando tramas policiais como a deste Perigo na Noite. Nada mais clichê: moça testemunha crime; policial casado protege moça; moça e policial se apaixonam. Apesar de previsível, o filme transborda estilo, principalmente em uma época em que o visual do cinemão hollywoodiano abraçava influências de filmes publicitários e vídeos musicais. Scott era mestre, sem nunca perder o foco da história que estava contando. Mesmo que ela fosse uma grande bobagem.

10. CHUVA NEGRA (Black Rain, 1989)

Michael Douglas vai ao Japão numa trama policial de “peixe fora d´água”, com o tira de Nova York aprendendo que seus métodos não funcionam do outro lado do mundo. A história, sobre um chefão da Yakusa extraditado para Tóquio, é pano de fundo para os conflitos do protagonista, um policial com acusações de corrupção nas costas e arriscando tudo para uma redenção impossível. O herói falível entrava no cânone do cinemão com força depois de Duro de Matar, lançado um ano antes. Chuva Negra não é tão icônico, mas é digno em seus próprios méritos.

9. OS VIGARISTAS (Matchstick Men, 2003)

Nicolas Cage surge no auge de seu charme canastrão como um golpista envolvido em suas próprias falcatruas. Os Vigaristas é um filme delicioso, com um elenco acertadíssimo (em especial Alison Lohman) e um clima nervoso e elegante. O maior acerto, porém, foi ter feito da cidade de Los Angeles protagonista de peso igual, com suas mansões, avenidas largas e áreas que parecem carecer de vida humana contribuindo para o senso de solidão e carência. E são os solitários os grandes heróis e perdedores da história.

8. OS DUELISTAS (The Duellists, 1977)

Depois de uma carreira magnífica na publicidade e na TV britânica, Scott estreiou na direção de um longa neste drama histórico sobre dois oficiais entrelaçados nas guerras napoleônicas. Uma desavença transforma-se em um duelo, e o conflito entre os dois (Keith Carradine e Harvey Keitel) estende-se por décadas. De cara, Scott mostra seu estilo visual inconfundível e emoldura uma trama até banal com tanta beleza e personalidade que era impossível não perceber que, em Os Duelistas, nascia um autor de primeira.

7. GLADIADOR (Gladiator, 2000)

O novo século trouxe Ridley Scott não só mergulhando no passado, mas também amplificando suas ambições e abraçando as novas tecnologias do cinema. Além disso, Gladiador soprou novo fôlego ao épido de espadas e sandálias, que Hollywood havia jogado no canto há décadas. O show aqui é de Russell Crowe, que se firmou como um astro de verdade no papel de Maximus, oficial romano que é traído pelo filho do imperador, Commodus (Joaquin Phoenix), tem sua família morta e só retorna a Roma na arena, ganhando o clamor popular antes de empreender sua vingança. Filmaço, que garfou o Oscar de melhor filme e ainda rendeu uma estatueta dourada a Crowe. Scott ainda não tem a sua. Ainda.

6. FALCÃO NEGRO EM PERIGO (Black Hawk Down, 2001)

Mestre em rodar cenas de batalha, Ridley Scott se mostrou incomparável ao criar o caos da guerrilha urbana em filme ao dramatizar os eventos reais da Batalha de Mogadishu. Em 1993, uma força militar americana em operação de paz na Somália, já mergulhada em guerra civil, trava um conflito sangrento com a milícia de Mogadishu depois de um helicóptero black hawk ser abatido, e equipes americanas partirem ao resgate de seus tripulantes. O que ocorreu em seguida foi a guerra de um batalhão contra uma cidade inteira, em um filme tenso até a medula, absurdamente realista e meticuloso em sua reconstrução e execução do combate em solo. Uma pequena obra prima.

5. O GÂNGSTER (American Gangster, 2007)

Frank Lucas (Denzel Washington, li.) und Detective Richie Roberts (Russell Crowe)

Scott mirou em um recorte da história americana moderna para criar um de seus melhores trabalhos. O Gângster traça a vida de Frank Lucas (Denzel Washington), que foi de um dos criminosos mais perigosos do Harlem nova-iorquino, em paralelo à carreira do policial Richie Roberts (Russell Crowe). Seus caminhos se cruzam quando, consolidade no poder no Harlem, e monopolizando a distribuição de drogas (que ele trazia do Vietnã no corpo de soldados americanos mortos), Lucas entra em choque com policiais corruptos e com sua própria ambição. Um filmaço, que só não foi o melhor do ano em que foi lançado por bater de frente com um colosso chamado Sangue Negro.

