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Sem nenhuma emoção, Liga da Justiça só agrada como espetáculo ligeiro

Roberto Sadovski

15/11/2017 05h40

Liga da Justiça, aventura que reúne os heróis mais lendários do planeta, é o reflexo do atual estado da DC no cinema. É confuso, incoerente, indeciso e parece improvisar à medida que avança. Como esperado, o filme dirigido por Zack Snyder (e completado por Joss Whedon), é uma evolução imensurável do saco de gatos que foi Batman vs Superman. Mas não arranha a armadura de Mulher-Maravilha, em que a diretora Patty Jenkins teve o cuidado de entregar uma protagonista complexa sem abrir mão do espetáculo. O pecado em Liga é um só: falta emoção. É quase inacreditável que uma produção com personagens desse calibre, trazendo momentos teoricamente épicos, não empolgue. Não há em Liga da Justiça um único momento que sugira a conexão emocional que se espera de uma aventura desse porte, nada que caminhe num crescendo até explodir em catarse coletiva. É um filme muito bonito, como já é de se esperar da assinatura de Snyder. Ganha em humor e diálogos espertos, bem à risca do cinema de Whedon. No frigir dos ovos, vá lá, é entretenimento ok para um público pouco exigente. A soma dos elementos, porém, é um Frankenstein que, se agrada como cinema-videogame, termina como mais uma peça torta no tabuleiro da DC no cinema.

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É um equívoco anunciado. Liga da Justiça chega com a missão de consertar o estrago causado por Batman vs Superman. Nem que para isso tenha de ignorar boa parte da narrativa estabelecida pelo filme de 2015. A personalidade violenta e quase psicótica do Batman? Adeus. Um Superman praticamente com vergonha de ser super? Bye bye. A Mulher-Maravilha escondida da humanidade mesmo com o planeta se estapeando em conflitos? Nem a sombra. O que surge em seu lugar é uma equipe formada por super-heróis que servem ao propósito do novo filme. Como expansão de um universo já estabelecido, a rota criativa é desastrosa. Para essa história em particular, porém, são mudanças bem-vindas. Snyder pode até exigir algum conhecimento prévio – a origem de alguns heróis, sugerida em BvS, não merece aqui nem um flashback. Mas o ideal é deixar tudo que veio antes num cantinho da mente e saborear a trama do novo filme como se tudo fosse apresentado pela primeira vez. O próprio filme faz isso, ignorando todo o sonho do Batman num futuro distópico dominado por um Superman furioso, bem como a mensagem profética de um Flash viajando no tempo.

Batman: líder da equipe por ter o bolso mais fundo

A trama de Liga da Justiça começa com um mundo ainda em luto com a morte do Superman, que tombou ao derrotar o monstro Apocalypse ao fim de Batman vs. Superman. Sem o Homem de Aço, o planeta entra numa espiral de violência e desesperança, como se a inspiração causada por sua presença fosse revertida em caos e medo. Esse estado atrai invasores alienígenas que se alimentam desse medo – os parademônios –, liderados pelo ameaçador Lobo da Estepe (Ciarán Hinds, escondido sob uma tonelada do pior CGI da última década). Seu objetivo é localizar as três Caixas Maternas, fontes de poder de seu mundo de origem, deixadas na Terra milênios atrás sob os cuidados das três raças que a defendiam: as amazonas, os atlantes e os homens. Com os artefatos, o vilão poderá transformar o planeta na imagem do inferno de onde ele veio, o planeta Apokolips, reino do sombrio Darkseid.

Quem primeiro percebe a invasão iminente é o Batman (Ben Affleck), que caça um parademônio que surge em Gotham e percebe que a ameaça é maior do que ele pode enfrentar. Ao mesmo tempo, o Lobo da Estepe invade Themyscira em busca da primeira caixa, fazendo com que a rainha Hipólita envie uma mensagem para sua filha, Diana (Gal Gadot), há um século exilada no mundo do patriarcado. Batman e a Mulher-Maravilha começam a reunir a equipe que se tornará a linha de defesa da Terra, recrutando Arthur Curry, o Aquaman (Jason Momoa); Barry Allen, o Flash (Ezra Miller); e Victor Stone (Ray Fisher) o Ciborgue, ex-astro do futebol americano que teve seu corpo destruído em um acidente, posteriormente reconstruído com partes cibernéticas graças à tecnologia da Caixa Materna. A interação da equipe surge orgânica e, em vários momentos, humanizada com um bom humor bem vindo, reflexo do dedo de Josh Whedon no roteiro – que dirige todas as cenas "tranquilas" do filme. Quando Liga da Justiça entra no modo "filme de ação", seus problemas ficam ainda mais evidentes. O estilo bombástico de Zack Snyder, sendo totalmente forma em detrimento de conteúdo, ignora qualquer desenvolvimento de personagem injetado por Whedon.

AVISO DE SPOILERS: SE VOCÊ NÃO QUER SABER DETALHES DA TRAMA, NÃO CONTINUE A LEITURA

Jason Momoa como Aquaman: seu filme-solo chega ano que vem

A pior herança de Batman vs Superman, porém, é contornar a morte do Homem de Aço. A solução encontrada pelos realizadores é canhestra e até um pouco perturbadora: ao perceber que a equipe não possui o poder para enfrentar o Lobo da Estepe e sua horda, Batman toma a decisão de trazer o herói de volta à vida usando a força da Caixa Materna. Mas faltou uma pseudo ciência básica para dar algum lastro ao retorno do herói. Pior! O filme aperta o pause em sua trama de invasão alienígena para se concentrar na recuperação de Clark Kent, isolado num cenário bucólico com Lois Lane. É um recorte anticlimático que prejudica a narrativa e atrapalha a batalha final. Pior ainda! A cena que deveria ser o maior triunfo de Liga da Justiça, o retorno épico do Superman, é executada sem nenhum esmero estético, sem nenhuma emoção. Lembrei de Christopher Reeve, um helicóptero em queda livre, Richard Donner em seu auge e a trilha iluminada de John Williams: Henry Cavill nunca teve a menor chance.

Ao menos Liga da Justiça é curtinho (mais ou menos duas horas, que só é maior que o primeiro X-Men) e termina com uma história amarradinha. Embora a cena pós-créditos indique uma nova ameaça (muito mais empolgante, por sinal), o filme não deixa pontas a ser resolvidas em uma continuação. Quando a aventura chega ao fim, o Universo Estendido DC ganha a chance de seguir a) com filmes conectados ou b) com histórias mais herméticas focadas em cada protagonista. É a única forma de fugir da fórmula da Marvel, em que todos as aventuras convergem para o clímax de Vingadores: Guerra Infinita. Nem Aquaman, que estréia ano que vem, nem a continuação de Mulher-Maravilha, nem Shazam! – únicos filmes ativamente em produção no campo da DC – precisam necessariamente "conversar" entre si. Talvez seja esse o plano dos engravatados do estúdio, que surge como o melhor legado de Liga da Justiça: apontar um caminho em que um universo compartilhado não seja justamente o melhor dos planos. A essa altura fica claro que os maiores super-heróis da Terra funcionam melhor sozinhos. Nem precisava amargar cinco filmes para chegar a essa conclusão: bastava perguntar a Christopher Nolan.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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