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O espetacular Nós transforma a busca pela identidade em puro terror

Roberto Sadovski

21/03/2019 06h35

Nós é sobre a América. E a América, sob a ótica de Jordan Peele, está doente. Em seu primeiro filme depois de uma estréia arrebatadora em Corra!, o diretor mais uma vez cria uma tapeçaria ampla e direta sobre o estados das coisas, usando um pequeno recorte para provar seu ponto. Poucos cineastas modernos conseguem transformar comentário social e drama familiar no mais puro terror. Enquanto Corra! usava o cinema de gênero para falar sobre racismo, inveja e apropriação cultural da forma mais extrema, Nós busca um leque ainda maior. Nessa alegoria sobre a busca pela identidade, sobre determinismo por nascimento ou por criação, Peele explora a dicotomia de uma pátria que vive de aparências, à espera de um gatilho para explodir. Não é explicitamente político, mas o subtexto é claro: somos monstros de nossa própria criação.

Esse olhar para nosso próprio reflexo distorcido é o centro de Nós. Assim como em Corra!, Peele nos conduz em um jogo de aparências escondido por trás de um véu de normalidade. Ele arquiteta uma trama de ponto de partida linear, para logo em seguida puxar o tapete da normalidade para repousar numa história cheia de simbolismos e metáforas. É um trabalho sofisticado e surpreendente, tão cerebral quanto instintivo, executado não só para disparar discussões assim que as luzes se acendem, mas também para garantir sessões repetidas. Acredite: é impossível imersão total nas ideias de Peele na primeira tacada, tamanho volume de detalhes e referências e sutilezas espalhadas ao longo do filme. Ainda assim, nada é colocado em detrimento da história, nada existe para disfarçar alguma deficiência narrativa: tudo em Nós é estilo e também substância.

Lupita Nyong'o enfrenta um mundo espelhado

O ponto de partida transcorre como um filme de terror, digamos, tradicional. É 1986 e a pequena Addy (Madison Curry) comemora seu aniversário no parque de diversões da praia de Santa Cruz, na Califórnia. Desconectados, seus pais não percebem quando ela se afasta, entrando numa casa assombrada, uma sala de espelhos onde ela encontra uma sósia. O trauma a acompanha já adulta, quando Addy (Lupita Nyong'o) está de férias com a família, a caminho da casa de veraneio da família na mesma praia. Em meio ao clima festivo, ela diz ao marido, Gabe (Winston Duke), que sente a presença da menina que encontrou na infância, e que a série de coincidências que ela tem experimentado lhe dá a sensação que essa suposta cópia, uma sombra que a perseguiu por toda a vida, parece estar mais e mais próxima. O temor é materializado quando uma família invade sua casa – uma família que parece uma cópia mal acabada deles próprios – exigindo reparação. "Quem são vocês?", pergunta Abby, que ouve a resposta de Red, seu reflexo, com uma voz que mal registra nos ouvidos: "Somos americanos".

É o começo de uma perseguição angustiante e violenta, envolvendo não só Addy e Gabe, mas também seus filhos, Zora e Jason (Shahadi Wright Joseph e Evan Alex)- cada um com seu próprio doppelganger, uma cópia que potencializa seu lado mais violento e sombrio. E é aqui que Nós se revela fruto de um cineasta criado com uma dieta maciça de terror e cultura pop contemporânea (a praia de Santa Cruz foi lar de um certo grupo de jovens vampiros nos anos 80), misturada a uma consciência política e social aguda e uma visão precisa dos dilemas do mundo contemporâneo. Peele deliberadamente usa de alguns clichês do gênero ao longo de sua narrativa – o casal amigo, rico e boçal usado como contraponto social (Elisabeth Moss e Tim Heidecker), o personagem que volta sozinho para a casa onde quase foi morto minutos antes – para criar um clima de familiaridade antes de chutar o balde e trilhar um caminho tão absurdo quanto fantástico. O diretor levanta conceitos determinantes para a sociedade americana – que todos "têm direitos", que todos "são merecedores" – e os pincela com características humanas anabolizadas, como materialismo, egoismo e inveja, caminhando para uma catarse que estreita as diferenças entre "nós" e "eles".

Lupita Nyong'o and Jordan Peele on the set of Us, written, produced and directed by Peele.

Jordan Peele dirige Lupita versão "toca do coelho"

Todo o conceito está equilibrado numa linha muito tênue entre terror urbano e realidade paralela, mas Peele nunca perde a rédea, principalmente por contar com um elenco fantástico que mantém a trama firme no chão. Lupita Nyong'o, neste cenário, surge como peça mais valiosa. A atriz entrega o que é de longe sua melhor performance, não só com uma assinatura física fortíssima, mas expressando também o caos, o pavor e a loucura em seu olhar. Assim como Toni Collette em Hereditário, Lupita é nosso avatar nessa jornada, é a fonte de todas as perguntas e o depositário de todas as respostas. É o contraponto perfeito do Gabe de Winston Duke, o paizão gente fina que só consegue perceber a realidade imediata, sem nenhum tom de cinza. "Podem ficar com o carro e com o barco, eu posso até levar vocês a um caixa eletrônico", insiste com a família de invasores, no modo mais "classe média" possível de lidar com uma situação extrema.

Entre as imagens icônicas (é possível criar tensão apenas com quatro pessoas na penumbra de mãos dadas) e uma certa verborragia, já no terceiro ato, para explicar a natureza das coisas, Nós mostra que Jordan Peele não é um talento passageiro, que podia estacionar depois da revelação que foi Corra!. Longe disso. Ele está disposto a reescrever as regras do cinema de gênero moderno, juntando-se a artistas como Ari Aster (Hereditário), Mike Flanagan (A Maldição da Residência Hill) e Robert Eggers (A Bruxa) para contar histórias que vão além de sustos fáceis, contos que exigem reflexão e que apegam-se em nossa alma por refletir, com uma boa dose de fantasia, o terror nada sutil da vida real. No caso de Nós, o espelho mostra que os agentes do apocalipse somos nós mesmos – um caminho talvez irrefreável porque somos testemunhas, conscientes e voluntárias, de uma jornada auto-destrutiva há muito em andamento. Ainda assim, dirão alguns, tudo não passa de fantasia…. Certo?

Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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