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Por que Logan foi indicado ao Oscar e Mulher-Maravilha não

Roberto Sadovski

23/01/2018 20h01

Era questão de tempo. Com os filmes de super-heróis dominando as bilheterias – e, por tabela – a indústria do cinema – há mais de uma década, cedo ou tarde joio seria separado do trigo e a Academia enxergaria o , digamos, "gênero" com a seriedade que ele merece. Logan, o último filme com Hugh Jackman no papel do mutante da Marvel, que chegou aos cinemas no começo do ano passado e mobilizou a crítica e recebeu aplausos do público, foi indicado ao Oscar de melhor roteiro adaptado, uma das categorias mais nobres da premiação. Alegria para uns, tristeza para outros: Mulher-Maravilha, aventura da heroína amazona da DC, alimentava a esperança de fãs que enxergavam uma indicação à estatueta de melhor filme e melhor direção, para Patty Jenkins. Não foi lembrado em nenhuma categoria. O que, convenhamos, não foi nenhuma surpresa.

Vale uma espiada mais aguda no Oscar versão 2018 – ou seja, a primeira festa depois que Hollywood teve suas estruturas de poder abaladas com denúncias de casos de assédio e abuso sexual e que viu a balança pender para a diversidade. Em vez de concentrar as indicações no status quo, o panorama surge multifacetado. O filme com maior número de indicações é A Forma da Água, de Guillermo Del Toro, que concorre a treze estatuetas. Ver uma fantasia comandada por um cineasta com paixão pelos monstros no cinema, responsável por aventuras de heróis de quadrinhos (ele fez Blade II e dois Hellboy) e por fábulas que celebram o grotesco e o bizarro (A Espinha do Diabo, O Labirinto do Fauno), legitimada de forma tão contundente é uma vitória para a diversidade e para o cinema. E é a ponta do iceberg, já que a festa ainda achou espaço para celebrar o terror sócio-racial Corra! (indicado a filme e direção, entre outros), o poder da mulher (Greta Gerwig, responsável por Lady Bird, merecidamente está no páreo de direção) e a diversidade sexual (Me Chame Pelo Seu Nome, Uma Mulher Fantástica, o documentário Strong Island).

Mulher-Maravilha e o Oscar: ainda não foi dessa vez

Se a Academia quisesse apenas "mandar um recado", em resposta não só aos eventos recentes mas também às eternas acusações de que a festa seria hermética e reservada aos "homens no poder", Mulher-Maravilha certamente seria lembrado. Mas sua exclusão demonstra, sim, sobriedade. A celebração do Oscar não é festa do caqui para marcar pontos com um grupo específico: é, afinal, uma demonstração do bom cinema. Mesmo com os micos históricos ao longo de mais de nove décadas, a estatueta dourada ainda é um selo de excelência, e não de inclusão, que seria consequência, não objetivo. Como eu apontei na época de seu lançamento, Mulher-Maravilha é uma aventura inspirada e anos-luz melhor que seus colegas do universo estendido DC. Mas é também um filme com problemas graves, em especial um terceiro ato confuso e mal dirigido, que só não esfarela por causa do carisma gigante de Gal Gadot. Esperar que o filme fosse "o primeiro filme de super-herós a ser indicado ao Oscar de melhor filme", como muitos sites ao redor do mundo estamparam em manchetes equivocadas, não passava mesmo de otimismo exagerado por parte de alguns fãs.

Logan, por outro lado, é um animal bem diferente. Para começo de conversa, não é um "filme de super-herói". Se for para encapsular a obra de James Mangold em um gênero, arrisco mais western do que ação. Bebendo de várias fontes das aventuras do herói Wolverine nos quadrinhos, o roteiro de Mangold, assinado também por Scott Frank e Michael Green, é um estudo de personagem poderoso e delicado, um filme de várias camadas e leituras, que traça uma jornada em terreno tão familiar e, ao mesmo tempo, tão surpreendente. Justamente ao se distanciar do estereótipo do herói fantasiado, Logan termina por entregar seu retrato mais humanizado, mesmo que em nenhum momento vire as costas para suas origens. Ao abordar temas como o preço da violência, o pavor de ser rejeitado e a busca pela identidade, Mangold e seus parceiros criaram uma obra única, capaz de redefinir e legitimar seu "gênero" de formas que Mulher-Maravilha, só para manter a comparação, sequer arranhou.

Heath Ledger e seu Coringa oscarizado por O Cavaleiro das Trevas

Sendo assim, a indicação de Logan ao Oscar de melhor roteiro adaptado tem de ser motivo de celebração para todo fã de histórias em quadrinhos de super-heróis. É uma indicação que a indústria já está observando filmes que adaptam personagens fantásticos criados em gibis com outros olhos, com mais respeito e seriedade. Outras produções baseadas em gibis já trilharam esse caminho, como Ghost World e Marcas da Violência. E não é a primeira vez que um super-herói de papel tem a chance de ser laureado com uma estatueta dourada – Heath Ledger ganhou como ator coadjuvante por seu Coringa inesquecível em Batman – O Cavaleiro das Trevas. O que vemos hoje é mais um passo, igualmente importante, para que o cinema de aventura e fantasia tenha a mesma estatura artística ante seus pares que filmes mais, digamos, "sérios". Mulher-Maravilha marcou uma posição histórica para a igualdade de gênero em um mundo predominantemente masculino, faturou 820 milhões de dólares e ajudou a derrubar barreiras erguidas pela estupidez. Mas Logan é, sem a menor dúvida, um filme melhor.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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