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Roberto Sadovski

Com Dunkirk, Christopher Nolan cria um espetáculo em grande escala e reinventa o filme de guerra

Roberto Sadovski

27/07/2017 07h02

Existir um filme como Dunkirk em meio à temporada de produtos cinematográficos, continuações, reboots e franquias (essa palavra persegue) é um verdadeiro milagre. É um drama original, sóbrio, baseado em fatos reais ocorridos em um conflito já tão esmiuçado que é surpreendente o quanto ele ainda rende boas histórias. Ainda mais empolgante é ver a resposta do público, que compareceu em massa à sua estreia nos Estados Unidos e promete repetir a performance pelo resto do mundo. É a prova da força da "marca" Christopher Nolan, um dos poucos diretores em atividade que surge como ponto principal do interesse da massa em seus filmes. Mas Dunkirk não surge preocupado em ocupar seu espaço com um rótulo. Muito menos para fincar o pé como defensor do cinema original ou como sucesso de bilheteria. A narrativa sobre a retirada de tropas britânicas encurraladas numa praia francesa durante a Segunda Guerra Mundial é uma história tensa, de impacto emocional profundo e precisão narrativa apurada. É uma experiência imersiva que mostra como a tecnologia para fazer cinema – Imax em particular – pode ser usada não só para o espetáculo, mas também como fio condutor da plateia pela história. É também um dos melhores filmes da carreira do diretor, e um dos pontos altos de 2017 no cinema.

A verdade é que Christopher Nolan nunca entrou em cena com uma visão tão clara da história que queria contar. Dunkirk é um recorte, um momento pincelado em meio ao caos, fragmentado em diferentes pontos de vista e desenvolvido num crescendo de tensão e horror. Basicamente, o que deve ocorrer em meio a uma guerra de verdade. Fica logo claro que seu filme não traz seu foco em um personagem específico como o recente Até o Último Homem, ficando em algum ponto entre a aventura linear de O Resgate do Soldado Ryan e o exercício contemplativo de Além da Linha Vermelha. Para realizar sua visão, o diretor não se furtou em desconstruir o conceito de "filme de guerra", em que narrativas paralelas se chocam como ondas, com seus efeitos reverberando de maneira distinta em cada história. Nolan não intercala cenas explosivas com momentos intimistas, não equilibra combate com exposição, não alivia a pirotecnia com o drama pessoal. É uma situação extrema, em que seres humanos completos são capazes de ato abomináveis em nome da sobrevivência. O foco é inteiramente de um lado do conflito, o inimigo é invisível, não há heróis. Só há guerra.

O estreante Fionn Whitehead em meio ao caos da guerra

Entre maio e junho de 1940, a Operação Dínamo foi um procedimento militar para retirar soldados britânicos isolados nas praias de Dunkirk, França. Batalhões inteiros foram isolados do cenário de guerra depois da Batalha da França, e tropas aliadas (não só ingleses, mas também franceses e belgas) foram cercados pelas forças alemãs, um alvo fácil na faixa de areia para aviões nazistas despejarem bombas, enquanto na cidade o exército inimigo empurrava soldados desgarrados. Era uma situação de desespero mas, ao fim de oito dias, quase 400 mil soldados foram retirados em uma ação em conjunto não só da marinha britânica, mas também de embarcações civis que cruzaram o Canal da Mancha para ajudar no esforço de guerra. Em 4 de junho de 1940, ao fim da evacuação, o primeiro-ministro Winston Churchill declamou um dos discursos mais famosos da época, exaltando a disposição do povo britânico em lutar pelo que era certa e, mesmo com o desastre militar que resultou em Dunkirk, nunca render-se.

