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Roberto Sadovski

Guerra Infinita: Quem é Gamora, a mulher mais perigosa da galáxia?

Roberto Sadovski

29/04/2018 06h08

Antes de mais nada, vale um aviso: o texto a seguir está coalhado de spoilers nível heavy metal de Vingadores: Guerra Infinita. Se você ainda não assistiu ao filme, e obviamente prefere uma experiência intacta, já digo adeus, agradeço pelos peixes e espero você de volta depois de sua sessão. Para quem já viu esse tirombaço certeiro da Marvel, vamos em frente.

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Ainda por aqui? Então vamos lá. Enquanto o protagonista de Guerra Infinita é indubitavelmente Thanos, o Titã Louco, suas filhas adotivas possuem papéis de igual relevância. É o tipo de narrativa longa que a Marvel assumiu desde que criou seu universo cinematográfico (ou MCU em inglês), com a história de Gamora (Zoe Saldana) e Nebulosa (Karen Gillan) formando um dos núcleos familiares mais complexos do cinemão moderno. Em Guardiões da Galáxia e em sua continuação, as duas guerreiras tentam se matar, depois encontram um ponto de respiro, mas permanecem unidas pelo ódio pelo ser que as criou, Thanos (Josh Brolin). Vingadores: Guerra Infinita mostra que a dinâmica é ainda mais complicada, já que Gamora parece sentir uma mistura de raiva, de responsabilidade em dar cabo dos planos genocidas do gigante púrpura, e também de um sentimento familiar que mistura amor, ressentimento, mágoa e culpa.

Thor e Peter Quill ao lado de Gamora em Vingadores: Guerra Infinita

O novo filme dá um salto nesse arco dramático em particular porque Gamora sabe a localização da poderosa Jóia da Alma, e cede à Thanos após testemunhar seu pai (postiço) torturando sua irmã (postiça). Quando os dois partem rumo ao planeta Volmir (executado, quem diria, com imagens captadas aqui no Brasil, nos Lençóis Maranhenses), e Thanos percebe que tem de sacrificar a única coisa que ele ama para obter o poder da gema, é para Gamora que ele volta sua face coberta de lágrimas, antes de arremessá-la em um abismo rumo à morte certa. O fim de Gamora encerra um dos pontos narrativos de Guerra Infinita com brilho, dando à personagem ainda mais densidade do que ela havia demonstrado nos dois Guardiões da Galáxia, o que é potencializado pela performance emotiva e intensa de Zoe. É uma das heroínas mais bem desenvolvidas do MCU e, se este foi seu fim definitivo (quem acompanha quadrinhos sabe que a morte nem sempre é um ponto final), ela deixa este universo com a missão cumprida.

Daí que vale voltar o olhar justamente para as HQs. Entre os predicados de Gamora, desde que ela foi criada por Jim Starlin em junho de 1975, estão guerreira e assassina, que lhe deram o título de mulher mais perigosa da galáxia. É uma alcunha que não chega à toa, cunhada em anos de narrativa. Embora Gamora nunca tenha defendido título próprio, mesmo como coadjuvante de histórias de outros heróis, ou como parte de um grupo, ela experimentou uma evolução bizarra até para os padrões do lado cósmico da Marvel, tendo empunhado as armas mais poderosas do universo, visto sua raça ser exterminada duas vezes (!), encarado alguns dos vilões mais casca-grossa da editora, e até morrido. Mais de uma vez. Sempre voltando para contar a história.

Gamora, nas HQs, já como a mulher mais letal da galáxia

Sua origem nos quadrinhos está conectada não somente à Thanos, como também ao ser artificial batizado Adam Warlock. O Titã prevê que Warlock se tornará, no futuro, um ditador chamado Magus, líder da Igreja Universal da Verdade (é sério). Seus soldados fanáticos exterminaram como parte de uma cruzada cósmica, em algum ponto do futuro, uma raça pacifista chamada Zen-Whoberis – justamente o povo de Gamora. Sendo um viajante do tempo (nenhuma conexão com a Jóia do Tempo, e sim com a boa e velha super ciência das histórias em quadrinhos), Thanos resgata Gamora ainda criança e, ao trazê-la para o presente, começa seu treinamento para que ela possa, no momento certo, assassinar Magus. A trama faz dela aliada de Adam Warlock e, ao lado de outros aliados, eles derrotam o fanático religioso, impedindo também o extermínio de seu povo. Não que fizesse diferença, já que nessa linha temporal restaurada uma outra raça bélica, os Badoons, elimina todos os Zen-Whoberis da mesma maneira.

Essa saga saiu da imaginação de Jim Starlin, que deu o passo seguinte na saga de Thanos e Warlock, com Gamora na mesma jornada. Com o fim da ameaça de Magus, Thanos termina por revelar seu plano – usar uma das Jóias do Infinito, a Gema da Alma que Warlock carrega em sua testa para alimentar uma arma capaz de matar parte da vida inteligente no universo. Tudo como parte de um plano para o Titã agradar a sua amada, uma manifestação (meta) física da Morte, em que ele é combatido pelos Vingadores, que combinam suas forças com o Homem-Aranha e com o Coisa. Em meio ao caos, Gamora volta-se contra Thanos e encontra seu fim nas mãos do próprio pai adotivo. Curiosamente, essa cena nunca foi mostrada, apenas narrada quando Warlock encontra Gamora à beira da morte após o ataque de Thanos. Para abreviar sua dor, o herói absorve sua alma com a pedra cósmica que carrega.

