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Roberto Sadovski

Guerra Infinita: O que aconteceu, afinal, com o Incrível Hulk?

Roberto Sadovski

03/05/2018 04h14

Pessoas, eu estou animado para falar sobre Vingadores: Guerra Infinita, então preparem-se para uma enxurrada de textos dissecando, teorizando, provocando e/ou iluminando algum recorte do filme dos irmãos Russo. Nem precisa dizer que o texto a seguir tem SPOILERS até dizer chega! Neste episódio, como meu título já entrega, vamos falar sobre o que aconteceu (e o que pode acontecer) com um certo Gigante Esmeralda. No cinema E nos gibis. Vamos a ele?

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Ainda aqui? Então beleza.

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Banner volta à Terra em Guerra Infinita

"Temos um Hulk." Uma simples frase foi o bastante para o cinema vir abaixo, e olha que Guerra Infinita não tinha cinco minutos de projeção. Pegando a ação ao fim de Thor Ragnarok, encontramos a nave refúgio dos últimos asgardianos abordada pelas forças de Thanos. Thor, derrotado. Heimdall, gravemente ferido. Loki, caprichando na língua afiada do Deus da Mentira. Quando o Titã Louco faz sua investida final, determinado a recuperar a Jóia do Espaço – gema alojada no Tesseract -, o Hulk ataca! A luta é brutal… e breve. Fisicamente, Hulk e Thanos podem ser equivalentes, mas o herói verde sempre se virou massacrando com os punhos, e logo fica claro que ele não é páreo para alguém com treinamento de combate avançado. Derrotado, o Hulk é teletransportado para a Terra num último esforço de Heimdall, aterrissa dentro do santuário do Doutor Estranho em Nova York e, revertido à forma de Bruce Banner, consegue murmurar um aviso: "Thanos está vindo".

E é a última vez que vemos o Hulk em Guerra Infinita. Em diversas outras cenas, Bruce Banner (Mark Ruffalo) tenta forçar a transformação no Gigante Esmeralda, sem sucesso. Nem nos momentos mais críticos da aventura o Hulk dá as caras. Significa que Banner não está furioso o bastante? Não, pelo contrário: é seu alter-ego que simplesmente se recusa a se manifestar, deixando Banner na mão. O "outro cara", como o cientista muitas vezes se refere à manifestação furiosa de seu Id disparada pela exposição maciça à radiação gama anos antes, não aceita a mudança física, fazendo com que sua porção "humana" entre na Batalha em Wakanda usando uma poderosa armadura Hulkbuster – uma versão 2.0 do traje que Tony Stark usou em Vingadores: Era de Ultron para subjugar o gigante. Muitos fãs chiaram, dizendo que esse recorte da trama não fazia sentido, e que o Hulk "jamais" fugiria da luta. Outros estranharam o subtexto psicológico da relação Hulk/Banner, que em nenhum outro momento no MCU (o Universo Cinematográfico Marvel) se manifestara dessa forma.

O Hulk gladiador de Thor Ragnarok

Mas a verdade é que o arco dramático de Bruce Banner em Guerra Infinita não só é 100 por cento condizente com a evolução do personagem nos filmes anteriores, como também esbarra na bizarrice que são as diversas interpretações do personagem nas histórias em quadrinhos. Primeiro, o filme. Em Os Vingadores (2012), Banner mostra que controla sua transformação, dosando sua raiva e "convocando" seu alter-ego. Essa relação fica mais complexa em Era de Ultron. Sim, ele luta ao lado dos Vingadores. Mas somente a Viúva Negra parece capaz de direcioná-lo como uma arma contra os inimigos certos. Ao fim da aventura, porém, o Hulk desaparece, solitário, em um jato da equipe sem rumo. Seu destino foi conhecido somente em Thor Ragnarok: a nave foi para o espaço, capturada por um grupo de "lixeiros" espaciais, fazendo com que o Hulk se tornasse gladiador em um planeta ermo, dominado pelo Grão-Mestre (Jeff Goldblum). Ali, ele finalmente deixou de ser visto como um monstro, passando a ser ídolo de todo o planeta em combates realizados em uma arena cósmica. Em uma leve adaptação da série de quadrinhos Planeta Hulk, o Gigante Esmeralda encontrou a paz na glória do combate.

