Blog do Sadovski

Maior visionário moderno da Marvel, Bendis pula a cerca e se junta à DC

Roberto Sadovski

07/11/2017 22h22

“Ok, e qual deles é o Clark?” Hoje o roteirista Brian Michael Bendis passou o dia no twitter provocando os fãs de quadrinhos. Foi o dia, afinal, que ele pulou a cerca. Depois de dezessete anos escrevendo para a Marvel, Bendis assinou um contrato de exclusividade com a DC a perder de vista e que, pelo jeito, não se resume a quadrinhos. Deixa eu consertar o que escrevi agorinha: ele não só “escreveu para a Marvel”, e sim ajudou a redefinir a cara da editora para o novo século. Bendis foi um dos arquitetos da linha Ultimate Marvel, que em 2000 ajudou a recriar heróis como o Homem-Aranha e os Vingadores (batizados nessa encarnação como Supremos) em uma estratégia fundamental para inserir a editora em novas mídias..

E não ficou por aí. Com Bendis, a editora abriu as portas para a diversidade, com a chegada do novo Homem-Aranha, Miles Morales, e a substituta do Homem de Ferro, a jovem de 15 anos, afro-americana e superdotada Riri Williams. Foi também de sua imaginação que brotou a série Alias, apresentando a investigadora Jessica Jones, que batizou a série homônima no Netflix. A mistura espetacular e explosiva de diálogos ligeiros, revelações bombásticas e reviravoltas inusitadas marcaram as quase duas décadas do escritor na Casa de Ideias. Não é à toa que a concorrência, atravessando uma de suas melhores fases recentes com a linha DC Renascimento, convocou Bendis para coroar a boa fase com uma mexida violenta nas ideias. E mudança sempre é positivo!

Riri Williams e Miles Morales, criações de Bendis para a Marvel

Depois de publicar uma série de histórias de forma independente, como Torso, Fire e Goldfish, Brian Michael Bendis entrou para a Marvel em 2000, justamente assumindo o novíssimo título Ultimate Spider-Man ao lado do artista Mark Bagley. Com habilidade para entender que o Cabeça de Teia era parte aventuras de super-herói, parte drama adolescente, Bendis entregou uma versão moderna e original de Peter Parker, brincando com seu universo em uma linha de quadrinhos que, além de não interferir com o gibi regular do herói, teve espaço para reinterpretar heróis e vilões de maneira hermética, sem a interferência de décadas de histórias. Foi um sopro de inventividade que a editora precisava para respirar no começo do século 21, pouco antes de X-Men, o filme, levar a Marvel como marca para os cinemas.

Mas Bendis queria mais. Ao assumir o título do Demolidor, ao lado do desenhista Alex Maleev, ele conseguiu uma série narrativa de crime urbano tão sensacional que chegou a rivalizar com as já lendárias edições que reinventaram o herói nos anos 80 pelas mãos de Frank Miller. Como se não bastasse, o escritor ainda abraçou o desafio de transformar Vingadores no carro-chefe da editora, colocando Homem-Aranha e Wolverine na equipe depois de praticamente destruir a todos na série “A Queda”. Em quase duas décadas, a Marvel assumiu o estilo de Bendis e seu estilo narrativo permeou praticamente todos os títulos da casa, credenciando-o a palpitar no nascente Universo Cinematográfico – a cena extra no primeiro Homem de Ferro, que apresenta Samuel L. Jackson como Nick Fury, foi escrita por ele. Hoje ele é responsável por quatro títulos: Invencível Homem de Ferro, Homem-Aranha, Jessica Jones e Defensores.

Jessica Jones foi das páginas de Alias para a telinha do Netflix

Sua partida para a DC é um choque. Não só porque Bendis parecia absolutamente à vontade com os personagens da Marvel, mas também ao se posicionar muitas vezes como a “cara” da editora. A mudança tem o mesmo impacto da saída de Jack Kirby para a concorrência nos anos 70, ou do adeus de John Byrne, que trocou nos anos 80 deixou o sucesso de X-Men e Quarteto Fantástico para trás, reinventando o Superman do outro lado da rua. Joe Quesada, presidente da Marvel, apressou-se em dar os parabéns ao colega não só pela contribuição para a editora, mas também pelos desafios na casa nova. Quesada também assegurou aos fãs que a Marvel está sólida com a programação para o ano que vem. Mas a verdade é que, sem Bendis para ajudar a moldar o caminho, o “renascimento” dos heróis da editora, o evento chamado Legacy, perde um de seus arquitetos. Dizem que concorrência é saudável para os negócios, certo?

Para Bendis, por sinal, deve ter sido um negócio e tanto. Uma arejada assim só ocorre com cifras polpudas envolvidas. Mas não é um mau investimento: o roteirista irrita o tipo de fã que tem horror a mudanças, que quer ver seus heróis com a mesma cara, lutando as mesmas batalhas, por décadas a fio – e só por isso ele já merece aplausos. Ele não acertou sempre, mas acertou muito. Sem ele, a Marvel perde um pouco de sua vantagem, da ousadia e o sentimento de saltar sem rede de proteção. Já a DC ganha um roteirista capaz de chacoalhar linhas narrativas e de reinventar personagens sem nunca perder de vista o que faz deles grandes. Depois do fiasco criativo chamado Novos 52, a editora reencontrou o rumo com Renascimento – que, na balança, acertou muito mais do que errou. Ao trazer Brian Bendis para a equipe, é certo que a DC está pronta para deixar definitivamente sua zona de conforto. Como fã de boas histórias, estou curioso para saber o que ele vai fazer com ícones pop como Superman, Batman e Mulher-Maravilha. Para a Marvel, fica a certeza que o jogo agora é ainda mais duro. Nessa briga, espero que sobrem boas histórias. No fim, é tudo que importa.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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