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A cara da “velha” Hollywood, Ron Howard é a escolha perfeita para dirigir o Star Wars de Han Solo

Roberto Sadovski

23/06/2017 06h52

A surpresa da semana ficou por conta da demissão dos diretores Phil Lord e Chris Miller do comando de Solo: Uma História Star Wars (o título ainda não é oficial). O motivo, pelo zumzum dos bastidores, foi que a visão da dupla, mais cômica para o personagem e com um estilo que privilegiava o improviso em cena, entrou em conflito com o modus operandi mais clássico da produtora Kathleen Kennedy. Diretores sendo substituídos não é nenhuma novidade, como Mark Romanek, que deu lugar à Joe Johnston em O Lobisomem; ou ainda Richard Stanley sendo ejetado da produção de A Ilha do Dr. Moreau, com John Frankenheimer ocupando seu lugar. Ainda assim, é raro isso acontecer quando as filmagens se encontram em estado tão avançado. Os fãs, claro, ficaram de cabelo em pé. E a coisa ferveu quando Ron Howard foi anunciado como substituto de Lord e Miller.

"É a escolha segura e chata", bradaram alguns sites especializados em cultura pop. "Star Wars não pode se render à caretice", esbravejaram outros. Vai entender. Ron Howard é um diretor que merece aplausos. De pé. Em suas mãos, Solo pode se tornar um dos filmes mais bacanas, redondinhos e divertidos da saga. Seu currículo engole, por exemplo, tudo que J.J. Abrams ou Gareth Edwards, responsáveis por O Despertar da Força e Rogue One, respectivamente, já criaram. Eclético, Howard já criou, com sucesso, comédias e dramas, biografias e fantasia, thrillers e documentários. Embora tenha algumas bombas no caminho, é um realizador extremamente competente e absolutamente apaixonado por cinema. Mais ainda: tem laços estreitos com a geração que acompanhou a criação de Star Wars e, a certa altura, seria responsável pela volta da saga aos cinemas. O destino tem um jeito peculiar de traçar as histórias.

Ron Howard ao volante em Loucuras de Verão, de George Lucas

Filho de uma atriz e um diretor, Ron Howard nasceu num set. Ainda criança começou a trabalhar como ator, engordando o elenco do lendário The Andy Griffith Show em 1960, onde ficou ao longo das oito temporadas do programa. Nos anos seguintes, deu as caras em dezenas de outras séries na TV ianque, como I Spy, MASH, Gunsmoke e The Waltons. A essa altura, Howard já havia feito o salto para o cinema (em The Music Man, de 1962), mas queria se livrar do estigma de "ator infantil". A chance veio em 1973, quando ele foi escolhido para ser o protagonista de Loucuras de Verão, segundo filme dirigido por George Lucas. O sucesso do filme no cinema abriu as portas para Howard encabeçar a série de TV Happy Days, onde ficou de 1974 a 1980. Antes mesmo de terminar sua participação na série, ele já dirigia curtas, saltando para trás das câmeras pela primeira vez com um longa em Grand Theft Auto, de 1977. Mas foi a partir de Corretores do Amor, de 1982, que dirigir se tornou trabalho em tempo integral.

Splash – Uma Sereia em Minha Vida, lançado dois anos depois, solidificou o nome de Ron Howard como diretor confiável, de estilo moderno e acelerado e em sintonia com seu público. Em Cocoon (1985) ele misturou com sucesso drama, comédia e ficção científica, e foi seu olhar para o fantástico que chamou a atenção justamente de George Lucas. Willow – Na Terra da Magia, era um projeto que Lucas há tempos tentava tirar da gaveta, e ele finalmente escolheu Howard para conduzir a trama sobre magos e guerreiros, tesouros e princesas, que em 1988 elevou Val Kilmer à condição de astro e arranhou as possibilidades do que a nova tecnologia de efeitos visuais digitais poderia fazer. A essa altura, Howard já se mostrava confortável em qualquer gênero, indo do sensível O Tiro Que Não Saiu Pela Culatra (1989) ao tenso Cortina de Fogo (1991), arriscando um romance épico (Um Sonho Distante, de 1992) e uma comédia urbana (O Jornal, de 1994). Filmes saborosos, certinhos, nada revolucionários.

Ron Howard directiong on the set of <i>Apollo 13</i>, the 1995 docudrama space adventure film.

Dirigindo Apollo 13, que foi indicado ao Oscar de melhor filme

A coisa ficou séria, porém, quando seu Apollo 13 – Do Desastre ao Triunfo (1995) foi indicado ao Oscar de melhor filme. De repente, o nome de Ron Howard passou a ser associado a um cinema mais "sério", mesmo que ele tenha seguido o drama com Tom Hanks com o thriller O Preço de um Resgate (com Mel Gibson) e com a farsa EdTV com Matthew McConaughey). A virada do milênio marcou o sucesso gigante de O Grinch, com Jim Carrey (maior bilheteria de 2000 nos Estados Unidos), e parecia que o diretor não conduzia sua carreira em busca de prêmios ou prestígio, e sim com filmes que realmente tocavam sua sensibilidade como artista. Ainda assim, o Oscar veio no ano seguinte com o drama Uma Mente Brilhante, com Russell Crowe. Daí ele seguiu uma carreira mais discreta, com o eventual blockbuster (O Código DaVinci e suas continuações) e dois filmes que são verdadeiras obras-primas modernas: o eletrizante Frost/Nixon (que merecia mil vezes o Oscar de melhor filme no lugar de Quem Quer Ser um Milionário?) e o emocionante Rush – No Limite da Emoção.

Curiosamente, quando George Lucas decidiu retomar Star Wars com A Ameaça Fantasma em 1999, o nome que ele queria para dirigir o começo da saga era justamente o de Ron Howard. Ele declinou a oferta (feita também a Steven Spielberg e a Joe Johnston) por acreditar que só Lucas podia mexer com sua própria criação. Assumir o comando de Solo, apesar das circunstâncias bizonhas, pode ser a chance para Ron Howard exercitar seu talento em um projeto que merece seu nome. Neste momento ele está conversando com elenco e equipe ara suavizar a transição, com as filmagens marcadas para recomeçar em 10 de julho. Por mais que o filme nas mãos de Phil Lord e Chris Miller pudesse ser memorável, é inegável que Star Wars pertence a um cinema clássico, menos irônico e mais tradicional. Uma espiada rápida na carreira de Ron Howard é prova de que o filme está em boas mãos. Careta? Seguro? Claro, por que não? Fãs são mesmo criaturas estranhas.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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