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A pegadinha é que o "protagonista" aqui é o Hulk, e não Banner. Desde Era de Ultron, o cientista permanece imerso na psique do Hulk, este em total domínio da situação. Com a chegada de Thor na arena, e depois de um combate em que o Deus do Trovão surge vitorioso (por muito pouco), Banner ressurge ao reencontrar a nave que o levara até este mundo alienígena. Ao lado de Thor, ele percebe que não deixou de ser o Hulk por dois anos. Como a criatura passou esse tempo acumulando experiências sem reverter a seu "eu" fracote, sua mente se desenvolveu como a de uma criança de…. 2 anos! Hulk ainda é absurdamente poderoso, mas faz birra e tenta construir frases como uma criança o faria. Nesse ponto chegamos em Guerra Infinita, e o Gigante Esmeralda leva uma sova de Thanos. De volta à forma de Banner, ele se recusa a assumir o comando novamente. O motivo é claro: medo! Depois de apanhar sem piedade, uma criança de 2 anos ficaria apavorada de seu algoz. E é exatamente isso que acontece. O desfecho dessa narrativa em particular deve ser mostrado no quarto Vingadores ano que vem. Mas é um detalhe esperto e coerente que as cabeças pensantes da Marvel introduziram em Guerra Infinita para adoçar ainda mais o suco.

O herói no traço definitivo de Sal Buscema

Para quem acompanha os heróis da Marvel unicamente pelo MCU, essas mudanças do Hulk podem parecer até radicais. Nos quadrinhos, porém, poucos personagens experimentaram tantas mudanças quanto o herói brutal. Quando foi criado em 1962 por Stan Lee e Jack Kirby, o Hulk era menor, menos forte e cinza. Com o tempo seu visual e sua personalidade bestial foram estabelecidas, até as histórias dos anos 70/80 em que ele ganhou seu visual definitivo pelo artista Sal Buscema. Em seu traço, o Hulk ganhou as eternas calças roxas rasgadas, cabelos desgrenhados e massa muscular que o faziam parecer com uma parede. Essa versão, não raro roteirizada por Bill Mantlo (criador do Rocket Racoon), foi a que solidificou o personagem quando eu comecei a ler gibis lá pelo fim dos anos 70, e ela perdurou até a metade da década seguinte. O Hulk "burro" ainda duraria muito, mas a evolução dos quadrinhos fez com que a interpretação de diversos autores se tornasse mais sofisticada.

As estripulias dos roteiristas que seguiram trabalhando com o Gigante Esmeralda fizeram Banner controlar o corpo do Hulk, para logo depois transformar a criatura numa fera irracional, sendo banido para um cruzamento de dimensões paralelas (quadrinhos, eu sei, mas vai seguindo o fluxo….). Depois ele teve seu corpo e o de Banner separado e reunido, numa conjunção de histórias que resultou num par de fases bizarras e interessantíssimas – geralmente conduzidas pelo roteirista Peter David. Na primeira, o Hulk voltou a ser menor, menos poderoso e cinza, mas inteligente e levemente canalha. Ele assumiu a alcunha "Sr. Tira-Teima" e foi trabalhar como leão-de-chácara num cassino em Las Vegas (sério, quadrinhos, vem comigo!). Em seguida ele alternava a transformação em Banner quando o dia virava noite, com sua mente cada vez mais fragmentada por suas diferentes personalidades. Ao fim dos anos 80, então, David criou uma das versões mais bacanas do herói: em uma sessão de terapia bizarra, todas as facetas da mente e do corpo de Banner (o cientista, a criatura verde desenfreada, a versão cinza, inteligente e astuta) em um ser completo. Foi a fase mais "super-herói" do Hulk, em que ele chegou a liderar um grupo de superseres dedicados a proteger a humanidade, o Panteão.

Vestido de gângster, o Hulk já foi leão-de-chácara em Las Vegas

Nas décadas seguintes, encostando nos dias de hoje, cada novo artista que assume o roteiros do Hulk nos quadrinhos imprime sua marca, usando a dualidade do herói ora como metáfora da violência inerente a todo ser humano, ora como uma lembrança de nossa fragilidade – recentemente Banner seguia isolado, sem se tornar o Hulk por um ano, mas os eventos da série Guerra Civil II podiam desencadear sua transformação mais violenta e imprevisível, o que foi interrompido com uma flecha no Gavião Arqueiro em sua cabeça. Como a morte nos quadrinhos nunca é definitiva (e, acredito, também não o será no MCU), Banner voltou recentemente como o Hulk em uma nova série assumidamente de terror, com o traço intenso do brasileiro Joe Bennett. O "Hulk medroso" de Vingadores: Guerra Infinita pode até ter parecido estranho para quem não acompanha a trajetória do personagem. Quem está calejado com as dúzias de encarnações do Gigante Esmeralda, porém, deve ter esboçado um sorriso cúmplice no cinema, sabendo que, quando o Hulk decidir voltar, será um evento (como é mesmo que dizem por aí?) épico! Um herói cuja jornada tem tantas variações que, no cinema, ela está longe de terminar.

O Hulk "super-herói" se despede por aqui!

 

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.