O filme de Nolan começa já com as tropas isoladas na areia, com centenas de homens enfileirados esperando a vez de entrar nos destróiers britânicos que tentavam se aproximar do porto ou do molhe na praia – um quebra-mar em que os navios de guerra podiam recolher os sobreviventes. A ação divide-se em três pontos de vista: de um soldado na praia (o estreante Fionn Whitehead); do dono de uma embarcação civil, papel de Mark Rylance, que parte para Dunkirk acompanhado de seu filho e de outro garoto local; e de um piloto britânico que tenta dar apoio às tropas em terra (Tom Hardy). Nolan embaralha a linha temporal, fazendo com que a ação salte entre diferentes personagens e momentos cronológicos, entregando aos poucos a tapeçaria completa da história que está contando. É uma decisão criativa ousada, mas também brilhante, que de imediato destaca o filme como um trabalho de narrativa inventiva e complexidade temática que o diretor conduz com precisão.

Soldados em Dunkirk esperam uma fuga ou a morte nas areias da praia

Esse cuidado faz com que Dunkirk surja como o trabalho mais complexo já encarado por Christopher Nolan, e também o mais enxuto. Não existe aqui espaço para gordura, para elementos que não sirvam para impulsionar a história. Para criar uma arquitetura tão elaborada, o cineasta contou com uma equipe no topo de suas habilidades. O fotógrafo Hoyte Van Hoytema cria uma assinatura visual clara quando necessário, sufocante quando preciso. As tomadas aéreas de Dunkirk estão entre as imagens mais assustadoras do cinema moderno, tanto em seu objetivo de retratar o terror das tropas enclausuradas na areia quanto o escopo de uma terra esvaziada e devastada pela guerra. Este ano também será difícil ver um filme de montagem tão brilhante. O editor Lee Smith dá sentido à narrativa intrincada escolhida por Nolan e intercala momentos de tensão sem dar respiro à plateia, dando novo sentido à imersão no cinema. E a cereja no topo do bolo é a assinatura musical de Hans Zimmer, provavelmente no melhor trabalho de sua carreira, uma trilha fora dos padrões que contribui para o sentimento claustrofóbico do filme – o que não é pouco, levando em conta que a ação praticamente se passa numa praia.

Mas é o elenco que surge como a ferramenta mais eficiente no arsenal do diretor. Não existe um único ator fora do lugar, com algum tique ou exagero. Todos imprimem uma verdade incômoda a seus personagens que, longe das figuras heróicas ou inspiradoras que os filmes de guerra costumam desenhar, são posicionados como seres humanos cheios de falhas, medos e esperanças, sabendo que a guerra pode trazer à tona o melhor e o pior de cada um. É o silêncio resignado de Whitehead, a determinação de Rylance, o senso de dever de Hardy. Todos entregam performances absolutamente geniais, de veteranos como Kenneth Branagh e Cillian Murphy a novatos como Barry Keoghan e Harry Styler – o galã teen pincelado do grupo One Direction é, acredite, um ator de primeira! Quase todos precisam imprimir uma gama absurda de emoções usando diálogos parcos: Nolan usa o silêncio quase como um personagem, e ele pode ser um aliado poderoso.

Pelo ar e pelo mar, a esperança de um resgate

No momento em que o cinema moderno parece dominado quase que totalmente por propriedades intelectuais, é bom enxergar um cineasta como Christopher Nolan no horizonte. Longe de ser um criador indie ou de guerrilha, ele é hoje um dos poucos diretores capazes de usar os recursos dos grandes estúdios para fazer filmes em grande escala e de acordo com sua visão. Nolan obviamente não levanta nenhuma bandeira pela originalidade absoluta – sua liberdade foi conquistada com as centenas de milhões de dólares faturados pela trilogia O Cavaleiro das Trevas –, mas usa seu capital com ousadia e originalidade. Sua capacidade de nos transportar no tempo, de volta a um de nossos momentos decisivos como espécie, podia resultar numa experiência auto indulgente e egocêntrica. Dunkirk não tem nada disso. É uma meditação sobre sobrevivência, revigorante e envolvente, é a força do cinema como obra de arte em intensidade máxima. É um filme de ambição gigante, equiparada à sua humildade ante o momento histórico que retrata. É uma vitória completa: para Nolan como cineasta e para nós, público, que ganhamos uma experiência poderosa e emocionante. Melhor ele abrir espaço na estante para uma certa estatueta dourada…

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.