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Blog do Sadovski

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Stan Lee: Morre o homem, nasce a lenda!

Roberto Sadovski

12/11/2018 19h08

"Você quer conhecer o Stan?" E lá estava eu em minha primeira Comic Con em San Diego, em 2006, nos bastidores das entrevistas para promover Homem-Aranha 3, papeando com o produtor Avi Arad. Stan Lee havia acabado de entrar na sala, e a atmosfera já era diferente, como se um astro do rock estivesse dando autógrafos. Avi me levou até Stan, as pernas tremeram, a voz engasgou, e eu soltei um "Obrigado por ajudar a fazer de mim a pessoa que sou hoje". Ou algo assim. Stan sorriu, aquele sorriso franco que se tornou uma de suas marcas registradas. Apertamos as mãos e eu saí, feliz por ter conhecido um de meus poucos ídolos. Hoje Stan Lee se foi, e o mundo é um lugar mais triste por causa disso.

Porque milhões de pessoas no mundo certamente lapidaram sua bússola moral em parte ao ler os heróis, super ou não, que brotaram da imaginação de Stan Lee. Apesar dos tons de cinza, que humanizaram suas criações, seus personagens sempre tiveram uma linha firme entre o bem e o mal. Como qualquer artista excepcional, Stan prestava atenção nas entrelinhas. Claro, seus heróis eram coloridos e empolgantes, como o Homem-Aranha, o Hulk, o Homem de Ferro e os X-Men. Mas sua força estava na conexão emocional estabelecida com seus leitores, que acontecia quando os personagens se mostravam mais humanos, com rachaduras em sua suposta perfeição. Ao contrário da concorrência, que tinha em seus super-heróis arquétipos divinos, Stan contava histórias de gente de verdade, com problemas de verdade, que calhavam de ter super poderes.

Lee nos anos 70, garoto-propaganda da Marvel

Nos anos de formação da Marvel, o que tomou boa parte dos anos 60, foi Stan Lee quem mostrou ter poderes de verdade. Sua versatilidade criativa deu ao mundo dúzias de personagens icônicos, em especial nas parcerias com Jack Kirby e Steve Ditko, tão responsáveis quanto ele pela criação e execução dos títulos da editora. Mas seu verdadeiro legado não foi apenas ajudar a criar uma mitologia moderna, hoje perpetuada de forma bombástica no cinema, e sim dar um rosto e uma voz a uma forma de arte até então relegada como entretenimento infantil. Se hoje as histórias em quadrinhos ganharam seu lugar na cultura pop ao lado do cinema e da TV, o responsável é Stan Lee. Super-heróis, afinal, já existiam desde 1938, quando Jerry Siegel e Joe Shuster criaram o Superman. Mas foi Lee, no papel de editor-chefe da Marvel, quem tomou os holofotes para popularizar suas criações – tornando-se, com o tempo, um ícone pop tão poderoso quanto os super-heróis que ele colocou no papel.

Essa atitude ousada e expansiva por anos não pegou bem entre parte de seus colegas criadores. Muitos acreditavam que Stan buscava a fama, e que a parte pesada do trabalho – sentar o dedo para escrever as revistas da Marvel – estava nas mãos de outros artistas. É uma ideia desonesta, popularizada pelo volume intenso de texto assinado por ele. A verdade é que Stan abraçou o "método Marvel", em que o roteirista bolava as linhas gerais da trama de cada gibi, e seu desenvolvimento ficava na mão dos artistas, voltando a ele para finalizar o diálogo. Com colaboradores do quilate de Wally Wood e John Romita – além de Kirby e Ditko -, era natural que Lee se sentisse seguro para tocar a Marvel não só nos bastidores, mas também como seu principal garoto-propaganda. Não que ele de fato não gostasse de seu lugar no pedestal, mas esse "poder" foi usado para dar voz a todo mundo que fazia parte do processo criativo. Como editor, Stan Lee passou a creditar todos os artistas envolvidos na execução de uma HQ, do arte-finalista ao colorista ao letrista, explicitando a criação coletiva e o clima colaborativo na Marvel.

Herói entre heróis nas filmagens de Os Vingadores

Nos anos 70, Lee assumiu o cargo de publisher da Marvel, o que o afastou ainda mais da rotina de criação das histórias em quadrinhos. Sua missão passou a ser expandir a marca Marvel – e, claro, suas criações – em outras mídias. Ele estava lá quando os super-heróis da empresa ganharam séries animadas (ou "desanimadas") ainda na década anterior, e não se furtou de emprestar sua persona pública para alavancar as séries de TV de seus ícones, como Homem-Aranha e o Hulk – absorver parte da fama fazia parte do processo. As mudanças no mercado e as responsabilidades além dos gibis finalmente o fizeram abdicar de sua posição editorial – mesmo que seu papel como garoto-propaganda tenha se expandido mais e mais. A verdade é que, como escritor, Lee jamais conseguiu repetir a explosão criativa dos anos de formação da Marvel, e nenhuma de suas HQs nas décadas seguintes causou o mesmo impacto. Mesmo quando ele brevemente escreveu para a concorrente, em uma série com ícones como Superman e Batman reinventados pelo lendário criador, o resultado não foi muito além de medíocre.

Apesar de toda a polêmica, levantada em parte por seu carisma inegável, o que relegou muitos de seus parceiros a uma posição de coadjuvante, Stan Lee definiu o que seria o super-herói moderno – e, por tabela, o cinema moderno. Não existe outro artista americano de histórias em quadrinhos tão reconhecível como ele, inclusive para as novíssimas gerações, que aprenderam a procurar sua figura inimitável em pontas sempre divertidas nos filmes da Marvel, em que ele invariavelmente brincava com a própria imagem. Seu fim pode ter sido melancólico, cercado de pessoas dispostas a sugar sua fortuna e sua influência. Mas Stan Lee agora é tão imortal quanto suas criações: um super-herói da vida real que dedicou a vida a popularizar a forma de arte que se tornou sinônimo com seu próprio nome. Em quase um século, ele foi muitas coisas – e foi chamado de muitas outras coisas -, e finalmente pode abraçar o mais preciso de todos os predicados: uma lenda.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.