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Blog do Sadovski

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Spacey, Franco: Hollywood ainda não sabe como lidar com acusados de assédio

Roberto Sadovski

21/08/2018 01h55

618 dólares. Esse foi o total arrecadado no fim de semana de estreia de Billionaire Boys Club, drama com Ansel Elgort, Taron Egerton e Emma Roberts, que estreou no grande total de onze salas. Onze. Salas. Não que o filme de James Cox estivesse soltando faíscas junto aos críticos – pelo contrário, ele conta com pálidos 11 por cento de avaliações positivas no Rotten Tomatoes. Mas não é por isso que o público deu de ombros para o filme. O problema de Billionaire Boys Club, que conta a história de um grupo de investidores jovens na Los Angeles dos anos 80, enrolados com um esquema de pirâmide financeira que não acaba bem, tem como sua estrela maior Kevin Spacey. E Kevin Spacey, no dicionário hollywoodiano pós #MeToo, é sinônimo de tóxico.

O "clube dos garotos bilionários" na própria capital do cinema pipoca continua trêmulo depois da avalanche de acusações de assédio, entre outras, que expôs uma banda podre de atores, diretores e produtores que usavam de sua posição de poder para obter favores sexuais. A prática estendeu-se por décadas (até onde sei, continua a todo vapor) e explodiu quando o über produtor Harvey Weinstein viu sua parede de coerção e medo romper-se quando um grupo de mulheres corajosas fez com que suas práticas nauseantes fossem reveladas ao mundo. Harvey caiu. Kevin Spacey, centro de um tsunami de acusações de assédio por dúzias de jovens atores, também viu seus pares lhe virarem as costas. Billionaire Boys Club já estava pronto. Ao contrário de Ridley Scott, que substituiu Spacey por Christopher Plummer em Todo o Dinheiro do Mundo, James Cox não tinha recursos para refilmar a produção. 618 dólares. Ao menos dá pra pagar a condução.

James Franco em The Deuce, que estreia sua segunda temporada

James Franco, por outro lado, parece tentar normalizar sua carreira – e não sem enfrentar protesto de grupos que, obviamente, estão de olho. No fim do mês passado o oba oba em Los Angeles era que Franco havia sido contratado para dirigir ESPN: Those Guys Have All the Fun, um docudrama sobre as origens do canal esportivo. Seria o primeiro caso de celebridade revelada como assediador pelo movimento #MeToo a conseguir um trabalho de tanta visibilidade. Franco foi acusado de comportamento inapropriado por remover o protetor genital de atrizes durante uma cena de orgia no ainda inédito longa The Long Home. A Focus, produtora de ESPN, não comentou o caso, mas pessoas ligadas ao projeto dizem que o convite para o ator dirigir o projeto foi feito antes de as acusações se tornarem públicas, e que nenhum contrato está assinado.

Não que Franco esteja perdendo o sono. A HBO, que produziu a série The Deuce, com o ator e Maggie Gyllenhaal, concluiu que ele não deveria ser removido do programa, que logo estreia sua segunda temporada. O ator, ao contrário de sua parceira em cena, ainda não fez nenhuma ação para promover The Deuce, mas a direção da HBO já deixou claro que a série é maior que um de seus elementos, e que a estreia da nova temporada, marcada para 9 de setembro, não será alterada. James Franco, por sinal, ainda tem uma dezena de projetos em várias fases de pós-produção ainda para 2018, e continua filmando sem que sua rotina seja alterada. Todos projetos independentes, que o astro tem um grau maior de controle. A coisa esquenta quando estes projetos precisam de um distribuidor para chegar aos cinemas. É aí que Franco vai testar os limites de seu poder na indústria.

Casey Affleck ganhou o Oscar de melhor ator por Manchester à Beira Mar

A Fox Searchlight, por outro lado, já coça a cabeça por conta do lançamento de The Old Man and the Gun, que traz David Lowery na direção e Robert Redford como um dos protagonistas. O outro? Casey Affleck, que tem se mantido discreto desde as acusações de assédio levantadas por duas assistentes durante as filmagens de Eu Ainda Estou Aqui, em que ele dirigiu Joaquin Phoenix (os processos foram resolvidos fora do tribunal). Affleck deve aparecer no Festival de Toronto, no começo do mês que vem, mas o estúdio ainda não resolveu como vai lidar com o ator nos eventos para divulgação do filme, como a entrevista coletiva e a caminhada no tapete vermelho. Casey parecia estar no topo do mundo após ganhar (merecidamente) o Oscar por Manchester à Beira Mar, mas viu a Amazon retirar-se de Stoned, que ele ia filmar com Joe Wright, e encontra-se sem nenhum projeto à vista, mesmo sendo anunciado no drama Red Platton, de Daniel Espinosa, e na minissérie Lewis and Clark.

O panorama de celebridades colocadas na berlinda por conta de seu comportamento quando as câmeras não estão rodando ainda deixa Hollywood inquieta. Não só pela magnitude que o movimento tomou – e as acusações, embora tenham diminuído o ritmo, continuam pipocando -, como também pela forma de lidar com seus talents que pintaram um alvo na testa. A Disney não deve ter Morgan Freeman, também acusado de assédio, promovendo seu O Quebra-Nozes e os Quatro Reinos. I Love You Daddy, filme com Louis CK, foi definitivamente cancelado. Dustin Hoffman parece ter acelerado sua aposentadoria e não lança nada desde ano passado. Os poderosos Brett Ratner, James Toback e John Lasseter saíram (ou "foram saídos") de cena. Ao que parece o nível de perdão que Hollywood reserva para os seus é uma análise de caso a caso. Mas para Rebecca Gerber, ativista e diretora da rede Care2, que conecta pessoas e empresas em todo o mundo para defender causas sociais, ambientais e políticas, só existe um modo de lidar com assediadores: tolerância zero.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.