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Blog do Sadovski

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O que está faltando para o Sandman de Neil Gaiman virar série?

Roberto Sadovski

05/10/2018 03h02

Neil Gaiman adoraria a coincidência. Alguns dias atrás o autor britânico firmou uma parceria com a Amazon para criar séries originais e adaptações de sua obra. A primeira a sair do forno será Good Omens, ou Belas Maldições no Brasil, baseada no livro escrito por ele e Terry Pratchett em 1990. A obra é puro Gaiman, com anjos e demônios tentando impedir o fim do mundo. Ao mesmo tempo, American Gods prepara sua segunda temporada, entregando mais uma fatia de fantasia gótica com a assinatura do autor. Eu falo em "coincidência" porque, no momento em que li a notícia, estava terminando de reler Sandman, a série em quadrinhos que, no começo dos anos 90, colocou seu nome no mapa. O entusiasmo por Good Omens logo foi transformado em fúria, por um motivo bem simples: por que diabos Sandman ainda não pulou a cerca para se tornar a série mais premiada do novo século?

Antes de mais nada, é bom tirar isso da frente: Sandman é, de longe, a obra mais sensacional de Neil Gaiman. Em apenas 75 edições, publicadas originalmente pela DC entre janeiro de 1989 e março de 1996, o escritor criou um universo inteiro, usando como ponto de partida Morfeu, o Sonho dos Perpétuos, um dos sete irmãos imortais que definem aspectos da vida humana (os outros são Morte, Delírio, Destruição, Destino, Desespero e Desejo). Recém-contratado pela editora, ele tinha como missão usar o nome Sandman, que batizou tanto um herói pulp do final dos anos 30 como um super-herói criado nos anos 70 por Joe Simon e Jack Kirby (pais do Capitão América). Usando como tabuleiro o universo dos heróis da editora, Gaiman começou do zero, incorporando alguns elementos de todas suas encarnações, amarrando tudo com uma dose gigantesca de fantasia, mitologia, religião, folclore e terror.

Ian McShane em American Gods, série baseada na obra de Neil Gaiman

O sucesso foi estrondoso – e duradouro. Apesar de sua vida curta, Sandman foi relançado em outros formatos pela DC (dentro do selo Vertigo), inspirou uma dúzia de outras séries – Lúcifer, spin off centrado em um dos lordes do Inferno, foi a base para a série de TV – e está no pódio das grandes histórias em quadrinhos de todos os tempos, ao lado de Maus, Watchmen e Batman – O Cavaleiro das Trevas. Ainda assim, é uma criação hermética e totalmente dependente de Gaiman. Apesar de pertencer à DC/Vertigo, a editora nunca seguiu em frente com nenhuma série deste universo sem consultar seu criador. Quando Tim Burton lançou seu Batman em 1989, e histórias em quadrinhos viveram um momento de euforia para ser traduzidas para o cinema, Sandman estava no topo da lista. Mas nunca saiu da gaveta, mesmo anunciado com equipes criativas diferentes uma dúzia de vezes ao longo das últimas décadas. Na Comic-Con de San Diego em 2007, bati um longo papo com Gaiman sobre o filme, e ele revelou que o roteiro parecia uma produção de ação classe Z, com Morfeu combatendo um de seus antagonistas no braço e gritando coisas como "humanos estúpidos" no meio do caminho. Recentemente, Joseph Gordon-Levitt flertou com a possibilidade de produzir e protagonizar Sandman, mas a coisa ficou inerte em 2016.

Agora estamos nós, em pleno 2018, com Neil Gaiman anunciando uma parceria que pode levar suas criações para o streaming – que talvez fosse a melhor plataforma para adaptar a saga do Mestre dos Sonhos com propriedade e respeito. Dar vida a mundos fantásticos do papel, o que já foi o grande entrave para qualquer versão de gibis para mídias live action, virou coisa do passado com o novo posicionamento da cultura pop moderna. Game of Thrones mostrou como é possível pensar em grande escala, mesmo fora do cinema – e a série baseada na obra de George R.R. Martin foi o gatilho para uma verdadeira febre do gênero na TV (e em streaming), que já viu outras adaptações de quadrinhos voltados para um público mais maduro (Powers, Preacher, The Walking Dead) refeitas com gente de verdade.

Morfeu encontra sua irmã, a Morte

O momento, na verdade, não poderia ser melhor. A começar pelo background de Gaiman, que tem seu nome como marca fora dos quadrinhos e da literatura graças a American Gods e, agora, a Good Omens. As Crônicas de Nárnia, de C.S. Lewis, vai ganhar um reboot na forma de série e filmes planejados para a Netflix. Wheel of Time, coleção de romances de fantasia de Robert Jordan, está sendo desenvolvido como série na Amazon – que também abriu a carteira para reimaginar o mundo de O Senhor dos Anéis. Sandman seria a joia da coroa, trazendo o pedigree fantástico, a escala épica e o gancho de "adaptação de HQs". O pacote completo.

Ainda assim, silêncio. Eric Heisserer, roteirista indicado ao Oscar por A Chegada, foi trazido à bordo depois da partida de Gordon-Levitt, entregou uma primeira versão do script, e não se falou mais no projeto. James Mangold (Logan) chegou a desenvolver uma proposta para Sandman se tornar uma série pela HBO, com o próprio Gaiman como consultor criativo, versão que também não seguiu o seu caminho. O único registro fora dos gibis é um fan film de meia hora baseado na história da sexta edição da série, 24 Hour Diner, considerada uma das HQs mais perturbadoras e violentas dos anos 80 (coloquei o teaser lá embaixo como aperitivo) Talvez a demora seja benéfica. Dificilmente uma obra como a saga de Morfeu, hoje, seria diluída em uma série ligeira. Game of Thrones ensinou lições preciosas que produtores e executivos estão seguindo à risca. A regra é uma só: não precisa ser literal, mas tenha respeito pelo material original. Sandman é um material riquíssimo, estranho, emocionante, violento, contemplativo e absolutamente espetacular. Se for pra sair das páginas dos quadrinhos de forma capenga, é melhor ficar por lá, sendo apreciado até o dia em que Destino fechar seu livro e entregar-se aos braços de sua irmã mais velha. Ouvindo o som de poderosas asas…

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.