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Elenco inspiradíssimo é tudo que impede Green Book de cair no dramalhão

Roberto Sadovski

23/01/2019 05h02

É difícil pensar em Green Book sem contextualizar todas as questões, no filme e no mundo real, que a história levanta. A romantização das oito semanas em que o pianista Don Shirley passou na estrada com o motorista Tony Lip, em uma turnê pelo Sul ainda segregacionista dos Estados Unidos do começo dos anos 60, foi acusada de simplificar e açucarar uma história muito mais explosiva. A família de Shirley, mostrado como um músico solitário e distante dos parentes, reclamou de seu retrato no filme. Parte de Hollywood, que aos poucos aposta em diversidade mas ainda tem um longo caminho até alcançar esse equilíbrio, insurgiu-se em como uma história tão enraizada na cultura negra terminou dirigida por um branco.

O diretor Peter Farrelly, por fim, não fez seu Mississipi em Chamas – mas também não apostou na fofura de Conduzindo Miss Daisy. Seu Green Book termina em uma zona cinzenta entre os extremos: jamais sucumbe a nenhuma armadilha que o texto possa sugerir – a "redenção" de um homem branco, racista como produto de seu tempo, por meio da convivência com um artista negro, culto e sensível – por ancorar-se em atores que nunca deixam os problemas do filme atrapalhar a fluidez de sua história. Viggo Mortensen surge na frente, até porque o roteiro é construído em torno de seu personagem. Tony "Lip" Vallelonga é descendente de italianos, mora no Bronx desde sempre, e traz a doçura grosseira de um homem de família delicado com os punhos pesados de um leão de chácara que já trabalhou "em quase todos os clubes de Nova York". Ele é um grosseirão sem o menor tato, que joga fora os copos usados por dois encanadores negros que consertam sua cozinha porque é assim que as coisas são. Sem emprego quando o clube em que trabalha fecha para reformas, ele topa o trabalho de motorista para um músico em turnê pelo Sul do país.

Peter Farrelly no set de Green Book

Se o filme tinha músculos, a chegada de Mahershala Ali entrega seu coração. No papel do Doutor Don Shirley, pianista virtuoso que se apresenta para endinheirados da Park Avenue, e que tem como endereço o andar superior do prestigioso Carnegie Hall, o ator oscarizado por Moonlight desenha nuances em um personagem complexo e extremamente difícil. Educado fora do país, Shirley é músico clássico, desconhece artistas populares como Little Richard e Aretha Franklin – ou "sua gente", como Lip coloca – e traz, encoberto pelo exterior refinado de modos delicados, um homem em busca de sua própria identidade. Não existe necessidade, obviamente, em pegar a estrada pelos estados mais racistas do país – mas ele o faz porque precisa. E é na estrada que Green Book desenvolve sua trama, ora familiar, muitas vezes piegas, raramente sutil, mas que consegue falar sobre mudanças sociais reais com o equilíbrio de enfrentamento explosivo e dignidade passiva.

Até porque o "green book", ou livro verde, era um guia de viagens real, um mapa que traçava os locais pelo Sul racista onde negros poderiam frequentar (ou comer, ou hospedar-se) sem sofrer agressões. É um pedaço da história americana que mistura vergonha e necessidade, em que até um artista endinheirado e reconhecido como Don Shirley entendia as regras do jogo e tentava mudá-las por dentro, sem nunca erguer a voz ou os punhos. Sua convivência com um brucuto como Tony Lip serviu como revelação para ambos. A trama é inquietante e historicamente pesada, o que não impediu que Peter Farrelly, que construiu sua carreira em comédias como Debi & Lóide, Quem Vai Ficar com Mary? e Passe Livre, a conduzisse com leveza inesperada. O resultado é um filme feito para agradar, uma mensagem de redenção e tolerância que não deixa de martelar em seus tons raciais, mas o faz com uma pluma, e não com uma marreta. Entende-se, portanto, a polêmica levantada pela escolha de Farrelly e, na sequência, suas próprias escolhas ao dirigir essa história em particular. Nem todo filme, entretanto, precisa passar seu subtexto com piquetes e passeatas.

Don Shirley no único lugar onde ele se sentia completo

Mas é fato que Green Book evita ser um "dramalhão da semana" unicamente por conta de Mortensen e Ali. Poucas vezes dois atores se mostraram escolhas tão perfeitas, e demonstraram uma entrega tão completa. No caso de Viggo, isso se traduz em uma atuação desprovida de ego, em que as idiossincrasias da comunidade ítalo-americanas esbarram na caricatura mas terminam na construção de um personagem complexo, exposto pela primeira vez a um mundo com o qual ele não sabe lidar – e que, se necessário, lida com os próprios punhos. Descobrir seus próprios preconceitos, e lidar com eles de maneira orgânica, é a jornada que eleva o filme. E ela não seria completa se não fosse a serenidade e a dignidade conferida por Ali a Don Shirley, que vê no "carcamano" com quem precisa conviver por dois meses o espelho de tudo que ele não é e, pior, tudo que também precisava ser. É um papel difícil, que troca a explosão emocional pela contenção racional, dualidade que o ator transmite com um olhar furioso, com um grito entalado. É em seus protagonistas, ambos indicados ao Oscar, que Green Book encontra seu equilíbrio. O modo como reagir a isso depende unicamente de você.

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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