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Épico e totalmente psicodélico, Aquaman é o melhor filme da nova era da DC

Roberto Sadovski

11/12/2018 17h33

É maldade dizer que Aquaman é "o melhor filme da Marvel que a DC já fez". Não tem nada a ver. Nem de longe. O mais adequado, se for pra manter a comparação, seria dizer que é o melhor filme do He-Man que o cinema já fez! Sem exagero. James Wan criou uma aventura totalmente absurda, colorida ao extremo e visualmente diferente de tudo que o cinemão "de super-heróis" já fez até hoje. Mais ainda: assim como o mundo dos Mestres do Universo, Aquaman existe em uma fantasia que mistura magia e tecnologia, reinos encantados e objetos mágicos, armas de destruição em massa e armaduras de combate. É um filme fascinante, esquisito até a medula e muito, mas muito divertido.

A inspiração clara de James Wan, responsável pelos dois Invocação do Mal e por um Velozes & Furiosos, passa longe da mistura que compõe as produções da concorrência. Aquaman deve muito mais a filmes de fantasia dos anos 70/80, que mistura jornadas épicas, monstros abissais e o destino do mundo nas mãos de um herói relutante (ok, esse é o único aspecto que espelha a produção da Marvel). É impossível não pensar em clássicos modernos como Simbad e o Olho do Tigre, com suas locações exóticas em um mundo de magia. É impossível não enxergar ecos de Fúria de Titãs (o original) e de O Dragão e o Feiticeiro. É impossível não pensar que o protagonista poderia muito bem ser Adam/He-Man, e Atlântida um avatar para Etérnia. Tudo isso embalado numa produção milionária, complexa e bem amarrada.

Nicole Kidman é a cara da realeza

Existe uma única menção aos eventos de Liga da Justiça, sugerindo que o mundo já testemunhou a força do Aquaman. Tirando um "você derrotou o Lobo da Estepe", porém, o novo filme não se preocupa nem um pouco em criar conexões com o já defunto Universo Estendido DC. Tanto melhor. A ausência de obrigação em fazer parte de "algo maior" livrou James Wan da obrigação de pensar em seu trabalho em comitê, e o resultado prova que criar aventuras isoladas é o melhor caminho para os heróis da editora no cinema. Afinal, seria complicado pensar que, com a escala da ameaça colocada no tabuleiro de Aquaman, os companheiros do herói ficassem de fora da jogada. Sem falar que o clima sombrio, uma constante em Homem de Aço, Batman vs Superman e Liga da Justiça, é substituído por leveza, o que em nenhum momento compromete a intensidade do projeto.

Aquaman é completo ao reapresentar o herói, começando com o romance inusitado entre seu pai (Temuera Morrisson), um faroleiro, e sua mãe (Nicole Kidman) , a rainha da Atlântida. Seu nascimento prova o sucesso da união entre o mundo da superfície e o do oceano, mas fica claro que as tradições atlantes não aceitam um mestiço. A rainha volta a seu reino, e o pequeno Arthur Curry cresce ciente de sua herança, mas sem a menor disposição de clamar sua coroa por direito. Essa perspectiva muda quando seu meio-irmão, Orm (Patrick Wilson), coloca em prática seu plano de unir os Sete Reinos submarinos, assumir o título Mestre do Oceano e atacar o mundo da superfície com força total. Arthur é, então, obrigado a agir, contando com a ajuda de Mera (Amber Heard), princesa de um dos reinos, com poderes de controlar a forma da água, e de Vulko (Willem Dafoe), conselheiro do rei que treinou Arthur para que, um dia, ele tomasse seu lugar de direito.

Orm (Patrick Wilson) não abre mão do trono

O que se segue é uma jornada em busca de um tridente místico, que só pode ser empunhado pelo verdadeiro rei, pincelada por cenas de ação gigantescas e originais. James Wan e seu time criaram um filme grandioso, mas que nunca perde seu foco nas passagens mais aceleradas. Ao contrário do que fez Zack Snyder, arquiteto original da DC no cinema, Wan é claro em suas cenas de ação, e a profusão de elementos nunca deixa a ação confusa. Seja em batalhas de exércitos submarinos ao melhor estilo O Senhor dos Anéis, seja em combates mano-a-mano, com a câmera movendo-se de formas impossíveis – o que deixa a luta de Aquaman contra o perigoso Arraia Negra, por exemplo, mais sufocante e igualmente empolgante.

Tudo seria em vão, claro, sem o charme e o carisma absoluto de Jason Momoa no papel principal. Desde o primeiro segundo em cena ele comanda seu protagonista com facilidade, transmitindo não apenas a jornada de um pária, mas também sua ascensão à realeza. É ele quem faz de Aquaman um filme mais emocionante, vendendo o herói relutante, arrogante e prepotente, que precisa evoluir ao longo do caminho. Esqueça, portanto, todas as encarnações do herdeiro da Atlântida nos quadrinhos, esqueça o quanto o personagem chega perto de ser uma piada (sim, ele conversa com os peixes). Com escopo épico, mas sem nunca esquecer o foco da história, Aquaman é uma surpresa, e é também o melhor filme que a DC produziu nessa fase iniciada com Homem de Aço.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.