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Blog do Sadovski

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Nada mais é sagrado: Ilha da Fantasia vai virar filme... de terror!

Roberto Sadovski

02/08/2018 00h29

Dessa vez os produtores em Hollywood foram longe demais! Ilha da Fantasia, eternamente gravado em nossa memória com um simples "o avião", vai deixar o conforto das lembranças de milhares (milhões?) de crianças dos anos 70 e 80 para se arriscar em uma aventura no cinema. É isso mesmo: o enigmático Sr. Roarke e seu fiel escudeiro, Tattoo, ganharão uma versão para o novo milênio, cortesia da Blumhouse. Famosa por bancar filmes de terror modernos como a série Sobrenatural, além de Corra!, Uma Noite de Crime e Fragmentado, a produtora fechou a parceria com a Sony (que detém os direitos da série) e colocou o trabalho nas mãos do diretor Jeff Wadlow que, com o recente Verdade ou Desafio, transformou um orçamento de 5 milhões de dólares numa bilheteria de 100 milhões. Nada mal.

Na verdade, o casamento de Ilha da Fantasia com Blumhouse faz todo o sentido! Embora nossa memória afetiva teime em colocar a série como uma excentricidade boba, com o anfitrião do lugar (Ricardo Moltalbán) recebendo hóspedes e transformando seus sonhos em realidade, essa criação de Aaron Spelling não raro dava uma guinada para o sombrio e o sobrenatural, com Roarke encarando fantasmas, sereias e até o próprio demônio – interpretado com gosto por Roddy McDowall. Existe um que de seu DNA em séries modernas como Lost, e um reboot esperto pode funcionar com o tom e o elenco certos. Até porque, desde que o show saiu do ar (Ilha da Fantasia começou como dois filmes para a TV em 1977 e 1978, que foram estendidos como uma série entre 1978 e 1984), vários fãs criaram teorias malucas sobre a natureza do lugar e do próprio Rourke, sobre sua suposta imortalidade e sobre como a ilha era, na verdade, o purgatório.

Claro que, com Ilha da Fantasia se tornando filme, algum roteiro original na mesa de algum executivo continua acumulando poeira. É compreensível essa sanha eterna do cinemão com propriedades intelectuais consagradas, já que fica mais fácil justificar um orçamento para fazer o filme e até um fracasso ocasional ("Mas tinha muitos fãs!", pode dizer o engravatado da vez). Mas não deixa de ser espantoso a vontade de produtores em colocar no cinema praticamente todo o catálogo televisivo da era moderna. Hollywood já viveu um boom de adaptações de séries de TV, principalmente em meados dos anos 90 até o começo do novo século. Filmes como As PanterasAgente 86, Anjos da Lei e O Fugitivo fizeram barulho nas bilheteria, ficando na ponta de um "gênero" que também tirou da TV para os cinemas outras séries como S.W.A.T., Starsky & Hutch, Miami Vice, O Santo, Perdidos no Espaço, The Mod Squad, CHiPs e A Feiticeira. Não importa o gênero, nem mesmo o tamanho da base de fãs, era só a gente piscar que uma nova adaptação estava em cartaz. De todas, Missão: Impossível foi a única que perdurou, com Efeito Fallout, ainda em cartaz, coroando seis filmes em mais de duas décadas de Tom Cruise como um espião salvador do mundo.

O que faz de Ilha da Fantasia um projeto inusitado é que a vontade de levar séries para o cinema esfriou desde que super-heróis se tornaram prioridade nas bilheterias. Claro, ainda somos agraciados com um O Protetor aqui, ameaçados com um Baywatch acolá, mas a impressão é que a fonte estava em suas últimas gotas. Não poderíamos estar mais errados. O que me faz imaginar quais outras séries de TV ainda intocadas pelo cinema poderiam seguir o mesmo caminho. Stranger Things poderia ser um candidato lógico, mas a Netflix parece estar bem contente com o formato. Que tal Um Maluco no Pedaço, com Will Smith retomando o papel que lhe fez famoso? A Gata e o Rato? Casal 20? Profissão: Perigo? Veículos superpoderosos como A Super-Máquina, Águia de Fogo, Moto Laser? Séries fracassadas como Automan ou Manimal? Se existe um limite para regurgitar velhos conceitos, Hollywood não faz ideia de onde ele esteja. Contanto que Peter Dinklage não seja chamado para interpretar Tattoo, acho que ficaremos todos bem.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.