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Blog do Sadovski

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Burt Reynolds foi o macho alfa que Hollywood jamais conseguiu reinventar

Roberto Sadovski

07/09/2018 05h03

Burt Reynolds já era um dos maiores astros do planeta quando eu finalmente assisti ao filme que definiu e desenhou sua carreira. Foi nos anos 80, anos formativos de minha geração, acompanhando lançamentos na tela grande e, principalmente, mergulhando numa arqueologia pesada em VHS, que descobri Amargo Pesadelo, que John Boorman dirigiu em 1972. Moleque, eu conhecia Reynolds por sua personalidade efusiva como Bandit, protagonista da aventura Agarra-me se Puderes. Era a definição do cool: alguém que dita suas próprias regras, festeiro, sarrista, com um charme meio canalha, mas alguém que eu daria um braço para ser amigo e pegar emprestado as chaves daquele trans am preto com uma fênix dourada pintada no capô. Vi seu nome no elenco de Amargo Pesadelo e fui em frente.

Duas horas depois, eu havia sido apresentado a outro Burt Reynolds. Um ator com nuances, que exalava um certo ar perigoso, o "macho alfa" entre quatro amigos que se embrenham na mata para uma caçada de fim de semana – o tal male bonding -, e terminam descobrindo o lado mais sórdido da natureza humana. Foi uma revelação. Com o tempo, depois de transformar cinema em profissão, percebi que essa dualidade era parte da natureza do próprio astro. Alguém com talento cênico sem igual, presença de cena magnética, mas que preferiu encarar o circo hollywoodiano no centro do picadeiro. "Eu nunca me abri para papéis arriscados porque eu não tinha interesse em me desafiar", confessou em sua biografia, But Enough About Me (algo como "Chega de Falar Sobre Mim"), publicada em 2015. "Eu queria mesmo me divertir." Ele admitiu ter perdido dúzias de oportunidades para abraçar papéis mais sérios, e quando finalmente abriu os olhos, não achou ninguém disposto a pagar para ver.

Reynolds todo sério em Amargo Pesadelo

Mas Burt Reynolds com certeza se divertiu. Ele começou a aparecer na TV ainda no final dos anos 50, e ficou calejado no jogo do cinemão até Amargo Pesadelo escancarar as portas. Ele sabia da seriedade do filme e de seu papel, mas não hesitou em posar – nu! – em um pôster para a revista Cosmopolitan, três meses antes da estreia do filme. A revista vendeu 1,5 milhão de exemplares e gerou publicidade nunca vista antes em Hollywood, mas Reynolds acredita que o custo foi sua credibilidade como ator sério. Na época, ele não se importou. Dois anos depois, ele interpretou um jogador de futebol profissional que, preso, precisa treinar um time de prisioneiros para jogar contra os guardas. Golpe Baixo foi um sucesso e apontou que o sucesso para Reynolds talvez pudesse refletir sua filosofia em não se levar muito a sério.

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Depois de flertar com a comédia fazendo ele mesmo em 1976 no filme mudo A Última Loucura de Mel Brooks (esse eu consegui assistir no cinema em uma reprise, bons tempos…), Reynolds encontrou em Bandit o personagem perfeito para seu estilo de vida. Agarra-me se Puderes foi um fenômeno, que só não ficou no topo das bilheterias em 1977 porque no mesmo ano George Lucas decidiu levar o planeta inteiro para a "galáxia muito distante". Guerra nas Estrelas mudou o jogo em Hollywood, mas o astro que dominou as bilheterias foi Reynolds, que foi o ator mais popular do mundo entre 1978 e 1982 em filmes como Hopper – O Homem das Mil Façanhas, Quem Não Corre, Voa, Caçada em Atlanta, Paternidade, A Melhor Casa Suspeita do Texas e, claro, a continuação Desta Vez Te Agarro. Em 1978 ele chegou a ter quatro filmes em cartaz ao mesmo tempo! Os anos 80 trouxeram um tipo de cinema, uma nova geração de astros (Schwarzenegger, Mel Gibson, Bruce Willis) e a estrela de Reynolds, que voltou à TV em diversas ocasiões, foi se apagando.

