Blog do Sadovski

Divertido e descartável, A Lenda da Espada é a versão de Rei Arthur que ninguém pediu

Roberto Sadovski

19/05/2017 04h30

Rei Arthur: A Lenda da Espada é exatamente o tipo de filme que chega aos cinemas quando existem muitos chefs na cozinha. É o que acontece quando os interesses de produtores atrelados a uma propriedade intelectual reconhecida, de um estúdio ávido para entrar no jogo dos universos compartilhados e de um diretor com uma visão muito particular entram em choque. É uma bagunça, mas uma bagunça com uma etiqueta de 175 milhões de dólares e, vá lá, com muita coisa bacana acontecendo em meio ao caos. Afinal, ainda é um filme com a grife Guy Ritchie o que, no mínimo, garante um espetáculo divertido e acelerado, com diálogos que variam do genial ao constrangedor, emoldurando uma aventura frenética que nunca cansa – mas que, não raro, testa a paciência do público. É um filme que quer ser muita coisa, termina errando quase todos os alvos, e levanta uma pergunta inevitável: por que, afinal, alguém achou que o mundo precisava de mais um filme do Rei Arthur?

Charlie Hunnam (Círculo de Fogo) assume o centro da trama como o herdeiro do trono da Inglaterra que, ainda criança, vê seu pai, Uther (Eric Bana), sucumbir ante a traição de seu tio, Vortigern (Jude Law). O garoto consegue fugir, é criado com a malandragem das ruas até que, um dia, possa arrancar a espada mítica Excalibur da rocha e assumir o trono como legítimo soberano. O roteiro, assinado por Ritchie, Lionel Wigram e Joby Harold, traz os elementos superficiais das crônicas arturianas, mas mistura muito de Robin Hood (outro herói que Hollywood parece não cansar) com a sensibilidade dos filmes da Marvel. Morgana, Merlin, Lancelot? Pode esquecer, eles não passam nem perto da trama. Em seu lugar, elefantes gigantes que parecem ter sido retirados de O Senhor dos Anéis, uma cobra gigante “emprestada” de Harry Potter e um vilão que não faria feio como chefe de fase em Mortal Kombat. De alguma forma, porém, o diretor consegue fazer com que a mistura funcione.

Guy Ritchie dirige Rei Arthur para uma plateia vazia….

Parte disso vem do charme de Hunnam, protagonista que ainda não encontrou o filme para levá-lo ao primeiro escalão dos astros do cinemão. Seu Arthur é o herói relutante, que precisa enfrentar uma jornada de revelações e confronto com o passado para que assuma seu lugar de direito. O ator equilibra bem charme, emoção e agilidade, mesmo quando o filme se preocupe mais em exibir seu abdômem perfeito do que suas nuances dramáticas. O fato é que este A Lenda da Espada atira em tantas direções diferentes, e difere tão radicalmente dos contos de Arthur que o cinema já abraçou, que fica difícil enxergar algo além de um herói genérico que calha usar uma espada mágica. A certa altura, o melhor é esquecer qualquer conhecimento da história e embarcar no filme como aventura descompromissada e descartável.

E pensar que Rei Arthur: A Lenda da Espada começou justamente como refilmagem de Excalibur, clássico moderno que John Boorman  dirigiu em 1981, em que Merlin (Nicol Williamson) ajuda Arthur (Nigel Terry) a unir o país em torno dos Cavaleiros da Távola Redonda contra as forças que ameaçam despedaçá-lo. É um filme sexy e elegante, que equilibra ação e fantasia com um elenco que inclui Helen Mirren, Gabriel Byrne e Patrick Stewart. Como a última tentativa de trazer a história ao cinema já tem treze anos (Rei Arthur, com Clive Owen e Keira Knightley que, sob direção de Antoine Fuqua, trocou o misticismo da lenda por política e realismo), talvez uma aventura de um herói clássico fosse a resposta ao cinema acelerado e com super poderes que tomou o cinema nos últimos anos. Mas nenhum estúdio quer mexer em time que está ganhando, e logo o filme foi reimaginado como ponto de partida para – você já deve ter adivinhado! – um universo cinematográfico em que vários filmes centrados em diversos personagens (Merlin, Lancelot) pudessem chegar aos cinemas antes de convergir num Cavaleiros da Távola Redonda, reunidos contra uma ameaça maior.

Nem sempre, porém, o ritmo de projetos assim acompanha a vontade de produtores e diretores, e quando o filme chegou às mãos de Guy Ritchie o estúdio estava bem contente em bancar um ponto de partida e ver como a coisa se desenrolava. O choque de ideias nos bastidores adiou a estreia do filme por meses e inflacionou seu orçamento. O público, por sua vez, deu de ombros, deixando A Lenda da Espada com uma bilheteria de estreia nos EUA flácida e a perpectiva de recuperar os gastos astronômicos no mercado internacional cada vez mais improvável. Afinal, é uma temporada com Guardiões da Galáxia e Piratas do Caribe, com Homem-Aranha e Transformers. Por que o estúdio achou que seria uma boa idéia jogar um personagem antigo (para todos os efeitos) em meio a tanta série de poder comprovado é um mistério. O mais trágico é que, no frigir dos ovos, este Rei Arthur peca por um excesso de efeitos digitais aqui (o vilão de PS4 é imperdoável), uma solução ex machina ali, mas ainda é entretenimento redondinho que não ofende.

Na verdade, é um mistério ver Hollywood apelando sempre que pode a propriedades intelectuais que, a cada filme, tornam-se novos fracassos, como Arthur, Robin Hood ou Peter Pan. Afinal, o Rei Arthur de 2004 naufragou. O último Robin Hood, mesmo tendo Ridley Scott e Russel Crowe nos créditos, não causou impacto. A versão mais recente de Peter Pan, de 2015, com Hugh Jackman e Garrett Hedlund, é uma vergonha. Mesmo assim, o menino que não se torna adulto voltará mais uma vez aos cinemas ano que vem, numa adaptação live action da animação Disney de 1953 com David Lowery (Meu Amigo, O Dragão) na direção. O herói de Sherwood também retorna em 2018, agora interpretado por Taron Egerton (Kingsman) em uma versão mais “realista”. E o regente que empunha Excalibur ainda surge este ano em versão de centavos (King Arthur: Excalibur Rising, em breve num streaming perto de você), numa visão sombria do ponto de vista de seu filho ilegítimo (Mordred, que está sendo rodado na Inglaterra) e, pasme, como parte vital do plot de Transformers: O Último Cavaleiro. “Não existe personagem ultrapassado”, disse um produtor ianque sobre o oba oba em torno de Rei Arthur: A Lenda da Espada. “Existe história bem contada. Fazendo assim, o público virá.” Com a bandeira a meio mastro, como é o caso do filme de Guy Ritchie, a resposta foi um estrondoso “não, obrigado”.

Uma foto totalmente aleatória de David Beckham para seu deleite.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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