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Game of Thrones: final sóbrio e agridoce foi perfeito para série imperfeita

Roberto Sadovski

21/05/2019 01h48

O texto a seguir traz spoilers do final de Game of Thrones! Se você ainda não assistiu (e planeja, vai saber), melhor voltar depois…..

Game of Thrones terminou com um sussurro. A escolha dos showrunners David Benioff e D.B. Weiss ao abandonar pompa e fanfarra na conclusão do épico foi, por fim, a decisão mais adequada. Em oito temporadas, a disputa pelo Trono de Ferro da terra mítica de Westeros foi traduzida em uma das séries mais espetaculares que a TV já concebeu. O caminho nem sempre foi suave, e algumas decisões ao longo da jornada podem ter sido questionáveis. Em seu crepúsculo, entretanto, Game of Thrones manteve-se fiel à sua premissa original: abordar os bastidores da política em um lugar dominado por tradições, herdeiros, traição, sexo e violência, ferro e fogo. Se a conclusão deixou muita gente ressabiada, tanto melhor. Sempre que existe a opção em sair do óbvio e não se render à gritaria de fãs, que muitas vezes confundem decisões narrativas com suas próprias expectativas, pode ter certeza que este é o melhor caminho.

Não havia, observando à distância, outra maneira para fechar o ciclo iniciado em 2011, quando a série começou a adaptar as Crônicas de Gelo e Fogo do escritor George R.R. Martin. Em quase uma década no ar – e mesmo depois de ultrapassar a trama dos livros já publicados, seguindo caminho próprio -, Game of Thrones entregou espetáculo em grande escala e redefiniu o modo de produzir TV, abrindo espaço para séries fantásticas e narrativas intrincadas. Ao contrário de outras obras primas, como The Sopranos e Breaking Bad, cuja história circulava um único protagonista, a narrativa tecida por Benioff e Weiss muitas vezes deixou a pirotecnia como coadjuvante para criar dúzias de personagens que, a cada nova temporada, tinham destino incerto. Aos poucos, jogadores principais e secundários desenvolveram seus arcos dramáticos, fazendo com que a temporada final, em curtos seis episódios, tivesse o trabalho de amarrar todas as pontas. O último capítulo, "O Trono de Ferro", serviu como epílogo e também como recomeço, mostrando que histórias muitas vezes sobrevivem em ciclos.

A fúria dos dragões fez parte do DNA da série até seu final

É até compreensível, portanto, a decepção de parte dos fãs em relação ao destino de muitos personagens. Como Jaime (Nicolaj Coster-Waldau) e Cersi (Lena Heady) Lannister, irmãos e amantes que morrem, juntos, sem a catarse que seu desenvolvimento ao longo da série poderia sugerir. Ou o fim de Daenerys Targaryen (Emilia Clarke), Rainha dos Sete Reinos e Mãe de Dragões, libertadora que abraçou o papel de conquistadora em busca de uma paz erguida com o sangue de inocentes, morta justamente pelo homem que amava, Jon Snow (Kit Harington), quando este percebeu que a jornada de sua rainha não terminaria até a destruição absoluta de qualquer um que a ela se opusesse – inclusive ele. Essa decepção, honestamente, é descabida. Os personagens seguiram arcos dramáticos completos, e mudaram ao longo de toda a série, encontrando um encerramento agridoce, sóbrio, contrastando com a intensidade quase catártica que Game of Thrones abraçou tantas vezes.

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David Benioff e D.B Weiss mantiveram-se, por fim, fiéis à história que começaram a contar tanto anos atrás. Em sua primeira temporada, Game of Thrones foi basicamente um drama político emoldurado pelo gênero espada e feitiçaria. Os dragões, os mortos vivos, a ameaça sobrenatural (representada pelo Rei da Noite) e até as batalhas sangrentas e épicas vieram depois. Essa oitava temporada apressou-se em tirar da frente os elementos mais fantásticos para se concentrar mais uma vez em intrigas palacianas, no messianismo fanático que caracterizou a jornada de Daenerys e a transição do poder em Westeros para o diálogo e a negociação com o novo rei, Bran Stark (Isaac Hempstead Wright), e sua "mão", Tyrion Lannister (Peter Dinklage). Não houve, de forma alguma, ausência de espetáculo, com "A Longa Noite" e "Os Sinos" entregando o tipo de grandiosidade visceral que a série apresentou tão bem. Mas não é ao acaso que os episódios concentrados nos personagens e em seus dilemas, a calma antes da tempestade, foram mais satisfatórios.

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Por fim, chega a ser desonesto afirmar que Game of Thrones "traiu" alguns de seus jogadores: às vezes, o que percebemos como falhas estruturais e tropeços narrativos (que, acredite, não foram poucos ao longo de oito temporadas), na verdade é apenas a frustração quando a história não segue o caminho que não achamos mais adequado. "O fim não devia ser esse" é, por fim, só uma opinião. O legado de Game of Thrones é maior do que isso, e a série já garantiu seu lugar entre os maiores e melhores empreendimentos da TV do novo século, dominando o debate da cultura pop (nos últimos meses as conversas gravitaram aqui e em torno de Vingadores: Ultimato) e abrindo espaço para um tipo de televisão mais ousada, mais ambiciosa e, por fim, mais espetacular. Ocupar o lugar de Game of Thrones não será tarefa fácil. Criar um fenômeno, na verdade, nunca é.

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Sobre o autor

Roberto Sadovski é jornalista e crítico de cinema. Por mais de uma década, comandou a revista sobre cinema "SET". Colaborou com a revista inglesa "Empire", além das nacionais "Playboy", "GQ", "Monet", "VIP", "BillBoard", "Lola" e "Contigo". Também dirigiu a redação da revista "Sexy" e escreveu o eBook "Cem Filmes Para Ver e Rever... Sempre".

Sobre o blog

Cinema, entretenimento, cultura pop e bom humor dão o tom deste blog, que traz lançamentos, entrevistas e notícias sob um ponto de vista muito particular.

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