Blog do Sadovski

Em ritmo de festa: Nicolas Cage, astro de filmes de ação, completa 20 anos

Roberto Sadovski

13/09/2017 04h36

Então, Nicolas Cage vai fazer outro filme de ação. Deu no Hollywood Reporter. O ator começa a rodar Primal, em Porto Rico, no fim de outubro. Seu personagem é Frank Walsh, um caçador profissional para zoológicos (!), à bordo de um cargueiro Grego cheio de animais exóticos capturados na Amazônia, inclusive uma onça branca. O problema é que o navio carrega um assassino político sendo extraditado para os Estados Unidos. Ele se solta, abre as jaulas com a bicharada e cabe a Walsh – ou melhor, a Cage – salvar a tripulação das feras… e também do assassino à bordo. A direção é do dublê veterano Nick Powell, e se eu não tivesse lido a notícia, divulgada durante o Festival de Toronto, acreditaria ser mais uma zoeira em cima de Nicolas Cage. Mas é real. Red Squad e Zander, outros dois filmes de ação anunciados recentemente com Cage, genéricos e bizarros, também são reais. E também serão rodados em Porto Rico.

Nicolas Cage, na verdade, faz mais filmes por ano do que eu consigo contar. Reza a lenda que ele se afundou em dívidas ao longo da carreira, torrando uma fortuna de 15o milhões de dólares. Reza a mesma lenda que o resultado foi uma dívida de 13 milhões de impostos ao governo americano. Assim, ele deixou Hollywood de lado (ou foi o contrário?) e, para ficar de boa com o Leão (ou Lion…), entrou no mundo maravilhoso dos fundos de investimento asiáticos e europeus, que bancam pencas de filmes classe Z. A maioria dessas pérolas jamais chega aos cinemas, mas se atropelam entre lançamentos em streaming e home entertainment ao redor do mundo. É como o já histórico 7 x 1 da Alemanha em cima do Brasil na Copa do Mundo que perdemos em casa: você parou para fazer pipoca ou ir ao banheiro e BUM!, tem um novo filme com Nicolas Cage no forno. O que me espanta mesmo nem é o volume, mas o fato de a maior parte dos títulos ser filmes de ação.  “Nicolas Cage, astro de ação” nunca fez o menor sentido. Mas tentamos decifrar esse mistério há exatas duas décadas.

Toda a glória de Nicolas Cage em A Outra Face

Para encontrar a resposta é bom a gente voltar ao começo dos anos 80, quando Nicolas Coppola (ainda usando seu nome de batismo) fez sua estreia em uma ponta na comédia Picardias Estudantis (é um filmaço, vai atrás!). Já como Nicolas Cage, ele fez fama com performances excêntricas e levemente exageradas em filmes esquisitos como Arizona Nunca Mais, O Beijo do Vampiro, Coração Selvagem e O Beijo da Morte. Essa versão do ator chegou ao fim quando ele ganhou o Oscar por seu trabalho arrebatador em Despedida em Las Vegas, de 1995. Cage estava no topo do mundo, com o respeito de seus pares e os melhores cineastas fazendo fila para trabalhar com ele. Mas ele devia estar de olho nos filmes em cartaz no cinema do lado, e inexplicavelmente decidiu pular a cerca para fazer filmes de ação. A Rocha, de Michael Bay, o colocou como “escada” para Sean Connery, e seu jeitão bizarro de alguma forma funcionou com a atmosfera do gênero. A brincadeira estava só começando.

“Coloque o coelho de volta na caixa.” Se você abriu um sorriso sincero nesse exato segundo, então foi um dos seres humanos tocados com o espetáculo que foi Con Air – A Rota da Fuga, que Simon West cometeu em 1997. Desta vez, o astro (e agora eu vou usar “astro” com frequência) não estava em segundo lugar: de regata branca e músculos à mostra, além da cabeleira estranha e o sotaque das profundezas, Cage encarou ser protagonista de um filme de acão mega tradicional, um “Duro de Matar em um avião cargueiro de transporte de criminosos de alta periculosidade” absurdo, exagerado, cheio de bordões e cenas que desafiam as leis da física. Ou seja, maravilhoso! Mas ele queria mais, e singelas três semanas depois da estreia de Con Air, Cage estava de volta ao gênero (e aos cinemas) em A Outra Face, de John Woo, ao lado de John Travolta. O intervalo entre os “Cages” foi curto, mas o público não quis nem saber, fazendo de ambos os filmes sucessos que faturaram mais de 100 milhões de dólares cada – acredite, em 1997 era número para aplaudir de pé.

Perigo em Bangkok foi o começo do fim para a carreira de Cage

O sucesso nos filmes de ação fez de Cage um astro esquisito: bancável, do ponto de vista financeiro, mas ainda com a indústria sem saber ao certo o que fazer com ele. Ele tentou administrar a fama pós-pancadaria com um drama romântico (Cidade dos Anjos, bleargh….), um thriller político (o bacana Olhos de Serpente), um suspense bobão (8 Milímetros) e uma parceria em ácido com Martin Scorsese (Vivendo no Limite). Mas a virada do século fez o bichinho da ação coçar de novo e ele embarcou em 60 Segundos, uma idiotice sobre uma gangue de ladrões de carros velozes e furiosos (!) que não funciona nem com muita boa vontade. Vamos ser honestos, Con Air e A Outra Face foram acidentes felizes, mas Cage não nasceu para fazer filmes de ação. Ele não tem o porte físico, ele passa do ponto da canastrice, ele erra o tom para “vender” a coisa. Nos anos seguintes, o ator encarou projetos incríveis (Adaptação, Os Vigaristas, O Senhor das Armas), fez uma bendita adaptação de super-herói dos quadrinhos (Motoqueiro Fantasma) e até ancorou uma “franquia” de sucesso (os dois A Lenda do Tesouro Perdido). Mas, vai saber por que cargas d’água, sempre voltava a fazer filmes de ação. E Hollywood foi cansando.

Perigo em Bangkok, de 2008, foi um ponto de ruptura. A produção já era tosca, sem nenhum verniz que um campeão de bilheteria e vencedor do Oscar merecia. Com as dívidas explodindo, o “não” sumiu do vocabulário do ator, e ele foi encarando filmes mais e mais bagaceiros. A última vez que o cinemão  bateu em sua porta, com o equivocado O Aprendiz de Feiticeiro, de 2010, o público já não tinha mais interesse em Nicolas Cage. Daí foi abraçar o capeta em pérolas como O Pacto, Fúria Sobre Rodas, Caça às Bruxas, O Resgate, Vingança ao Anoitecer, O Imperador, Fúria e Cães Selvagens. Opa, esse último, com Willem Dafoe, chegou aos cinemas! Nada digno de nota. Cage hoje é gosto adquirido, às vezes largando um filme bacana (como o drama Joe, de 2013), às vezes usando sua personalidade exagerada a favor do filme (ele domina Kick-Ass!), às vezes trabalhando no filme dos brothers (Oliver Stone o colocou numa ponta em Snowden – Herói ou Traidor). Mas o que temos mesmo é Nicolas Cage, astro de filmes de ação que ninguém vai assistir. E tudo começou duas décadas atrás quando, mesmo com um Oscar embaixo do braço, ele achou que estava na hora de colocar o coelho de volta na caixa.

Cage sente a brisa da liberdade em Con Air – A Rota da Fuga

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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