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Roma: Por que quase ninguém vai ver um dos melhores filmes do ano no cinema

Roberto Sadovski

14/12/2018 03h59

Roma, obra-prima autobiográfica de Alfonso Cuarón, é uma experiência cinematográfica arrebatadora. Rodado em 70mm, conta com uma fotografia em preto e branco surreal e imersiva e reconstrói parte das memórias do diretor com apuro técnico impecável em um roteiro que abre mão de regras narrativas para simplesmente acompanhar, em recortes do cotidiano, a vida de sua protagonista – enquanto o mundo a seu redor sofre transformações profundas. É o tipo de filme, de cinema, que precisa ser apreciado na maior tela possível, com o melhor som, sem distrações, sem interrupções. No Brasil, isso só será possível entre hoje e 26 de dezembro, em sessões especiais em duas salas, uma em São Paulo, outra no Rio de Janeiro, com convites virtuais distribuídos para quem se cadastrar em um site específico. Boa sorte em conseguir um assento. Para a imensa maioria dos cinéfilos do país, porém, Roma está a um clique de distância, disponível a partir de hoje pela Netflix. Bem-vindo ao futuro do cinema.

O lançamento de um filme como Roma, financiado pelo gigante do streaming, é um paradoxo que se tornou uma polêmica. Ela passa pelas declarações de Ted Sarandos, diretor de conteúdo da Netflix, que retirou-se do Festival de Cannes este ano após uma mudança de regras que exigia a exibição em cinemas franceses de toda produção em competição. Na terra de Emmanuel Macron, porém, a janela entre exibição em circuito e liberação para streaming é de 36 meses – e isso é inadmissível para a Netflix, que busca democratizar o cinema ao lançar o mesmo conteúdo em todos os países que possuam a plataforma, simultaneamente. Outros festivais seguiram o exemplo de Cannes, comprando a briga de redes de exibidores – o grande problema para os donos de cinema é o serviço de streaming usar do prestígio de festivais para vender seus produtos e, depois, deixar as salas de cinema às moscas.

Alfonso Cuarón dirige sua estrela, Yalitza Aparicio

Roma é um ponto de virada que pode redesenhar as regras do jogo. A Netflix já bancou filmes com Brad Pitt (War Machine) e Will Smith (Bright), além de se tornar a nova casa de Adam Sandler. A empresa hoje tem poder de fogo para tirar da gaveta projetos que jamais veriam um centavo dos grandes estúdios – Frank Marshall, que produziu a restauração e finalização de O Outro Lado do Vento, de Orson Welles, viu as majors lhe virar as costas por anos até que a Netflix assumiu a conta. Muitos cineastas, entretanto, ainda torcem o nariz para a plataforma por sua visão do cinema como produto, como conteúdo, e não como arte: Cannes verbalizou o que muitos já pensavam, que cinema não existe para consumo como um pacote de fritas, e exige o lugar certo e a atmosfera certa para ser apreciado. A forma de a Netflix conquistar esse respeito seria a consagração com o Oscar, maior prêmio do cinema mundial. Quando financiou Roma, com certeza tinha essa visão, que chegou mais perto de se concretizar quando o filme ganhou o Leão de Ouro no Festival de Veneza e encabeçou várias listas de melhores do ano, inclusive a dos críticos de Los Angeles, Nova York e Chicago. Mas o Oscar tem regras, e uma delas é a exibição em circuito comercial. E aí a coisa começou a complicar.

O motivo é que a Netflix não abre mão de sua prerrogativa em promover lançamento simultâneo de suas produções, mesmo que isso signifique sacrificar números em bilheterias – dois de seus filmes que entraram na corrida do Oscar, Beasts of No Nation e Mudbound, tiveram resultados pífios nos cinemas. Para Roma, eles tiveram de dobrar suas próprias regras e ampliar a janela de exibição. O filme de Cuarón chegou aos cinemas americanos em 21 de novembro, depois de ser exibido em um sem número de festivais, três semanas antes de ser disponibilizado na plataforma. Foi uma jogada sem precedentes, ainda que tímida: as grandes redes americanas, como AMC e Cinemark, deram de ombros para o filme, que terminou confinado no circuito independente. Não que faça diferença para a Netflix, que geralmente "compra" todas as sessões e, a exemplo do que acontece com a medição de sua audiência, não divulga as bilheterias de seus filmes no cinema.

Tem cabimento não ver uma cena assim na tela do cinema?

Cuarón, claro, foi extremamente político e manteve-se alheio a toda essa consternação, limitando-se a dizer que o importante é que as pessoas vejam seu filme. Mas, francamente, um épico em glorioso preto e branco, rodado em 70 mm, não é o tipo de cinema para ser visto em casa, não importa o tamanho de seu equipamento. Além do que todo o argumento da direção de Cannes faz todo o sentido: Roma é uma obra para ser compartilhada, experimentada em uma catarse coletiva, trazendo o tipo de sentimento e de experiência que não pode ser reproduzida fora de um cinema. O que é irônico, levando-se em conta o escopo intimista da história, herdeira direta do neorrealismo italiano e do cinema naturalista dos anos 60 e 70. A trama acompanha Cleo (a sublime Yalitza Aparicio, em seu primeiro papel), nativa mexicana que, no começo dos anos 70, trabalha em uma casa de classe média alta para uma família que, como o próprio país, aos poucos se deteriora. É por seu olhar que entramos na rotina de estranhos para descobrir uma realidade que tanto espelha a nossa própria – passando pela elite abastada aos cidadãos menos abastados contentes em servir, por mansões e fazendas opulentas aos rincões com estradas de terra e pobreza desconcertante. Por uma gravidez indesejada. Por revoltas estudantis traduzidas em violência e morte nas ruas da capital. Por dor. Perda. Esperança. E amor.

É um sentimento agridoce saber que uma obra tão poderosa e tão bela estará disponível em todo o mundo a partir de hoje, mas só alguns privilegiados poderão apreciá-la em seu lugar de direito. No Brasil, Roma fechou a edição mais recente da Mostra de Cinema de São Paulo, e ganha estes treze dias de bônus para quem conseguiu um ingresso (vale tentar, só clicar aqui). México, Toronto e Londres, entre outras metrópoles, também terão o filme nos cinemas, além de Nova York e Los Angeles. Com mais cineastas de prestígio optando por uma parceria com a Netflix, é certo que suas regras podem se flexibilizar ainda mais. Michael Bay está finalizando o thriller de ação 6 Underground, com Ryan Reynolds, na conta da plataforma. Martin Scorsese só conseguiu reunir Robert De Niro, Al Pacino, Joe Pesci e Harvey Keitel em The Irishman porque a Netflix bancou o orçamento de 130 milhões de dólares. Os estúdios Paramount e A24 fecharam acordos de parceria com a empresa. É um mundo novo, é a história do mercado do cinema sendo reescrita neste momento. Ironicamente, Roma vai ganhar lançamento digno de blockbuster na China, com previsão de estreia em mais de 1200 salas: a Netflix não conseguiu concessão estatal para operar no país.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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