4. PERDIDO EM MARTE (The Martian. 2015)

O livro de Andy Weir, que misturava ciência, aventura, humor e o melhor da condição humana, ganhou uma versão cinematográfica quase perfeita. Matt Damon é o astronauta dado como morto em uma missão fracassada em Marte. Deixado para trás, ele precisa sobreviver até que, na Terra, as cabeças pensantes bolem um modo de resgatá-lo. Scott criou um filme quase perfeito, uma ficção científica com altas doses de bom humor, humanizando a trama fantástica. É o tipo de filme que vale uma, duas, dúzias de revisões, cada uma tão satisfatória quanto a anterior. Eu falei sobre ele aqui, e devo rever mais uma vez assim que terminar de escrever essa lista…

3. THELMA & LOUISE (1991)

O road movie com Susan Sarandon e Geena Davis já tem mais de duas décadas, mas nunca esteve tão atual. Lançado no mesmo ano de outros filmes com mulheres poderosas (Jodie Foster em O Silêncio dos Inocentes; Linda Hamilton em O Exterminador do Futuro 2), Thelma & Louise trouxe protagonistas complexas, independentes, imperfeitas e com os pés no chão. Não eram agentes do FBI ou salvadoras do mundo, e sim duas melhores amigas – uma submissa a um marido canalha, outra metódica, madura e livre – colocadas numa situação extraordinária. A receita é explosiva: machismo, assassinato, abuso sexual, liberdade sexual. É uma das histórias de amor mais comoventes e realistas da história, um sentimento de companheirismo e lealdade puro e emocionante. Se o final não destruir seu coração, você não é um ser humano.

2. ALIEN, O OITAVO PASSAGEIRO (Alien, 1979)

Um filme de casa mal assombrada no espaço. O resgate da ficção científica de terror. Um filme de monstros sufocante e assustador. Alien é tudo isso. E Alien é muito mais. Em sua estreia no cinema americano, Scott não mirou em aventuras espaciais épicas, em voga com o sucesso de Guerra nas Estrelas. O que ele criou foi a história de um grupo de caminhoneiros, que discutem sobre bônus salarial e horas extras, ao mesmo tempo em que esbarram numa descoberta potencialmente lucrativa: uma forma de vida nascida em uma explosão de sangue, colocada numa nave espacial grande como uma catedral, em que curvas e sombras engolem seus tripulantes, um a um. É pouco? Ainda criou um dos maiores ícones do cinema moderno, a tenente Ellen Ripley, imortalizada por uma Sigourney Weaver em total sintonia com seu diretor.

1. BLADE RUNNER: O CAÇADOR DE ANDRÓIDES (Blade Runner, 1982)

É impressionante como Ridley Scott, antes de existir ferramentas que executam as imagens mais improváveis da imaginação humana, construiu um mundo futurista absolutamente crível, um caos urbano que hoje, mais de três décadas depois, continua a ser influência forte não só na ficção científica, mas também no cinema, nos quadrinhos, em todo horizonte da cultura pop. Scott entendeu que o mundo de Blade Runner era fundamental para construir sua narrativa e foi incisivo: não existe nada fora do lugar, e não existe gordura na história do policial veterano designado para caçar um grupo de replicantes – andróides perfeitos em sua humanidade, que cometeram assassinato em busca do prêmio máximo, de ter mais vida. Mais ainda, Scott colocou Rick Deckard (Harrison Ford) como protagonista de uma trama policial noir, entrecortada por luz e sombras, em que diálogos são tão cortantes quando uma bala. E ele nunca deixou a tafera fácil para nós, o público: ainda hoje, uma vida depois, fãs discutem o subtexto e as implicações filosóficas e existenciais de Blade Runner. Uma obra-prima absoluta, um dos melhores filmes da história do cinema (está em meu Top 5). A continuação, nas mãos de Denis Villeneuve, sai em outubro. Boa sorte.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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