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Blog do Sadovski

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Aquisição da Fox pela Disney é boa para acionistas, mas como fica o cinema?

Roberto Sadovski

27/07/2018 16h48

Muita gente rica está prestes a ficar ainda mais rica hoje, depois que os acionistas da Fox e da Disney, em reuniões separadas no mesmo hotel em Nova York, aprovaram a compra de um dos estúdios mais tradicionais de Hollywood pela casa que nos deu Mickey Mouse e uma coleção de princesas. Foi uma votação história e sem precedentes, que movimentou 71.3 bilhões de dólares e colocou nas mãos da Disney os estúdios de cinema e TV da Fox, além de canais a cabo como F/X e National Geographic e 30 por cento do serviço de streaming Hulu. Ficam de fora do acordo a Fox Broadcasting Co., suas estações de TV, a Fox News e a Fox Sports, todos agora parte de uma empresa chamada New Fox (duh…), encabeçada por Rupert e Lachlan Murdoch. No Brasil, a Disney já notificou o Cade, Conselho Administrativo de Defesa Econômica, sobre a fusão com a Fox.

E assim chega ao fim um dos acordos mais discutidos e analisados da indústria do entretenimento, que teve a aprovação dos mecanismos regulatórios nos Estados Unidos e, agora, parte para as canetadas finais com o ok dos acionistas. No meio das negociações, a gigante ComCast chegou a bater o peito com a Disney, aumentando a oferta pela Fox num leilão de bilhões, até que os donos da Universal se retiraram recentemente do pleito. A reação dos executivos de ambas as empresas, tirando uma ou outra voz dissonante, foi de otimismo, já que seus bolsos passam a ficar muito mais recheados. O efeito ainda será sentido na indústria, com o negócio previsto para ser encerrado ainda no primeiro semestre do ano que vem. Por um lado, existe o lado ruim, já que a previsão é da demissão de cinco a dez mil funcionários da Fox em todo o mundo. Sem contar no temor do monopólio, que assusta os criadores de conteúdo por ter um lugar a menos para apresentar seus projetos.

Mas o futuro deve ser menos sombrio do que o apontado pelas previsões mais pessimistas. Não é de interesse da Disney colocar uma mordaça na divisão de cinema e TV da Fox – pelo contrário. Nos últimos anos, a Casa do Mickey investiu pesado em estúdios com conteúdo diverso para fortalecer seu próprio acervo. A Marvel tornou-se um gigante do entretenimento sob a bandeira Disney. A LucasFilm recriou a série Star Wars para o novo milênio com um plano ambicioso e resultados astronômicos nas bilheterias (mesmo com Han Solo naufragando este ano). Não houve interferência criativa dentro dos parâmetros estabelecidos pelos "cabeças" de cada empresa, com Kevin Feige colocando três filmes da Marvel nos cinemas por ano, e Kathleen Kennedy ampliando o escopo de Star Wars com novos personagens e novas aventuras. A Disney, por sua vez, tem investido pesado em versões live actions de sucessos em animação, emprestando o selo do estúdio a cada vez menos filmes originais, como Tomorrowland, O Bom Gigante Amigo e Uma Dobra no Tempo. Ter a Fox como uma de suas empresas pode mudar tudo isso.

Até porque o ex-concorrente sempre apresentou maior variedade temática que a Disney, impedida de "ousar" por sua própria natureza de "empresa para toda a família". Dificilmente eles produziriam material tão ousado e diverso como, só pra ficar em lançamentos recentes, A Forma da Água, Perdido em Marte, A Culpa É das Estrelas e O Rei do Show. Com a Fox como parte de sua divisão de cinema, a Disney pode agora abraçar material mais adulto, investir em produções independentes (com o selo Fox Searchlight) e ampliar seu próprio catálogo, que precisa estar mais parrudo para o iminente lançamento de seu próprio serviço de streaming. A lista fica ainda mais robusta quando lembramos que a Disney agora é dona de algumas das séries mais empolgantes do cinema atual, como Avatar, Planeta dos Macacos, Alien e Predador. O mundo definitivamente não vive só de princesas.

E existe, claro, o elefante na sala, que começa a sair das sombras. Não é ao acaso que a Marvel tem segurado as informações sobre seu futuro. Alguns anos atrás, mostrar os projetos em desenvolvimento era motivo não só de orgulho, mas também um modo de alimentar fãs aparentemente insaciáveis. O mundo pós-2019, porém, era uma incógnita, com Capitã Marvel, o quarto Vingadores e Homem-Aranha: Longe de Casa como únicos projetos verdadeiramente confirmados. Essa demora em abrir as cortinas pode significar que Feige e cia. estavam esperando pela reunião de acionistas de hoje para planejar um futuro que inclui personagens até então atrelados à Fox, como os X-Men e o Quarteto Fantástico – além, claro, de Deadpool. Faz todo sentido o futuro da Marvel ser oxigenado com versões novinhas de velhos favoritos, que devem cumprir suas encarnações atuais no cinema antes de ser integrados ao MCU. Os Novos Mutantes e X-Men: Dark Phoenix estão praticamente na lata e devem marcar essa despedida ano que vem.

A Fox como conhecemos, por fim, deve apagar as luzes do condomínio. O que não significa que sua história está encerrada, apenas entrando em um novo capítulo. Não há, portanto, motivo para se lamentar. Claro que toda mudança implica em perdas e em dor – e os milhares de desempregados na poeira da fusão serão este preço muitas vezes injusto. Mas é este o modo que os gigantes do entretenimento encontraram para sobreviver no novo milênio e às novas demandas – adapte-se ou morra. Outros estúdios em Hollywood já foram comprados por megaempresas e as mesmas vozes do apocalipse ergueram-se para decretar seu fim. Mas a Columbia TriStar não morreu depois de ser adquirida pela Sony. A Paramount não fechou as portas ao fazer parte do conglomerado Viacom. MGM, RKO, United Artists historicamente não tiveram a mesma sorte, mas seu legado ainda sobrevive como parte de outras empresas ou mesmo nas páginas da história. História essa que agora é reescrita bem em nossa frente.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.