Uma das mortes de Gamora, momento dramático na saga de Warlock

"Eu cheguei a desenhar a sequencia do combate de Thanos com Gamora", revelou Starlin, que na época teve um desentendimento com a Marvel e viu o título Warlock ser cancelado, com a conclusão da saga contada em duas outras revistas: Avengers Annual #7 e Marvel Two-in-One Annual #2, histórias publicadas aqui pela Editora Abril em Grandes Heróis Marvel #1. Ao fim da narrativa, que é absolutamente psicodélica, um dos heróis, o Capitão Marvel, testemunha uma manifestação futura de Adam Warlock absorver a alma de seu eu no presente. Na prática, sua alma reside no mundo dentro da gema – ao lado de Gamora, com quem ele desenvolve um romance, e de outros seres que pereceram ante essa Jóia do Infinito.

Foi a primeira, mas não a última, vez que Gamora empacotou. A Marvel demorou quatorze anos para retomar sua narrativa, desta vez nas páginas da primeira edição da minissérie Desafio Infinito – base, por sinal, de Vingadores: Guerra Infinita. Sua alma é arrancada do mundo da gema do infinito e colocada no corpo de uma terráquea, Bambi Long, que morrera momentos antes num acidente de carro com outros dois amigos. Seus corpos, por sua vez, passaram a ser habitados por um aliado, o troll Pip, e pelo próprio Warlock. Gamora morre (de novo) quando Thanos usa o poder combinado das jóias em sua manopla do infinito (palavra que será repetida à exaustão, vai vendo…) e, assim como no filme, elimina metade da vida no universo. É só graças à intervenção de Nebulosa, torturada e mantida perpetuamente entre a vida e a morte por Thanos, que Gamora (e os trilhões de outros mortos) recuperam suas vidas.

O visual mais moderno depois de toda a Saga do Infinito nas HQs

Ao fim de Desafio Infinito, Gamora torna-se detentora de uma das Jóias do Infinito, a Gema do Tempo, como parte do grupo de guardiões organizado por Warlock para proteger as pedras cósmicas. Um desentendimento com seu companheiro faz com que ela abandone o grupo e retome sua vida como mercenárias espacial, eventualmente dividindo sua vida com Warlock, retirando-se com ele para uma dimensão compacta, onde o casal adota uma garotinha, Atleza, entidade cósmica destinada a ser uma "âncora da realidade". A essa altura você já percebeu que, por mais que Vingadores: Guerra Infinita seja um filme ousado e de impacto, não limpa a poeira do nível de loucura que alguns de seus quadrinhos originais.

Na minissérie Aniquilação, de 2006, a Gamora dos quadrinhos começou a caminhar para se tornar mais semelhante com a personagem introduzida no cinema. Aniquilação foi um crossover em que a Marvel reuniu parte de seus personagens cósmicos (Thanos, Drax, o Surfista Prateado, Nova) num esforço para deter a "onda da aniquilação", um ataque de seres da Zona Negativa, dimensão paralela que ameaçava tragar a nossa. Ao fim da história, os roteiristas Dan Abnett e Andy Lanning criam os novos Guardiões da Galáxia, equipe que serviu de base para o time do filme de 2014, com Gamora firme ao lado de Peter Quill (o Senhor das Estrelas), Rocket, Drax e Groot – no gibi, faziam parte também Quasar e Adam Warlock. Para mostrar que a história teima em se repetir, em Guardians of the Galaxy #19, Magus retorna da morte, mata Gamora mais uma vez e a ressuscita, numa tentativa de torturá-la até a conversão para sua Igreja Universal da Verdade – não deu certo, claro.

Seu traje de combate mais atual nas páginas de Guardiões da Galáxia

Embora tenha encontrado seu fim em Vingadores: Guerra Infinita, nas páginas dos quadrinhos Gamora continua sua jornada para manter o título de mulher mais perigosa da galáxia. Ao contrário do que acontece no filme, nos gibis ela não alimenta nenhum relacionamento romântico com Peter Quill, mas já levou para a cama não apenas Nova (personagem que ainda pode dar as caras no MCU), como também o próprio Tony Stark, o Homem de Ferro, que brevemente acompanhou os Guardiões em suas aventuras pelo espaço. As HQs podem não ser a fonte mais fiel dos filmes – e nem devem, na real -, mas ainda servem como inspiração para roteiristas e diretores de cinema. Assim, é possível especular que Gamora, na interpretação de Zoe Saldana, ainda faça parte da grande tapeçaria que é o MCU. Uma personagem tão rica, tão complexa e, por que não, tão espetacularmente insana, merece um retorno triunfal. Afinal, é fantasia.

Gamora, Tony Stark…. e um certo encontro casual

** Este texto não reflete, necessariamente, a opinião do UOL

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.