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Novo Missão: Impossível é o melhor filme da carreira de Tom Cruise

Roberto Sadovski

26/07/2018 03h25

O agente secreto Ethan Hunt tem aceitado missões no cinema há 22 anos, e é de causar espanto que sua sexta aventura calhe de ser a melhor. Mais ainda: Missão: Impossível – Efeito Fallout é o melhor filme da carreira de Tom Cruise, ainda o maior astro de cinema do planeta. E não que ele já não tenha décadas de superlativos no currículo, da comédia teen Negócio Arriscado (1983) à biografia explosiva Feito na América (2017), passando por uma coleção de títulos ecléticos e sensacionais como A Cor do Dinheiro, Rain Man, Jerry Maguire, Colateral e No Limite do Amanhã, só para salpicar a memória. Missão: Impossível, que marcou sua estreia como produtor em 1996, era a série para chamar de sua. Chegar com tamanho fôlego no sexto filme já é um feito e tanto. Mas temos de aplaudir de pé quando a mistura resulta em um colosso de charme, inteligência, velocidade e diversão, o melhor que o cinema pop pode oferecer.

O segredo deste sucesso pode ser resumido em um fator decisivo: menos ego. Desde sua concepção, a série Missão: Impossível tem sido criação de Cruise, colaborando sempre com um cineasta diferente. O plano era simples: manter a coesão com seu protagonista, mas criando uma aventura sempre diferente. O problema é que Cruise, o produtor, sempre foi um sujeito meio mandão, e sua visão não raro entrava em choque com seu diretor. Em 1996, suas brigas com Brian De Palma foram lendárias, a ponto de o filme ser rodado sem um roteiro final em mãos, construído em torno das cenas de ação boladas por De Palma – o fato de ele ser um gênio ajudou o conjunto a se segurar. Quatro anos depois foi a vez de John Woo assumir o leme, e mais uma vez um diretor foi podado repetidamente por seu astro. Existe uma versão lendária de três horas de M:I:2 que provavelmente o público jamais vai assistir, mas ainda é possível enxergar um pouco do estilo operístico de Woo em algumas sequências.

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O hiato para a aventura seguinte foi de seis anos, um recomeço em que Cruise entregou o comando para um J.J. Abrams estreando na direção de um longa. O artista que anos depois ressuscitaria Star Wars com O Despertar da Força não tinha muita voz aqui, e embora o filme seja uma aventura bem decente (o que não poderia ser diferente levando em conta a assinatura de J.J.), o resultado nas bilheterias foi aquém do esperado, com Missão: Impossível III ficando atrás do terceiro X-Men, do retorno do Superman, do capitão Jack Sparrow, de James Bond, de O Código DaVinci e, nos Estados Unidos, até do Click de Adam Sandler. Cruise entrou numa entressafra em que ele brigou com a chefia da Paramount, pulou no sofá de Oprah  e viu sua estrela diminuir em filmes pouco vistos como Leões e Cordeiros, Operação Valquíria e Encontro Explosivo. Parecia o fim da era dos astros em Hollywood.

Então alguma coisa aconteceu. De volta à Paramount, Tom chamou J.J. Abrams para produzir a volta de Ethan Hunt e colocou nas mãos de Brad Bird o trampo de construir uma história em torno de uma equipe. Protocolo Fantasma se tornou um destes filmes que são eternamente um prazer de assistir. É divertido, é intenso, é acelerado e colocou Cruise ao lado de um elenco que lhe deu química perfeita – em especial Simon Pegg, coadjuvante na aventura anterior, agora com papel anabolizado. Foi um respiro para Cruise se reencontrar como ator e como astro, que nem escorregões homéricos como Rock of Ages ou A Múmia consegue apagar. Mais ainda: abriu espaço para a entrada de Christopher McQuarrie no time. E foi com o quinto filme, Nação Secreta, que Missão: Impossível recuperou de vez seu mojo e seu lugar em um ambiente de blockbusters tomados por super-heróis, dinossauros genéticos e animações digitais. A "resposta americana" a James Bond lapidou sua personalidade e encontrou em McQuarrie o diretor perfeito.

