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Blog do Sadovski

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Novelão, Bohemian Rhapsody traz grandeza em Rami Malek e no legado do Queen

Roberto Sadovski

31/10/2018 04h32

É um trabalho sujo, mas alguém tem de fazê-lo. Bohemian Rhapsody, cinebiografia de Freddie Mercury, a voz do Queen, é um pastel de vento. O exterior é uma beleza, dourado e sedutor. Mas o interior oco é revelado logo na primeira mordida. Ainda assim, e é bom ressaltar, é um pastel delicioso! Quando funciona, parece refeição gourmet. Todo o aplauso tem dono: Rami Malek, ator americano de 37 anos, que interpreta Mercury com uma mistura de fúria, delicadeza, androginia e aquele star quality que o faz ir além da reprodução dos trejeitos do cantor, mas também encontrar nele algum paralelo e usar essa conexão em uma performance irretocável. No palco, em sua vida, no triunfo e na tragédia, Malek confere a Bohemian Rhapsody a catarse que uma obra embalada pelo Queen merece.

O problema de Bohemian Rhapsody é de ponto de vista. Toda a produção foi alavancada com a contribuição de Brian May e Roger Taylor, membros originais da banda Smile, convertida em Queen com a entrada de Mercury no começo dos anos 70. Com o poder de apitar nos rumos do roteiro, a dupla obviamente entregou seu ponto de vista dos acontecimentos mais dramáticos da trajetória da banda, em especial seu afastamento antes da reunião para o emblemático show LiveAid, e a revelação de Freddie que havia sido contaminado com o vírus da AIDS, que dá um peso dramático deslocado a um momento já naturalmente emocionante. Cinebiografias, claro, não são um documentário, e fatos podem ter sua ordem e momentos cronológicos alterados, episódios reais ganham novas nuances, tudo em nome da dramatização e da fluidez do roteiro.

Rami Malek e Lucy Boynton como Mary Austen, o grande amor de Freddie

Assim, May, Taylor e Deacon (que nunca quis nenhuma ligação com as "reuniões" do grupo após a morte de sua voz, e não teve participação no desenvolvimento de Bohemian Rhapsody) são retratados como artistas ajuizados, homens de família léguas de distância do "estilo rock and roll". Freddie, por outro lado, é a divindade dionísica que mergulha em uma espiral de encontros fortuitos e festas nababescas como se não houvesse amanhã. Os relatos são duvidosos e a condução é pesada. E nunca, nem em um milhão de anos, cenas como Freddie em um corredor, como um aluno do primário de castigo, esperando seu destino na banda ser decidido pelos colegas, seriam recebidas pelo próprio Mercury com nada além de uma gargalhada. Sem falar que, mesmo com o talento irrefutável de cada músico do Queen, é inegável reconhecer em seu vocalista o ponto fora da curva, a figura excêntrica que destacou a banda ante tantas. Ainda assim, somos brindados não com uma, mas com duas cenas em que Freddie entra no estúdio para encontrar um dos companheiros dedilhando um novo riff ou martelando uma nova ideia, finalizando com um "Isso é incrível!". Não precisavam massagear o ego assim, rapazes.

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O filme se sai muito melhor ao retratar o relacionamento apaixonado e extremamente complexo de Freddie com Mary Austen (Lucy Boynton), sua alma gêmea e amor da sua vida, com quem primeiro viveu um romance de longos seis anos, e que se tornou sua companheira e melhor amiga quando ele revelou sua sexualidade. A orientação sexual do astro, por sinal, é conduzida de maneira delicada, com Malek entregando o equilíbrio mais que perfeito entre confusão e desejo quando sua preferência começa a aflorar – e o fuzuê que a mídia sempre fez em torno dele, uma das figuras mais conhecidas da Inglaterra, que não só nunca assumiu sua sexualidade em público, mas que fez questão de manter sua vida pessoal como tesouro inexpugnável. A belíssima conexão entre Malek e Boynton faz com que Bohemian Rhapsody atravesse impune alguns de seus momentos de novelão desavergonhado.

O Queen na reprodução impressionante do LiveAid

Bryan Singer assina a direção mesmo tendo abandonado a produção pouco antes de seu término – Dexter Fletcher completou as filmagens e tem crédito de produtor executivo. É difícil dizer se a mudança prejudicou a visão original de Singer, mesmo que o projeto já circulasse em Hollywood em alguns anos. O filme é uma homenagem honesta, ainda que rasa, de um dos grupos mais representativos da música contemporânea. O Queen, por outro lado, nunca foi careta, transcendendo o rock já em sua formação, sempre demonstrando vontade de experimentar e ir além das fronteiras de uma fórmula. Uma das cenas mais divertidas do filme é justamente quando eles tentam convencer Ray Foster, executivo da EMI, a gravar o clássico absoluto A Night at the Opera, com a própria "Bohemian Rhapsody" como primeiro single e carro-chefe. "Essa música é muito longa e jamais vai embalar jovens dirigindo seus carros", diz Foster, interpretado aqui por Mike Myers – justamente quem reapresentou a música para uma nova geração, em coro com sua turma em um carro, na comédia Quanto Mais Idiota Melhor.

Rami Malek é um gigante, o filme é apenas ok, mas a música…. Ah, a música! Mesmo com o melodrama que permeia o filme de ponta a ponta, Bohemian Rhapsody decola como um foguete sempre que o Queen sobe no palco, o que acontece em porções generosas. Sua música é atemporal, rica, eclética e sempre empolgante, e esse sentimento é traduzido à perfeição quando Malek e seus companheiros reproduzem grandes momentos do Queen, seja em início de carreira, seja durante sua consagração, seja até pela tela da TV, quando Freddie, emocionado, mostra a Mary o oceano de pessoas o acompanhando em "Love of my Life" em sua apresentação no Rock in Rio. Quando chega o clímax, a histórica performance no LiveAid, já é covardia, impossível não sentir o pulso, a catarse e a energia do quarteto que fez, em 20 minutos e para mais de 1 bilhão de pessoas, o melhor show de rock da história. Traduzir esse momento em filme é um dos achados mais geniais de Bohemian Rhapsody – que, apesar de todo o papo de crítico, conecta-se com o público de maneira inacreditável. Ao fim da pré-estreia que acompanhei, o público aplaudiu três – três!!! – vezes em pé, o que eu nunca havia visto antes. É possível argumentar uma construção narrativa torta. Mas é impossível não ceder diante do poder da música.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.