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Blog do Sadovski

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Com atuação bizarra de Tom Hardy, Venom mira na ação e acerta na comédia

Roberto Sadovski

04/10/2018 03h13

Venom é uma máquina do tempo. O filme de Ruben Fleischer ignora pelo menos quinze anos de evolução de adaptações de personagens de gibis, dá de ombros na sofisticação que o sub-gênero experimentou a partir de Batman Begins, deixa no canto o espetáculo pop alavancado por Os Vingadores e senta-se, confortável, em sua bolha. É como se o anti-herói tivesse chegado aos cinemas no fim do século passado, quando tentativas de alavancar os filmes baseados em quadrinhos eram tiros no escuro como O Sombra, Aço, Blade ou O Máskara. As escolhas de Fleischer para conduzir a aventura são estranhas, para dizer o mínimo: Venom é uma mistura de Máquina Mortífera com Invasores de Corpos, resultando em uma comédia de ficção científica que sugere humor negro e aponta para a ultraviolência, mas se contenta com o pastelão ligeiro.

Tom Hardy, por sua vez, parece ter entendido exatamente qual filme estava fazendo. Em nenhum momento ele deixa o tom de Venom ficar pesado, escolhendo um registro amalucado para sua performance. Seu Eddie Brock começa como repórter intrépido e de bem com a vida, mas depois de deixar seu espírito contestador atropelar o bom senso em uma reportagem, e de perder sua carreira, dinheiro e a noiva (Michelle Williams), ele abraça o papel de perdedor com gosto, que é anabolizado quando ele é fundido com o simbionte alienígena como uma criatura nova e poderosa. E é um barato ver Hardy devorando o cenário quando o ET aos poucos tenta controlar seu corpo, ao mesmo tempo em que trava diálogos internos absolutamente bizarros: Venom é um filme de dupla policial em que os estereótipos conflitantes dividem o mesmo corpo.

Michelle Williams e Tom Hardy sem nenhuma gosma espacial

Se você é fã do inimigo do Homem-Aranha nos quadrinhos, melhor esquecer tudo que sabe sobre o personagem. Impossibilitados de usar o Cabeça de Teia (que nunca vai dar as caras neste "universo"), o quarteto (!) de roteiristas que assina o texto buscou uma leve inspiração para recontar sua origem do zero. O malvadão é Carlton Drake (Riz Ahmed), biliardário que acredita que os dias da Terra estão contados, então ele financia expedições espaciais para procurar outros mundos que possam sustentar vida humana. Um de seus foguetes retorna ao planeta trazendo organismos alienígenas encontrados num cometa (!!), mas a nave despenca na Malásia, matando a tripulação (ou quase…), com três simbiontes recuperados nos destroços. Drake passa então a tentar fundir os bichos com humanos, mas seu "estoque" de mendigos não parece compatível (se existe alguma crítica social aí, ela se evapora em segundos). Eddie entra em cena, Venom adapta-se a seu corpo e… nasce um herói.

Ou não. Ou… quase. Existe uma trama sobre uma invasão de simbiontes na Terra, e a certa altura Drake é ligado a outras das criaturas (Riot, para quem acompanha os gibis) para compor o vilão principal da coisa. Mas absolutamente nada em Venom faz o menor sentido, com o fiapo de história costurado por cenas de ação que mal servem para empurrar a narrativa (os fãs de quadrinhos vão pescar uma ou outra referência jogada ao acaso). Nada disso diminui o entusiasmo de Hardy, que carrega o filme nas costas com uma performance diferente de tudo que ele já fez até hoje – e não é um trabalho ruim como no boboca Guerra É Guerra!, já que aqui ele genuinamente experimenta um tom e um estilo diferentes, misturando comédia física (em alguns momentos lembra Jim Carrey em O Mentiroso) com terror assumidamente trash, principalmente quando ele abraça O Médico e o Monstro e conversa com o monstro dentro de si. Venom, o simbionte, ganha por sua vez uma personalidade sarcástica, provocando Eddie com suas tendências canibalescas, ao mesmo tempo em que aprende que, na Terra, ele pode ser um herói.

Venom enfrenta Riot em um confuso quebra-pau digital

Nada disso, entretanto, faz de Venom um bom filme – nem de longe. Mas, só para comparar com outras adaptações de gibis, não é um desastre como Mulher-Gato, nem intragável como Qu4rteto Fantástico. Fleischer criou um produto bizarro e curioso, que não deveria ser tão cômico ou embolorado, mas que nunca é enfadonho – mesmo que pelos motivos errados. É como um acidente em descida de serra, quando o trânsito fica insuportável porque todos os carros diminuem a marcha, curiosos para ver o estrago, que logo se torna uma lembrança bizarra no retrovisor. Uma coisa, porém, é certa: é muito, mas muito difícil fazer Venom funcionar sem sua conexão com o Homem-Aranha. O antagonismo com o herói definia seus poderes, sua obsessão e sua personalidade, e sem o Cabeça de Teia ele é só mais um bruto anacrônico em um mundo de super-heróis muito mais interessantes. Mas acompanhar a jornada de Tom Hardy ainda é melhor do que ver Topher Grace enfiado a marretadas em Homem-Aranha 3.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.