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Blog do Sadovski

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Bird Box não tem muito a oferecer além do star power de Sandra Bullock

Roberto Sadovski

2027-12-20T18:21:28

27/12/2018 21h28

Assistindo a Bird Box, terror de ficção científica baseado no livro de Josh Malerman, eu lembrei de Memórias de um Homem Invisível. Nessa comédia de 1992, o diretor John Carpenter conta a história de um sujeito (Chevy Chase) que torna-se invisível. Carpenter, porém, escolhe mostrar o ator durante quase toda a trama, com o resto do elenco "fingindo" que ele não estava lá, usando efeitos que mostram a tal invisibilidade em uma cena aqui, outra acolá. É tosco, e é também prova que até os gênios erram. Bird Box acompanha Sandra Bullock num futuro em que criaturas nunca vistas (alienígenas?) fazem com que os humanos que as enxergam cometam suicídio. Os sobreviventes percebem que precisam manter os olhos vendados o tempo todo para evitar a própria morte. Existia, claro, potencial para a diretora Susanne Bier criar um híbrido de terror e ficção científica, fazendo com que a perda da visão tivesse impacto nos sentidos do público do lado de cá. Ela optou, entretanto, por um caminho genérico, em que os personagens estão vendados, mas a gente enxerga tudo que está acontecendo. Suspense zero.

É compreensível, até demais, o apelo que a premissa teve em seu elenco. O desafio de atuar com os olhos cobertos faz com que a expressão corporal seja diferente, o sentido de espaço idem. Ben Affleck, veja só, já falava sobre as dificuldades de perder a visão quando ele filmou Demolidor com lentes de contato que basicamente o cegavam. Além disso, Bird Box dá um passo além do desafio físico para mordiscar o impacto emocional de um mundo em que as pessoas precisam aprender a trabalhar juntas, sob o risco de morrer vitimado por seu próprio egoísmo. Quando a personagem de Sandra Bullock lida com seu próprio medo de se conectar a outras pessoas, inclusive a seu filho não nascido, a mistura sugere um trabalho saboroso e complexo. Pena que o filme encare esse aspecto apenas na intenção: na prática, é um dramalhão que carrega, sim, no suspense, mas que nunca cria uma conexão para que a gente se importe com quem vive ou quem morre. É um desperdício do talento de um elenco absurdo, que inclui, além de Sandra, o ótimo Trevante Rhodes (Moonlight) e Danielle Macdonald (revelação do incrível Patti Cake$), além de Jackie Weaver, John Malkovich e Sarah Paulson.

Sarah Paulson: ela enxerga

O maior problema é mesmo o tom inconsistente. Bird Box alterna presente e futuro, terror psicológico e aventura de sobrevivência. Bullock é uma pintora que descobre estar grávida de um encontro casual. Ela e sua irmã (Sarah Paulson) estão no hospital quando o mundo enlouquece: pessoas são expostas a criaturas de outro mundo (ou outra realidade, nunca fica claro) e imediatamente tem uma visão que as leva ao suicídio. Todo o primeiro ato acerta em cheio ao desenhar a ameaça e reunir um grupo de sobreviventes na casa do vizinho do advogado interpretado por John Malkovich. Descobrir a intenção das criaturas, e um modo de não sucumbir à sua influência, toma parte do roteiro desse início, que não raro termina em mortes violentas e a um estado de paranoia crescente (John Carpenter, ele mesmo, teria um prato cheio aqui). A ação, entretanto, alterna-se com um salto de cinco anos no futuro, quando Bullock, sozinha com duas crianças, está no meio de uma floresta e precisa descer um rio, inclusive um trecho turbulento, para chegar a um lugar supostamente seguro.

A atriz, por sinal, empresta seu star power ao filme e devora cada cena. Sua personagem lida com um passado atribulado nas mãos do pai distante, mas o roteiro nunca se dá ao trabalho de explicar os motivos de sua agressividade com as crianças – a quem ela chama de "garoto" e "garota", já que nomes criam laços, e isso a apavora mais do que a ameaça sobrenatural. Assim, cabe a Sandra carregar nosso interesse nos ombros: ela cria a conexão que alimenta as cenas mais tensas, ela desaba com seu conflito emocional, ela cria toda a atmosfera de fim de mundo sob a qual o filme constrói seu alicerce. Quando sua personagem não está em cena, Bird Box pisa no freio e a mão pesada da diretora joga a sutileza pela janela. Porque fica óbvio que não vai sobrar ninguém entre os sobreviventes isolados na casa, mas a jornada é o que interessa, e quando não damos a mínima para os personagens, fica difícil se importar com o rumo da trama. Bier prefere construir arquétipos tolos (o sujeito cético, a senhora que ainda acredita em salvação do mundo exterior, o casal de jovens que não vê a hora de se mandar, o personagem que tem como única função explicar a trama antes de ser defenestrado do filme) em vez de cultivar arcos dramáticos mínimos. Rhodes se dá melhor porque sua interação basicamente é com Sandra Bullock.

Trevante Rhodes: ele não

As intenções de Bird Box são nobres, em especial no mundo de hoje, em que empatia e solidariedade parecem ser predicados negativos. Um filme que traz uma protagonista lutando para se reconectar com as pessoas, sem medo de amar, ganha novos contornos quando ela é obrigada a perder a visão para "enxergar" um mundo ideal. Pode ser uma "mensagem" grosseira, mas ao menos é honesta. Só que ela se perde quando seu fio condutor mergulha no dramalhão sem sentido – cinco anos depois e ninguém aprendeu a se virar sem a visão? Os rombos da lógica proposta pelo próprio texto são ainda piores, como os loucos que não são afetados pelos visitantes, mas a explicação é "porque sim". Nas mãos de um cineasta mais focado, Bird Box tinha chance de ser algo realmente especial. Sandra Bullock faz o possível, e com ela o filme encontra seu brilho. Mas o impacto da cegueira auto imposta evapora-se quando seus criadores não aprendem a lição mais óbvia perdida por John Carpenter: nunca mostre seu homem invisível.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.