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Blog do Sadovski

Animais Fantásticos, Coringa: será que todo spin off merece sair do papel?

Roberto Sadovski

13/03/2018 19h50

Esses dias eu me deparei com uma imagem saída de um pesadelo: Tommy Wiseau, o excêntrico “artista'' por trás de The Room, um dos piores filmes da história, paramentado como o Coringa, como se estivesse testando para o papel. Era piada, claro, uma brincadeira do site Nerdist. Mas também refletia um desejo bem real de Wiseau e o caminhar de um projeto bizarro, que é o filme-solo do principal inimigo do Batman, mas sem o Homem-Morcego. Na mesma pegada, vi hoje o trailer de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald, que continua as aventuras do bruxo Newt Scamander no universo de Harry Potter. Sem Harry Potter, claro….. Percebeu o padrão?

O hábito de expandir filmes e/ou séries famosas é recorrente na cultura pop há décadas. Às vezes o resultado acerta no alvo, como Rogue One (derivado, claro, de Star Wars) e Better Call Saul (série que, em certos momentos, supera sua antecessora, Breaking Bad). Quando o caldo desanda, porém, somos brindados com “pérolas'' do naipe de Annabelle (a boneca assombrada de Invocação do Mal) ou… errr… Joey, filho bastardo e sem graça de Friends. Do ponto de vista corporativo, expandir um conceito de sucesso faz todo sentido – o executivo que deu sinal verde para a produção de Minions, “arrancado'' da série Meu Malvado Favorito que bateu em 1 bilhão de dólares nas bilheterias, deve ter um altar erguido em seu nome nos estúdios da Universal. Venom, vendido como anti-herói, talvez possa funcionar sem o Homem-Aranha (Tom Hardy, estamos na fé). Do ponto de vista criativo, porém, um spin off precisa comer muito feijão para que o público olhe para ele como algo além de um caça-níqueis.

New look at Jude Law as Dumbledore in Fantastic Beasts 2 Credit: Warner Bros

Jude Law como Dumbledore no set de Os Crimes de Grindelwald

Vamos, portanto, voltar um pouco no tempo para a virada do milênio. A série Harry Potter estava fazendo a molecada no planeta inteiro devorar livros com fúria, e uma série no cinema era o passo natural. Ao longo de oito filmes em uma década, a saga do bruxo interpretado por Daniel Radcliffe se tornou um fenômeno pop como poucos, arregimentando fãs por todo o mundo e criando uma mitologia moderna que, quase sete anos depois de seu fim, continua alimentando a sede de fãs. A série, porém, terminou, deixando quase 8 bilhões de dólares nos cofres do estúdio. Um número assim não pode ser ignorado. Mas se a saga de Harry Potter chegou ao fim, como espremer mais dólares dessa fruta? A resposta está na palavra mágica na ponta da língua de todo engravatado em Hollywood: universo expandido.

Entra em cena Animais Fantásticos e Onde Habitam, um livro fictício que existia dentro do universo fictício de Potter, obra no currículo dos alunos da escola de magia Hogwarts. A própria J.K. Rowling encarregou-se do roteiro e, de repente, seu “universo mágico'' dava uma cria perfeita para iniciar outra série. O filme, dirigido pelo operário-padrão David Yates (o mesmo responsável por quatro dos oito Harry Potter), foi lançado em 2016 e mordeu pouco mais de 800 milhões de dólares nas bilheterias mundiais. Não chegou perto de ser um fenômeno, mas estava de bom tamanho para expandir o mundo criado por Rowling. Mesmo com um protagonista com o carisma de um nabo (o irritante Eddie Redmayne), em um filme boboca e nada memorável, o futuro da série estava garantido. Mas é estranho ouvir o tema de Harry Potter num mundo mágico derivado de Harry Potter… e sem a menor chance de existir Harry Potter.

O trailer de Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald deixa a coisa ainda mais complicada. Se o primeiro filme concentrava a ação na Nova York de sete décadas atrás, a nova aventura transborda de elementos familiares, mais notadamente a própria escola Hogwarts e seu diretor, Albus Dumbledore (Jude Law, que parece estar se divertindo bastante). Claro que é uma história diferente, com elenco diferente e uma ameaça diferente. Não faria sentido, claro, ter o malvado-mor Voldemort como centro da trama: a batalha agora é com Grindelwald (Johnny Depp que, provavelmente devido à tonelada de controvérsia trazida por seu nome hoje em dia, está fora de quase todo o trailer e do novo poster) e será travada em Paris, dando oportunidade aos produtores expandir ainda mais este universo mágico.

Animais Fantásticos: Os Crimes de Grindelwald (e qualquer uma de suas óbvias continuações), por sinal, merecia um diretor com mais personalidade, para fazer com que a série tivesse apelo além das hordas que já consomem qualquer fiapo com a marca Harry Potter – os filmes originais deram um salto de qualidade incontestável em seu terceiro episódio, O Prisioneiro de Azkaban, dirigido com muita fibra por Alfonso Cuarón em 2004. Quando eu visitei o set naquele ano, alguns quilômetros fora de Londres, o diretor mexicano explicou como sua herança latina podia ser vista em cada pedacinho do filme, com pequenos detalhes no desenho de produção e algumas escolhas narrativas. Será que o estúdio seria capaz, hoje, de dar tamanha liberdade a um realizador? Será que as escolhas criativas podem ser mais fortes que o ímpeto corporativo?

Tommy Wiseau esticando como pode seus minutos de fama

Liga da Justiça pode oferecer uma resposta. O estúdio (o mesmo de Animais Fantásticos) capitulou ante a gritaria (justificada) depois do lançamento de Batman vs Superman e não deixou que Zack Snyder realizasse sua visão para a aventura da equipe de heróis. Uma tragédia pessoal o afastou da produção, que foi completada às pressas por Josh Whedon e saiu dos cinemas sem deixar impressões na cultura pop. Cabeças racionais deixariam os personagens nas mãos de criadores apaixonados. Mas o anúncio de um filme-solo do Coringa, inimigo do Batman, mostra que as motivações são mais financeiras do que artísticas. O projeto é real, está nas mãos de Todd Philips (Se Beber, Não Case) e busca Joaquin Phoenix para o papel-título. O problema é um só: é quase impossível o Palhaço do Crime funcionar em uma trama sem o Cavaleiro das Trevas.

Explico. O Coringa é como Jason Voorhees, o assassino imortal de Sexta-Feira 13. Ele não é o protagonista, e sim uma força da natureza que impulsiona a trama e imprime conflito a seu protagonista. Ele não tem arco dramático, não muda durante suas histórias e a sombra de mistério em seu passado é o que o faz interessante. Por isso que Heath Ledger criou uma versão tão festejada do vilão em Batman: O Cavaleiro das Trevas. Em nenhum momento sabemos de onde ele veio ou o que ele quer: o Coringa é um elemento anárquico, e sua presença na narrativa serve para que o personagem principal evolua ao longo do filme. Explicar sua origem? Dizer suas motivações? Nada disso importa. Como spin off, tem textura de caça-níqueis, e vai precisar de um gênio no comando para não terminar completamente descaracterizado. Do contrário, podem escalar até Tommy Wiseau no papel principal. Não fará a menor diferença.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.