Boogie Nights, de Paul T. Anderson, rendeu sua única indicação ao Oscar

Curiosamente, foi quando ele passou a lembrar dos filmes que não quis fazer, papéis mais sérios e mais icônicos que poderiam ter provocado uma guinada em sua carreira. Se em 1977 ele recusou o papel de Han Solo em Guerra nas Estrelas, na década seguinte ele disse não a John McClane (que Bruce Willis imortalizou em Duro de Matar) e considerava o maior erro de sua carreira ter ignorado o convite de James L. Brooks para interpretar Garrett Breedlove, o astronauta aposentado de Laços de Ternura, que deu o Oscar de melhor ator coadjuvante a Jack Nicholson. Reynolds chegou a dizer que fora a primeira escolha de Milos Forman para o papel de R.P. Murphy em Um Estranho no Ninho, que rendera o primeiro Oscar de Nicholson. Outros personagens para os quais Burt virou as costas? Batman, na série de TV dos anos 60, e o milionário interpretado por Richard Gere em Uma Linda Mulher.

Quando os anos 90 avançaram, Burt Reynolds não era mais o astro esfuziante que definira o retrato do macho alfa nos cinemas anos antes. Ele se tornou o sujeito que precisava "se reinventar", alguém a ser redescoberto para uma nova geração com o filme certo. Em 1996 ele tentou com Striptease, com Demi Moore, que na época parecia a escolha perfeita: Demi era, afinal, a mulher mais poderosa de Hollywood. Não deu em nada, nem pelo filme (que é terrível), nem por seu personagem (um político asqueroso que, a certa altura, surge de botas, cuecas e besuntado em óleo). Mas um jovem Paul Thomas Anderson enxergou no envelhecido Reynolds alguém com a gravidade necessária para ancorar seu Boogie Nights, de 1997. No papel de um diretor pornô em decadência na virada dos anos 80, Burt encontrou o papel perfeito para relembrar o ator talentoso que fora nas mãos de John Boorman em 1972. Mas era uma imagem oposta do que ele havia desenhado para si em toda sua carreira, e Reynolds ficou tão furioso quando viu o filme que demitiu seu agente. Os críticos, que passaram a vida torcendo o nariz, enxergaram Boogie Nights sob outra luz. O ator terminou ganhando o Globo de Ouro como coadjuvante, e ainda teve sua única indicação para o Oscar – que ele perdeu, com um certo amargor, para Robin Williams por Gênio Indomável.

Uma vida completa e – sempre – divertida!

Burt Reynolds se preparava para o que seria sua derradeira reinvenção, o drama Once Upon a Time in Hollywood, escrito e dirigido por Quentin Tarantino. Ele interpretaria George Spahn, o dono de um rancho em Los Angeles que servia de cenário para westerns do cinema e da TV, e que terminou como moradia para Charles Manson e seus seguidores, meses depois de eles assassinarem a atriz Sharon Tate entre outras pessoas. Reynolds trabalharia com Brad Pitt e Leonardo DiCaprio, mas infelizmente morreu antes de sua parte ser filmada. Aos 82 anos, a idade finalmente alcançou o astro mais festeiro e de bem com a vida que Hollywood já criou. Ironicamente, quando olhou para trás em sua carreira, o filme pelo qual Reynolds gostaria de ser lembrado não traduzia sua personalidade – com o bigodão, o chapéu de vaqueiro e o sorriso cínico, que definiu por uma geração o que era um astro de Hollywood. "Se eu tivesse de colocar um de meus filmes em uma cápsula do tempo, seria Amargo Pesadelo", escreveu em 2015. "Eu não sei se foi a minha melhor performance, mas com certeza é o melhor filme em que eu estive. Ele provou que eu sabia atuar. Não só para o público, mas para mim."

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.