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Blog do Sadovski

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Madonna aos 60: a estrela pop só escorregou quando tentou ser atriz

Roberto Sadovski

16/08/2018 17h53

Existe uma história, nunca confirmada pelos envolvidos, que conta como Warren Beatty penou para dirigir Madonna em Dick Tracy. Os dois eram um casal na época, e Beatty não queria que a namorada ficasse constrangida em cena. Reza a lenda, portanto, que cada take com a Material Girl tinha de ser repetido dúzias de vezes até que o diretor ficasse satisfeito. O zumzumzum dos bastidores revelava um ambiente tenso, principalmente porque sua personagem, Breathless Mahoney, dividia boa parte de suas cenas com Al Pacino. Dick Tracy, por fim, não compromete Madonna como atriz – mas o peso narrativo não estava em seus ombros. E como coadjuvante ela nunca fez feio.

Mas Madonna não nasceu para ficar em segundo plano. Aos 60 anos, ela formou-se como a maior estrela pop do planeta, ditando costumes, quebrando barreiras e contribuindo para um mundo em que a mulher também seja a protagonista. Para isso, foi natural que ela navegasse por diversas manifestações artísticas, não apenas como cantora.O cinema, claro, não poderia ficar de fora. Procura-se Susan Desesperadamente, lançado em 1985, logo quando ela estourava como cantora, é uma comédia de ação decente, que usa a figura da cantora para construir sua personagem – e não o contrário. O filme era centrado em Rosana Arquette, mas óbvio que o marketing foi feito em cima Madonna – que, por sua vez, gostou da coisa toda e foi cavando seu espaço no cinema.

Com Rosanna Arquette em Procura-se Susan Desesperadamente

Seu problema nessa transposição para se lançar como atriz foi sempre a falta de foco. Surpresa de Shanghai existe por ela ser casada na época com Sean Penn – assim como o próprio Dick Tracy, em que ela teve espaço por conta de Warren Beatty. Quem É Essa Garota? é menos um filme e mais um videoclipe gigantesco para vender mais uma troca no visual. O documentário Na Cama Com Madonna deixa explícito esse casamento torto entre suas duas personalidades como artista, que procura espaço em uma mídia sem conseguir tirar o pé de outra. Talvez seu melhor trabalho tenha vindo em seguida, como coadjuvante em Uma Equipe Muito Especial, comédia dramática com Tom Hanks e Geena Davis, em que a diretora Penny Marshall usa sua presença cênica com economia, sem nunca exigir algum esforço dramático. Talvez esse fosse o melhor caminho pra Madonna. Mas ninguém vai dizer a Madonna que ela é coadjuvante.

Assim ela insistiu em ser atriz, com pouco sucesso, em filmes como Olhos de Serpente, de Abel Ferrara, ou Corpo em Evidência, em que dividiu a cena com Willem Dafoe em cenas de sexo consideradas ousadas para um já distante 1993. Esse último era notadamente um esforço de Madonna, a artista multimídia, para vender seu livro, Sex. Mas Corpo em Evidência é um thriller atroz, e as cenas quentes são apenas constrangedoras. A crítica desceu a lenha, os fãs foram indiferentes, e Madonna passou os anos seguintes pintando em pontas em Sem Fôlego, Grande Hotel e Garota 6, enquanto saia em turnês mundiais espetaculares. Tudo parecia mudar em 1996, quando Alan Parker assumiu o comando da adaptação para o cinema do musical Evita, e escalou Madonna como a primeira-dama argentina. Era o momento da estrela, já consolidada como rainha do pop mundial, em mostrar que também podia ser uma atriz de respeito.

Com Warren Beatty em Dick Tracy

O que pode ser dito de sua atuação em Evita é que Madonna, como atriz, ainda é uma excelente cantora. Alan Parker dirigiu o filme com vigor, e a famosa cena do balcão, em que ela canta para uma multidão de adoradores, é de fato emocionante. Mas Madonna não consegue deixar de ser Madonna, e embora o filme tenha feito respeitáveis 50 milhões de dólares nas bilheterias americanas, não abriu as portas como ela esperava. Sim, ela ganhou o Globo de Ouro de melhor atriz em comédia/musical, mas era óbvio que a Associação de Imprensa Estrangeira de Hollywood queria mesmo uma estrela de seu porte na festa (audiência é tudo). O Oscar, claro, deu de ombros, e muitos enxergaram a ausência de uma indicação como boicote da classe a uma estrela pop querendo entrar no clubinho. Bobagem. Ela só não era boa o bastante, e o filme garfou um Oscar de melhor canção, então nem tudo foi em vão (a melhor atriz naquele ano foi Frances McDormand por Fargo, não dava pra encarar mesmo).

Talvez Madonna percebesse que era seu fim da linha como atriz. Ela ainda tentou mais uma vez, na comédia romàntica Sobrou Pra Você, um filme que experimenta uma mudança de tom radicalíssima no terceiro ato, e que foi ignorado pelo público e metralhado pela crítica. Talvez cansada de receber tanta bordoada, ela jogou a toalha e disse que o público não merecia mais seu esforço. Casada com o cineasta Guy Ritchie, Madonna ainda arriscou uma última vez. Mas o drama Destino Insólito, que faturou vergonhosos 600 mil dólares nos cinemas ianques, encerrou a lojinha como o pior filme de sua carreira. Seu adeus foi em mais uma ponta, no esquisito 007 – Um Novo Dia Para Morrer, mas parecia parte do pacote, já que a música-tema é sua.

Evita que, para muitos, é seu ponto alto como atriz

E foi isso. Madonna conquistou o mundo com sua música e com sua atitude, tornando-se um ícone em várias frentes. É inspiração para gerações de garotas e garotos em todo o planeta, ditou os caminhos da moda por décadas e chega aos 60 anos com vigor de iniciante, ainda compondo, ainda cantando, ainda levando sua música e seu espetáculo para todo o mundo. Mas, no cinema, ela descobriu onde estava seu limite. Depois de diversas tentativas, algumas incríveis, outras sofríveis, reconheceu que não se pode triunfar em todas as áreas. Madonna é, afinal, humana.

Uma Equipe Muito Especial, de fato seu ponto alto como atriz!

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.