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Roberto Sadovski

Divertido e ligeiro, Lady Bird peca ao acreditar demais em seu próprio hype

Roberto Sadovski

19/02/2018 15h58

Lady Bird é um filme fofo. Contido, engraçado, discreto, é um drama cômico mezzo autobiográfico, dirigido por leveza pela atriz Greta Gerwig. Dá para sentir em cada fotograma o oceano de paixão, intensidade e sensibilidade com a qual a diretora conduz a trama. É uma história de amadurecimento do ponto de vista de uma adolescente no começo do século 21. É uma trama charmosa, um recorte discreto de um momento no tempo. É um instantâneo daquele pedaço na vida de todo mundo em que cada problema parecia imenso e insolúvel, cada decisão tinha o peso da eternidade, cada "primeira vez" parecia para sempre. Gerwig captura cada pedacinho dessa história com habilidade, e costura numa tapeçaria divertida e ligeira.

Ainda assim, Lady Bird parece ser muito maior do que realmente é. É um pastel de vento, em que as ótimas intenções de sua realizadora sucumbem ante sua proposta como obra cinematográfica. Um filme, afinal, não é a dramatização de um diário juvenil: sua confecção precisa obedecer uma visão, executada com técnica, com narrativa, com personagens bem desenvolvidos. Cinema não é, no frigir dos ovos, a vida real. É perfeitamente compreensível que uma atriz de talento como Greta Gerwig arrisque seus passos atrás das câmeras, e é bem vindo um ponto de vista feminino na condução de uma história tão pessoal – e que, sem a menor dúvida, vai ecoar forte em muitas pessoas que espelham ali sua própria trajetória. Mas falta a Lady Bird estofo, falta precisão para construir arcos dramáticos melhor definidos, faltam conflitos mais concretos para deixar a jornada de sua protagonista mais rica e com mais foco.

Saoirse Ronan e Laurie Metcalf são filha e mãe em Lady Bird

Mas "falta de foco", como condição básica para ser adolescente, talvez seja toda a premissa da história. Christine "Lady Bird" McPherson (Saoirse Ronan) está terminando o colégio e enxerga uma faculdade bem longe da pequena Sacramento, na Califórnia, mirando a "vida cultural" em Nova York. Ela quer "sair dali", embora não saiba exatamente como ou por que. Esse desejo é motivo de atrito com sua mãe, Marion (Laurie Metcalf, sublime), mais preocupada em pagar as contas do que em prestar atenção nos delírios da filha. O filme passa então por uma lista básica de dramédias sobre amadurecimento: a primeira frustração amorosa; a vontade de ser mais popular; o distanciamento das melhores amigas, que representam uma infância cada vez mais incômoda; o baile de formatura; o primeiro sexo. A opção de Gerwig em não se aprofundar em nenhum dos conflitos, optando por um registro mais "orgânico", faz parte do charme de Lady Bird. Mas também deixa o filme narrativamente deficiente e cheia de lacunas.

O que a diretora tem a seu favor é um elenco bonito e simpático, absurdamente talentoso e disposto a abraçar sua visão. Saoirse Ronan traz ecos de Juno (Ellen Page) e Anna Coleman (Lindsay Lohan em Sexta-Feira Muito Louca) em sua personagem, mas correu o risco de terminar como dezenas de outras adolescentes espertas que o cinema já apresentou. Ela cresce, entretanto, quando divide a cena com Laurie Metcalf. O que era uma ideia dramática explode em verdade e identificação, já que as duas, com a direção de Gerwig, constroem uma dinâmica de mãe e filha equilibrada entre afeto e conflito, como acontece quando personalidades fortes entram em choque. É de Metcalf todos os grandes momentos do filme, e é a seu lado que Saoirse (imagine Sean Connery falando "Xuxa") encontra espaço para mostrar o quanto ela é boa atriz. O elenco de apoio acima da média ajuda a delinear com mais tempero personagens que não vão muito além do arquétipo (a melhor amiga feinha, a garota popular meio vagaba, o amigo gay, o bad boy que esconde sua futilidade com uma camada de erudição falsa).

Greta Gerwig comanda uma história que é quase a sua

O maior triunfo de Greta Gerwig com seu Lady Bird é, por fim, capturar a beleza de um momento. Como peça narrativa o filme ensaia um mergulho no abismo entre classes e suas regras, no choque geracional representado por adultos que se mostram perdidos num novo milênio que parece não ter mais espaço para eles. Mas fica só na sugestão. O que a diretora quer, e consegue, é colocar uma pequena lição de vida em cena, talvez da sua própria, que saiu de Sacramento e triunfou como artista: Frances Ha, em que ela foi dirigida por seu namorado Noah Baumbach em 2012, parece a sequencia conceitual da história contada em Lady Bird, e vale a sessão dupla. O que não vale é enxergar no filme a musculatura para colocar Gerwig como candidata ao Oscar de melhor direção. Isso, sim, é acreditar na própria publicidade.

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.