Ilsa Faust (Rebecca Ferguson) e seu desejo de matar

O que é traduzido de forma brilhante em Efeito Fallout. É impressionante como a paisagem dos filmes de ação mudou em duas décadas, e mais impressionante ainda como o novo filme é radicalmente diferente do primeiro, lançado em 1996, e ao mesmo tempo traz tantos pontos em comum, como uma referência sutil (e essencial à trama) à traficante de armas Max, papel de Vanessa Redgrave na primeira Missão, o que coloca todas as aventuras de Hunt num mesmo mundo. Outro ponto importante é que McQuarrie e Cruise não tentar reinventar a roda no novo filme, e sim aperfeiçoá-la. Fallout segue cada ponto de desenvolvimento dramático de um filme de ação típico, com o protagonista e seu time encarando desafios mais e mais perigosos. O que faz toda a diferença é a execução da narrativa. Melhor ainda: ao contrário das aventuras anteriores, invariavelmente atrelada a algum mcguffin bizarro (o vírus quimera, o misterioso pé de coelho), a missão aqui é recuperar a boa e velha bomba nuclear da mão de pessoas malvadas. Nada mais simples.

E nada mais complexo, já que Cruise e cia. bolaram algumas das cenas de ação mais ambiciosas do cinema moderno, que ganham ainda mais impacto quando a gente sabe que é o astro saltando de um avião em uma altura estratosférica, ziguezagueando em alta velocidade numa moto pelas ruas de Paris ou pilotando um helicóptero entre perigosas cordilheiras. O que soa como ação de marketing é executado com o único objetivo de roubar o fôlego da plateia e deixar todo mundo quase caindo da poltrona – a sequência final é particularmente sufocante, mesmo trazendo o clichê supremo do cinema de ação (não, não vou contar qual). A evolução de McQuarrie como diretor é impressionante, e ele não só se apresenta como um dos cineastas mais habilidosos em conduzir cenas de ação, como também não perde a linha de sua narrativa, fazendo com que o conjunto se amarre num pacote de entretenimento que funciona como uma injeção de endorfina.

Cruise faz o que Cruise faz melhor: correr

No centro de tudo, claro, está Cruise, em pleno domínio de seu lugar como astro de Hollywood, mas totalmente despido de ego ao dividir o protagonismo com um time igualmente afiado. Henry Cavill é o agente da CIA encarregado de seguir Hunt e, caso ele saia da linha (mais uma vez), tem permissão para riscá-lo do mapa. Rebecca Ferguson volta como a espiã (e assassina) inglesa Ilsa Faust, e seu retorno está ligado ao grupo internacional que quer a cabeça do terrorista Solomon Lane (Sean Harris), talvez o vilão mais astuto de toda a série por ser o único que, assim como Hunt, parece não ter medo de encarar a morte nos olhos. A adição de Vanessa Kirby e a volta de Michelle Monaghan (como Julia, a mulher com quem Hunt se casou no terceiro filme) são essenciais para a trama fechar o círculo completo.

Missão: Impossível – Efeito Fallout é, finalmente, a versão condensada dos melhores atributos que Tom Cruise aperfeiçoou em sua longa carreira. É um filme de ação de primeira, ao mesmo tempo em que reflete a geopolítica atual de forma dramática, sem abrir mão de humor e emoção. É bem produzido, dirigido com brilho e não tem nenhuma gordura. E é fantasia em sua forma mais pura: o mundo real não tem espaço neste jogo de espiões que não tem problemas em transcender seu gênero de berço. No cinemão atual, em que muitas vezes temos de escolher entre boas ideias e bom espetáculo, um filme que trafega entre os dois mundos é cada vez mais raro. Assim como são raros astros de cinema como Tom Cruise que, agora filmando a sequência de Top Gun, não parece disposto a abrir mão do cargo nem tão cedo.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.